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terça-feira, 28 de julho de 2015

Em S. Tomé – É hoje: no Centro Cultural Português - A minha exposição: SOBREVIVER NO MAR DOS TORNADOS – 38 DIAS À DERIVA NUMA PIROGA. Venha juntar-se ao júbilo da concretização de um maravilhoso desejo: viajar comigo pelos mares do Golfo da Guiné - “Um mapa de Sonho à Flor do mar.





(imagem obtida algures no Golfo da Guiné - Nov. de 1975

Finalmente, chegou o dia, de poder  mostrar  a exposição das minhas aventuras marítimas no Golfo da Guiné – Se puder, não deixe de me dar o prazer e a honra da sua presença amiga  - É logo ao fim da tarde, pouco depois do pôr-do-sol, às 18 horas, no Centro Cultural Português, ali junto à margem esquerda do Água Grande, no coração mais palpitante da capital destas maravilhosas ilhas - Sim, graças à compreensão e ao louvável acolhimento da Embaixada de Portugal em São Tomé e Príncipe vou poder concretizar um velho sonho: apresentar a exposição fotográfica e documental, que esteve patente no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, de 10 de Março a 10 de Abril de 1999, inserida no espírito da Expo98, “Os Oceanos”, subordinada ao título: SOBREVIVER NO MAR DOS TORNADOS – 38 DIAS À DERIVA NUMA PIROGA.

UM MAPA DE SONHOS Á FLOR DO MAR


Estas fotografias não são apenas o registo mecânico de uma aventura no meio do mar.
Elas são pontos de relevo num mapa de sonhos.

E – também – roteiro dum teimoso repúdio ao conformismo e à indiferença.
Tudo isto sem deixar de ser – em paralelo – um testemunho das situações limite
em que um homem defronta os desafios da Natureza com as hesitações da sua condição
aliadas apenas ao ânimo da sua vontade.

Imagens recuperadas dum naufrágio subitamente colocado ao contrário pela rápida transformação duma derrota em vitória, esta exposição é o lugar mágico do reencontro com a serenidade dos sonhos perfilados.Ou seja – suspensos no quotidiano mas prontos a soltarem-se ao encontro de todas as travessias...
José do Carmo Francisco
22.06.94.


O objetivo desta exposição é associar-me ao espírito das comemorações do 40.º aniversário da Independência de São Tomé e Príncipe; mostrar à população destas encantadoras ilhas, às generosas e pacíficas gentes deste jovem país, das quais tenho as mais gratas recordações, um conjunto de várias fotografias, artigos, excertos do meu diário de bordo, entre outros documentos, das minhas aventuras marítimas e da escalada do Pico Cão Grande, com a colaboração de uma corajosa equipa de santomenses. Espólio que, no termo da exposição, gostaria de doar ao Museu Nacional de São Tomé e Príncipe.

A minha singela Homenagem aos bravos pescadores de S. Tomé – A quem devo, em grande parte, estas minhas aventuras;

A Vós bravos homens do mar! - A vós heroicos
pescadores, testemunhos mártires de um povo antigo,
raízes sofridas em pavorosos naufrágios, sangue derramado e vertido,
na opressiva ocupação e domínio da vossa maravilhosa terra,
a vós, meus irmãos dos mares! - A vós meus amigos!
Eu me dirijo e vos saúdo, lídimos filhos das águas,
pioneiros de um longínquo e histórico passado,
legítimos herdeiros de uma ancestral memória...
Viajantes hábeis,  mestre e corajosos marinheiros
vindos da Mãe-África, de lá embarcados,  de lá idos,
sulcando estranhas águas, enfrentando violentos tornados
ou prolongadas e podres calmarias e sol abrasivo,
velejando e remando, noites e dias inteiros
navegando em mar aberto e desconhecido!

Aqui vos evoco: mares das epopeias anónimas
e das muitas tragédias sem glória e sem história!
De muito sofrimento, angústias, dores!
- Vós, mares do antanho e do presente,
sabeis, como ninguém, quantas vidas já destroçastes
a esses humildes  mas arrojados  pescadores!...

