Jorge Trabulo Marques - Jornalista

Cândido Mota: "Morreu sem sofrimento aos 82. ”Diz Noticia Mas fez-me sofrer na Rádio a pior fase da vida como assistente dele na RDP-Rádio Comercial.
“Para onde é que vai?... Para o onde é que vai?... Posso ir consigo?!...
Como não lhe passei cartão: no dia seguinte, telefonou para o programa a dizer que eu o tinha convidado a ir a minha casa e com argumentos insultuosos e aldrabões. E o Cândido Mota aceitou e alimentou o seu discurso naquele programa à semelhança do que já sucedia com outros telefonemas, muitos dos quais de acusações, difamações e provocações infundamentadas, com os quais gozava e se divertia. Para ele o que mais contava não era tanto a seriedade e a importância das questões, mas o insólito, o sensacionalismo fosse de que natureza fosse.
No dia seguinte, expus o episódio a João David Nunes, dizendo-lhe que não queria continuar a trabalhar mais naquele programa. Respondeu-me que me tranquilizasse que ele ia sair.
E foi o que sucedeu na mesma semana: o programa foi suspenso e passou a ser moderado por Teresa Cruz e Orlando Dias Agudo, a cujos profissionais continuei a prestar assistência, e com muito gosto mas também com muito trabalho, visto todas as noites, quando chegava a casa, ter de datilografar as cartas manuscritas dos ouvintes para serem depois lidas aos microfones, ao ponto do vizinho do prédio, onde ainda moro, se me vir queixar que eu o acordava com o ruido da minha velha máquina de escrever – E muitas foram essas cartas, que hoje ainda enchem um saco.
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As emissões interativas, iniciavam-se à meia-noite e, durante uma hora, além da leitura da exposição lida de questões ou de pedidos, qualquer pessoa podia telefonar para o estúdio e falar do que quisesse em direto
De facto, e tal como, ainda hoje, o pode documentar o saco de cartas, que logrei salvaguardar e não rasgar "O PASSAGEIRO DA NOITE” RDP - Rádio Comercial, passou a ser a última esperança dos aflitos, miseráveis e abandonados da sorte" anos 80
Programa radiofónico, ao qual recorreram, por telefone, por carta ou simples postal, milhares de ouvintes, expondo, denunciando abusos, implorando proteção ou apoios, desabafando as mais variadíssimas situações e problemas, desde internados nos hospitais ou nas prisões, até escritas em braile, de pessoas invisuais, ou mesmo poemas, brotados espontaneamente do fundo do coração, sim, desde os cidadãos mais desamparados e desprotegidos, a todo o tipo de problemas sociais, que procuravam os mais diversos apoios e formas de auxílios – Desde pedidos de cadeiras de rodas, moletas a empregos, apelos de justiça, um teto de abrigo, a tantas e outras situações ou episódios dramáticos de vida.
Numa das cartas, escrevia uma ouvinte estas sensibilizadoras palavras de agradecimento: .... "pelo que o programa tem feito por esse país fora e ainda bem... é de facto graças a vós que muita miséria tem sido resolvida através desse magnifico programa em que muitas as vezes me fazem as lágrimas correr pela cara abaixo no que oiço diariamente"
Também a mim, ainda hoje, ao ler algumas das centenas de cartas e postais, que pude guardar, se me toldam os olhos de lágrimas - De facto, tantas e tão sensibilizadoras eram as questões, que, ao ir-me deitar, nem sempre era fácil adormecer tranquilamente – Conservo comigo muitos desses documentos, no meu vasto arquivo sonoro e documental, que me foram confiados para passar à máquina de escrever e serem lidos e que evitei que fossem lançados ao lixo
Além disso, tive ainda a oportunidade de fazer dezenas de entrevistas nas prisões de Alcoentre, Pinheiro da Cruz e no Estabelecimento Prisional de Lisboa, e mesmo já depois das penas cumpridas, já não falando de tantas outras a figuras públicas, anónimas ou conhecidas:. desde entrevistas a Amália Rodrigues, Costa Gomes, Adelino Palama Carlos, Jorge de Melo, Cupertino de Miranda, Azeredo Perdigão, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Jorge Amado, José Saramago, às mais diversas figuras públicas e anónimas
ELOGIOSAS REFERÊNCIAS - Não lhe faltam:









