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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

33º Dia - Estou exausto!... Neste momento apetecia-me chamar ... Pai!... Afinal, você tinha razão!.... Porquê?!... Meu filho!..... Esta tarde vi grandes toras!... Grandes paus!! E eu confundia-me com tudo isso!... Como um ser desprezível!...

Algures no Golfo da Guiné, 22 de Novembro de 1975







Foi há 37 anos... O relato do meu diário, relativo ao 33º dia (o gravado, sublinhado a azul) foi registado precisamente, neste mesmo dia do mês, mas já foi há muito tempo - Muitos que me irão ler, ainda não tinham nascido. Perguntar-me-ei, hoje:  o que seria agora o meu corpo tragado no fundo do mar?!...Se calhar - por entre as algas e os sedimentos daqueles fundos abismos, sobre os quais voguei -  já nem sequer restasse a   sola das minhas sandálias.

Sim, estou vivo.  Dou graças a Deus! - Imerso pelo rolar terrível  das ondas e do grito afogado do vento, à deriva em tão minúsculo esquife  e ainda ter sobrevivido?!...Só por Obra e Graça de Deus e por Divino Milagre!... - E, todavia, não sou católico, mas reconheço que me valeu nunca ter perdido a confiança, ter sempre lutado e também nunca ter perdido a fé, que me foi ensinada em criança  -  De facto,, já não sou o tradicional católico, mas acredito em algo sobrenatural. 

Se o ter  nascido é já por si um milagre de Deus,  - pois quem é que ainda duvida que haverá milagre maior e mais maravilhoso de que um nascimento ou a reprodução das espécies?!... No entanto, o ter resistido, a tão dura provação - e o leitor há-de ver que as maiores tormentas, por que passei, ainda estavam por vir -  sim, não sei se não será menos espantoso como o milagre de a minha mãe me ter parido numa noite fria de Janeiro, no seu modesto leito habitual e sem parteira.


NOITE NEGRA, LONGA E TEMPESTUOSA E DIA CHUVOSO, CINZENTO E TRISTE - MAIS UM LONGO E TORMENTOSO CALVÁRIO  DE FOME. E DE INCERTEZA.

A manhã amanheceu baixa  e plúmbea: despertou com uma enorme tristeza de lágrimas. Ou será  porque  sou eu que me sinto imensamente triste?!... O mar ressoa a sua fúria nervosa, ainda não se acalmou, e o sol, perdido que parece estar lá pelos confins do seu habitual giro, dificilmente hoje irá  fazer a sua aparição e mostrar  a pino o esplendor do seu sorriso equatorial.

A noite foi longa e tumultuosa, com ondas intermináveis! Cada minuto tinha a dimensão da imensa negridão e, cada hora, mais parecia uma eternidade. Ondas rugidoras e lúgubres, ameaçavam cuspir-me a todo o momento para o sinistro sorvedouro, que se ocultava e estendia numa compacta massa tumultuante. Horas intermináveis, horas terrivelmente infinitas! Flutuando perdido ao sabor do rolar de vagas furiosas. Mas, finalmente, tenho um novo dia pela frente!... Sinto-me muito fraco e abatido, mas felizmente ainda estou vivo - Assim o testemunha o meu diário gravado, que defendo do mar no meu baú - um antigo caixote do lixo

Diário de Bordo 1 Passei uma noite, exaustiva!... De chuva... O mar extremamente agitado e muito perigoso!...A manhã continua com um mar cavado, com muita ressaca!...Há vento!... E eu sem ver a costa de África... Estou muito fraco!... Muito fraco!... Vou tentar colocar a vela... Vou ver se consigo  fazer  alguma coisa neste mar extremamente difícil e perigoso! 

 Mas é-me quase impossível navegar. Se ao menos dispusesse de um remo capaz!... Perdi o que tinha com o tornando na primeira noite - perdi quase tudo. E o que improvisei, é demasiado tosco. E o mau tempo, próximo da costa, é muito mais perigoso de que no alto mar... Continuo sem qualquer sustento. A única coisa que já meti à boca foram umas folhitas de umas ervas que encontrei vogando à superfície do mar. Água das chuvas não me tem faltado e então agora até demais., porque, desde há umas largas horas que ainda não parou de chover. Estou para aqui escolhido a um canto da popa da canoa, quase imóvel, repassado pela humidade e arrepiado pelo frio.










