Jorge Trabulo Marques - Jornalista

Cândido Mota: "Morreu sem sofrimento aos 82. ”Diz Noticia Mas fez-me sofrer na Rádio a pior fase da vida como assistente dele na RDP-Rádio Comercial. O antigo locutor, actor de rádio e televisão, politico e publicista, Cândido Mota, morreu na madrugada, do 1º domingo de Maio, aos 82 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado,"sem sofrimento, rodeado da família e amigos próximos", acrescentou Teresa Mota, filha do apresentador.
Paz à sua alma mas as recordações que guardo dele, deixaram-me perturbadoras feridas, que não esqueço, Mais tarde, cerca de 40 anos depois, veio com o pedido de desculpas públicas, num programa da TVI com este argumento: "Houve uma noite que perdi a cabeça completamente e não fui profissional. Peço desculpa, ao fim destes anos todos, sou obrigado a pedir desculpa, não fui profissional, não aguentei aquilo e acabei mal o programa. O João David Nunes era diretor de programas naquela altura e eu próprio me afastei”,

Não se afastou por vontade própria: foi forçado afastar-se. Por ter transformado o programa num fait divers de linha direta ao insulto e à má língua. Tendo até permitido a transmissão de um telefonema provocador à minha pessoa, a que jornal Tal & Qual, fez referência em minha defesa , onde foram descritos os pormenores.
Partiu de individuo, adulto, que se deslocou às instalações da Rádio Comercial, depois do continuo o ter deixado entrar, a perguntar -me se no final do programa podia falar com o locutor- "E, então, que pretende? - questionei:
Sua resposta: quero saber se eu o posso acompanhá-lo a sua casa e curtir com ele” - Ouvi dizer que é bicha, que gosta de homens”
Face a tão descarada desfaçatez provocatória: De imediato pedi ao funcionário da receção para o mandar sair da estação. Ficou à porta e não arredou pé: no final do programa, como eu não tinha carro, :foi atrás de mim: com esta pergunta:
“Para onde é que vai?... Para o onde é que vai?... Posso ir consigo?!...
Como não lhe passei cartão: no dia seguinte, telefonou para o programa a dizer que eu o tinha convidado a ir a minha casa e com argumentos insultuosos e aldrabões. E o Cândido Mota aceitou e alimentou o seu discurso naquele programa à semelhança do que já sucedia com outros telefonemas, muitos dos quais de acusações, difamações e provocações infundamentadas, com os quais gozava e se divertia. Para ele o que mais contava não era tanto a seriedade e a importância das questões, mas o insólito, o sensacionalismo fosse de que natureza fosse.
No dia seguinte, expus o episódio a João David Nunes, dizendo-lhe que não queria continuar a trabalhar mais naquele programa. Respondeu-me que me tranquilizasse que ele ia sair.
E foi o que sucedeu na mesma semana: o programa foi suspenso e passou a ser moderado por Teresa Cruz e Orlando Dias Agudo, a cujos profissionais continuei a prestar assistência, e com muito gosto mas também com muito trabalho, visto todas as noites, quando chegava a casa, ter de datilografar as cartas manuscritas dos ouvintes para serem depois lidas aos microfones, ao ponto do vizinho do prédio, onde ainda moro, se me vir queixar que eu o acordava com o ruido da minha velha máquina de escrever – E muitas foram essas cartas, que hoje ainda enchem um saco.
As emissões interativas, iniciavam-se à meia-noite e, durante uma hora, além da leitura da exposição lida de questões ou de pedidos, qualquer pessoa podia telefonar para o estúdio e falar do que quisesse em direto
De facto, e tal como, ainda hoje, o pode documentar o saco de cartas, que logrei salvaguardar e não rasgar "O PASSAGEIRO DA NOITE” RDP - Rádio Comercial, passou a ser a última esperança dos aflitos, miseráveis e abandonados da sorte" anos 80
Talvez fosse por esta razão, por ser um programa incómodo, que esta estação acabaria por ser privatizada em 1993, a bem-dizer dada de oferta ao Correio da Manhã, ao jornal do regime, em vez de ser devolvida a Jorge Botelho Moniz, fundador do RCP - .Enquanto a Rádio Renascença, ambas estatizadas após o 25 de Abril, é devolvida à igreja católica.
