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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

32º Dia -Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!... Digam lá o que disserem!... Neste mar!...Infinito!... Um coco vir-me parar às mãos?!... Isto é obra de Deus!!!.....Não é outra coisa!... Meu Deus!.. Tem-me ajudado muito! Até para enfrentar estas vagas!


 Algures no Golfo da Guiné, 21 de Novembro de 1975


A aurora mal começara a irromper,  já eu me remexia no fundo da canoa e me levantava para avaliar as condições atmosféricas do novo dia. Ontem, quando me deitei, já a horas tardias, ainda caíam alguns chuviscos, esperando, todavia, que, ao amanhecer,  o tempo se recompusesse - Vejo, porém, que o tempo continua instável; encontro-me envolvido num autêntico inferno cinzento. Estou para aqui todo encharcado, devido aos balanços desatinados deste madeiro flutuante,   que me arrasta não sei para onde, sobre um mar exaltado de espuma 



O MAR NUNCA SE DESLIGA DAS PRAIAS - POR ISSO, CONTINUO A CONFIAR QUE ELE ME ARRASTE PARA UM DOS SEUS MISTERIOSOS RECANTOS..

Do que observo à minha volta, disso vou dar conta no meu diário gravado, cujo gravador  voltei a retirar do meu baú de plástico, um velho caixote do lixo

 Diário de Bordo  De noite choveu ligeiramente. O mar, a partir de certa altura, mostrou-se cavado. Ainda tentei pôr a vela. mas, tive que voltar a tirá-la, visto estar bastante agitado

Esta manhã verifiquei a existência de pequenas ervas. Paus... dejetos de  aves...Também observei a passagem de uma garça...Portanto, tenho a impressão que realmente estou muito próximo  da praia.

Já comi qualquer coisa. Aliás, comi a ave que ontem apanhei. Não tenho já o estômago vazio... Entretanto, logo que chegue a terra, terei que arranjar outra coisa... Para já, estou um bocado otimista!... Vou pôr a vela... O mar está cavado!... Mas vai permitir a colocação da vela.... Portanto, com um bocado de dificuldade, vou ver se consigo apressar a minha aproximação... até à costa africana.... Claro que de manhã é difícil  ver os contornos de terra... Só de tarde é que me  é possível.... De manhã o horizonte apresenta-se sempre com uma certa neblina. É impossível ver-se.... Mas tenho um pressentimento de que não estou muito afastado.

A única obsessão que me domina neste momento é imaginar-me a arrastar a canoa  sobre a areia quente e macia de um qualquer recanto da costa, ladeado pelos frondosos e esbeltos coqueiros,  com a suas frondes debruçadas sobre as águas límpidas e cor de esmeralda ou por uma espessa floresta de abundantes e frondosas árvores tropicais, onde possa saciar-me de saborosos frutos. 

Não me desagradava que não vivesse lá ninguém. Pelo contrário, até desejava que isso acontecesse. Pois não me importaria de viver a experiência que viveu o lendário Robinson Crusoe . Apreciei muito as façanhas relatadas por  Daniel Defoe. É um livro maravilhoso, que persegue o meu imaginário desde a minha juventude... Acho que é o maior sonho de qualquer náufrago, que se perca nas águas quentes do Atlântico, do Pacífico ou do Indico: depois de sobreviver às mil adversidades do mar, que este ao menos o conduza ao encontro  de um pequeno paraíso, solitário e tranquilo, onde possa restabelecer-se dos tormentos por que passou.  .Mas, por agora, essa imagem idílica não passa de um sonho

 As ondas continuam muito feias, a fustigar-me  a canoa numa dança, quase de enlouquecer. Sinto-me fraco e trémulo da fome e do cansaço. Não é possível ter um sono reparador. Os enormes chapes, chapes, na madeira, acordam-me, e, por vezes, até me cortam a respiração.  Se  não é a chuva, são os constantes safanões e batidas  das vagas sobre o costado da canoa. É depois o consequente chincalhar da água que se acumula no fundo, que entra pelas rachas e que não me dá descanso. Pois, de volta e meia, lá tenho eu de pegar no vertedouro. 

