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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

COSTA CONCÓRDIA E A COBARDIA DE FRANCESCO SCHETTINO: PORQUE ABANDONASTE O TEU BELO E IMPONENTE NAVIO?!...NÃO SABIAS QUE ELE E OS PASSAGEIROS FAZIAM PARTE DA TUA VIDA?!

- Jorge Trabulo Marques - Jornalista e antigo Navegador Solitário

O naufrágio do Costa Concordia, um dos mais graves naufrágios da história italiana, ocorreu em 13 de janeiro de 2012 . Às 21h45min07s, o referido cruzeiro atingiu o grupo de rochas conhecido como Scole , próximo à Ilha de Giglio , na Itália . O navio era propriedade da empresa de navegação Costa Cruzeiros , do grupo Carnival Corporation & plc , e era comandado por Francesco Schettino.

O naufrágio causou 32 mortes entre passageiros e tripulantes e, no julgamento subsequente, o Comandante Schettino foi condenado a 16 anos de prisão. Esta tragédia detém o recorde do naufrágio do navio de passageiros de maior tonelagem da história  https://it-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Naufragio_della_Costa_Concordia?_x_tr_sl=it&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt-PT&_x_tr_pto=sc


"Que Deus tenha piedade dele, mas nós não podemos ter nenhuma", disse promotor sobre o ex-comandante do Costa Concordia"Vada a bordo": promotoria pede pena de 26 anos a Schettino

  É no mar que se conhecem os mais belos exemplos de coragem e de abnegação. -  Os de cobardia, são muito raros. Porque é justamente nesse imenso palco, no meio das suas adversidades,  que as fraquezas  do homem se transformam em forças, os medos se esbatem e esquecem e só há lugar para a coragem, para que o ser humano transcenda a sua própria natureza. O náufrago, indiferente ao perigo,  se solidarize com o infortúnio dos que vivem a mesma tragédia e se irmane no mesmo sentimento de dor, de compaixão, do comum apelo à sobrevivência, sinta que a sua vida se reparte com os que lhe estão próximos, com a sorte daqueles que o mar ameaça tragar. A luta é individual mas o  espírito que os une é colectivo!... É como se a dor e angústia perpassasse por um só corpo.E, todavia, quantos sentimentos e aflições se debatem nos mesmos instantes ou momentos de abandono e desespero!...

E, se porventura, a cobardia  ensombra e aplaca a lucidez, a inteligência, a autodisciplina, o equilíbrio mental,  altera as capacidades de decisão, a força de vontade, naquele a quem todos confiam o rumo do  navio, que o conduza  a salvo a bom cais ou a porto seguro, oh! miserável fraqueza humana!.. Quão  insensato impropério! Quão horrenda situação, renegada vilania e cobarde acto! 


Oh! a tragédia a regar os  cravos dos sacrilégios no mais líquido e pavoroso Inferno! Ó velas dos antigos veleiros de piratas, corsários rindo de desdém e ao vento,  em  mares sombrios e sonoros, em noites  de trevas lívidas e marmóreas! Lançados ao saque, como lobos esfaimados, em épicas contendas, sobre os convés de caravelas naufragadas, como escombrosos fantasmas, perdidos, desgovernados e desamparados!  Ó selváticos vampiros, feras cruéis esgrimindo desvairada e  sangrenta ferocidade,  deixando para trás o incêndio, o fogo e a morte, em  violenta e apressada fuga com o sangue dos mártires transformado no vil metal de ouro e prata!.. Ó pálida e mesquinha face dos cobardes e dos egoístas!. De quantas vidas e mortes vos alheastes!






Ó capitão do Costa Concórdia!....Já viste, como deixas-te, o  esplendoroso barco que comandáveis, por erro e incúria  vossa!!.. Ele, que agora jaz de costado, resvalando - ao que dizem - para o abismo, se não lograrem segurá-lo, qual moribundo que prolonga a sua morte até cair na cova ou funda sepultura!..  .

Quando o curso da viagem é abruptamente interrompido e o naufrágio salta à vista!... Olhai em vosso redor!.. O duelo com o mar é sempre um pitoresco e nobre desafio, o eterno sobressalto nas águas fatais e confusas mas  também a sacra oportunidade  da alma se elevar e revigorar num suspiro de heroicidade e brilho! Portai-vos como bravos!...

