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terça-feira, 26 de novembro de 2024

Mário Cesariny - Lido e na sua Voz – Poeta e Pintor - Pai do surrealismo português - Deixou-nos há 18 anos, em, 2006 - Tive o prazer de ser seu amigo e de me ter proporcionado momentos de convívio e de diálogo inesquecíveis

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

Mário Cesariny de Vasconcelos, nasceu em Lisboa,  em 9 de Agosto de 1923 — Faleceu nesta mesma cidade, aos 83 anos, em 26 de Novembro de 2006  -Tendo-lhe dedicado este meu singelo  poema https://templosdosol-chas-fozcoa.blogspot.com/2008/11/os-poetas-nao-morrem-mario-cesariny-e.html
 Poeta e Pintor, considerado o principal representante do surrealismo português. Além do seu trabalho na área da antologista, de compilador e historiador.





Mário Cesariny – Diálogo mais real do que surrealista, 1991  - com a criada cabo-verdiana, da poetiza Natália Correia, em noite das marchas de Santo António, 

Tive oportunidade e o prazer de ser amigo de Mário Cesariny de Vasconcelos, de ter partilhado com ele variadíssimos e inesquecíveis momentos de agradável convívio, com um dos mais singulares poetas pintores e do surrealismo português - "Passados 17 anos, sobre a sua morte - "é uma voz que ainda ecoa" e o seu surrealismo uma revolta que ainda não perdeu o sentido” - Entre os amigos mais chegados, a sua presença continua tão forte quanto antes. Como naqueles tempos passados em redor de uma mesa de café a falar de literatura, de política, de arte, de tudo.

        Outro dos seus grandes amigos e confidente era o mestre Cruzeiro Seixas 



                        

O Carismático Poeta e Pintor admirava o meu espírito aventureiro e eu, desde que o conheci, passei também admirar a imagem e a voz de um rosto e de uma personalidade, verdadeiramente invulgar, de um grande poeta de corpo inteiro, frontal e direto sem a pretensão de humilhar ou de superiorizar, mas tão somente ser real e verdadeiro.

Gostava de ouvir as minhas narrativas das escaladas a prumo do Pico Cão Grande em São Tomé e as minhas travessias em frágeis pirogas nos mares do Golfo da Guiné. E também apreciava os meus apontamentos insólitos de reportagens e entrevistas na extinta RDP- Rádio Comercial – Um dia haveria de ser ele a substituir o repórter com a empregada de Natália Correia, deslindando segredos, de almoços e jantares, no lendário Botequim e em sua casa e outras revelações - Quem haveria de imaginar tão inesperado acaso!

Aprendi com ele esta elementar verdade : Sê o vosso fermento, a vossa inquietação e a vossa própria luxúria - Assumi até os vossos próprios fantasmas; sê íntegros e verdadeiros, tal como sóis. Se assim procederes, o apregoado diabo anticatólico ou anticristão, farisaico, não entrará em vós e não terá no vosso corpo e no vosso espírito, o vosso melhor aliado


Mário Cesariny de Vasconcelos, sem dúvida, uma das mais singulares e surpreendentes figuras do surrealismo português, tanto na poesia como na pintura, tive o prazer de ser seu amigo, de ter partilhado com ele varridíssimos e inesquecíveis momentos de agradável convívio.

Sim, o carismático artista, admirava muito os meus trabalhos de reportagens e entrevistas na extinta RDP- Rádio Comercial, nas mais diversas circunstâncias: - Desde as obtidas no interior das prisões, nas ruas da cidade e em casa das mais diversas personalidades
Quando me encontrava, nas suas e também minhas deambulações noturnas, aí vinha a pergunta sacramental: Ó Jorge! Tens aí a maquineta? (o gravador) – Claro que era o meu indispensável instrumento de trabalho que trazia sempre no meu saco, fosse para onde fosse .


E, não tardou a dar o seU contributo: começando por falar com uma das mulheres, que nos ladeavam, sobre o casamento. e, pouco depois, veja-se também a curiosa coincidência!... – Ao nosso lado, a escassos metros, quem haveria de estar?... Uma cabo-verdiana em acalorada discussão, sobre o festivo ambiente das marchas - E quem era essa mulher? - A empregada de Natália Correia, no lendário Botequim, com a qual haveria de travar um diálogo, a bem dizer, verdadeiramente surreal, deslindando segredos de almoços e jantares, naquele mais famoso espaço de tertúlia da capital, além de outros episódios da vida pessoal de quem, no seu dia a dia, tinha de enfrentar extremas dificuldades de sobrevivência, habitando tugúrios onde as ratazanas roíam as mãozinhas e as orelhas das criancinhas



