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sábado, 25 de abril de 2026

Capitão do 25 de Abril 1974 - Teófilo Bento: liderou a tomada das instalações da RTP, no Lumiar às 03.05 da manhã do dia 25 de Abril . – Faleceu, em 29 de Julho de 2020 aos 75 anos, então coronel -

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador 

O Assalto à RTP pelo Capitão Teófilo Bento – Nas 72 Longas  Horas, apoiado por um pequeno grupo de soldados, apenas vocacionados para os serviços internos do quartel – Houve muita ansiedade, alguma confusão e disparos, com a entrada de uma patrulha da PSP por uma das portas laterais

"O Bento foi um "puro", um homem bom, com grande humor e forte sentido solidário. Um genuíno Capitão de Abril, de todos os tempos, sempre fiel aos valores que nos lançaram na epopeia coletiva, de que o Teófilo, os seu camaradas da EPAM e todos nós nos continuamos a orgulhar", - É nestes termo que foi recordado pela Associação 25 de Abril,  no dia do seu falecimento  em 29 de julho de 2020.

Promovido, mais tarde, a Coronel do Exército, Teófilo Bento, então Capitão, foi o herói da tomada das instalações da RTP, às 03.05 da manhã do dia 25 de Abril  -    Foram 72 longas horas, de ansiedade e até de alguma confusão e disparos, apoiado por um pequeno grupo das chamadas tropas logísticas, mais conhecidas por “padeiros”, vocacionadas para serviços internos no quartel de que a intervir em operações, portanto, sem a preparação da que têm tropas operacionais. Na breve entrevista que nos concedeu, confessa-nos  o que ele considerou  ter sido um autêntico “jogo de poker”, tendo a sua vida chegado a estar a linha de fogo por um dos seus próprios soldados, quando uma patrulha da policia de Segurança Pública, logrou entrar por uma das portas laterais da instalações  – Horas desgastantes e de risco, que, no final, o levariam a ser conduzido para o hospital  
UM TRANSMONTANO DE ORIGEM HUMILDE E UMA VIDA SUBIDA A PULSO

Natural de  Picote, concelho de Miranda do Douro.  – Eis alguns passos da sua vida, contados numa entrevista concedida ao Jornal Nordeste, em 2011

"Até aos seis anos vivi em Picote, depois transferi-me para Sendim, ou seja, os meus pais é que se transferiram. O meu pai era Guarda Fiscal. Podia começar já por dizer que pertencia a uma família em que havia dinheiro, porque a maior parte das famílias, como se sabe, nessa altura, não conhecia a cor do dinheiro.

Eram tempos difíceis nessa altura. O dinheiro era escasso, o que potenciava muitas famílias necessitadas…

Eram famílias necessitadas na generalidade. Em Sendim havia duas ou três famílias ricas, havia depois estas ditas remediadas, em que o chefe de família poderia ser Guarda Fiscal, tinha uma remuneração e, já tinham possibilidades de adquirir coisas com dinheiro que a maior parte das pessoas não tinha. Sem querer, isso faz-me lembrar que, li uma história da evolução económica da Europa, em que dei por mim a fazer uma comparação muito estreita entre a economia, a sociedade da idade média e a sociedade que eu conheci quando miúdo, em Picote e em Sendim. Eram os mesmos instrumentos de trabalho, os mesmos sistemas de troca de bens; trocavam-se sardinhas por ovos, por exemplo. Recordo-me de a minha mãe me contar que levava dois sacos de trigo a Carviçais, primeiro ao Pocinho e depois a Carviçais; isto é, onde chegava o comboio, para trazer sal. Isto, só para dizer, como era a situação nessa altura agora, se quiserem, comecem a fazer comparações com os dias de hoje.

Que outras recordações é que guarda da sua meninice, da sua juventude?

Além das dificuldades referidas que eram muito notórias, principalmente antes de as barragens aparecerem e começaram a dar algum trabalho, o que potenciou que algum dinheiro começasse a circular, fez com que as pessoas despertassem e descobrissem a existência de outros mundos e, também contribuiu para que nos apercebêssemos do mundo fechado em que vivíamos, o que levou, precisamente, a que milhares de transmontanos emigrassem para a França, clandestinamente, isto é, sem autorização. Quando eram apanhados, eram devolvidos, muitas vezes, em condições extremamente difíceis, porque até as pessoas da minha idade se lembram. Chamavam-se passadores as pessoas que auxiliavam esses indivíduos a dar “o salto”, assim se chamava o transferir-se para França, tentando, portanto, ganhar algum dinheiro.