Ó comandante do Francesco Sachetinno! Que ares infames de cobardia ou de vício vos toldaram o cérebro?!...Que pérfida comédia foi essa, assombro ou susto de experiente marinheiro?!...Porque voltaste as costas ao vosso belo navio?!... A pouco mais de uns escassas dezenas de metros das rochas!... Porque vos retiraste?!... Porque razão– na hora mais grave e heróica -, vos acobardaste! – E, abandonaste, em confusa e atribulada salvação, aqueles que acreditaram e confiavam as suas vidas, em aprazíveis dias de férias e de evasão, no imponente navio cruzeiro?!

 

Oh! Quem me dera viajar até aos distantes mares do sul e ouvir o comandante a gritar da ponte: canoa ao mar!!...Ouvir de novo a mesma ordem::  A canoa estorva! O barco tem que pescar!!... Ou  fica a bordo a trabalhar ou meta-se já dentro dela e borda fora!!.. – Eu optei por ir para o mar abraçado à minha frágil piroga!.. Preferia naufragar – como, de resto, à noite o destino, em alteroso mar bravio, atiçado pela violência de inesperado tornado, assim mo reservava – mas jamais (eu que a comandava, eu que era seu fiel marinheiro) a abandonaria solitária  à mercê da fúria dos ventos tempestuosos, das misteriosas correntes e das enormes vagas!







A noite ia alta, o mar encrespado!  
E, apesar da fadiga e do cansaço 
da faina de um longo dia de pesca, 
parecia que ninguém queria ir aos beliches.
Ao meu lado, vários olhares apreensivos,
ainda envergando as habituais capas,
embora já bastante acostumados
aos horrendos cenários do tornado,
perfilavam-se volvidos e concentrados
além da escotilha!.. Todos viam,
com assombrosa nitidez, através
da embaciada ocular janela,
as constantes investidas do  mar
medonho, ameaçador, convulsivo!
Fustigando o barco, que balançava
da proa à popa, ao convés - varrido!

 .
Via-se e ouvia-se, em cada negra vaga
que os relâmpagos a espaços iluminavam,
o revolto remoinho, o tumulto enegrecido
e pálido que se erguia,  o turbilhão violáceo
das águas a rebentar e a estrondear!...
- Sim, não nego, não desdigo tudo isso!
O pavor que tudo aquilo me infundia!
O temor  daquela pavorosa imagem!
A  noite era povoada de escombros
e de assombro! - Também o meu coração!
Tudo aquilo, me infundia estranho medo,
causava-me alguma inquietude e apreensão,


Não vás amigo! Fica junto de nós a trabalhar!
Não te vai faltar nada! – Não vês como bravo está o mar?!...
Não vás irmão!...Não te queiras  afogar!..Não vês a morte!...
Não vês a tempestade, a ameaça do mar a  espreitar-nos?!...
Mas eu preferi envolver-me no que ele tem de generoso e colérico,
fazer dos seus humores, calmarias ou tempestades, o meu desafio,
confiar nos caprichos e ditames do destino da boa ou da má sorte!
Por isso, na manhã seguinte, mal o sol equatorial  raiou a despontar,
como que emergindo do fundo do vasto manto azul circular: à voz
de "canoa ao mar"! Lá fui sozinho à minha vida, rumo ao Norte!
Desiludido por não ter sido largado um pouco mais a sul e a oeste,
lá parti, de regresso a São Tomé, pelo desconhecido oceano a fora!

Partira de São Tomé, a bordo do pesqueiro americano Hornet  para ser largado na grande corrente Equatorial, rumo ao Brasil,evocando antiga rota dos escravos  - e, na verdade,  pouco mais faltavam que umas escassas milhas para o ponto desejado - Porém, aqui o comandante, embora faltando à palavra, não  fora cobarde:  quisera demover-me da ousada aventura, oferecendo-me trabalho a bordo; era prudente e cauteloso, receava que o frágil madeiro escavado, não suportasse as investidas do mar.E as três noites que passei  a bordo foram  horríveis, escotilhas fechadas, ninguém podia ir ao convés, ondas a varrerem-no de ponta a ponta ! - "Você vai morrer!... Fique connosco a trabalhar!"..Diziam-me alguns dos marinheiros, que vinham a espreitar ao meu lado o vendaval da noite cerrada!.. .Estava-se em plena época das chuvas, o mesmo cenário iria repetir-se na noite seguinte.