Mário Cesariny de Vasconcelos, nasceu em Lisboa, a 9 de Agosto de 1923 — faleceu nesta mesma cidade, no dia 26 de Novembro de 2006 - Poeta e pintor, considerado o principal representante do surrealismo português, além de antologista, compilador e historiador (polémico) das atividades surrealistas em Portugal. "Passados 11 anos, sobre a sua morte - "é uma voz que ainda ecoa" e o seu surrealismo uma revolta que ainda não perdeu o sentido” – Entre os amigos mais chegados, a sua presença continua tão forte quanto antes. Como naqueles tempos passados em redor de uma mesa de café a falar de literatura, de política, de arte, de tudo

NO DIA EM QUE O POETA ERGUEU UM CARTAZ DE PROTESTO - À extinção do Cineteatro-Éden, que iria dar lugar a um Hotel


 Mário Cesariny, foi, sem dúvida, uma das mais singulares e surpreendentes figuras do surrealismo português, tanto na poesia como na pintura, Tive o prazer de ser seu amigo, de ter partilhado com ele varridíssimos e inesquecíveis momentos de agradável convívio.


No dia em que ele não quis  embandeirar com “A Necrofilia do poder” que “vem aplaudir a próxima destruição do maior e melhor apetrechado teatro que se construi em Portugal - 

Sucedeu no dia em que, Sophia de Mello Breyner Andresen, foi apresentar um livro de poemas, no antigo Éden Cineteatro, nos Restauradores, em Lisboa, edifício desenhado pelo arquiteto Cassiano Branco, um dos mais conhecidos marcos da arquitetura de estilo art déco em Portugal, com plateia, balcão e capacidade para mais de 2000 espectadores, inaugurado a 25 de setembro de 1914, abrindo com a opereta "O Burro do Sr. Alcaide", da autoria de Gervásio Lobato e D. João da Câmara, e interpretações de José Ricardo, Palmira Bastos[10] e Joaquim Costa, encerrou a 31 de janeiro de 1989 com a última sessão de cinema do filme "Os Deuses Devem Estar Loucos II" –

Só não estava louco o militante do surrealismo português, o artista mais genuíno do Surrealismo em Portugal, desde pintura à poesia, tudo nele era a genuína expressão do sonho, do automatismo e da espontaneidade, embora tivesse passado por marginal, quando ali se plantara no hall do famoso Cineteatro, antes do consumado o já previsto encerramento, eis que ali está plantado, naquele dia especial um dos mais cotados poetas portuguesas, outra figura não menos relevante da poesia portuguesa.

E também apreciava os meus apontamentos insólitos de reportagens e entrevistas na extinta Rádio Comercial RDP - Um dia haveria de ser ele a substituir o repórter com a empregada de Natália Correia, deslindando segredos, de almoços e jantares, no lendário Botequim e em sua casa e outras revelações  - Quem haveria de imaginar tão inesperado acaso!

Sim, não podia deixar de acompanhar um velho amigo, com quem tantas vezes tive o prazer de conviver, quer em sua casa, quer nas esplanadas daquele avenida ou mesmo noite da boémia lisboeta e nos mais diversos sítios - Tendo até registado poemas acabados de criar: tal sucedeu, entre outras ocasiões, ao descer a Avenida, já noite tardia, de regresso daquela estação de rádio, e, como tinha geralmente comigo, um gravador para o que desse e viesse, ele, ao ver-me, perguntou-me: tens aí a maquineta?!... Então grava mais este poema” – E lá o debitava espontaneamente!
E também apreciava os meus apontamentos insólitos de reportagens e entrevistas na extinta Rádio Comercial RDP - Um dia haveria de ser ele a substituir o repórter com a empregada de Natália Correia, deslindando segredos, de almoços e jantares, no lendário Botequim e em sua casa e outras revelações  - Quem haveria de imaginar tão inesperado acaso!

A NEGA AZEDA À REPORTAGEM DE SOPHIA DE MELLO BRYNER, FEZ-ME ABANDONAR A CESSÃO

Foi por um feliz acaso que me apercebi da presença de Mário Cesariny, pois quando ele entrou, já eu tinha subido ao espaço do primeiro andar, onde ia decorrer a cerimónia do lançamento do livro. Mas acabei por me vir embora: afinal, ninguém se sentava e toda a gente rodeava, a conhecida poetiza, com muitas pessoas, mais propensas a darem nas vistas, a mostrar os seus fatos e gravatas, a exibir as suas toaletes, enfim, mais a idolatrá-la de que a querer ouvir falar – Foi, então, que, para minha surpresa, me apercebi daquele insólito protesto de Mário Cesariny e me solidarizei com o seu desencanto, procurando apaziguar-lhe a sua indignação.