Tenho urinado com regularidade mas estou preocupado porque já nem me lembra que tivesse feito uso do pequeno balde de plástico para evacuar. Claro que eu sei que não tenho metido quase nada na barriga, mas precisamente por isso é que me aflijo, que às vezes os intestinos até deixem de funcionar.

 A BÚSSOLA PERMITE-ME SABER PARA QUE PONTO NAVEGO OU VOU SENDO ARRASTADO - MAS, COM O CÉU ESCURECIDO E CHUVOSO, SINTO O PESO DO TEMPO, A SUA ADVERSIDADE MAS DESCONHEÇO A QUE HORAS ANDO

 Diário de Bordo 2  Não sei que horas serão da tarde do 33º dia. A verdade é que até agora tem chovido bastante!... Há bocado não estava a chover... Estava o mar bravo!... Mas de um momento para o outro passou a chover... Só chuva!... E vento!...

Diário de Bordo 3 Agora volta a haver uma certa calmia... Mas já vejo  ameaças de chuva no horizonte...  Ainda não comeram nada... Aliás, comi agora um bocadinho do resto do tubarão (pescado há vários dias)  que  está estragado praticamente... Estou cheio de fome! Não consigo pescar!... Não vejo terra... Estou realmente bastante... não direi desmoralizado... mas abatido psicologicamente.

O tubarão é dos peixes, cuja carne não aguenta muito tempo - Mal se pesca, não tarda a que seja uma carcaça em decomposição  - No mesmo dia, pesquei dois: um deitei-o fora,  o outro guardei-o para iscas e para o que desse e viesse - Mas gera um autêntico fedete. Quando mastigo alguns bocaditos -  roendo as barbatanas, sim, é o que tenho feito, quando o vazio do estômago se me torna mais insuportável. Não fecho os olhos, mas fico com uma azia tremenda.  




Estou convencido que alguns ataques dos tubarões, que de volta e meia se atiram como torpedos contra o costado da canoa, se devem a isso mesmo: ao cheiro que os atrai. Pois os tubarões veem mal mas têm um notável olfato.



Claro que não me sinto desmoralizado, pois continuo com a convicção de que hei-de chegar a terra. O que eu desconheço é quando a poderei alcançar.  Sim, mas,  fisicamente,  faltam-me as forças, estou muito fraco. Já não tenho a mesma energia que tinha quando deixei São Tomé. A minha  canoa é comprida mas frágil – Não tem mais de que um metro de largura, por 60 cm de altura, 40 cm dos quais, estão abaixo da linha de água. Foi talhada num madeiro, cortado na floresta, próximo  da Vila das Neves, da praia donde parti.


  Diário de Bordo  4   Em relação às correntes, em vez de de me aproximarem para norte, estão-me a levar ao longo da costa de África... Irei ter provavelmente ao recanto do Golfo do Biafra...Não vejo outra alternativa... Agora o que eu não sei é o tempo que irei demorar.

Esta manhã, a canoa, ficou alagadíssima!... devido às chuvadas!... Estou exausto, digamos assim.

Claro que não me sinto vencido ou resignado à minha sorte, e vou lutar, lutar, enquanto puder. Mas a verdade é que, dormir no fundo de um madeiro escavado, flutuante e encharcado, submetido a constantes balanços, a rolar a rolar e à deriva num mar escuro e encapelado, numa confusão tremenda, se,  já de si, é um tormentoso calvário, que não me dá tréguas, nem descanso, quem é que, cheio de fome,  pode ter o mínimo de repouso e de tranquilidade, ter um sono reparador, com o estômago completamente vazio?!... É que, além  de toda a incerteza que me oprime, também o estômago se me contrai , num horrível sofrimento!

Fazer jejum, de vez em quando, até pode ser saudável, mas, sendo no mar e prolongado, é muito doloroso!... Desgasta e abre o apetite  -  E, então,  como eu lhe poderei dar resposta, não tendo alimentos comigo, nem tendo conseguido pescar?!... Sim, a fome, aguça o engenho, mas seguramente que não é a melhor companheira para a tranquilidade do corpo e do espírito

Oh, mas quem me dera agora recuar àquela hora ensolarada e brilhante da manhã, em que deixava a linda praia da Vila das Neves,  envergando uma simples t shirt,  de calção e descalço, empurrando a minha canoa, com todos aqueles meus amigos, que me ajudavam  a arrastarem-na para o mar. 