Em parte, tinha alguma razão - mas apenas pelo facto de ir sozinho e  a canoa necessitar de mais braços.Mesmo assim, lutei e sobrevivi durante 38 longos e atribulados dias. Pois, o que há de mais perigoso, mortífero  e assustador, não é o mar largo! São as áreas costeiras -  Eu sabia, que, afastado dos tornados e calmarias do grande Golfo da Guiné, não teria tantas dificuldades!  - A bem dizer, foi o que aconteceu ao Costa Concórdia: aproximou-se demasiado da costa, o pedregulho podia não constar na carta náutica mas estava lá - E os escolhos não se vêm à vista desarmada e, quando o sonar, o equipamento do navio, dá por ela, já é tarde: a imprudência paga-se cara. Lá diz o velho ditado: "o que há de perigoso no mar é a terra" - E foi sempre o que eu mais receei: pois não podia prever onde chegava, em que ponto iria aportar,  a que horas da noite ou do dia me poderia aproximar de chão firme. A simples bússola não bastava.


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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

SÃO TOMÉ DOCES MARES! - “SI DOLCE È’TORMENTO CH’IN SENO MI STA, CH’IO VIVO CONTENTO PER CRUDA BELTÁ NEL CIEL DI BELLEZZA S’ACCRESCHI FIEREZZA ET MANCHI PIETÁ



"Tão doce é o tormento que dentro de mim está. 
que eu vivo contente por cruel beleza;
 No Céu de beleza cresce a frieza
e falta piedade"








Si dolce è’l tormento

Versos de Claudio Monteverdi

Si dolce è’l tormento
Ch’in seno mi sta,
Ch’io vivo contento
Per cruda beltà.
Nel ciel di bellezza
S’accreschi fierezza
Et manchi pietà:
Che sempre qual scoglio
All’onda d’orgoglio
Mia fede sarà.

Excerto de Monteverdi - Si Dolce e'l Tormento | Magnificat

 




Escura é a noite, escuros os  caminhos dos mares e dos céus
que se me abrem em todas as direcções....E também  escuros
serão certamente os caminhos que  me conduzirão a Deus...


Vou indo à deriva, sereno e grave, sem precisar de ninguém
Pois, mesmo que precisasse, ninguém me estenderia a mão!
Atento e indiferente - Vestido com as vestes da nocturna solidão.
Absorto com a crua verdade transfigurada do  assombro!
As trevas adensam-se na atmosfera e, por tão habituais,
quase  já não me impressionam, não me comovem.
Fazem o seu percurso. Eu  vou no seu seio mas não sei bem qual é o meu...
Fazem o seu percurso.. Eu não sei qual é o meu..
Vou indo solto mas subjugado.. Sou para aqui um despojo a mais

Sim, as sombras estão por todo o lado e também invadem o meu coração!
- Vagueio sem destino  com a coragem e o medo que ainda não sei vencer.
Não recuo a nada....Porque, enquanto tiver algum medo é sinal de que vivo....
Vou indo com o soooar do mar! Com o mar que soa! Com o mar que brâaame!..
Vou indo, derivando com o mar que voa!... Com o mar a bramaar!

Sou o cavaleiro andante sonhando acordado!... Sonhando cavalgando
este vasto largo, neste imenso mar!... Sonhando e cavalgando o mar..
porque, ao sonho, não há limites nem barreiras
e a noite acompanha-me nos meus sonhos,
os astros estão ocultos, longínquos e escondidos,
o silêncio foi submerso pelo rugido do vento e do mar,
só a roupagens da noite, as tenho por  únicas companheiras!..














Mas, ó  piedade impiedosa dos céus!..
Nenhum sinal de vida! Ninguém...Vivalma!
Só as vagas.... e atrás das vagas, outras vagas ainda!
O vento soluça e geme. Perpassa-me pelos ouvidos
como um fino acorde - Estou envolto nele.
Sonâmbulo abandono o meu, estranha vida!...
Onde irei numa noite de breu assim?!.. A que distância
haverá um porto de abrigo?!... As nuvens correm
sobre a minha cabeça, galopam enroladas e escuras!..
Quase me esmagam e sufocam!..Em que ponto
do mar ou do céu poderei pousar o meu olhar?!..

Bravio deserto! espectral cenário! - Estranha e cruel beleza!
Quem se compadece de mim?!... Tão prolongado já vai
o sofrimento, a angústia que me aplaca e não se esvai,
que, de tanto penar neste deserto varrido e sombrio
e, dos céus cerrados, vir somente a indiferença e a frieza,
sim, tamanha já  é a minha dor, a amargura intensa que não se me apaga,
que, esta contínua incerteza, este permanente amargo sofrer,
este   resignado sentimento que me fustiga e perturba,
se transforma, simultaneamente, não só em persistente dor
mas também num misto de sereno e doce contentamento!
Como se eu fosse - mesmo diluído e  errante como as sombras-
O Deus de mim próprio e das escuras névoas, o meu próprio Criador!





É o vento, são as vagas -Há um marulho que tumultua, se levanta e uiva.
Soergo-me ajoelhado, tímido levanto o húmido oleado com que cubro a piroga,
envergando ainda a capa com que durmo, debruço-me sobre a  frágil borda,
espreito por uma nesga o que vai lá fora, olho a noite de olhar turvo e arregalado
para descortinar o que vai ao largo.... É o fuzilar de relâmpagos e mais relâmpagos
a rasgar negridão. Fico preocupado..Além dos sinistros raios a incendiar o mar,
além de mim, nada mais  ouço que o uivar do vento e, nos confins, agora o trovão!
Nada mais enxergo que manchas difusas, vultos disformes sobre a imensa vastidão...
Vultos e atrás desses vultos, outros ainda maiores se enrolam, alterosos e escuros.
Em vão perscruto o denso horizonte, a ondulante massa que  meus olhos cega e turva...
Em vão, neste  longo tormento, nem a lua nem as estrelas, dão sinais da sua existência.
Só farrapos de penumbra!... Névoas espessas que pairam à superfície  lívida e líquida!
Novelos fantasmagóricos, baixos e fugidios que se movem como se fossem navios fantasmas!..
Nenhum raio de luz vem do alto!..E, no entanto, as águas enrolam-se e reflectem um brilho baço
Não há uma aberta, um  assomo de claridade!..Sinto-me agora mais triste, sozinho e abandonado!
Imerso numa paz podre e angustiante, tendo por cenário, um quadro  que tem tanto de sombrio,
como de horrível e belo - E, traz nas pastosas vagas que se revolvem e quebram ao meu lado,
a ameaça iminente de mais umas longas e atribuladas horas de vigília,  de sono perdido
enfrentando as sucessivas investidas, que nunca se sabe donde vêm e donde partem!
O que eu sei é que o ambiente do mar e da noite se altera, as vagas encrespam-se!
Quando é de dia, vê-se donde vêm as ameaças! Porém, quando à noite
sobrevém o tornado ou a tempestade, tudo é medonho!..Não há palavras!..

Deixem que eu chore minha cruel sorte...

Vento e vagas! negros estão os mares e os céus!
Dentro de mim, onde vogo, em redor ao largo e ao alto
reina a solidão e o peso da noite mais funda! - Estou só!
Angustiado, face ao  abandono do mundo e de Deus.
Estômago a dar horas, encolhido e vazio como um fole!
Em vão aperto o cinto, martirizado por  fome atroz!
Sequioso de água potável - Corroído e atormentado
pela sede  - No equador o sol é a pino! Agora que eu faço?!..
Água potável, só a das chuvas ou recurso à do salgado mar!
Oh, sim!..Dorido das chagas, as feridas da muita humidade,
das pústulas  que me cobrem as partes! Vogando enfim
por caminhos ínvios que eu não sei - Silente e prostrado,
taciturno no fundo  de mísero esquife que flutua- Deste caixão
vergastado vogando na solidão de escuras águas de espuma!
Solitário e silencioso, nem um murmúrio balbucio mas sofro.
E choro por vezes as lágrimas sofridas da minha cruel sorte.
Errando na confusa superfície, derivando à toa e sem norte!
Qual vida sem rumo ou névoa que se esbate, esvai desfaz ou apaga.
Qual moribundo! Qual Cristo que espia descido da cruz do calvário!