O espaço estava a abarrotar de convidados, todos de pé, e, ao aproximar-me de Sophia, pedi-lhe umas breves palavras sobre o seu novo livro para editar numa noticia. E, naquela altura, não era como agora, com a panóplia de dezenas de rádios e vários canais de televisão, apesar de já ser famosa. Não me ocorre ter visto ali mais alguém com gravador. Mas escusou-se a responder. Pelos vistos, todo o tempo estava a ser tomado para corresponder aos muitos sorrisos e salamaleques, com que a olhavam, pelo que, ao meu muito pedido, correspondeu-me olhando-me, com um certo ar altivo e ríspido: em vez de me responder, atira-me com esta observação: “O que me quer perguntar?!...Não estou aqui para dar entrevistas!!! “ – Não ponho em causa o valor da sua obra, mas foi dos momentos que mais me dececionou, das muitas entrevistas que fiz na minha vida de repórter, às mais diversas personalidades, desde Azeredo Perdigão, a Costa Gomes, Adelino Palma Carlos, Vergilio Ferreira, Fernando Namora, Fernanda de Castro, Carlos Botelho, Jorge de Mello, Amália Rodrigues, a tantas e varridíssimas personalidades, nas mais diferentes áreas

UMA CENA, QUASE IDÊNTIFCA Na última Feira do Livro de Lisboa

Curiosamente, onde fui fotografar e entrevistar vários autores, pois, embora já há muito tenha deixado as lides profissionais, nem por isso deixo de fazer o gosto da fotografia e do jornalismo, sim, quando me aproximei de Miguel Sousa Tavares, pedindo-lhe autorização para o fotografar, ele vira-se para mim, quase com a mesma reação: pese ter-lhe mostrado a carteira profissional de jornalista, pergunta-me, com ar de incómodo: para que é que você me quer fotografar? 

Não faço a fotografia, como gostaria de fazer, senão logo a seguir ao escritor e poeta, José Luís Peixoto, que estava ali numa banca ao lado da mesma editora, igualmente numa sessão de autógrafos, e que, com sorriso amável e amigo, correspondeu ao meu pedido – Mas, enfim, se todos os feitios fossem iguais, talvez nem houvesse poetas e nem o colorido da poesia.

 

odisseia numa piroga - 37º dia 26-11-1975 Aproximação à noite da Ilha de Bioko, Guiné Equatorial- -Largado na Ilha de Ano Bom a 595 quilómetros a sudoeste de Bioko. Á noite lograria atingir a costa de Fernando Pó, atual Ilha de Bioko. mas só pela manhã do dia seguinte, teria a plena felicidade de pôr os pés na areia negra de uma pequena baía,no sopé de uma enorme montanha


26 de Novembro de 1975 - Há 49 anos 37 dias depois de ter sido largado um pouco a norte da Ilha de Ano Bom  - Jorge Trabulo Marques




Aproximação a uma praia da região de  Bococo, a sul da Ilha de Bioko - Guiné Equatorial -  26 de Novembro de 1975 -  Era já noite e não pude acostar. Na manhã seguinte, descobriria, na mesma orla, algures para oeste, um pequeno areal negro onde pude finalmente desembarcar. 
As horas magníficas que ali passei durante a manhã, naquela pequena enseda luxuriante -  qual  aspirante a Robinson Crusoe  e depois a caminhada pela floresta que me levaria a uma finca de cacau, a forma amistosa como ali fui bem recebido a contrastar com o comportamento desumano das autoridades que, mesmo extremamente debilitado, nesse dia à noite, me levariam para os calabouços de uma esquadra, sob supeita de espionagem, tendo, no dia seguinte, sido conduzido algemado para a  então mais temível cadeia de África - a tenebrosa Blach Becah  - Os relatos, dessas vicissitudes por que passei,   sob o mando de Macias Nguema, não ficam atrás dos dias de incerteza e de angustia vividos ao longo de intermináveis dias e noites na vastidão do Golfo da Guiné Equatorial, mas, para já, veja como foi a minha aproximação a terra, após tão longo e penoso calvário de tormentosos  dias e noites de incerteza.



A manhã surgiu cinzenta e quase morta, sem a mais leve aragem a quebrar a sua triste monotonia.  Por detrás do horizonte brumoso, a custo desponta, de quando em quando, o pálido disco solar. A nordeste, vejo ao longe contornos de terra, altas montanhas cobertas por um espesso manto de um verde escuro, cujas cumeadas  ora se cobrem ora escondem sob densos nevoeiros ou claras neblinas, visão, aliás, reconfortante, porém, fisicamente, ao mesmo tempo, tão próxima como distante. Contornos de uma costa que toma o aspeto de um enorme triângulo, recortada por uma enorme baía. Mas não estou ainda  bem certo  se é o continente ou Bioko - a Ilha de Fernando Pó. As correntes mal se sentem mas  arrastam-me ao longo dessa mancha, em vez me levarem na sua direção

Muito por culpa do comandante do pesqueiro americano, Hornet, que me tendo prometido, em S.Tomé, que me largaria a sul de Ano Bom, na influência da corrente equatorial que me arrastaria para o Brasil - rota que pretendia seguir - me trocou as voltas, quando fundeou a Norte e ao largo daquela ilha: ou fica a bordo ou canoa ao mar - 


À popa e ao longe e a sul ia ficando Ano Bom


Optei pelo regresso a S.Tomé  - E, navegar no Golfo, em plena época das chuvas e dos tornados, numa frágil canoa, era opção quase suicida, de vida ou de morte - Apesar de tudo, quis o destino que, mesmo tendo sido atingido por violenta tempestade, logo na primeira noite, que me causaria a perda de quase todos os apetrechos e víveres, fosse um homem de sorte.