Muitos transmontanos deram “o salto", realmente…

Sim, é verdade! Há pouco disse-me que esta entrevista tinha um nome que era “À procura da Liberdade”; deixe-me falar sobre isso. 
É evidente que a liberdade, como a fome, como outras situações extremas, como a guerra por exemplo, só quem a viveu… ou melhor, no caso da liberdade, só quem não a teve é que sabe o que é não ter liberdade. Por mais metáforas, por mais palavreado, por mais frases que se utilizem, é difícil caracterizar uma situação extrema e a falta de liberdade é realmente uma situação extrema. 
Já dei algumas entrevistas em que dizia que, só com o passar do tempo, me fui apercebendo do que era a falta de liberdade; a privação de liberdade para ganhar o seu pão, a sua vida, levou tanta gente a emigrar, clandestinamente, porque não lhes era permitido sair livremente. As pessoas não tinham liberdade para procurar melhores condições de vida.

Senti, por volta dos anos 60, ao acabar o curso na academia militar, onde era aspirante, uma necessidade premente de sair daqui, de conhecer outras culturas e resolvi fazer uma coisa que era habitual: viajar para o estrangeiro, normalmente França, Inglaterra… recorríamos a algumas associações que nos arranjavam trabalho. Trabalhava-se durante as férias o que nos dava o suficiente para viver, não diria que dava para pagar as despesas todas, mas auxiliava muito e era uma nova experiência. 
Eu fui para Inglaterra. Estamos no ano de 69, precisamente no ano que apareceu a minissaia, tínhamos tido notícia dela, é evidente que em Lisboa não havia, em Portugal não havia mas, tínhamos tido notícia dela. Foi nessa altura que fui para a Inglaterra onde trabalhei num hotel. Inicialmente pensei que era para trabalhar como porteiro para ganhar umas boas gorjetas, mas afinal era trabalho não especializado, internamente, lá no hotel. 
Foi uma experiência interessantíssima mas, o que mais me impressionou e, era esta a ideia que queria vincular, foi que eu tive a sensação de que tocava na liberdade. A liberdade via-se em tantas coisas… na minissaia, via-se na forma das pessoas trajarem, Londres já nessa altura era um cidade muito cosmopolita, havia indianos, havia tudo. Enfim, faziam o que queriam, cada um vestia-se como queria vivenciando os seus usos e costumes, havia “speakers corners” onde se reunia muita gente e se falava contra tudo e contra todos. Pegavam no caixote, subiam para cima dele, expunham as suas ideias livremente, de tal maneira que, se tinham audiência estava bem, se não tinham, não havia problema; às vezes, via-se um indivíduo a falar para três ou quatro pessoas, outras vezes a falar para um conjunto de pessoas. Realmente, todas essas coisas e, mesmo a actuação da polícia, ensinavam liberdade.

Assisti, sem querer, a uma cena que me impressionou. Uma altura em que eu passava peloPiccadilly's Circus, um sítio em que se juntavam os hippies que, também nessa altura, estavam na moda. Eu passava muitas vezes por ali e via esse pequeno largo cheio deles; tinha umas escadas internas e o pessoal sentava-se por ali, de qualquer maneira e, houve um dia em que passei e percebi que devia ter havido uma decisão da polícia para evacuar. Já tinham evacuado, praticamente, a praça toda, estavam apenas dois casais, que estavam instalados, rodeados por dois polícias, notoriamente, a tentar convencê-los a saírem de lá e eles, provavelmente, inventando explicações e mais explicações, estou a dizer inventando, porque eu estive, sem exagero, meia hora a assistir à cena e dizia para mim próprio: isto, em Portugal, seria impossível. Verifiquei, sei lá, qualquer má resposta que ofendeu a polícia, ou que a polícia achou mais incorrecta. Pegaram neles pelas costas e meteram-nos em duas carrinhas e foram embora, primeiro impressionou-me a eficácia da polícia. Isto só para dizer que tudo era diferente e tudo me dizia que era quase como se tocasse a liberdade, o que não existia em Portugal.

Realmente, essa sua experiência deve tê-lo marcado profundamente. Temos, no entanto, que voltar um pouco atrás no tempo para lhe perguntar de que forma o marcou o facto de ter nascido nesta região?

Penso que o ter participado no “25 de Abril” teve um pouco que ver, ou talvez muito, com o ter nascido nesta região. Como disse, sou filho de um guarda-fiscal, sou um filho já tardio, tinha dois irmãos muito mais velhos que, por acaso, estiveram em África mas, tinham regressado antes dos acontecimentos que se verificaram, os acontecimentos relacionados com a guerra ultramarina. O regresso, de pelo menos um deles, deveu-se ao falecimento do meu pai. A minha mãe viu-se com um miúdo de oito anos para criar. A única coisa que sabia fazer era a lida da casa. Como o meu pai era guarda-fiscal e, numa aldeia, isso significava mais que ser remediado, quase significava ser duma classe alta, porque havia dinheiro, a minha mãe fez das tripas coração, virou-se como se costuma dizer. Ela ainda está viva, tem 98 anos, está num lar em Miranda, mas foi sempre uma pessoa que me marcou muito porque fez realmente um esforço fabuloso para conseguir educar-me com aquilo que ficou. Quase diria que teve de inventar formas de fazer dinheiro para me educar. Tive o azar de ser de uma aldeia, de não ter feito o exame de admissão na devida altura, o que me obrigou a ir para um colégio em vez do liceu que ficava mais caro e, assim, estudei em Miranda e diga-se de passagem que ao fim do primeiro ano já estava a dizer que não queria estudar mais, porque via os miúdos que estavam a trabalhar na barragem e não tinham que ir preparar as lições para casa. Aí valeu o meu irmão, regressado de África por causa da morte do meu pai que disse: se tivesses tirado más notas, talvez, assim como tiraste boas notas tens de continuar a estudar. Também lhe devo muito a ele, como é evidente, por causa disso. Fui criado de maneira a perceber as dificuldades que existiam em casa. Fiz o 2.º e 5.º anos, vim fazer exames a Bragança e, depois do 5.º, tive de mudar para o Porto. 

Eu não podia vir para o liceu, como disse e tudo isso ficava bastante caro. Fiz os estudos equivalentes ao terceiro ciclo e aí voltei a Bragança. Tive sempre uma ligação com Bragança e quando chegou a altura de ir para a universidade escolhi a academia militar fundamentalmente por questões económicas. Percebia, perfeitamente, que não podia ir para a universidade. Até gostaria de ter ido para engenharia, mas percebia perfeitamente que não tinha condições financeiras para tal. Ouvi dizer que na academia militar pagavam um salariozinho, enfim, davam subsídio, davam alimentação e não pagava pensão. Foi isso que condicionou a minha ida para a vida militar, não foi efectivamente a minha vocação especial. Foi mais uma condição económica que, diga-se de passagem, aconteceu a muita gente que depois veio a participar no “25 de Abril”, vieram a ser capitães de Abril. Temos que nos lembrar que nessa altura já tinha começado a guerra. A frequência na academia era alimentada, fundamentalmente, por classes ricas. Enfim toda a tradição da nobreza, mas quando começou a guerra deixaram isso para os pobres e os pobres preferencialmente, do interior, por isso é que nessa altura a frequência na academia militar era de Trás-os-Montes e das Beiras.as que me está a impressionar - Excerto de  

Entrevista com Coronel Teófilo Bento - Capitão de Abril

nordestecomcarinho.blogspot.c

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Natália Correia e Zeca Afonso - Inédito – Vozes no Botequim da Liberdade - Ó rama, ó que linda rama –- Meu registo das Noites Loucas, de alegria, música e poesia

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista

Natália Correia e Zeca Afonso -  Inédito – Vozes no Botequim da Liberdade - Ó rama, ó que linda rama –- Meu registo das Noites Loucas, de alegria, música e poesia


Reportagem sonora de uma das noites de caloroso convivo e de boémia do Botequim da Natália Correia, no Largo da Graça, Lisboa, anos 80 – Naquele espaço, as surpresas da noite já faziam parte do cardápio da casa, do habitual convívio e diversão.


Foto obtida pelo autor deste blogue  à saída de uma festa de gala no Casino Estoril - Natália Correia e a sua corte - Na qual está também - no primeiro plano  Dórdio Guimarães, o fiel companheiro de todas as horas de Natália,  de costas voltadas para o fotógrafo; um pouco mais à esquerda, está  Fernando Grade, e,  quase a servirem de guarda-costas, Francisco Baptista Russo e Fernando Dacosta, agora de novo com mais uma bela surpresa literária  - Não me ocorre o nome das outras suas amigas.

Se Natália Correia fosse viva e ainda liderasse o Botequim, por certo, alguns dos frequentadores deste famoso Bar já tinham desencadeado uma revolução
 Uma das habituais presenças, ao pino do Botequim, era o Mastro António Vitorino de Almeida, mas, que muitas vezes, podia ser usado por outras músicas

A noite que aqui recordo, contou a presença de Zeca Afonso, A VOZ DA UTOPIA E DA LIBERDADE, que se associou ao coro das vozes, onde a da Natália Correia, era geralmente a voz que liderava os Cânticos que ali se faziam ouvir. -
Zeca Afonso, a emblemática voz do 25 de Abril, da revolução dos cravos, imortalizada por , “Grândola, Vila Morena”


José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos – ou simplesmente Zeca Afonso, como viria a ser eternizado – nasceu a 2 de agosto de 1929, em Aveiro. Em miúdo passou algumas temporadas em Angola, onde o seu pai exerceu a função de delegado do Procurador Geral da República. Por motivos de saúde, o pequeno Zeca dividiu o seu tempo entre África, que aprendeu a amar e a respeitar, e Portugal. As suas raízes familiares não representam propriamente o ‘proletariado’. Contudo, quando se fez homem, Zeca cantou e defendeu, como poucos, o povo – antes deste ir ‘de carrinho’, como viria a cantar na década de 80, no álbum Como Se Fora Seu Filho, um disco paradoxo, dividido entre a utopia e o desalento da realidade política:

Vídeo elaborado a partir da cassete de um pequeno gravador, que utilizava como repórter da Rádio Comercial, que pude registar numa das noites inesquecíveis de boémia no Botequim, que tive o prazer de frequentar muitas vezes - Hoje lembrei-me de ir buscar esses sons ao meu vasto arquivo - Onde ainda guardo (entre cerca de três centenas de cassetes de áudio, inúmeras reportagens e entrevistas, entre as quais,, Fernando Namora, Vergílio Ferreira, José Gomes Ferreira, Moreira das Neves, Amália Rodrigues, Cupertino de Miranda, Azeredo Perdigão, Costa Gomes, etc..etc
Sim, outros sons e outras vozes, gravadas no Botequim, que espero vir a editar no You Tube, pois tenho a certeza que não deixarão de ser apreciadas e de comover até às lágrimas, todos quantos o frequentaram e ali viveram momentos que perdurarão para o resto das suas vidas. Botequim - Pequeno no espaço mas grande como bar aglutinador das mais diferentes sensibilidades - Centro de tertúlias políticas, literárias e artísticas, palco de conspirações e acesos debates na presença de figuras, como Ramalho Eanes e esposa, Sá Carneiro, Nuno Krus Abecassis, Helena Roseta, Oliveira Marques, Ary dos Santos, Mestre Martins Correia, Francisco Relógio, David Mourão Ferreira, Dórdio Guimarães (o companheiro inseparável de todas as horas da autora da Mátria), Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues,Césariny, Cruzeiro Seixas, José Augusto-França, Amélia Vieira, Fernando Dacosta, José Manuel dos Santos, Amélia Muge, Tomás Ribas, Gilberto Madail, Afonso Moura Guedes; Narana Coissoró, deputados de todos os partidos, cartomantes, videntes e astrólogas, aspirantes a poetas, a pintores, a músicos, a escritores ou a políticos, homossexuais e lésbicas assumidos ou disfarçados, jornalistas, empresários, generais na reforma e no ativo, vários capitães de Abril.

E tantas outras personalidades (até do estrangeiro, sobretudo do Brasil) provenientes das mais diferentes atividades ou, simplesmente, pessoas anónimas que admiravam o perfil e o estilo inconfundível de Natália, que ali iam todas as noites, ao Largo da Graça, movidas pela curiosidade de a conhecer pessoalmente, de partilhar a alegria, a truculência, a frontalidade, o fascínio e o saber do seu inigualável convívio. "Mulher forte, irreverente, contraditória - e de beleza extraordinária. Com intensa versatilidade, dedicou-se a vários géneros literários.
Natália Correia sempre se recusou a ser uma figura decorativa, peça que entrava e saía do palco segundo as regras da compostura. Ao longo da vida escreveu intensamente. E ainda marcou presença na política e na imprensa. A indignação foi uma constante na sua vida e obra - motivada pela censura que a amordaçava ou por uma insurreição natural a todos os engodos ideológicos da sociedade. "Uma mulher imperial", diz a jornalista Clara Ferreira Alves." "Natália Correia é uma mescla de anjo e demónio. Muito do seu encanto vem desta mistura explosiva. É conhecida pela personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflete na escrita.

Em Memória de Natália Correia e do Botequim - Em Noites Loucas, de alegria, música, convívio e poesia 







Natália Correia (1923 - 1993), mulher de paixões, casou quatro vezes ao longo dos seus 70 anos. Fez televisão, foi jornalista, dramaturga, poetisa e estreou-se na ficção com o romance infantil «Aventuras de um Pequeno Herói», em 1945.
Nasceu nos Açores em 1923 e aos 11 anos desloca-se para Lisboa. Foi jornalista no Rádio Clube Português e colaborou no jornal Sol. Ativista política: apoiou a candidatura de Humberto Delgado; assumiu publicamente divergências com o Estado Novo e foi condenada a prisão com pena suspensa em 1966, pela «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica».
Deputada após o 25 de Abril , fez programas de televisão destacando-se o “Mátria” que apresentava o lado matriarcal da sociedade portuguesa.
Fundou o bar “Botequim”, onde cantou durante muitos anos, transformando-o no ponto de reunião da elite intelectual e política nas décadas de 1970 e 80.
Organizou várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”.
Natália Correia foi uma versejadora de êxito, uma mulher carismática com uma vida social intensa, não fez concessões à mediania e notabilizou-se por uma vasta obra intelectual.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

São Tomé e Príncipe : Capital das Ilhas completou 491 anos de elevação à cidade, em 22 de Abril de 1535, por Carta Régia do Rei de Portugal Dom João III.- Ameaçada por fortes inundações por via das alterações climatéricas, que também tem vindo a provocar grandes estragos em vários pontos das ilhas.

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 


Referem noticias que as Inundações, em São Tomé e Príncipe, provocam prejuízos materiais de mais de 8 milhões de dólares por ano: Um dos exemplos é a de Vila Malanza,, que, sofreu um forte impacto com as mudanças climáticas, ficando vulnerável à chuva e à consequente subida das águas.

Alterações climáticas e aquecimento global poderão inundar faixas de litoral da África Ocidental, até ao final do século, admitem investigadores

Chuvas e ventos fortes, continuam a sentir-se em ambas as ilhas, com prejuízos enormes, As agressões à biodiversidade aceleram estes fenómenos atmosféricos de consequências imprevisíveis - Os chamados tornados são fenómenos inesperados e difíceis de prever, e então agora com as alterações atmosféricas por vida das deflorestações e do aquecimento global, ainda mais se irão acentuar-se


São Tomé Capital de STP, completou 491 anos de elevação a cidade. Foi em 22-04-1535, por Carta Régia do Rei de Portugal Dom João III, em 22 de Abril de 1535 -Já lá vão 591 anos. -  Esta elevação, impulsionada pelo crescimento demográfico e económico ligado à produção de cana-de-açúcar, consolidou a importância da ilha no contexto colonial português no século XVI

Não se sabe ao certo o ano e dia da chegada dos Portugueses, às Ilhas do Golfo da Guiné.  Há mais dúvidas de que certezas. Era cómodo fixar uma data e julgo que foi o que sucedeu
Referem os compêndios da História Colonial, que a ilha de São Tomé foi descoberta por navegadores portugueses, especificamente João de Santarém e Pêro Escobar, no dia 21 de dezembro de 1470 (dia de São Tomé), no Golfo da Guiné. A ilha do Príncipe foi descoberta pouco depois, a 17 de janeiro de 1471


São Tomé, recebeu a visita do Príncipe Real Luís Filipe de Bragança, em Julho de 1907, na primeira visita de um príncipe as colónias portuguesas de S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, e ainda as colónias inglesas da Rodésia e da África do Sul, quando regressava passou por Cabo Verde. - – Que, certamente, não deixaria de ter ouvido falar daquele que viria a ser o último rei dos angolares, do último capitão (capitango) dos Angolares, Simão Andreza, considerado como o rei da etnia angolar  – Ou mesmo de o ter conhecido. Não se sabe exatamente a data do seu falecimento, mas  diz-se que faleceu no principio do século XX, sem deixar descendentes.



Em 1641, os holandeses ocuparam São Tomé, mas os portugueses recuperaram a Ilha em 1644. Em 1709, os corsários franceses ocuparam a Cidade de São Tomé por quase um mês. Em 1753, a capital foi transferida para Santo António, na Ilha do Príncipe. A capital retornou para São Tomé em 1852.

DEFENDO A TEORIA DE QUE AS ILHAS JÁ ERAM HABITADAS POR NAVEGADORES DE CANOAS DA COSTA AFRICANA Além dos vestígios arqueológicos que localizei nalguns pontos da costa marítima de S. Tomé, desde gravuras a machados e mós de pedra, bem como do lema gravado do Infante Dom Henrique, demonstrei essa possibilidade através das travessias que efetuei de canoa no Golfo da Guiné: de S. Tomé ao Príncipe; de São Tomé à Nigéria; de Ano Bom à Ilha de Bioko, antiga Ilha de Fernando Pó, Guiné Equatorial.

A costa oriental africana era amplamente conhecida pelos navegadores árabes séculos antes da expansão portuguesa, com rotas comerciais estabelecidas até Sofala (Moçambique) e conhecimentos astronómicos que influenciaram a navegação europeia. Navegadores árabes, como os da costa de Melinde, foram cruciais na orientação de Vasco da Gama no Índico

(construção da canoa Yoan Gato - que usei na minha última aventura de 38 dias a bordo de uma piroga ) Sim, defendo a teoria de  que os primeiros povoadores, aqueles que, pela primeira vez,  aportaram nas suas baías,  foram os hábeis navegadores das canoas, vindos da costa africana. 

Demonstrei essa possibilidade através das várias travessias que empreendi - De resto, não será por mero acaso que as canoas surgem nas cartas do século XVII, com idêntico destaque ao das caravelas
Em minha modesta opinião, a história das descobertas prima mais pela ficção e efabulação de que em dar-nos conta do que se verdadeiramente se passou. Mas o fenómeno da sublimação foi transversal a outras potências coloniais.

Canoe, Rivers Province, Nigeria

A GRANDE EPOPEIA AFRICANA NÃO PODE SER IGNORADA -  - O continente africano é o berço da humanidade: foi daí que irradiou o Homo sapiens . Os seus homens e mulheres, povoaram lugares nunca dantes povoados; atravessaram continentes, criaram civilizações, culturas e formaram reinos - E, mesmo os que nunca dali partiram para a grande aventura da Diáspora, tinham os seus costumes, as suas tradições e  as suas hierarquias - Eram livres à sua maneira.  

Quando os europeus demandaram a costa de África, já os africanos, há muito mais tempo, haviam sulcado o litoral marítimo, subido e descido os rios e ligado as ilhas limítrofes  com as suas pirogas talhadas em enormes troncos de árvores

O  europeu veio mais tarde para retalhar os espaços geográficos à mercê das suas conveniências, corromper  os próprios comerciantes de escravos (sim, porque a escravatura, é tão antiga como o homem) ficando  eles com a fatia de leão: para dividiram territórios, humilharem, dominarem e escravizarem as populações a seu belo prazer, usurpando as suas riquezas

MAS OUVE QUEM REPARASSE NESSE FACTO: - Para alguns cartógrafos do século XVII, as pirogas assumiam a mesma importância  que as caravelas - lá tinham as suas razões: ambas dominavam os mares no Golfo da Guiné  -
 Jodocus Hondius (1606; 1628 or 1633)...Bertius (1649), mapas onde as canoas não são ignoradas



O PASSADO JÁ NÃO PODE SER ALTERADO, REPETIDO OU MODIFICADO: A ligação histórica, afetiva e cultural de Portugal, é indubitável,  com as  Ilhas Verdes do  Equador, tanto S. Tomé e  Príncipe, como Ano Bom e Bioko, ex-Ferando Pó, - Só que, muito antes dos portugueses, ali terem desembarcado, havia outra realidade que nunca foi dita e persiste em ser ignorada  

Deve ser investigada e estudada sem preconceitos ou reservas de qualquer espécie para melhor compreensão da origem de um pouco e da própria identidade 

Os tempos já não se compadecem, nem com obscurantismos nem com hipocrisias ou submissões mas devem ser de frontalidade e de esclarecimento. Só compreendendo as verdadeiras raízes históricas, se alicerça o momento presente e se parte com coragem e determinação para os desafios do futuro. 

Pouco tempo após ter desembarcado em S. Tomé, em 1963, fiquei logo com a impressão de que as ilhas, eram possuidoras de uma história muito mais antiga, que a admitida pelo colonialismo. Aos povos africanos, situados no litoral e a sul de São Tomé, não teria sido difícil aproveitar a direção dos ventos e das correntes.



Do alto das velhas muralhas do Fortim de São Jerónimo, onde tantas vezes olhava a espuma que ali ia rebentar nas rochas negras e contemplava o mar ao largo, sim, muitas vezes ali me envolvi em prolongadas cogitações. E só via o mar... Só pensava, obsessivamente, nas distâncias e nas entranhas do mar.!.. Olhava-o com pasmo e respeito, mas queria sentir-me também parte dele! Ser mais um elemento do mítico e misterioso oceano! Ir por ali a fora numa das ágeis pirogas.! Desvendar segredos esquecidos no tempo!






Oh, e quantas vezes ali mesmo, não experimentei as estreitíssimas cascas de noz, navegando em frente ou embicando na areia da pequena praia ao lado, naqueles meus habituais treinos, ao Domingo, vindo da Praia Lagarto (ao fundo da descida a caminho do aeroporto), passando em frente da Baía Ana Chaves, Fortaleza de São Sebastião, costa da marginal, Praia Pequena e ponta do Forte de São Jerónimo -e, por vezes, ainda um pouco mais a sul, à Praia do Pantufo.


São Jerónimo era geralmente a baliza de chegada e de retorno ... E, também, muitas vezes ao fim da tarde e pela noite adentro, era o meu local preferido (até por ficar um pouco isolado e retirado da cidade) para me familiarizar profundamente com o mar.

Lembrava-me das façanhas dos pescadores são-tomenses, dos seus antepassados que demandaram as ilhas, dos barcos negreiros que ali aportaram e também dos nossos marinheiros (antes desse vil mercado) que por aquelas águas navegaram; imaginava quantos naufrágios e sofrimentos aqueles mares, já não teriam causado.

Sabia dos muitos perigos que me podiam esperar - não os desdenhava! mas entregava-me ao oceano de coração aberto, possuído de uma enorme paixão, em demanda dos grandes espaços e de uma infinita liberdade, tal qual as aves migradoras! Olhava-o como se fosse já meu familiar e meu amigo. Embora sabendo que a sua face, quando acometida de irascível crueldade, havia sido palco de muitas tragédias, havia engolido muitos barcos e tragado muitas vidas. Contudo, eu não ia ali apenas movido pelo prazer da aventura: só por isso, não sei se compensaria... Mas orientado por razões mais fortes

Havia algo, no fundo de mim,  impelido como que por um pendor sobrenatural inexplicável que me fazia acreditar que, mesmo que apanhasse alguns sustos, tal como já havia acontecido em anteriores viagens, lá haveria de sobreviver e de me safar!.

O mar também é generoso quando quer ... A sorte protege os audazes e acreditava que o mar haveria de compreender os objetivos pelos quais que norteava o meu espírito e a minha temeridade.

Quando Luís de Camões escreveu na estância XII do V Canto de "Os Lusíadas"
"Sempre, enfim, para o Austro a aguda proa,
No grandíssimo golfão nos metemos,
Deixando a Serra aspérrima Leoa,
Co Cabo a quem das Palmas nome demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas, que ali temos,
Ficou, coa Ilha ilustre, que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou."