Não desesperado, não rendido mas já mais inseguro e menos calmo,
sem que alguém me responda, inquieto, pergunto ao meu coração:
- Serei apenas a onda fugidia que se ergue franjada e se desfaz?!..
O espectro diluído e esfumado, a alma  errante de outro mundo?!..
Afinal, o que serei eu à flor deste mar negro fugidio e encapelado?!...
Serei o homem só no vasto oceano revolto vogando perdido
à espera de cair  no tumultuoso negrume da  mais horrível tumba,
envolvido pelos dedos crespos do mais insondável poço ou abismo?!..

Ó negros e opacos céus, ó negros e corridos mares!...
- Longe já vão essas noites nas densas trevas envolto
pelo bafo  permanente da aragem viscosa da morte,
as vergastadas  ou os salpicos violentos da salgada espuma!
Todavia, quão perto os tenho ainda na minha memória!
Quão posso agradecer a Deus e aos Céus, a minha sorte!


(...) Devem ser  oito horas... É noite do 30º dia. Choveu, como previra, no fim de tarde. Por acaso apenas foram os reflexos de uma trovoada que deve ter ocorrido, lá para longe, lá para o sul... Mas as vagas estão demasiado fortes!... O que veio realmente dar um certo desequilíbrio à canoa.

Há formações de nuvens negras a norte, noroeste...Vejo que algumas estão realmente a deitar chuva.Noutras bandas....vê-se a escuridão. E, para o sul, não sei se ainda terão chuva....Espero...Só peço a Deus que a noite não seja chuvosa.....Porque é muito chato...

Não comi nada...Quer dizer, limitei-me a comer as barbatanas do tubarão que tenho aí. Tentei pescar mas não consegui absolutamente nada!... Hoje, digamos, é um jejum limitado a água.... Não pude arranjar mais nada, visto ter estado ocupado quase todo o dia com o remo improvisado para dar a direcção à canoa..." Excertos do meu diário de bordo  - registado para um pequeno gravador que preservei no interior de um antigo caixote do lixo  - O meu baú - imagem ao lado


A terminar ocorre lembrar-me de uns poemas de Henri Michaux  - Sim, houve noites e dias, em que cheguei a desejar o fim do meu calvário:

Bebendo um pouco de água do mar (foto obtida com a outra mão)

"Náusea ou é a Morte que se Aproxima"

Rende-te, coração.
Lutámos tempo de mais,
Que se acabe a minha vida,
Não fomos cobardes,
Fizemos o que pudemos.

Oh! Alma minha,
Ou ficas ou vais,
Tens de te decidir,
Não me apalpes assim os órgãos,
Ora com atenção, ora com desvario,
Ou vais ou ficas,
Tens que te decidir.

Eu, por mim, não posso mais.

Senhores da Morte
Nem vos aplaudi, nem blasfemei contra vós.
Tende piedade de mim, viajante de tantas viagens sem
bagagem,
Sem amo, sem riqueza, sem glória,
Sois de certeza poderosos e ainda por cima engraçados,
Tende piedade deste homem transtornado que antes de
saltar a barreira já vos grita o seu nome,

Apanhem-no no ar,
E, se for possível, que se adapte aos vossos
temperamentos e costumes,
Se vos aprouver ajudá-lo, ajudai-o, peço-vos.

Henri Michaux - In Equador

domingo, 1 de janeiro de 2012

ESCRAVATURA DE SÃO TOME E PRÍNCIPE PARA AS AMÉRICAS - BARCO NEGREIRO ATIRA AO MAR DEZENAS DE ESCRAVOS

                               LANÇADOS AO MAR SEM DÓ NEM  PIEDADE

O Zong tinha uma tripulação de 17 homens quando deixaram a África, que era pequena demais para manter as condições sanitárias adequadas no navio. Marinheiros dispostos a risco de doença e de rebeliões de escravos  em navios negreiros eram difíceis de recrutar na Grã-Bretanha e eram mais difíceis para encontrar para um navio capturado dos holandeses ao largo da costa da África.  O Zong estava lotado com  tripulação holandesa, marinheiros desempregados contratados dos assentamentos ao longo da costa Africano. 
O Zong havia tomado em mais de duas vezes o número de pessoas que poderia transportar com segurança, quando partiu de Accra com 442 pessoas escravizadas em 18 de agosto de 1781. 
 (...) Depois de tomar em água potável em São Tomé , a Zong iniciou a sua viagem através do Oceano Atlântico para Jamaica , em 6 de setembro. Em 18 ou 19 de novembro, o navio aproximava-se de Tobago , no Caribe, mas não conseguiu parar lá para reabastecer suas fontes de água. Pormenores em:   Zong massacre - Wikipedia

Contrariamente ao que é dito, no romance de Alberto Vázquez-Figueroa, o barco negreiro não zarpou de S. Tomé mas passou por esta ilha para se abastecer de água - No mais, a versão parece corresponder aos factos referidos por outros autores -

"O caso mais famoso de matança de escravos num navio negreiro deu-se em Setembro de 1781, a bordo do Zong, de Liverpool, que largou de São Tomé com um carregamento de quatrocentos e quarenta escravos e dezasseis tripulantes.Uma calmaria imobilizou o barco , que se viu a braços com uma epidemia que matou sete tripulantes e sessenta negros. A maioria dos sobreviventes ficou tão debilitada pela disenteria que seria duvidoso que alguém desse alguma coisa por eles na Jamaica. Em 29 de Novembro, já à vista das Índias Ocidentais, o capitão Luke Collingwood informou os seus oficias de que só havia duzentos galões de água, o que não chegava até ao fim da viagem. Se os escravos morressem de sede ou de doença, os prejuízos recaíam sobre os armadores do navio e sobre ele. Mas, se fossem deitados ao mar, o seguro pagaria a indemnização legal.



O imediato manifestou o seu total desacordo, afirmando que havia água suficiente e que talvez chovesse.Porém, o capitão Collingwood fez orelhas moucas a todos os pedidos de clemência que lhe fizeram, «mandou apartar centro e trinta e dois escravos e obrigou a tripulação, por turnos, a atirá-los ao mar.O primeiro "fardo", cinquenta e quatro escravos, foi lançado aos tubarões nesse mesmo dia. A 1 de Dezembro foi borda fora mais um grupo de quarenta e dois. Nessa noite choveu bastante e apararam água suficiente para todos até ao porto. Mas o capitão tinha o seu plano estabelecido e, uma semana depois, mais vinte sete negros foram manietados e obrigados a andar em frente, no convés, até caírem ao mar. Dez saltaram de moto próprio, sem necessidade de "auxílio dos marinheiros".


«A 22 de Dezembro, o Zong chegou a Kingston. Luke Collingwood vendeu os seus escravos.Alguns, que ninguém quis comprar, abandonou-os no molhe. Lá morreram de fome e sede. No último dia da sua estada em Kingston mandou a maioria da tripulação para terra. Então, de surpresa, mandou levantar ferro, acusando os marinheiros de deserção. Assim evitava pagar-lhe quase um ano de soldo. Collingwood gabava-se de enganar os compradores dos seus escravos atacados de disenteria, pelo simples processo de mandar o médico tapar os cus dos doentes com estopa".



"Quando chegou a Liverpool, Luke Collingwood reclamou à companhia de seguros trinta libras por cada um dos centro e trinta e dois escravos que tinha mandado deitar ao mar." - Transcrito directamente do livro ÉBANO- De autoria de .Alberto Vázquez-Figueroa



MAS A ESCRAVATURA NÃO ACABOU - E CONTINUA NA ACTUALIDADE SOB OUTRAS FORMAS..

.



ONTEM OS BARCOS COM PORÕES ATULHADOS DE ESCRAVOS, ATIRADOS IMPIEDOSAMENTE AO SUFOCO E À MORTE HORRÍVEL NAS ÁGUAS DO MAR! - HOJE CAMPOS PEJADOS DE ABANDONO E FOME, ANTE A MAIS INCRÍVEL INDIFERENÇA! - MÃE ÁFRICA BERÇO DA HUMANIDADE! PORQUÊ ESTA TRISTEZA, ESTAS LÁGRIMAS E ESTA FATALIDADE?!......


Imagens depois da Independência de S. Tomé

A escravatura foi a maior das barbaridades ao longo dos tempos. Foi sempre um comportamento cruel e desumano onde quer que se expandisse. Não só em África, como em todas as partes do mundo. Mas houve lugares onde a mesma se transformou num tenebroso interposto comercial - foi o caso da Ilha de são Tomé.

Ilhas tão maravilhosas, como as de São Tomé e Príncipe. De  facto, estes dois belíssimos paraísos verdes, não mereciam que a escravatura, uns milénios ou séculos após o seu primitivo povoamento por povos da costa africana, ali assentasse arraiais. E escravizasse quem já ali  vivia  pacificamente, mas também os muitos milhares de africanos, que, arrebatados das suas aldeias, para ali foram transportados e obrigados a trabalhar à força.  Por outro lado, encontrando-se a Ilha de S. Tomé,  numa situação geográfica privilegiada, em relação ao Golfo e ao Equador, cedo deu lugar a que, a par da escravidão nas suas plantações, se transformasse numa autêntica plataforma de embarque e desembarque de escravos..

 O que se passou ao longo dos cinco séculos de colonização, foram, pois, arbitrariedades sobre arbitrariedades, que ficariam no esquecimento.

Desde o inicio das primeiras plantações da cana do açúcar que a escravatura,  para ali importada,  foi acrescida com constantes navios de escravos.. A terra era fértil e o clima quente e húmido, favoreciam o desenvolvimento da sacarose. O produto poderia não ser da melhor qualidade, dadas as dificuldades da sua conservação, porém, as colheitas eram abundante e a cobiça e ambições ainda maiores. Havendo, por isso,  necessidade de mão-de-obra escrava. E foi o que sucedeu: - com absoluto desprezo para as vidas desses pobres desventurados. Carrada após carrada de porões atulhados de barcos negreiros,que ali aportavam. Uns, para os depositarem, outros para ali depois os transportarem para as Américas

  PRIMEIRA BARBARIDADE DA COLONIZAÇÃO COMEÇOU POR SE ENVIAREM CENTENAS DE CRIANÇAS JUDIAS, ARRANCADAS AOS LARES MATERNOS.

«No ano de 1493, em Torres Vedras, deu el-rei a Álvaro de Caminha, cavaleiro de sua casa, a capitania de ilha de S. Tomé, de juro e de herdade, com cem mil réis de renda cada ano, pagos na casa da Mina. E porque os judeus castelhanos, que de seus reinos se não saíram nos termos limitados os mandou tomar por cativos, segundo a condição da entrada, e lhes tomou os filhos e filhas pequenos, que assim eram cativos, e os mandou tornar todos cristãos, e com dito Álvaro de Caminha os mandou todos à dita Ilha de S. Tomé, para que sendo apartados dos pais e suas doutrinas, e de quem lhes pudesse falar na lei de Moisés, fossem bons cristãos, e também para que crescendo e casando se pudesse com eles povoar a dita ilha, que por esta causa em diante foi em crescimento. Crónica del rei D. João II, de Garcia de Resende, cap.CLXXIX. Em 1522 foi incorporada nos bens da coroa

(actualização - 30-11-2014 CARSTEN WILKE NÃO LOGROU PROVAR AS FONTES, SENDO CONTESTADO PELO INVESTIGADOR GERHARD SEIBERT

Num e-mail que o reputado investigador Gerhard Seibert - teve a amabilidade de nos enviar, disse-nos o seguinte: “Aquela afirmação que Cristóvão Colombo cruzou-se no mar com o navio das crianças judias em 1493 parece ser uma invenção do autor Karsten Wilke.