( 

Duário de Bordo  - É manhã do 37º dia. Ainda me encontro no mar...Estou partido!...Tenho o estomago metido para dentro. Não tenho nada na barriga... Estou realmente bastante fraco!...Estou mais próximo de terra... mas os ventos não me têm ajudado.

Finalmente, ao princípio da tarde, levantou-se algum vento. Estou a velejar  mas com extrema dificuldade, devido à ondulação, que é muito forte. O leme, que lhe adaptei, soltou-se com uma vaga do primeiro tornado - e lá foram também os remos. Por mais esforço que faça, com o remo improvisado, não há maneira de embicar para terra. De volta e meia, a canoa atravessa-se à vaga. Mas lá  vou indo, lá vou navegando,  com determinação e a  graça de Deus


Não me apetece abrir o meu baú (o caixote de plástico), pegar no gravador e fazer o registo do meu diário. Estou apreensivo e confuso, não tenho vontade de dizer nada. Calculo que seja uma da tarde. O relógio que trouxe deixou de funcionar na primeira noite do naufrágio. Há horas que parecem infinitas... É verdade... Mas nunca perdi a noção do tempo. Quando há sol é fácil calcular as horas pela  posição que descreve no arco  do firmamento. Se o céu  está nublado, carregado de nuvens ou tempestuoso, é mais complicado. No entanto, quem é que não sente o peso do tempo?!... Quem é que,  nestas circunstâncias, não conseguirá determinar a rotação do dia ou da noite, o movimento das marés  - que no alto mar também se notam! Vogando, com a vida  à flor do mar, errando perdido,  sem destino!...

Oh, se pudesse ir a nado!... Mas não posso. Sinto-me muito fraco, cheio de fome, mas não me rendo. Estou confiante de alcançar  anda hoje, terra firme, chão seguro!..  A bússola dá-me a leitura de todos os quadrantes, porém,  não podendo dispor  de meios para calcular a minha posição, fico sem saber onde estou.  No entanto, de uma coisa estou certo: a terra está ao alcance dos meus olhos, estou muito próximo!... E tão longe de a poder alcançar, eu já me encontrei!...



Deverão ser aí três da tarde. O vento abrandou um bocado mas o mar continua muito ondulado e as minhas forças são fracas. Estou exausto, terrivelmente cansado. As pernas tremem-me e o ventre aperta-se-me com cruel dureza... Que suplício, meu Deus!...Oh, mas não posso desistir, a costa está ali à minha frente e tenho que a alcançar.



Aproxima-se o fim de tarde - Já não há vento. O mar está calmo. Entrei numa zona, que é nitidamente litoral,  com várias  manchas de correntes, que trazem à superfície uma infinidade de detritos vegetais de terra. Desde cascas de cocos, ervas, folhas de árvores, verdes ou já quase desfeitas, frutos secos e podres. Já meti algumas folhas e frutos à boca para mitigar a fome. Também se veem muitos grânulos de alcatrão e dejetos de aves.  E, como não podia deixar de ser - pois nunca deixaram de seguir a  canoa , também afluem peixes de várias espécies, que saltam, espinoteiam, aqui e além por entre os despojos e nos contínuos remoinhos, ora sôfregos, ora talvez competindo ou divertindo-se com tamanha abundância de alimentos.


Chamou-me atenção um coco, flutuando e a rebolar de um lado para o outro.  Dei umas remadas na sua direção. Qual não foi o meu espanto!... Estava sem a amêndoa e com a casca meia partida mas com um peixe lá dentro. Em redor, vários peixes graúdos, nadando em torno do coco, pareciam fazê-lo saltar. Claro que aproveitei a presa, o pequeno peixito para o meter logo inteirinho à boca. De seguida apanhei mais dois cocos inteiros. Um deles descasquei-o imediatamente com o machim e aproveitei para saborear a suculenta amêndoa. O outro guardei-o para mais tarde.



Pormenor curioso, a companhia de uma ave: deixou o bando e veio pousar na ponta da proa da canoa, teimando acompanhar-me.  Não me pareceu que estivesse doente ou cansada. Teve sorte, achou-me inofensivo. Pois,  se não tivesse tão próximo de terra, já lhe teria pregado uma partida - Ainda bem, para ambas as partes; é que, à falta de alimentos, lá tive - e com  muita pena minha -de sacrificar tão amorosas criaturas . Além de muito piolhosas, só têm penas, pele e ossos.

Quando fiz a viagem de S. Tomé à Nigéria, de manhã, ao acordar, a borda da canoa parecia um autêntico pombal. Registei belas imagens: ao regressar a S.Tomé, deixei-as na redação de uma revista, esta entretanto extinguiu-se e perderam-se. 


O sol brilha acima de algumas nuvens no horizonte. Não há sinais de mau tempo e o mar está calmo. Mas o esforço com o remo, deixa-me arrasado. Queria libertar-me destas pequenas correntes, que parecem leitos de rios e me arrastam nos mais desencontrados sentidos, estou a ver que não consigo. Era bom que se levantasse um pouco de vento para velejar. A distância parece-me curta mas só com ajuda do remo, receio que não possa chegar lá ainda hoje.

Mais umas remadas, ó Jorge!...Vá lá!..  Tens a terra, ali a  quatro ou cinco centenas de metros!... Dobra-te sobre o remo!.. Aperta o cinto e não desistas!... De modo algum, vou desistir... Se não  desisti, até agora, como poderia desistir com os perfumes, balsâmicos, vindos da floresta, a revigorarem-me os pulmões e o meu coração?!...Tenho de lá chegar, antes que anoiteça!... Tenho de me embriagar com os aromas e as fragâncias da sua luxuriante verdura!...Vamos!...Coragem!




E lá vou remando, esforçando-me o mais que posso, dando tudo por tudo. Só Deus sabe com que inaudito esforço. Ora tombaleando a bombordo, ora a estibordo. Encurtando,  pouco a pouco, a distância que me separa do recorte da íngreme encosta verdejante, que se eleva aos meus olhos. O arvoredo já não é propriamente um emaranhado denso e uniforme, de um verde escuro. Por entre a brenha densa do espesso manto arbóreo,  que se ergue desde a orla até perder-se nas névoas de  uma elevada montanha, notam-se, de onde em onde, vários matizes coloridos, que vão do amarelo ao vermelho,  a contrastar a uniformidade verdejante. Ouço perfeitamente o marulho da rebentação espumosa. Mas ainda não consegui divisar um palmo de areia. 

Entretanto, o sol vai descaindo no ocaso, vai pousando sobre o horizonte, como que despedindo-se de mim através de um rasto luminoso, que se estende à superficie das águas e parece querer envolver-me por um brilho nostálgico, místico, algo tranquilizador e sobrenatural.  Será este o prémio do meu esforço, da minha vitória sobre tantas e tão enormes adversidades?!... Sim, creio  que posso alimentar essa consoladora esperança.   O chão firme, já não é um desejo ardente mas uma certeza que  se me abre de forma tão esplendorosa!... Não sei que lugar é este que tenho à minha frente; não faço a menor ideia como vou ser recebido, que riscos ainda me aguardam. Até porque já me apercebi que a costa é abrupta e não vou poder acostar. O crepúsculo, nestes mares, é muito rápido e a noite está já quase a cair sobre mim. 

Ainda não parei de remar. Ando para aqui de um lado para o outro a tentar descobrir uma qualquer língua de areia mas é tudo aprumo. A floresta é já uma mancha negra. Ainda bem que o tempo está calmo, quando não era atirado de encontro às rochas. Na viagem que fiz de S. Tomé à  Ilha do Príncipe, ao pôr do sol, encontrava-me junto a um promontório. rochoso e escarpado. - Impossibilitado  de me aproximar, lá tive que me escapar para o mar para não ser atingido pelo tornado, que estava a formar-se àquela hora no horizonte.  Com a costa, ali a dois palmos!... Que noite mais horrível, meu Deus! Mar tumultuoso e negra escuridão, que os relâmpagos iluminavam e me deixavam quase cego.Não há palavras!...


  
Não tenho a certeza se a floresta é habitada. Pareceu-me ter visto alguns focos de luzes por entre o arvoredo. Mas deve ter sido ilusão minha. Embora, apenas já se distingue  uma massa escura, - , sim, agora só se ouvem os sons da floresta, o piar da passarada  e o vai e vem das águas, batendo e recuando não se sabe aonde, contudo, os perfumes inebriantes de toda esta atmosfera, rica e acolhedora que me envolve,  a pujança e a sua beleza que se adivinha, misturados com a doce e quente   marezia, transmitem-me uma serena paz, uma tranquilidade que há muito não sentia. Porém, com muita pena minha, tenho que ficar mais uma noite no mar. A costa é profunda. Tive que lançar várias vezes a âncora até encontrar a profundidade a que pudesse chegar a corda que amarra. Mas, por fim, lá descobri, junto a uma espécie de ilhéu, o sítio onde a âncora se prendeu. Tenho o estômago um bocado rijo, devido ao coco, às folhas e frutos, que andavam a boiar e que comi.Certamente que não vai ser fácil adormecer. Espero é que não surja mau tempo e possa retemperar um pouco as minhas forças.- Mas, antes  de me deitar, ainda vou verter para o gravador o meu primeiro testemunho, junto a esta encosta paradisíaca.

 É já noite do 27º dia! Estou à beira de uma praia!... De uma floresta virgem!...Floresta maravilhosa!... Tive imensas dificuldades!... Foi um bocado exaustivo!...Para conseguir...utilizei todas as minhas forças!... Já não tinha água!...Não tinha nada!...Depois encontrei alguns cocos... próximo aqui da praia!... Com os quais mitiguei a fome!... Estou  muito fraco! Mas ao mesmo tempo reanimado! porque estou próximo...Tenho aqui a canoa fundeada!....esperando o dia da amanhã!...Não sei, efetivamente, que terra é esta!... Mas é terra!... Uma terra que me parece fértl, rica e  maravilhosa!

"Mãe: Venho de longe e cansado
(...) Que me resta da fluata que inventei?" - Fernando Grade 

(...)"É noite, mãe: aguardo, olhos fechados, 
que uma qualquer manhã me ressuscite!...  António Salvado, in "Difícil Passagem"



segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Meu 25 de Nov 1975 - 36º dia Perdido no Golfo da Guiné - . Tenho a costa de África já muito próxima para meu espanto!..(..) Mas já é noite!...Estou a velejar!... Estou-me a precipitar como um suicida.... Mas tenho fome!!... Não posso demorar mais tempo!.

                                                          



A
lgures no Golfo da Guiné, 25 de Novembro de 1975  Há 49 anos
 - Jorge Trabulo Marques 
..


À medida que as forças me vão fraquejando, são mais os pensamentos  que me assolam de que as palavras que expresso para o meu diário. Embora com os olhos pregados nos contornos de  terra à vista, assim vai decorrer mais um dia perdido no mar, sem todavia a poder alcançar. Mas, só ao 38º dia é que a poderia finalmente pisar. 



Sim, mais propenso a pensar de que a expressar as minhas emoções ou observações  para o modesto gravador,  que religiosamente guardo num simples contentor de plástico,  que em terra servira de caixote de lixo – Estou completamente desligado do resto do mundo. A bússola permite-me saber a direcção que tomo mas não sei onde estou. Vou ao sabor dos ventos e das correntes. Que nem sempre me levam pelo melhor rumo. O remo improvisado, continua a ser pouco ou nada eficaz. Não posso comunicar seja com quem for. Senão com a vontade de Deus. E também não tenho a certeza se me vê ou se me ouve. Mas eu existo, e,  a bem dizer, sou um náufrago. E o drama que vai no coração de quem anda perdido no mar, é intraduzível  em palavras - Aqui ficam, pois,  as que foram faladas (para o diário) e alguns dos pensamentos  que ficaram guardados na minha memória. 

 Diário de Bordo 1 Já é manhã do 36ª dia! Esteve uma noite esplêndida!..Magnífica! Não choveu... A manhã apresenta-se  serena mas muito nublada!...Está aqui à minha frente uma serra muito alta!!...Muito comprida!!...Devo estar entre  os Camarões e a Nigéria...Mas ainda falta um bocadito...

O mar é um imenso tapete calmo, que cintila como um espelho de luz. . Manhã  radiante! Não corre a mais leve aragem... Nem um sopro sequer a agitá-lo. A canoa "São Tomé - Yon Gato" mal se move. Também ela parece querer repousar  das muitas pancadas, dos maus tratos que tem sofrido...  Que,  inexplicavelmente, tem suportado, com tanta indiferença e resignação...Como se levasse no seu bojo a carga mais preciosa deste mundo, que fosse imprescindível salvaguardar.

OLHA O CÉU E REZA DEUS A TUA ORAÇÃO – Que tão imenso e distante é , cujo teto é o teu único abrigo e o vasto mar o teu único caminho em todos os sentidos do circular horizonte   




Assando uma ave
Obrigado minha canoa!.. Sou um retrato desfigurado de mim mesmo mas não me sinto derrotado. Ainda não me levaste a terra mas antevejo esse momento de suprema felicidade... Sinto um encantamento inexprimível, inefável!... Porém, começa a sentir-se muito calor.....Mas, por agora, estou bem.....Dá-me a impressão que até   já  me sararam as feridas e me passaram  as dores do meu corpo. Estou mais tranquilo. Vejo que tenho aqui a terra, relativamente próxima. ...Oh, meu pobre coração!.. Tão maltratado tens sido!.... Depois de tanta angústia e de tanta incerteza,  como esta visão te descomprimi e tranquiliza um pouco mais!... 


 Diário de Bordo 2 Esta amanhã, a moral pode considerar-se elevadíssima! Comi a ave que ontem apanhei... Cozia-a com um toco de uma vela de cera que ainda aí tinha... E apanhei mais um peixito...Tenho aqui a costa de África já muito próxima... e montanhosa para meu espanto....