Eu a receber, de encontro à minha face e ao peito, a encher os meus pulmões, aquele bafo quente e acariciador, aquela doce maresia com o sabor mesclado de sal e dos odores perfumados da margem luxuriante,  caminhando e pisando as frondes (as andalas) dos coqueiros, enterrando os pés naquela areia negra e rugosa, escorregando nalguns dos seus gogos reluzentes, que pareciam cantar, com o vai e vem das ondas, com o marulhar carinhoso das águas, como que recebendo-me, festejando e participando comigo, no mesmo prazer e alegria, no mesmo sentimento comum de aventura e  descoberta, que tão intensamente me possuía! 

Prazer de total e  pura entrega a um mundo maravilhoso e sagrado, às forças brutais e naturais dos elementos, rendido à sua face sedutora e ameaçadora! Ao mundo primitivo e original da vida!... Ciente de que ia ao encontro de uma vasta superfície líquida, cujos horizontes se mantêm, continuamente, tão próximos, como distantes e inatingíveis... Mas, por isso mesmo, num permanente desafio de deslumbramento, despojamento e   descoberta -  Sim, não levava sequer um centavo no bolso. E para quê ser escravo do dinheiro?.. Era como se fosse em demanda de um Verdadeiro Mundo Novo, mais divino e mais puro.

Ah! que sensação de liberdade! Que momentos mais indescritíveis aqueles,  que se me abriam aos meus olhos, ávidos e ansiosos! Irmanado ao mar,  atraído pelo prodígio da sua grandeza e a vertigem do seu fascínio!.. Oh, como aquele oceano   se me revelava tão vasto, tão azul, lânguido e tranquilo! – Tantos sentimentos e tão belos!.. Tantas emoções, que agora recordo mas que parecem já tão distantes e arredias de mim.


Oh, mas embora longínqua de mim, como posso eu esquecer-me dessa esplendorosa manhã!  Cuja harmonia e beleza, tão calorosamente fazia pulsar meu coração!... Não de quem pertencesse a um país ou a uma pátria, ou mesmo partia de uma ilha que já era soberana e independente, onde tive todo o apoio e carinho para levar a cabo esta minha aventura. Não, esse é um sentimento e uma gratidão, que jamais se diluirá, que guardarei para sempre num cantinho especial do meu coração... 

Na verdade, o que então sentia, como que a fluir  febrilmente na minha mente e no meu peito,  era a sensação de que  o sangue que me corria nas minhas veias, era o mesmo todos os peixes e de todas as aves, que esperava encontrar na minha jornada pelo mar fora, o mesmo de todos os homens, de todos os seres e de todas as espécies, de cujo mundo me separava. Era como,  se eu próprio,  o vagabundo anarca e lascivo, que, partindo,  praticamente sem rumo e sem destino, já não pertencesse a parte alguma da Terra e tivesse, como única pátria todo mundo e toda a humanidade!...

E, por estranho que pareça,  o que é que eu agora sinto, nesta manhã cinzenta, turbada e triste?!... Sinto que tudo isso  se me desvanece com a angustiante e  amarga sensação, de que, mais de que me sentir um apátrida,   sou afinal um proscrito, a criatura mais esquecida  da Terra inteira!... - Ninguém sabe onde estou, nem eu mesmo  sei onde me encontro ou para onde vou.




Diário de Bordo 5 - O céu está muito carregado e parece quase noite. ...Sinceramente, sinto-me muito isolado!... Alagado completamente!...

Estou exausto!... Neste momento apetecia-me chamar ... Pai!...Meu pai!... Afinal, você tinha razão!....   - Porquê?!... Meu filho!...

Estou para aqui!... Não estou desiludido!... Tenho fé que hei-de chegar a terra!.... Mas, sinceramente... tenho tido tanta calma!... Tanta perseverança! ...No meio de tantos perigos... De tantas dificuldades!... Talvez já não existisse... Mas... eu hei-de chegar a terra.... Estou par aqui perdido.... nesta imensidão! Cinzenta!... Neste mar acinzentado... Nesta vastidão!...

Esta tarde vi grandes toras!!... Grandes Paus!... Tábuas!... E eu confundia-me com isso...Como um ser desprezível!... Talvez como esses paus à deriva... a mesma coisa
.

Confesso que já começo a ter algum receio que uma ou outra dessas enormes toras, de tamanhos descomunais, que aparecem e desaparecem à tona das ondas com incrível rapidez, se precipitem de encontro à minha canoa e a desfaçam. De dia ainda as vejo e ainda posso acautelar-me mas de noite é que eu não consigo localizá-las. Também existe a possibilidade de ser abalroado por um barco mas estes raramente os vejo e as toras já vi  muitas!

Realmente, nunca vi o mar assim tão sujo como agora. Desde há uns dias para cá, tenho observado  com mais frequência  essa sujidade. É certamente por me estar a aproximar  do recanto mais setentrional do Golfo da Guiné. Pois é para aqui, com certeza, que vai parar toda a sorte de detritos e madeiras, que são despejadas  pelas águas dos estuários. E depois também há os poços de petróleo. Pois também tenho visto muitas manchas de óleo, grânulos  de crude, os mais diversos objetos de plástico, esferovites, raízes - Quando vejo uma folha verde e a posso apanhar, levo-a imediatamente à boca.

DEPOIS DAS GRANDES CHUVADAS O HORIZONTE FICA MAIS DESCOBERTO E O MAR COSTUMA ACALMAR - FINALMENTE, DE NOVO  CONTORNOS DA COSTA AFRICANA OU DA ILHA DE BIOKO





Diário de Bordo 6 -  O fim da tarde está-se a pôr suave..O mar já não está tão agitado como esteve....Não chove.... O céu está brusco... Nublado... Apenas descoberto a poente...

Tive agora a felicidade de vir nítidos contrastes da costa de África a Norte e a Este... Que me dão a impressão de uma grande serra! De uma montanha!... Se a vista não me falha.... Portanto a distância não é muita.... Mas pode ocupar-me ainda o dia de amanhã...

Esta tarde , como já tive oportunidade dizer.... foi uma tarde bastante aborrecida... Por várias vezes choveu torrencialmente!... Alagando a minha canoa....

Como ainda não comi praticamente nada, senão umas barbatanas do tubarão... uns bocaditos para mitigar a fome....estou cheio de fraqueza....

Tive ocasião de ver muitos paus, muitas tábuas. também à deriva como eu... E, de vez em quando, o mar com manchas de óleo... O que  me leva a crer, portanto, que eu estava a ser arrastado para terra... Porque o mar... as coisas não ficam!... Vão ter a terra... Estou convencido, pois, que hei-de chegar a terra.

Diário de Bordo 7 . - Espero passar uma noite mais ou menos descansado... Não sei... Não sei como será... Peço só que não chova.... Porque quando chove é muito chato!... A gente fica todo molhado... É muito aborrecido!.

Neste momento o poente apresenta um panorama bonito!... O sol por entre nuvens!... É muito agradável neste momento!... Na altura de ver o sol a poente... De resto, o céu mantém-se cinzento e o mar igualmente
 .


Diário de Bordo 8 Segundo os conhecimentos que tenho, estou convencido de que posso sobreviver mesmo só a água... Durante alguns dias... Portanto, sobre este aspeto, estou mais ou menos conformado.

E, enquanto a tarde declina,  com o sol a espraiar os seus últimos raios num ocaso esplendoroso e tingido  por um vermelho de sangue, vou-me abstraindo de todos os pensamentos e ideias funestas que durante a tarde me perturbaram. Já nem penso nas palavras que ainda há pouco me conformavam. Só vejo raios de esperança e de luz. Estou completamente abstraído de tudo o que me tem preocupado. Apesar da enorme fraqueza que me desgasta e destrói e de ter o corpo cheio de chagas pela humidade, tal como o de Cristo, depois do suplício na cruz, mesmo assim, sinto reviver dentro de mim uma infinita ânsia de vida. Apenas concentro a minha atenção para as bandas onde o sol  se esconde. Só contemplo  esses raios que se estendem até mim, sobre a vasta planura do imenso círculo  que me envolve. Donde recebo uma sensação de paz,  de majestosa quietude e devota serenidade.

.Mas por pouco tempo - O crepúsculo nestes mares é rápido e, entretanto, a noite adensa-se: a oriente e a ocidente:  o cenário já  não é o mesmo. Tudo mergulhou sob uma abóbada  densa e sombria. Por todo o lado se estende uma vasta solidão.Há um silêncio absoluto que contrasta com agitação do mar pela tarde adiante.Não sei para onde vou sendo arrastado. Mas também não adianto preocupar-me. Vogo à flor das águas, que tanto me poderão arrastar para o abismo, como para um acolhedor recanto,  um tranquilo porto de abrigo e me salvar..Só amanhã, à hora do sol nascer, quando um novo dia surgir é que eu eu poderei saber.







quarta-feira, 14 de novembro de 2012

32º Dia -Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!... Digam lá o que disserem!... Neste mar!...Infinito!... Um coco vir-me parar às mãos?!... Isto é obra de Deus!!!.....Não é outra coisa!... Meu Deus!.. Tem-me ajudado muito! Até para enfrentar estas vagas!


 Algures no Golfo da Guiné, 21 de Novembro de 1975


A aurora mal começara a irromper,  já eu me remexia no fundo da canoa e me levantava para avaliar as condições atmosféricas do novo dia. Ontem, quando me deitei, já a horas tardias, ainda caíam alguns chuviscos, esperando, todavia, que, ao amanhecer,  o tempo se recompusesse - Vejo, porém, que o tempo continua instável; encontro-me envolvido num autêntico inferno cinzento. Estou para aqui todo encharcado, devido aos balanços desatinados deste madeiro flutuante,   que me arrasta não sei para onde, sobre um mar exaltado de espuma 



O MAR NUNCA SE DESLIGA DAS PRAIAS - POR ISSO, CONTINUO A CONFIAR QUE ELE ME ARRASTE PARA UM DOS SEUS MISTERIOSOS RECANTOS..

Do que observo à minha volta, disso vou dar conta no meu diário gravado, cujo gravador  voltei a retirar do meu baú de plástico, um velho caixote do lixo

 Diário de Bordo 1  De noite choveu ligeiramente. O mar, a partir de certa altura, mostrou-se cavado. Ainda tentei pôr a vela. mas, tive que voltar a tirá-la, visto estar bastante agitado

Esta manhã verifiquei a existência de pequenas ervas. Paus... dejetos de  aves...Também observei a passagem de uma garça...Portanto, tenho a impressão que realmente estou muito próximo  da praia.

Já comi qualquer coisa. Aliás, comi a ave que ontem apanhei. Não tenho já o estômago vazio... Entretanto, logo que chegue a terra, terei que arranjar outra coisa... Para já, estou um bocado otimista!... Vou pôr a vela... O mar está cavado!... Mas vai permitir a colocação da vela.... Portanto, com um bocado de dificuldade, vou ver se consigo apressar a minha aproximação... até à costa africana.... Claro que de manhã é difícil  ver os contornos de terra... Só de tarde é que me  é possível.... De manhã o horizonte apresenta-se sempre com uma certa neblina. É impossível ver-se.... Mas tenho um pressentimento de que não estou muito afastado.

A única obsessão que me domina neste momento é imaginar-me a arrastar a canoa  sobre a areia quente e macia de um qualquer recanto da costa, ladeado pelos frondosos e esbeltos coqueiros,  com a suas frondes debruçadas sobre as águas límpidas e cor de esmeralda ou por uma espessa floresta de abundantes e frondosas árvores tropicais, onde possa saciar-me de saborosos frutos. 

Não me desagradava que não vivesse lá ninguém. Pelo contrário, até desejava que isso acontecesse. Pois não me importaria de viver a experiência que viveu o lendário Robinson Crusoe . Apreciei muito as façanhas relatadas por  Daniel Defoe. É um livro maravilhoso, que persegue o meu imaginário desde a minha juventude... Acho que é o maior sonho de qualquer náufrago, que se perca nas águas quentes do Atlântico, do Pacífico ou do Indico: depois de sobreviver às mil adversidades do mar, que este ao menos o conduza ao encontro  de um pequeno paraíso, solitário e tranquilo, onde possa restabelecer-se dos tormentos por que passou.  .Mas, por agora, essa imagem idílica não passa de um sonho

 As ondas continuam muito feias, a fustigar-me  a canoa numa dança, quase de enlouquecer. Sinto-me fraco e trémulo da fome e do cansaço. Não é possível ter um sono reparador. Os enormes chapes, chapes, na madeira, acordam-me, e, por vezes, até me cortam a respiração.  Se  não é a chuva, são os constantes safanões e batidas  das vagas sobre o costado da canoa. É depois o consequente chincalhar da água que se acumula no fundo, que entra pelas rachas e que não me dá descanso. Pois, de volta e meia, lá tenho eu de pegar no vertedouro. 