 

MARES DA MINHA VIDA...

A vós, lendários mares do sul, eu vos saúdo
com todo amor e bondade do meu coração!
Eu vos bendigo em exaltação ao génio Criador!
Eu vos evoco pelos momentos de rara beleza e de imensa alegria,
e também de outros de não menor tristeza e dor, por mim vividos,
durante dias e dias a fio, no meio da vossa vastidão!
- Obrigado por haverdes compreendido a minha temeridade.
a minha intenção!... Fui um homem de sorte!... - Obrigado, também,
por, antes de mim, haverdes poupado outras vidas às garras da morte!

Recordo e choro, às vezes, ainda o pesadelo,
a angústia sentida desses cruciais instantes!...
Relembro-os e perscruto-os de olhar triste e magoado,
como se estivesse ainda a ver as cristas brancas
a ondularem ao largo, a levantarem-se do fundo das sombras,
tão altas que até quase tocavam as difusas estrelas,
e, subitamente, a estrondearem e a desfazerem-se ao meu lado!
- E eu, pobre de mim, vagueando, nesse horror alucinante!...
Rolando, rolando, pela noite adiante, só e desamparado!
Errando, errando, na pequena piroga, sem rumo e sem destino,
no meio do tumulto avassalador, no centro rodopiante,
do turbilhão fervente e ameaçador! - Transido
pela humidade! Ensopado como um trapo. Mortificado
pela sede e esfomeado!… Um verdadeiro farrapo!
Todavia, lutando, resistindo,
não resignado, não vencido!

(…)
Ó ondas lívidas e soluçantes! Ondas lúgubres
e agrestes dos trágicos naufrágios! - Ainda hoje
aos meus ouvidos, vão ecoando, vão soando, repercutindo,
os ecos de todos os estrondos, sílvios e ruídos
da vossa portentosa orquestra! Ainda agora ouço o ressoar
de todos esses sons! - No marulhar de vós, distingo - ó impiedosa
negridão! -, por entre o rebentar e o estertor dos vossos rugidos,
o imenso clamor dos gritos, os rumores dos milhentos gemidos,
choros e súplicas, os ecos das imensas vozes aflitas,
perdidas, já agonizantes, moribundas, das pobres almas
que foram tragadas! - Sim, dos inumeráveis desgraçados
que se perderam, que foram esquecidos, abandonados,
no louco torvelinho das águas!

Ai de vós, ó pobres náufragos!
Ai de vós, desventurados! - Foi horrível
o vosso sofrimento - eu sei! Também experimentei
no corpo e no espírito o mesmo drama!
Porém, se estais em paz no outro mundo, continuai em paz
no mesmo limbo! Esquecei o infortúnio que cedo vos levou!
Não o choreis!... Ninguém mereceria as vossas lágrimas!
- Naqueles momentos fatídicos, tudo permaneceu impassível!
Ninguém se compadeceu com a vossa aflição e vos estendeu a mão!
Lá do alto, um silêncio de morte, e em redor,
o mundo a desabafar sobre vós, a sepultar-vos!
Tudo vos abandonou e vos esqueceu!...

Jorge Trabulo Marques

O longo tormento de 38 dias


A canoa havia sido carregada, ao largo da Cidade São Tomé no pesqueiro americano Hornet, que ali deixara um tripulante hospitalizado. Como os ventos e as correntes, são dominantes do Sul para Norte, eu precisava de ser largado na corrente equatorial, um pouco a Sul da Ilha de Ano Bom, que é onde a Corrente de Benguela se divide: uma parte vem perder-se a Norte do Golfo e a outra deriva em direção ao Equador para o coração do Atlântico, até voltar para sul, junto à costa brasileira, num périplo que desce até quase ao Oceano Antártico, confluindo depois para a costa africana.