De facto, estava convencido de que a orla da costa  fosse mais baixa, como a da Nigéria, onde fui parar da outra vez... Mas não... É extraordinariamente acidentada ... Já pensei que fosse a Ilha de Fernando Pó...Mas não deve ser...Dá-me a impressão que se prolonga indefinidamente, formando como que uma imensa bacia que se destaca de uma enorme massa verde escura....Ora, se fosse uma ilha, provavelmente teria outra configuração... Porém, as nuvens que pousam nas suas montanhas, que ora cobrem ou descobrem os seus perfis, fazem-me uma certa confusão...Veremos, quando lá chegar...

 Diário de Bordo 3 Serão neste momento, uma ou duas da tarde... Tem estado um calor sufocante!...Uma calmaria bastante inquietante!...Vejo perfeitamente  à minha frente a nordeste a costa de África!... Que se eleva numa enorme serra!  Toda coberta de vegetação, encimada por nuvens... 

Agora começa a correr uma ligeira brisa... Entretanto, vou ver se consigo velejar qualquer coisa...

Tento, mas em vão...A vela continua a pender, quase inerte, espanejando debilmente, a brisa é muito fraca...O sol bate-me em cheio... A água das chuvas que guardo no bidão de plástico,  tem uma colorarão amarelada, é mal gostosa, não me mata a sede. A garganta fica-me sequiosa, arde-me de secura...Os lábios gretam-se-me, devido ao calor que é abafadiço, escaldante, insuportável!..

O céu está manchado de azul e de branco.. E, sob aqueles vultos de névoas, descobre-se um verde escuro, luzidio .... Quando poderei  lá chegar?!... Tão próximos me parecem aqueles contornos, todavia,   fisicamente, tão  inacessíveis!

Que pena a força misteriosa das  correntes e as ninfas que regem o carinhoso bafo das  brisas me não  arrastarem para lá...O pano erguido no tosco mastro,  mal se mexe, não drapeja. Parece estar ainda mais  triste de que eu.

Sim, estou ansioso e preocupado. O tempo passa... As horas correm lentas mas vão seguindo o seu curso... Já não faz tanto calor mas mantém-se a mesma calmaria ... O sol declina,  já baixo e meio pálido a poente ... Não tardará a desaparecer... O crepúsculo, aqui é muito rápido...E, eu,   na iminência de já não alcançar a tão desejada costa de África... Depois vem a noite... ...Como será a noite?!.. Esta é sempre a minha maior incerteza... A interrogação que faço todos os dias  ao anoitecer... Mais uma vez tenho que deixar o meu destino à mercê dos caprichos dos ventos e das correntes... Oh!... esta vontade!.. Esta ânsia de aportar a  uma praia e pisar as suas areias, ouvir o sonoro marulhar das ondas (tão diferente do chape-chape no costado da piroga, que já quase  me enlouquece) a desfazerem-se na perpétua maresia sonora daquela beberagem espumosa... Oh, brilho divino!...Desejava que ao menos me aproximasses à luz do dia para que não fosse enrolado na rebentação ou atirado contra qualquer rochedo... Quando fiz a travessia de São Tomé ao Príncipe, eu, ao pôr do sol, estava aproximar-me de uma falésia. E vi que ao largo estava a formar-se um tornado. Não tive outro remédio senão afastar-me daquele precipício, voltar costas à rochosa e íngreme encosta. e enfrentar a tempestade. Se me apanhasse ali, não tinha salvação possível... Só Deus sabe os trabalhos que não tive durante aquela tormentosa noite!... Os relâmpagos rasgavam continuamente a escuridão, caíam faíscas por todo o lado. E, o plâncton, que a escuridão trazia à superfície, parecia deixar a espuma das vagas em chama, arder em fogo!

Porém, enquanto a noite me não cobre pela cortina do seu espesso véu e me não turva meus  olhos ansiosos, os inunda de sons e  silêncios noturnos, evoco aqui  um poema de José Régio, creio que muito a propósito, num momento em que me sinto levado a vaguear por um imenso oceano  de pemubrosas dúvidas. 

Talvez à vida, talvez à morte, não sei..Não sei, efectivamente, onde vou chegando. Mas não ignoro, no entanto, que terei de chegar, urgentemente, a qualquer parte . Porque, o mísero estado em que me encontro, quase esgotado de forças,  dificilmente me permitirá que possa adiar a minha sobrevivência por mais tempo, que reuna forças  para  chegar  mais longe.

Por isso, procuro avaliar no lusco-fusco do entardecer, tento decifrar os passos que ainda terei de avançar ou de percorrer... Indago e perscruto, através da morosidade inquietante que me angustia e me arrasta,  o que me aguardará para lá dos confins da imensa e misteriosa planura cinzenta,  pergunto-me a que ponto do horizonte poderei ser levado..