Quando o mar está mais bravo, é impossível adormecer. Sempre que preciso de me movimentar para qualquer trabalho ou acudir a esta ou àquela necessidade, cambaleio como uma bêbado Água para beber, das chuvas, não me tem faltado. Ainda se dispusesse de pesca ou de alimentos, mas não  tenho nada para comer, com que matar a fome...  A ave que, ontem apanhei, já a  comi mas só era pele e ossos. Oh. mas não posso desistir. Mesmo sem remo adequado, tenho que me esforçar por navegar. Sei que é uma luta tremenda, mas lutarei enquanto puder!...Só Deus sabe, porém, o meu esforço..  Nas calmarias fico imobilizado, e, quando o mar está agitado, torna-se muito difícil navegar.

Diário de Bordo 2-Coloquei a vela, durante cerca de três quartos de hora, mas devido à violência do mar - pois as ondas estão bastante alterosas - é impossível continuar  a velejar!... A canoa ameaça virar a cada instante... Cá ando à deriva... Talvez até chegar à praia!.... Realmente, faz-me passar tantos trabalhos!... Parece impossível!... Não havendo qualquer trovoada, o mar estar assim nesta situação!... O vento não é muito mas o mar está agitadíssimo!

Já vi aqui a existência de mais alguns paus, bambus, manchas...  Mas não vejo ainda quaisquer contornos da costa africana. Pois há muita neblina no horizonte, lá longe... De qualquer modo, tenho um pressentimento que me estou a aproximar.... Sinceramente, o mar aqui está muito bravo!... O mar aqui está realmente difícil! Com ondas fortes!  



Impedido de velejar,  procuro um pouco de descanso mas não consigo ter o mínimo de condições. A bem dizer, já nem sei que posição me será menos incómoda. Deitado, fico com as costas doridas e, se me sentar, com  as nádegas numa chaga, devido à humidade e outras pústulas que me apareceram nas partes, se me sento, torna-se-me um tormento, insuportável... Indo de pé, sinto tonturas e é demasiado arriscado, porque as pernas fraquejam-me e falta-me o equilíbrio. Por isso, que alternativas poderei eu então escolher?!... Bom, embora não sendo lá muito confortável, resolvi pôr-me de joelhos. 

Com as mãos agarradas às bordas da canoa e com a barriga dobrada sobre uma das travessas, até para tentar atenuar a dor e o enorme vazio que me vai no estômago, enquanto, por outro lado, os pés e a parte das pernas, vão sofrendo uma permanente e desagradável maceração, devido à salmoura que se acumula no fundo da canoa e que não pára de chincalhar. Se a canoa navegasse normalmente, não sofreria tantos  embates das vagas. Mas. à força das suas constantes investidas, já  rachou em várias partes. A água entra por essas  rachas e outra salta dos vagalhões que rebentam contra os bordos. À medida que me aproximo da costa, o perigo é cada vez maior. 





Ao largo, o mar enrola, sobe, eleva-se em alterosas montanhas, ondula, num sob e desce permanente,  mas não provoca tanta rebentação. Sim, a maior ameaça não está no alto mar mas na aproximação à terra. Então, se houver uma tempestade, o perigo ainda é maior! Mais difícil se torna o equilíbrio. Vamos lá a ver em que circunstâncias me poderão aproximar. Por agora, o meu pensamento, não vai tanto para os inúmeros perigos que me rondam, mas para a  sua fragilidade. Estas são, pois, as interrogações e as preocupações que me acodem ao pensamento e que vou transmitir  para o pequeno gravador.



Diário de Bordo 3 - Espero que a minha canoa, continue a portar-se bem. Pois, como já disse algumas vezes, está desequilibradíssima! O que me tem dificultado sobremaneira a minha viagem... Mas... há outro pormenor importante, é que ela mete água! E cada vez mete mais água!... Tem várias rachas! Está estalada!.. Enfim, espero que até à praia ela ainda resista....

ARRASTADO SOB O EFEITO DE UM BRAÇO DA CORRENTE DAS CANÁRIAS QUE BORDEJA A COSTA DO BIAFRA 

Diário de Bordo  4 A direção que estou a tomar é completamente diferente do habitual.... Estou a navegar no sentido de oeste para este... Quer dizer... as correntes aqui têm outra direção... Aliás, eu já esperava... que junto à costa tivesse outra direção... Estão quase acompanhar a costa... Portanto, vão retardar a minha aproximação.... Tenho cá um pressentimento que vai ser arrastada  para aos Camarões.... Porque a canoa está a derivar muito para leste. É natural que isso aconteça. Esperemos...