Eu escrevi três vezes para Karsten Wilke pedindo de me enviar a sua fonte para tal afirmação. O senhor nunca me respondeu o que me levou a concluir que ele inventou este encontro no alto mar.”  


Esta é a versão de Carsten Wilke, autor de  História Carsten Wilke publica síntese de 20 séculos 

Cristóvão Colombo e as crianças judias deportadas para São Tomé, em 1493 


"Aqueles de entre os judeus espanhóis que, por impedimentos, indigência ou medo ficaram retidos em Portugal tornaram-se «cativos do rei» no final do mês de 1493....Entretanto, durante dois anos e meio, uma grande parte dos judeus vivendo em Portugal foi baixada à servidão e colocada nas casas da aristocracia. Essa degradação não terá talvez implicado a perda total da sua personalidade jurídica, mas fez perder aos pais o direito sobre os filhos com menos de oito anos, que lhes foram arrancados por ordem real e baptizados...D.João II havia dado essas crianças escravas de presente ao capitão Álvaro de Caminha, senhor da ilha africana de São Tomé. Aquando da sua segunda viagem em Outubro de 1493, Cristovão Colombo cruzou-se no mar com os navios em que se encontravam deportados esses jovens, que deviam povoar a colónia. As fontes judaicas afirmam que a maioria dessas crianças sucumbiu: umas no decurso do trajecto, Outras por causa do clima da ilha tropical."


Fonte: Carsten WilkeLisboa: Edições Dom Quixote 2009, pp. 60/61.aotome : Message: Cristovão Colombo e as crianças judias..


"Quando as crianças foram colocadas nos navios, na presença do Rei, os seus choros e gritos eram terríveis. Quem nunca viu nem ouviu os choros e gritos dessas mulheres jamais chegará a entender o que significa desconsolo ou preocupação - Vale a pena ler o resto em O 'PROGRAMA DE DEPORTAÇÃO' DE EXILADOS HISPANO-LUSITANOS À ILHA DE SÃO TOMÉ (1492-1496).

 DE CANOA PELA ROTA DOS ESCRAVOS..
No dia em que fui largado ao mar, do pesqueiro Hornet, junto à Ilha de Ano Bom, mal imaginava que iria viver uma das mais dramáticas situações de sobrevivência, por náufragos nas vastas superfícies oceânicas. O meu objectivo era a travessia do Atlântico, pela corrente equatorial, seguindo a antiga rota dos escravos. Pretendia evocar esses tempos ignominiosos e lembrar ao mundo que a escravatura, ainda não tinha acabado – Continuava (e continua) a existir sob várias formas. Pretendia, igualmente, reforçar a minha teoria, já testada em duas viagens marítimas anteriores, que as canoas eram capazes de fazer longas viagens e de terem servido de transporte para os primeiros povoadores das ilhas de Ano Bom, São Tomé e Príncipe Bioko ( a ex-Fernão Pó) . Com a posterior divulgação de antigos mapas, entretanto localizados em velhos museus e bibliotecas, ficou-se a saber que, antes dos europeus, ali terem desembarcado, as ilhas já tinham nomes e constavam nalguns desses mapas.



Lívidos de angústia,
esmagados pelo terror,
esfomeados e esfarrapados,
sedentos de compaixão e de amor,
e, ainda por cima, oh! pobres desgraçados,
acorrentados e lançados vivos ao mar!...

Acreditai  irmãos!..Se nesta mesma hora -  ainda de escombros! -,
o vosso espírito vagueia por este odioso mar de assombro,
e me estais vendo e ouvindo, acreditai-me que as lágrimas
que agora choro, são também as vossas!
- É ainda o eco alarmante,
claro e nítido, incessante,
daquela hora grave - maldita !
Que vos roubou as vidas!

 Vindo dos insondáveis espaços!
Vindo do fundo das trevas! Vindo do tumulto do mar!
Vindo do fundo dos abismos e da superfície
lívida e contorcidas das águas!

Ainda reverberando em ecos de estranha violência!
Bramindo fatídicos sons de álgida insensível crueza.
Errando e ecoando por um céu denso, raiado e negro,
que se desfaz em húmida fuligem,
em novelos de denso fumo
e parda nuvem negra!...