 O tempo refrescou, a noite ondula negra em torno de mim. .Vogo sobre um  mar de trevas e o que eu vejo em redor é um manto de escuridão. Lá, no alto, surge o brilho tímido das primeiras  estrelas – E, quem sabe,  se talvez alguma  me sirva agora de guia e de protecção. Oh, sim... Mas, eestando elas, tão  longínquas? ....

Diário de Bordo 4 - Neste momento são oito horas da noite! Deverão ser cerca das oito hora das noite! Toda a tarde de manhã não houve vento!... Só agora é que apareceu! Estou a velejar!... Estou-me a precipitar como um suicida!.. Não vejo absolutamente  nada! Não sei se estou perto, se estou longe da terra!... Mas tenho fome!!... Não posso demorar mais tempo!...

A canoa voa velozmente, qual pássaro notívago. A vela mal se distingue por entre o emaranhado das sombras  que preenchem o vazio da noite, no entanto, noto que vai enfunada e que estica retesadamente a corda da escota.

Os meus olhos e os meus ouvidos mantêm-se ativamente sincronizados e jogam entre si o rumo que deve tomar a pequena quilha galopante da propa desta espécie de embarcação fantasma.  Assentado no fundo da canoa, recostando-me a uma das travessas, apelo a todas as minhas forças para segurar o tosco remo improvisado e dar o rumo em direcção à zona  onde deixei de ver os contornos de terra.  Não pude navegar de dia, quero aproveitar o vento que sopra de noite. Mas só vejo trevas à minha volta. Vultos negros, sombras disformes e confusas a preencherem o imenso deserto vazio que paira em torno de mim. Meus olhos fixam-se no pequeno círculo fosforescente da pequena bússola que trago no pulso em forma de balão. Nada mais enxergam que a pequeníssima agulha a oscilar tremulamente. Se ao menos descobrisse alguma estrela que me servisse de orientação. É assim que me oriento nas noites em que  posso navegar.  Mas a noite é cerrada e já as ofuscou. No entanto,  não quero desistir. Bem me bastaram as horas de espera e de calmaria ao longo do dia. Com a terra sempre à vista e nem um sopro de vento que me empurrasse para lá. As correntes levavam-me sempre ao lado, autêntico suplício de Tântalo. Tremenda ansiedade e sofrimento.  

 O céu continua carregado  de nuvens escuríssimas. Atmosfera densa. Pesadíssimo  e baixo o tecto que  quase me submerge....A canoa  galopa, vai galopando, vai  sulcando temerariamente  a negra vastidão,  qual pássaro noctívago de peito aberto ao desconhecido. Nunca, como esta noite, naveguei com tão porfiada  determinação. Nada me intimida. Ou vida ou morte.  Vou disposto arriscar  tudo. Mesmo a ter que correr o risco da canoa ser atirada para qualquer escolho, negro rochedo ou linha de rebentação.

Navego, talvez  há quatro ou cinco horas, vergado sobre o remo. Velejando continuamente às cegas, alheio a todos os perigos. Tão cansado já vou do esforço do remo, que tenho a sensação de estar possuído por uma certa vertigem,... Que não é a canoa que navega  à tona de uma vasta e negra planície, mas que sou eu que  deslizo e me precipito por uma  escuríssima colina abaixo.   Não faço  a menor ideia para onde vou, que distância  me separa de um porto de abrigo.  A única coisa de que me apercebo é o ressoar de um certo bruá, que parece vir dos confins da massa escura para onde me dirijo. 

 Os meus ouvidos funcionam como  um autêntico radar - São também os meus olhos. Procuram decifrar todos os ruídos dos súbitos movimentos, todas as ressonâncias, provenientes do  barulho das vagas que se enrolam e espumam nas proximidades,  as pancadas que se  abatem contra o costado,. Avaliam todos os sons, vão sincronizados com o rumorejar noturno do mar.

É, todavia, cada vez mais complicado segurar o remo, o vento é forte e inconstante e vai-se-me tornando difícil  saber qual o verdadeiro rumo que  estou a tomar. Há muito desisti de olhar para a bússola. Ora navego para um lado ora navego para outro. Tento evitar que  a canoa fique completamente à deriva ou atravessada à vaga. Estou fisicamente esgotado e no limiar da minha resistência. A  par da fraqueza,   invade-me uma enorme sonolência, a que não quero ceder. 

Finalmente, encarando  a noite e todos os perigos, sem desfalecimento, sem pregar olho, dou-me conta dos primeiros alvores da madrugada. -  O vento afrouxa, a vela fica panda e, para minha maior decepção,  a claridade do novo dia, faz-me descobrir que, em vez de me ter aproximado dos perfis e recortes  daquelas encostas montanhosas, que vira de véspera, afinal, constato de que nada me servira tamanho esforço – Fico com a sensação de que estou noutra posição, ainda mais ao largo.  Exausto, aproveito então para me deitar um pouco sobre o fundo duro e encharcado da canoa e descansar – Agora, completamente alheio ao que desse e viesse.... Na esperança, porém,  de que o novo dia  me conduza a bom porto.