Não podendo colocar a vela,  acabo por me deitar. O espaço físico é estreito, olho o imenso céu mas sinto-me ao mesmo tempo como que um prisioneiro encarcerado. Flutuo  sobre um vasto abismo, certamente agora já não tão profundo, como lá mais para sul,  mas, se a canoa rachar completamente e se partir, é o bastante para me engolir e me afogar.

Todavia, há que manter a serenidade  e não desesperar. Tenho que me abstrair e saber  preencher o tempo, as longas doze horas do dia. Trago alguns livros mas agora não os posso ler.... Doem-me muito as costas e os balanços não me permitem que me entregue  a leituras. Só posso divagar o espírito. E é o que vou fazer, servindo-me do pequeno rádio, que guardo no meu baú - Do qual também retiro o modesto gravador para registar mais umas breves palavras.

.Diário de Bordo  5 Entretanto, indiferente à bravura do mar... estou aqui deitado no fundo da canoa, ouvindo música de estações africanas - O meu pequeno transístor ainda resiste, as pilhas vão ficando fracas mas ainda o posso sintonizar em várias emissoras africanas.

Infelizmente, não foi por muito tempo. No começo da tarde, o tempo refrescou, o céu cobriu-se de negras nuvens, que trouxeram  fortes chuvadas, deixando-me completamente extenuado. A chuva costuma quebrar o ímpeto das ondas, mesmo assim,  o mar enfureceu-se. Tenho lutado sempre por viver mas agora depois de mais estes dolorosos tormentos, sob forte chuvada torrencial, perpassa pela minha mente, alguma resignação. Estou profundamente extenuado. Sinto-me mais morto de que vivo. Completamente encharcado, com a água ainda a escorrer-me  pelos cabelos e pela barba. Sou para aqui  um fantasma de mim próprio. Não faço ideia que hora sejam
.
UM COCO PRODIGIOSO VEIO PARAR JUNTO À CANOA E MATAR-ME A FOME -

Diário de Bordo  6 Não sei neste momento que hora serão...Serão já umas tantas da tarde.... A verdade é que, desde há quatro horas, enfrentei sucessivas trovoadas!....O mar, como não podia deixar de ser, ficou bastante agitado! A canoa sempre a encher-se de água!... Fiquei todo alagado... Estava convencido de que estava muito próximo de terra.... mas neste momento não sei onde me encontro!... Não sei se a trovoada me favoreceu nem senão...Já estive a limpar a canoa... Agora deixou de chover!... Há uma ressaca que se continua a verificar.... Tive a felicidade, digamos assim, de encontrar um coco!... Foi uma sorte para mim... Vi vários mas só pude apanhar um! E creio que foi um autêntico milagre!... Vou aproveitá-lo, pois tenho muita fome!...

No mar vi vestígios de óleo... que me dão a impressão de não estar muito longe de terra... A verdade é que foi um dia exaustivo!... Estou exausto!!...Estou cansado!... O mar deu-me muito trabalho!... As vagas muito fortes! E a chuva torrencial!!...Durante quatro ou cinco horas não parou de chover!... Não sei se ainda voltará a chover... Neste momento, não está a chover....








DUAS BALEIAS À VISTA 

Diário de Bordo - Vi duas baleias na altura da trovoada. Muito próximas! Mas isso não me assustou... O que me estava a preocupar era realmente o tempo que a trovoada estava a demorar... Pois espero que me tenha favorecido... Continuo a não desesperar ... mas estou cansado!... Tenho fome! Muita fraqueza!... Estou a aguentar... Estou tentando... Estou tentando não me precipitar... Por suportar isto com serenidade.

De qualquer modo, o esforço tem sido insano. O meu coração teve que aumentar o ritmo das suas pulsações. Os meus pulmões, o meu cérebro, em suma, todo o meu organismo, não se poupou a um trabalho exaustivo, quase sobre sobre-humano. Ainda bem que apanhei o coco. Apareceu em boa hora. Pois não sei o que seria de mim se não o tivesse achado. Até parece que foi uma dádiva providencial a permear  a heroicidade da minha luta e do meu combate. Fosse como fosse, veio em boa hora. Primeiro extrai-lhe a casca com o machim, depois fiz-lhe um furo no extremo e levei-o imediatamente aos lábios para lhe aproveitar a água. Pouca mas muito saborosa!... Soube-me muito bem. De seguida, e após me ter deliciado com tão divino néctar, foi a vez de me servir da sua amêndoa - Eis como exortei com esse momento:

SABOREANDO O COCO DIVINAL..

Diário de Bordo 7 Já estou a comer o coco, meu Deus!... Mas que coisa tão saborosa!... Tão maravilhosa!... Isto foi Deus!!... Isto foi Deus que mo ofereceu!... Eu vi-o realmente à distância!... Eu não acreditava que ele passasse junto da minha canoa!... E veio mesmo ter à minha canoa!... Um belo coco! Tinha água... e tem uma bela amêndoa!  Estou a comê-lo!... Estou a tentar matar a fome com ele!... Para mim foi a melhor oferta!... Não podia ser melhor coisa.... este coco!... Não sei donde ele veio! Mas a verdade é que .... veio ao meu encontro! Ele veio ajudar-me! a preservar a minha vida!... Estou muito satisfeito por este coco!...

 A satisfação mistura-se com uma comoção que raia as lágrimas. E, à medida que o vou comendo, com insaciável apetite, no meu espírito reforça-se a imagem de que foi a mão de Deus que finalmente se lembrara de mim, Por isso, ao mesmo tempo que  o reparto por bocadinhos, que avidamente vou levando à boca e mastigo, com a outra seguro o gravador, como que possuído por  um crescente e comovedor fervor religioso, para que tão sublime momento, não deixe de  ficar registado à posteridade.

 Diário de Bordo 8  Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!... Digam lá o que disserem!... Neste  mar!...(choro) Infinito!... Um coco vir-me parar às mãos?!... Isto é obra de Deus!!!... Isto é obra de Deus!!... Não é outra coisa!... Meu Deus!.. Tem-me ajudado muito! Até para enfrentar estas vagas!

Sim, e, com o cair da tarde,  atrás de  enormes vagas, outras vagas  alterosas, vão sucedendo, descomunais e loucas! Crescendo e avançando em tenebroso carrossel, cuja escuridão não tardou que tomasse conta de céu e do mar. Tornando a solidão à minha volta, ainda mais sinistra e negra. Nem sequer me permitindo descortinar os  contornos da própria canoa. Sim, tão intensa é a sua ondulante negridão!... No entanto, mesmo diluído nas suas sombras, não  me sinto perdido nem desesperado. Invade-me uma sensação de profunda melancolia.  Sou como que possuído por uma espécie de sentimento sobrenatural  de aceitação mas que me obriga a ficar em permanente estado de vigília.  O  mundo para onde estou sendo arrastado é um mundo de trevas, convulsivo e fantasmagórico! Não é possível ser descrito por palavras: é  mundo intemporal.... Noite  tormentosa, infinita!... Agitação! Escura noite! Imensidão!.. Nuvens cerradas, espessas e baixas, que parecem tocar as montanhas e os contornos das não menos escuras águas!...   Não sei como lutar porque tudo quanto possa ameaçar-me, remove-se em torno de mim na mesma imensa negridão!.. .Sei apenas que não posso desistir de viver e, por isso, vou continuar atento enquanto o meu coração palpitar.




           A minha canoa mantém-se imperturbável...
               Está totalmente alheia à grande incerteza
                  e aos muitos fantasmas que me povoam a alma...
                      À inquietude que absorve o meu coração.
                         E voga pelo negrume varrido  da noite
                            como se nada tivesse a temer!...
                                É admirável a sua altiva galhardia!  
                                    Parece conduzida por uma estranha força
                                        que a leva a um  ponto preciso da vastidão!...
             
      
 Mas, oh Deus!  Eu queria dormir!...
             Necessitava de descansar, adormecer!...
                  Cair em sono agora e acordar ao amanhecer!
                         Ser como o rude barqueiro,
                               que ao fim de uma longa jornada,
                                    dura e sem descanso,
                                         encosta o seu barco à margem e dorme...
                                            embalado pelo sussurrar da ramagem que o envolve!...
                                                  Mas aqui, é o mar a bramar! a bramar!...
                                                       É  o mar sem fim e sem fundo!...
                                                             Não há margens, nem portos de abrigo!..
                                             
                                                                        É a noite eterna!... É um  outro  mundo!..