Programa radiofónico, ao qual recorreram, por telefone, por carta ou simples postal, milhares de ouvintes, expondo, denunciando abusos, implorando proteção ou apoios, desabafando as mais variadíssimas situações e problemas, desde internados nos hospitais ou nas prisões, até escritas em braile, de pessoas invisuais, ou mesmo poemas, brotados espontaneamente do fundo do coração, sim, desde os cidadãos mais desamparados e desprotegidos, a todo o tipo de problemas sociais, que procuravam os mais diversos apoios e formas de auxílios – Desde pedidos de cadeiras de rodas, moletas a empregos, apelos de justiça, um teto de abrigo, a tantas e outras situações ou episódios dramáticos de vida.
Numa das cartas, escrevia uma ouvinte estas sensibilizadoras palavras de agradecimento: .... "pelo que o programa tem feito por esse país fora e ainda bem... é de facto graças a vós que muita miséria tem sido resolvida através desse magnifico programa em que muitas as vezes me fazem as lágrimas correr pela cara abaixo no que oiço diariamente"
Também a mim, ainda hoje, ao ler algumas das centenas de cartas e postais, que pude guardar, se me toldam os olhos de lágrimas - De facto, tantas e tão sensibilizadoras eram as questões, que, ao ir-me deitar, nem sempre era fácil adormecer tranquilamente – Conservo comigo muitos desses documentos, no meu vasto arquivo sonoro e documental, que me foram confiados para passar à máquina de escrever e serem lidos e que evitei que fossem lançados ao lixo
Além disso, tive ainda a oportunidade de fazer dezenas de entrevistas nas prisões de Alcoentre, Pinheiro da Cruz e no Estabelecimento Prisional de Lisboa, e mesmo já depois das penas cumpridas, já não falando de tantas outras a figuras públicas, anónimas ou conhecidas:. desde entrevistas a Amália Rodrigues, Costa Gomes, Adelino Palama Carlos, Jorge de Melo, Cupertino de Miranda, Azeredo Perdigão, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Jorge Amado, José Saramago, às mais diversas figuras públicas e anónimas
ELOGIOSAS REFERÊNCIAS - Não lhe faltam:
O Cândido Mota partiu na madrugada do dia da mãe, certamente para se aninhar nos braços de Maria Albertina, a mulher do fado e da voz que deu voz e sentimento a seu filho Cândido.
Partiu para o Céu das Estrelas, com lugar reservado na constelação dos eleitos, dando mais luz à luz da noite onde ele viveu tanta vida, nos palcos, na televisão e na rádio, com aquele passageiro dos outros em que sofria os males dos que procuravam no abrigo da rádio noturna o carinho e a ternura de uma voz amiga.
O Cândido, quando falava, transmitia amor – afago e amor – paixão a quem o ouvia, com aquela voz de mel, doce de abrir o peito e profunda de chegar ao coração.- Excerto de
Andou pelo Rádio Clube, pela Comercial, pelas televisões, com e sem Herman, pelos palcos, pela política da dádiva e do sonho, pela escrita e, durante uns tempos de ressurgimento, pela CNR- Cadeia Nacional de Rádios, onde também estive a seu lado sempre.
Um sempre que já pronunciava a eternidade, onde ele já chegou.
Tinha mais de oitenta, agora já curvados e gastos, mas com aquela cara – marota de bebé chorão, prestes a fazer uma traquinice.
Sorrir mesmo quando não se é feliz, não é para todos.
E continuará a ser, no novo palco em que está agora, iluminado pelo grande projetor de luar que lhe coloca um halo de paz no seu rosto de saudade e história.
(Um homem da rádio)
Cândido Mota teve muitas e variadas aparições radiofónicas (RCP – Rádio Clube Português; RDP – Antena1 e Antena2; Rádio Comercial). Manteve-se sempre visível nos media, quer fosse na televisão, colaborando com Herman José, quer na gravação de voz off ou em spots de publicidade. Na Rádio, é actualmente (há já bons anos) voz de estação da RDS – Rádio Seixal. E é justamente na vila do Seixal que o encontro, ao vivo, todos os anos a apresentar as festividades no dia 25 de Abril.- Excertos de https://radiocritica.blogspot.com/2006/03/o-que-feito-deles.html