O comandante, desse pesqueiro, comprometeu-se a largar-me naquela corrente, mas faltou à palavra. Ou antes, fez tudo para que eu ficasse a bordo a trabalhar e não me metesse nessa aventura - na travessia oceânica - visto achar demasiado arriscada a minha ousadia, até porque, os dias de viagem até à ilha de Ano Bom, haviam sido marcados por constantes tempestades tropicais. Especialmente ao fim da tarde e à noite. Em que ninguém podia parar no convés: as vagas varriam-no de proa à popa. E muitos tripulantes, tentavam dissuadir-me: "Fique connosco!... Você vai morrer!... Fique connosco! A sua canoa não vai resistir"

E, de facto, ninguém se atrevia a expor-se ao vento e à chuva. À fúria do mar. Eu olhava a escuridão, por detrás das escotilhas e fixava os olhos bem abertos na borbulhante e pálida espuma, ouvia o marulho das vagas a desfazerem-se contra o casco e galgarem-no!... Olhava e escutava pasmado a sua inaudita violência com alguma apreensão, mas estava determinado...


Nada deste mundo podia demover-me!... Sentia-me ao mesmo atraído por uma espécie de resistível desafio e tenebroso fascínio...Sentia que o palpitar do meu coração precisava de vibrar ou se aquietar com a palpitação do mar. Os meus olhos só queriam espraiar-se e deleitar-se com o imenso azul clarinho dos dos céus e o azul profundo da vasta superfície oceânica.

VALE A PENA SACRIFICAR A VIDA POR UM IDEAL QUANDO SE TEM A CONVICÇÃO DE QUE O ESFORÇO É PLENAMENTE MERECIDO E JUSTIFICADO.


                     “Contar-te longamente as perigosas
                      Cousas do mar, que os homens não entendem,
                       Súbitas trovoadas temerosas,
                       Relâmpagos que o ar em fogo acedem,
                       Negros chuveiros, noites tenebrosas,
                       Bramidos de trovões que o mundo fendem,
                       Não menos é trabalhos que grande erro,
                        Ainda que tivesse a voz de ferro.”

                                      Camões




CONVITE (A)MAR O MAR

Ó poetas!
Sonhadores de ilusões e mistérios
Vinde pelo mar em frente!
Solitários ou com outra gente!
Vinde ver o mar!
Aqui há sombras de pasmar
Silêncios infinitos
Vozes a falar de abismos
Chamamentos ocultos
Gargalhadas, risos,
Delírios! Loucuras e gritos!
Marulhos a ressoar
Explosões, estrondos de atordoar
Espaços puros, abertos!
Fumos, nevoeiros etéreos!
Vastos desertos de embriagar os sentidos.
- Poetas! Vós que amais o mar
Vinde, vinde ao mar!

Jorge Trabulo Marques

Vinde ver a frondosa fronte do mar
A sua violência verde, os seus turbilhões brancos.
Vinde ver os deuses que ainda não morreram,
com a sua nudez de vagas harmoniosas,
De sinfonias ondulantes, de lamentos tumultuosos.
Vinde ver o que ainda está vivo com as suas artérias,
As suas extensas planuras com vagarosas luas.
Vinde ver a escultura monótona e brilhante
Das suas águas primitivas com seus peixes luxuriantes.
Esta é a plenitude da lava, da limpidez do sémen
Do mundo, a vivacidade das aéreas áreas
Que se inscrevem nas águas com a vibração primeira
Dos primeiros pés virgens que sulcaram as ondas.
Quem poderá esquecer essas panteras fugidias
Que ondulam, como luas nas faixas da água?
Só no mar o sol é sorriso do ocidente
E nele mergulha o azul com a lentidão de um astro.
Vinde, vinde ver o reino que ainda existe
Que se respira a luminosa esteira dos deuses.

António Ramos Rosa - 30.01.95

domingo, 26 de julho de 2015

Em S. Tomé – Reencontro com velhos amigos e com as pequenas maravilhas do artesanato da Associação Pica Pau




Em S. Tomé – Imagens de algumas das pessoas e rostos, com quem me cruzei na manhã e tarde deste último sábado  - Com pena minha, tenho andado mais caseiro e citadino de que a desfrutar as maravilhas deste paraíso equatorial – Por um lado, é a minha exposição, “Sobreviver 38 dias no Mar dos Tornados”,que me tem ocupado algum tempo, e que vai ser inaugurada na Terça-Feira, dia 28 de Julho, no Centro Cultural Português- na qual gostaria de contar com muitos amigos. Ontem, por exemplo, ali bem ao centro da cidade, quem vou eu encontrar? Um antigo companheiro do extinto Emissor Regional de S. Tomé, Aurélio Aragão,  atual técnico da televisão de S. Tomé.  