"O contributo dos Portugueses para uma nova visão do Mundo e da Natureza  é essencialmente informativo e empírico (baseado nos sentidos). Como escreveu Pedro Nunes: “os descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram indo a acertar…” Pois os nossos marinheiros: “…levavam cartas muito particularmente rumadas e não já as que os antigos levavam"


"Enquanto os gregos avançavam na área da cartografia, os romanos estavam ainda num estágio anterior. Utilizando uma forma de representação primitiva, situavam Roma no centro do Mundo e davam maior importância ao registo de rotas" (..)Durante muitos séculos, os mapas foram um privilégio das elites – apenas reis, nobres, alto clero e grandes navegadores e armadores tinham acesso a esse tipo de informação. Só com a invenção da imprensa de Gutenberg, em meados do século XV, os mapas puderam ser mais amplamente utilizados. " In. Uma nova visão do Mundo - contributo português


AS CANOAS DE  SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE SÃO MAIS PEQUENAS QUE AS DO LITORAL AFRICANO -  As ilhas são montanhosas e as roças também não permitiam o abate de  grandes árvores - Mas a ligação dos primeiros povos foi  realizada a partir da costa africana para as ilhas à vela e a remos. Atualmente, são frequentes as viagens da Nigéria para São Tomé, com auxílio de motores fora de borda- O regresso é feito à veja e a motor.


ILHAS DO PACÍFICO - Povoadas por navegadores de canoas - Tal como refere o autor do livro "O OCEANO PACÍFICO" L.F. Hobleiy - Quando os europeus chegaram ao Pacífico, praticamente todos os habitantes das suas ilhas como das suas praias eram de origem asiática.

Esses extraordinários navegadores, que foram chamados, com propriedade, "os navegadores supremos da história, devassaram todo o Pacífico e colonizaram todas as ilhas, algumas delas isoladas a milhares de milhas da vizinha mais próxima e não dispondo de bússola ou qualquer instrumento náutico.

Estas canoas, protagonistas de tão fabulosas viagens, eram construídas com pranchas de madeira, com entalhes nos bordos, unidas e fixadas com fibras de coqueiro. Algumas dispunham de um estabilizador lateral, espécie de flutuador mantido a uma certa distância dum dos bordos da canoa por uma armação de madeira e destinado a evitar que aquela se voltasse.

Outras eram construídas por dois cascos , unidos a meio por uma armação sobre a qual se levantava um castelo. Envergavam velas latinas, de esteira, dispunham de remos para quarenta e cem homens e transportavam como alimento, nas suas viagens, galinhas, frutos e carne, envolvidos em folhas de palmeiras e cocos, que serviam de combustível e bebida. Levavam também água no interior oco de compridos bambus, e ainda animais vivos, como porcos, cães e aves domésticas

Os antepassados dos atuais índios da América, vindos da Ásia, atravessaram o estreito de Beringna Idade da Pedra- há cerca de 10 mil anos - espalharam-se pouco a pouco pela , até à América do Sul

Também os chineses teriam atravessado o Pacífico antes dos europeus, a dar-se crédito às histórias da exploração de Hee Li à costa americana., perto de São Francisco, no ano 200 antes de Cristo.
Durante o império romano, os marinheiros gregos aprenderam os segredos das monções e correntes marítimas do oceano Pacífico Ocidental, ao longo da costa sul da China. Quando, porém, o império romano se desmoronou, também esse tráfico marítimo se perdeu e com ele o conhecimento do Extremo Oriente. Depois, foram os comerciantes árabes que estabeleceram um entreposto comercial em Cantão, cerca do ano 300 , e durante mais de quatro séculos os navios árabes cruzaram estas paragens.

Ilhas maravilhosas! - Verdadeiros paraísos verdejantes, orlados de espuma, situados no Equador! Perdidos como frondosas umbelas de Deus no meio do mundo. Comemoram, no próximo dia 12 de Julho, 36 anos sobre a data da sua independência. Mas o seu passado histórico é bem mais longínquo, que o apregoado pelos manuais da colonização.

A história nunca pode ser riscada ou apagada do tempo e da vida - Sejam quais forem as origens, as suas transformações ou adversidades: há que recordar as suas páginas - Os seres humanos, que surgiram na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos, seja em que ponto for da Terra, são fruto de uma amálgama de origens, de cruzamentos, de fatores, que advém de um ínfimo mas milagroso acaso.