Quando o mar está mais bravo, é impossível adormecer. Sempre que preciso de me movimentar para qualquer trabalho ou acudir a esta ou àquela necessidade, cambaleio como uma bêbado Água para beber, das chuvas, não me tem faltado. Ainda se dispusesse de pesca ou de alimentos, mas não  tenho nada para comer, com que matar a fome...  A ave que, ontem apanhei, já a  comi mas só era pele e ossos. Oh. mas não posso desistir. Mesmo sem remo adequado, tenho que me esforçar por navegar. Sei que é uma luta tremenda, mas lutarei enquanto puder!...Só Deus sabe, porém, o meu esforço..  Nas calmarias fico imobilizado, e, quando o mar está agitado, torna-se muito difícil navegar.

Diário de Bordo 2-Coloquei a vela, durante cerca de três quartos de hora, mas devido à violência do mar - pois as ondas estão bastante alterosas - é impossível continuar  a velejar!... A canoa ameaça virar a cada instante... Cá ando à deriva... Talvez até chegar à praia!.... Realmente, faz-me passar tantos trabalhos!... Parece impossível!... Não havendo qualquer trovoada, o mar estar assim nesta situação!... O vento não é muito mas o mar está agitadíssimo!

Já vi aqui a existência de mais alguns paus, bambus, manchas...  Mas não vejo ainda quaisquer contornos da costa africana. Pois há muita neblina no horizonte, lá longe... De qualquer modo, tenho um pressentimento que me estou a aproximar.... Sinceramente, o mar aqui está muito bravo!... O mar aqui está realmente difícil! Com ondas fortes!  



Impedido de velejar,  procuro um pouco de descanso mas não consigo ter o mínimo de condições. A bem dizer, já nem sei que posição me será menos incómoda. Deitado, fico com as costas doridas e, se me sentar, com  as nádegas numa chaga, devido à humidade e outras pústulas que me apareceram nas partes, se me sento, torna-se-me um tormento, insuportável... Indo de pé, sinto tonturas e é demasiado arriscado, porque as pernas fraquejam-me e falta-me o equilíbrio. Por isso, que alternativas poderei eu então escolher?!... Bom, embora não sendo lá muito confortável, resolvi pôr-me de joelhos. 

Com as mãos agarradas às bordas da canoa e com a barriga dobrada sobre uma das travessas, até para tentar atenuar a dor e o enorme vazio que me vai no estômago, enquanto, por outro lado, os pés e a parte das pernas, vão sofrendo uma permanente e desagradável maceração, devido à salmoura que se acumula no fundo da canoa e que não pára de chincalhar. Se a canoa navegasse normalmente, não sofreria tantos  embates das vagas. Mas. à força das suas constantes investidas, já  rachou em várias partes. A água entra por essas  rachas e outra salta dos vagalhões que rebentam contra os bordos. À medida que me aproximo da costa, o perigo é cada vez maior. 





Ao largo, o mar enrola, sobe, eleva-se em alterosas montanhas, ondula, num sob e desce permanente,  mas não provoca tanta rebentação. Sim, a maior ameaça não está no alto mar mas na aproximação à terra. Então, se houver uma tempestade, o perigo ainda é maior! Mais difícil se torna o equilíbrio. Vamos lá a ver em que circunstâncias me poderão aproximar. Por agora, o meu pensamento, não vai tanto para os inúmeros perigos que me rondam, mas para a  sua fragilidade. Estas são, pois, as interrogações e as preocupações que me acodem ao pensamento e que vou transmitir  para o pequeno gravador.



Diário de Bordo 3 - Espero que a minha canoa, continue a portar-se bem. Pois, como já disse algumas vezes, está desequilibradíssima! O que me tem dificultado sobremaneira a minha viagem... Mas... há outro pormenor importante, é que ela mete água! E cada vez mete mais água!... Tem várias rachas! Está estalada!.. Enfim, espero que até à praia ela ainda resista....

ARRASTADO SOB O EFEITO DE UM BRAÇO DA CORRENTE DAS CANÁRIAS QUE BORDEJA A COSTA DO BIAFRA 

Diário de Bordo  4 A direção que estou a tomar é completamente diferente do habitual.... Estou a navegar no sentido de oeste para este... Quer dizer... as correntes aqui têm outra direção... Aliás, eu já esperava... que junto à costa tivesse outra direção... Estão quase acompanhar a costa... Portanto, vão retardar a minha aproximação.... Tenho cá um pressentimento que vai ser arrastada  para aos Camarões.... Porque a canoa está a derivar muito para leste. É natural que isso aconteça. Esperemos...

Não podendo colocar a vela,  acabo por me deitar. O espaço físico é estreito, olho o imenso céu mas sinto-me ao mesmo tempo como que um prisioneiro encarcerado. Flutuo  sobre um vasto abismo, certamente agora já não tão profundo, como lá mais para sul,  mas, se a canoa rachar completamente e se partir, é o bastante para me engolir e me afogar.

Todavia, há que manter a serenidade  e não desesperar. Tenho que me abstrair e saber  preencher o tempo, as longas doze horas do dia. Trago alguns livros mas agora não os posso ler.... Doem-me muito as costas e os balanços não me permitem que me entregue  a leituras. Só posso divagar o espírito. E é o que vou fazer, servindo-me do pequeno rádio, que guardo no meu baú - Do qual também retiro o modesto gravador para registar mais umas breves palavras.

.Diário de Bordo  5 Entretanto, indiferente à bravura do mar... estou aqui deitado no fundo da canoa, ouvindo música de estações africanas - O meu pequeno transístor ainda resiste, as pilhas vão ficando fracas mas ainda o posso sintonizar em várias emissoras africanas.

Infelizmente, não foi por muito tempo. No começo da tarde, o tempo refrescou, o céu cobriu-se de negras nuvens, que trouxeram  fortes chuvadas, deixando-me completamente extenuado. A chuva costuma quebrar o ímpeto das ondas, mesmo assim,  o mar enfureceu-se. Tenho lutado sempre por viver mas agora depois de mais estes dolorosos tormentos, sob forte chuvada torrencial, perpassa pela minha mente, alguma resignação. Estou profundamente extenuado. Sinto-me mais morto de que vivo. Completamente encharcado, com a água ainda a escorrer-me  pelos cabelos e pela barba. Sou para aqui  um fantasma de mim próprio. Não faço ideia que hora sejam
.
UM COCO PRODIGIOSO VEIO PARAR JUNTO À CANOA E MATAR-ME A FOME -

Diário de Bordo  6 Não sei neste momento que hora serão...Serão já umas tantas da tarde.... A verdade é que, desde há quatro horas, enfrentei sucessivas trovoadas!....O mar, como não podia deixar de ser, ficou bastante agitado! A canoa sempre a encher-se de água!... Fiquei todo alagado... Estava convencido de que estava muito próximo de terra.... mas neste momento não sei onde me encontro!... Não sei se a trovoada me favoreceu nem senão...Já estive a limpar a canoa... Agora deixou de chover!... Há uma ressaca que se continua a verificar.... Tive a felicidade, digamos assim, de encontrar um coco!... Foi uma sorte para mim... Vi vários mas só pude apanhar um! E creio que foi um autêntico milagre!... Vou aproveitá-lo, pois tenho muita fome!...

No mar vi vestígios de óleo... que me dão a impressão de não estar muito longe de terra... A verdade é que foi um dia exaustivo!... Estou exausto!!...Estou cansado!... O mar deu-me muito trabalho!... As vagas muito fortes! E a chuva torrencial!!...Durante quatro ou cinco horas não parou de chover!... Não sei se ainda voltará a chover... Neste momento, não está a chover....








DUAS BALEIAS À VISTA 

Diário de Bordo - Vi duas baleias na altura da trovoada. Muito próximas! Mas isso não me assustou... O que me estava a preocupar era realmente o tempo que a trovoada estava a demorar... Pois espero que me tenha favorecido... Continuo a não desesperar ... mas estou cansado!... Tenho fome! Muita fraqueza!... Estou a aguentar... Estou tentando... Estou tentando não me precipitar... Por suportar isto com serenidade.

De qualquer modo, o esforço tem sido insano. O meu coração teve que aumentar o ritmo das suas pulsações. Os meus pulmões, o meu cérebro, em suma, todo o meu organismo, não se poupou a um trabalho exaustivo, quase sobre sobre-humano. Ainda bem que apanhei o coco. Apareceu em boa hora. Pois não sei o que seria de mim se não o tivesse achado. Até parece que foi uma dádiva providencial a permear  a heroicidade da minha luta e do meu combate. Fosse como fosse, veio em boa hora. Primeiro extrai-lhe a casca com o machim, depois fiz-lhe um furo no extremo e levei-o imediatamente aos lábios para lhe aproveitar a água. Pouca mas muito saborosa!... Soube-me muito bem. De seguida, e após me ter deliciado com tão divino néctar, foi a vez de me servir da sua amêndoa - Eis como exortei com esse momento:

SABOREANDO O COCO DIVINAL..

Diário de Bordo 7 Já estou a comer o coco, meu Deus!... Mas que coisa tão saborosa!... Tão maravilhosa!... Isto foi Deus!!... Isto foi Deus que mo ofereceu!... Eu vi-o realmente à distância!... Eu não acreditava que ele passasse junto da minha canoa!... E veio mesmo ter à minha canoa!... Um belo coco! Tinha água... e tem uma bela amêndoa!  Estou a comê-lo!... Estou a tentar matar a fome com ele!... Para mim foi a melhor oferta!... Não podia ser melhor coisa.... este coco!... Não sei donde ele veio! Mas a verdade é que .... veio ao meu encontro! Ele veio ajudar-me! a preservar a minha vida!... Estou muito satisfeito por este coco!...

 A satisfação mistura-se com uma comoção que raia as lágrimas. E, à medida que o vou comendo, com insaciável apetite, no meu espírito reforça-se a imagem de que foi a mão de Deus que finalmente se lembrara de mim, Por isso, ao mesmo tempo que  o reparto por bocadinhos, que avidamente vou levando à boca e mastigo, com a outra seguro o gravador, como que possuído por  um crescente e comovedor fervor religioso, para que tão sublime momento, não deixe de  ficar registado à posteridade.

 Diário de Bordo  Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!... Digam lá o que disserem!... Neste  mar!...(choro) Infinito!... Um coco vir-me parar às mãos?!... Isto é obra de Deus!!!... Isto é obra de Deus!!... Não é outra coisa!... Meu Deus!.. Tem-me ajudado muito! Até para enfrentar estas vagas!

Sim, e, com o cair da tarde,  atrás de  enormes vagas, outras vagas  alterosas, vão sucedendo, descomunais e loucas! Crescendo e avançando em tenebroso carrossel, cuja escuridão não tardou que tomasse conta de céu e do mar. Tornando a solidão à minha volta, ainda mais sinistra e negra. Nem sequer me permitindo descortinar os  contornos da própria canoa. Sim, tão intensa é a sua ondulante negridão!... No entanto, mesmo diluído nas suas sombras, não  me sinto perdido nem desesperado. Invade-me uma sensação de profunda melancolia.  Sou como que possuído por uma espécie de sentimento sobrenatural  de aceitação mas que me obriga a ficar em permanente estado de vigília.  O  mundo para onde estou sendo arrastado é um mundo de trevas, convulsivo e fantasmagórico! Não é possível ser descrito por palavras: é  mundo intemporal.... Noite  tormentosa, infinita!... Agitação! Escura noite! Imensidão!.. Nuvens cerradas, espessas e baixas, que parecem tocar as montanhas e os contornos das não menos escuras águas!...   Não sei como lutar porque tudo quanto possa ameaçar-me, remove-se em torno de mim na mesma imensa negridão!.. .Sei apenas que não posso desistir de viver e, por isso, vou continuar atento enquanto o meu coração palpitar.




           A minha canoa mantém-se imperturbável...
               Está totalmente alheia à grande incerteza
                  e aos muitos fantasmas que me povoam a alma...
                      À inquietude que absorve o meu coração.
                         E voga pelo negrume varrido  da noite
                            como se nada tivesse a temer!...
                                É admirável a sua altiva galhardia!  
                                    Parece conduzida por uma estranha força
                                        que a leva a um  ponto preciso da vastidão!...
             
      
 Mas, oh Deus!  Eu queria dormir!...
             Necessitava de descansar, adormecer!...
                  Cair em sono agora e acordar ao amanhecer!
                         Ser como o rude barqueiro,
                               que ao fim de uma longa jornada,
                                    dura e sem descanso,
                                         encosta o seu barco à margem e dorme...
                                            embalado pelo sussurrar da ramagem que o envolve!...
                                                  Mas aqui, é o mar a bramar! a bramar!...
                                                       É  o mar sem fim e sem fundo!...
                                                             Não há margens, nem portos de abrigo!..
                                             
                                                                        É a noite eterna!... É um  outro  mundo!..





quinta-feira, 8 de novembro de 2012

31º Dia - A canoa a meter água cada vez mais!.... Isso preocupa-me um bocado. A fraqueza a invadir-me o corpo... Tenho que ter calma. Muita calma! Mas, sinceramente!... Tudo tem limites..


 Algures no Golfo da Guiné, 20 de Novembro de 1975




Diário de Bordo 1-  Hoje é manhã do 31ª dia. Passei uma noite incómoda. Não consegui conciliar o sono. Fiquei praticamente sempre acordado. O mar muito cavado, fortemente cavado! Devido possivelmente a trovoadas vindas do sul ou de outras bandas...Próximo da canoa apenas choveu ao fim da tarde de ontem...  A noite pôs-se normal, até com aberturas de luar muito bonitas!... Eu é que não consegui dormir em toda a noite. A pensar na minha vida... Até agora tenho pensado no mar, nas dificuldades a vencer no mar...mas esta noite estive a pensar  em terra.... Porque, efetivamente, eu tenho de ter um destino...certo... Comecei a pensar o que é que eu irei fazer agora... Portanto, esta noite os meus pensamentos ocuparam-se no que vai a ser a minha vida em terra.









A ideia de que, dentro de pouco tempo, hei-de alcançar chão firme, já não é bem uma interrogação; a partir de agora é quase uma certeza. Talvez pelo facto de, quando em quando, se me depararem, aos meus olhos, no horizonte difuso, os seus  contornos. Claro que a vida a bordo não melhorou de maneira alguma. . Porém, o meu cérebro, que até agora tem vivido numa constante preocupação  com as dificuldades da minha sobrevivência no mar, estranhamente,  passou a ocupar-se mais no que será a minha vida quando chegar a terra. Havia-me esquecido de pensar em tais questões. Sinto-me mais na pele de    um vagabundo de que um náufrago e preocupa-me o meu futuro. 

De facto, tenho concluído que esta vida errante, não é nada boa.Terei que viver uma vida mais tranquila e menos sobressaltada. Mas como?!...O que é que eu irei fazer quando chegar a terra?!..Como irei ser recebido e que será depois a minha vida?!... .Estive quase 13 anos em São Tomé. Tudo quanto ganhei foi gasto nos meus caprichos aventureiros. Não trago um centavo comigo. De resto, eu já estou habituado a uma certa forma de vida incerta e cheia de dificuldades e vicissitudes. Parti para São Tomé, com a idade de 18 anos.


A princípio fui para ali trabalhar numa roça mas comecei por não me adaptar, lá muito bem. O administrador da roça queria que eu tratasse os trabalhadores  negros por tu. Dizia ele que era "a maneira de guardarem respeito ao branco" e de eles trabalharem". Evidentemente que não me adaptei... E o dinheiro que me pagavam ao fim do mês, comparado com as promessas que me fizeram,  depois de feitos os descontos para alimentação e pagamento da viagem, não me ficava quase nada.  Claro que não fui para São Tomé com o objetivo de fazer fortuna, mas esperava que ao menos me atribuíssem uma compensação humanamente digna. E então os pobres  trabalhadores ?!... Autênticos escravos!.. 



Por força dessa minha inadaptação, o meu passa-tempo predileto, era então o mar...Praticamente, desde que ali desembarquei, vi nele uma espécie de refúgio. Qualquer coisa onde me sentia livre de todos os aborrecimentos. Um horizonte sempre aberto e imenso, que me abria as portas a uma incontível ânsia de ir mais além na procura de uma felicidade imaginária  que naquele meio ambiente eu não encontrava. 
  


Por isso, sempre que podia, frequentava as belas praias de São Tomé. Comecei por manter estreitos contactos com os pescadores, homens corajosos e simpáticos. Aprendi a equilibrar-me nas suas canoas, começando primeiro por dar pequenos passeios de praia em praia., até que por fim veio a paixão - E, a par disso, também outras interrogações: perguntava-lhes se já tinham ido de canoa à Ilha do Príncipe, respondiam-me que "só canoa de gente de feitiço" é que o tornado a levava ao Príncipe ou ao Gabão; "outra, vem gandú (tubarão), vira a canoa e come-lhe a perna" . Achava que era uma superstição, sem fundamento e  havia que desfazer esse fantasma: concluía que, se o tornado arrastava para lá a canoa, involuntariamente, também lá se podia ir por vontade própria. Face a essas lucubrações, comecei a pensar que, um dia, eu devia fazer-lhe essa demonstração - A par disso, questionava-me também sobre o seu passado longínquo: se não teria sido através das canoas que os seus ancestrais não teriam vindo do continente africano.



Foi, pois, graças a esses contactos  com os pescadores santomenses, quando trabalhei na Roça Ribeira Peixe,  que  iniciei a minha aprendizagem sobre a técnica da arte de navegar nas suas frágeis pirogas e que o espírito de aventura marítimo, se me foi desenvolvendo. E, alguns anos depois, simultaneamente,   o desafio da escalada ao Pico Cão Grande, que ali se ergue, numa zona onde existem várias aldeias dos hábeis pescadores "angolares".-  Na verdade, não é pois  a riqueza material que mais me interessa. Mas também não é o desejo de me tornar famoso, a razão pela qual tenho arriscado a vida. Sim, porque,  excetuando   esta última viagem marítima, tenho partido clandestinamente, sem dar conhecimento para  onde vou e o que vou fazer. Sem o apoio, aprovação ou a reprovação de quem quer que seja. 

Não tenho meios de comunicar com ninguém. Disponho apenas da orientação de duas bússolas: uma que trago no pulso, como se fosse o meu relógio, outra fixada  junto à ponte da proa. Se morrer afogado no mar eu tenho a certeza que ninguém vai saber  o que me aconteceu ou chorar nesse momento a minha falta.  Mesmo a família, da qual tenho estado bastante ausente. A minha mãe faleceu, dois anos depois de eu ter chegado a São Tomé . Sei que o meu pai, os meus dois irmãos e a minha irmã me não  esquecem. Mas a vida deles e de todos os meu familiares, é como se fizesse parte de outro mundo...Quem é que poderá imaginar onde eu agora estou e a fome que me tortura e a solidão em que  me encontro? Amo a natureza e vejo no mar a mais íntima  forma da sua aproximação. Cada vez mais me sinto atraído pelo seu misterioso canto. O isolamento é uma forma de o encontrar, de mergulhar na sua indescritível magia. Sim, fisicamente, sou para aqui um farrapo humano. Uma criatura desprezível,  as forças vão-me  faltando. Sem nada com que matar a fome. No entanto, talvez por isso mesmo, mais purificado, mais sensível e fortalecido espiritualmente. Sim, porque o mar não é só esta imensa vastidão. O mar é vida. Umas vezes meigo, suave, dócil, belo e acariciador; outras vezes, cruel, impiedoso, impaciente e infernal

Agora, nesta manhã acinzentada, não será bom nem mau, nem triste nem alegre: ondula, freme, move-se numa turbulência que nem me agrada nem me desagrada. Não me encanta nem desencanta.. É realmente terrível o seu poder. Não é egocêntrico. Não vive apenas para dentro dele. Transmite e afeta todo o meu estado de alma. É pena vê-lo agora encrespado, tão sisudo e não tão comunicativo como costuma ser. Mesmo assim, faz-me sentir próximo dele. Embora, com outras palavras, é o que vou já transmitir  para o meu gravador - O fiel registo dos meus sentimentos, que guardo como se fosse o cálice de um sacrário no meu baú de plástico, um velho contendor do lixo, que o meu amigo Germano Castela, fez o favor de me dispensar.




Diário de Bordo 1 (continuação) Esta manhã  aparece com o mar relativamente cavado, com uma certa  carneirada. O céu nublado. Não totalmente mas com nuvens escuras que ameaçam chuva. ..Um pormenor curioso a que eu não fiz referência: na noite de ontem, eu tive oportunidade de observar um eclipse  total da lua.



18/Novembro/1975fonte de dadosOcorre um eclipse total da Lua, sendo observado em Fortaleza pelo Observatório Herschel Einstein, cio astrônomo Cláudio Pamplona.

 Portal da História do Ceará



A noite em que observei um eclipse total da Lua - Calculo que por volta  da meia-noite - - O céu e o mar ficaram mais negros que nem na mais negra noite de tempestade - Não se enxergava um palmo à frente do meus olhos - Nem sequer os contornos da piroga - Durante quase hora e meia foi como se o mundo não existisse. O mar e o céu pareciam unidos nas mesmas sombras e pela mesma  escuríssima cortina - Senti uma profunda solidão! - Tanto mais que havia mais nuvens que abertas, que por sua vez iam também eclipsando as estrelas   e tornando-as ainda mais longínquas  - Além de que o mar permaneceu toda a noite muito cavado. Mas não poderei dizer que fosse uma noite muito anormal - Pior teria sido se chovesse. Direi que a observação daquele Eclipse lunar foi apenas um episódio em mais uma longa noite de vigília e de reflexões na  minha vida.




Devo estar mais próximo do continente africano. Já parece impossível, não é ?!...Depois de tantos dias de ter largado e não ter atingido a costa africana!... Claro que  as trovoadas têm-me feito andar para aqui às aranhas de um lado para o outro!.... Vou pôr  a vela, já. A ver se atinjo, hoje, finalmente, terra!

Quando o mar está calmo a canoa não tem tanta velocidade. É natural que a noite passada tenha andado bastante.... devido à força que as vagas lhe imprimiram.

Diário de Bordo 2- É quase meio-dia e ainda não consegui navegar nada! Já por três vezes tentei pôr a vela.... e não há vento!.. Quer dizer, aqui, quando há trovoadas há vento demais e é impossível  navegar! Quando não há trovoadas, há calmarias e o mar é um lago!... Agora o mar não dá qualquer hipótese, visto não haver força de vento suficiente para impulsionar a vela. É irritante!...Sinceramente!... Esfomeado que estou!...

Encontro-me para aqui próximo, muito próximo!... A canoa a meter água cada vez mais!.... Isso preocupa-me um bocado. A fraqueza a invadir-me o corpo...Não tenho anzóis que deem para pescar os peixes que aqui há. Os anzóis que disponho são para peixes muito grandes e o nylon é fraco. A situação não é desanimadora mas também não é muito agradável. Tenho que ter calma. Muita calma! Mas, sinceramente... Tudo tem limites... 

 Diário de Bordo 3 Agora, neste preciso momento,  talvez quatro horas  da tarde, apareceu um enorme! um gigantesco tubarão! Mesmo gigantesco!! Estava deitado no fundo da canoa.... e senti roçar!... Depois vi logo que era um tubarão! Pois investiu várias vezes contra a canoa!... À proa! À popa! Até que eu agarrei no machim  e consegui dar-lhe umas machinadas na cabeça!  E então fugiu!...Não sei onde é que ele agora se encontra! Mas, efetivamente, é um monstro!!.. Uma coisa pavorosa!... Um monstro autêntico!... A acompanhá-lo havia uma série de peixinhos!...

Diário de Bordo 4-  Acabei agora de pescar um peixe  à mão!...Andava aqui... Consegui!...O gajo, mesmo cortado, estava a escapar-se! Era o que faltava!... Claro que estou a comê-lo  cru!... Sabe-me perfeitamente bem!...

Diário de Bordo  5 -  Estou satisfeito!...Já comi o peixe cru  e soube-me bem!...Estou a ver perfeitamente contornos da costa africana, que ainda é um bocado distante.... 

Finalmente consegui pôr a vela e parece que há um ventozinho que me vai tocar para lá...Veremos quando...






Diário de Bordo  6 Esta é uma melodia (melodia africana) que eu gosto imenso!...Aqui no mar sabe tão bem!... Realmente, há trechos musicais que, nestas circunstâncias, são mesmo muito apreciados...
.
Diário de Bordo  7   É pura e simplesmente irritante!... Não há vento absolutamente nenhum!... Quer dizer, não posso velejar e tenho a costa, tão próxima! ...É realmente muito aborrecido!

Diário de Bordo  8. Já se pôs o sol do 31º dia. O dia esteve praticamente de calmaria!... Ligeiras brisas... que não deram para navegar...

Voltei apanhar uma ave. Pousaram duas: uma à proa e outra à popa. A outra fugiu!... Tenho-a aqui para a comer amanhã.... 

 A costa africana. sei que não fica distante... É natural que esta noite tudo se modifique... Há uma formação de nuvens muito escuras a sueste, que devem trazer chuva, com certeza...Portanto, é isto apenas que tenho agora a dizer.. E que amanhã outras novidades melhores possam surgi