De seguida,  fui tomar um cafezinho ao Café do Chico , onde o charme e simpatia, estão imediatamente frente ao balcão: tanto da cordialidade do Chico, como das empregadas e empregados – Desta vez, só lá vimos a  Yazalda, com a sua  colega, Ivanilda . Um dos clientes, era o Abreu, paramédico, com quem travámos  alguns momentos de amável diálogo


Tomada a bica, dirigi-me ao Centro Cultural Português, para a continuação dos trabalhos da montagem da minha exposição, onde contei, mais uma vez com a preciosa colaboração do Nelson, e, desta vez, também com a do Dani, naturais da Vila das Neves – Um grande abraço pela vossa amável ajuda.





No período da tarde, já quase ao pôr-do-sol, fui até à Biblioteca Nacional, pois haviam-me dito que decorriam ali uns debates, muito interessantes, como, de resto, pude vir a  comprovar, a que já me referi noutro espaço.
À entrada, vários profissionais da Comunicação social, entre os quais, o Euclides Amadeu, da TVS, que, há dias, me deu o prazer e a honra de ser seu convidado especial no programa, que apresenta às segundas, quartas e sextas, na Televisão de S. Tomé, e ao qual aproveitei para lhe expressar, uma vez mais, o meu profundo agradecimento

ARTISTAS DA ASSOCIAÇÃO PICA PAU.

É uma associação, composta, atualmente por um grupo de 14 pintores e escultores e duas pintoras e escultoras,  fundada em 2003 – Situada, ao lado do antigo Cinema Império, atualmente sede de um banco, na área frondosa limítrofe – Sem dúvida, é aqui que o amante da pintura e da escultura, pode encontrar as obras, mais criativas e variadas, do riquíssimo artesanato santomense, que outra escola não tem senão a herdada ou recolhida  das verdadeiras raízes da cultura popular destas maravilhosas ilhas: - Desde o figurativo dos frutos da terra e da pesca, aos variadíssimos motivos do quotidiano das suas gentes, costumes e tradições .

Sim, vale a pena visitar o espaço: pois, tanto pode ser uma excelente oportunidade de contemplação, nos detalhes artísticos, de tantas pequenas maravilhas, como de um franco e caloroso diálogo, com os artistas, ou   mesmo de os ver em plena execução das suas obras. E foi, realmente, o que, mais uma vez, ali pude desfrutar, nomeadamente, com o Ismael  Viegas e a Ermelinda, artistas de grande talento, dignos de figurar nas mais cotadas exposições internacionais, assim como  outros seus colegas. Espero que, de hoje a um ano estejam numa exposição coletiva, em  Portugal, a fim de corresponder à solicitação d meu estimado amigo, Dr. Nuno Lima de Carvalho, diretor da Galeria de arte do Casino Estoril

Ecos do que se tem dito do artesanato

"O artesanato são-tomense é produzido, por força das circunstâncias, com recurso aos materiais que ali existem e que a natureza providencia: o coco, a madeira, as conchas, as sementes, a folha de palmeira e a areia. Por isso, para trazer algumas recordações da estadia nas ilhas, pode encontrar à disposição cinzeiros, pulseiras, quadros e baldes para gelo em coco; canoas, caixas e quadros com relevos, “machins” (catanas), rostos e máscaras, esculturas, gamelas,e quadros trabalhados em relevo ou embutidos em madeira; colares e pulseiras feitas com conchas, búzios e sementes; leques e cestaria feitos em bambu e folha de palma; objectos e utensílios em osso burilado, brinquedos construídos em arame. No mercado também pode encontrar alguns utensílios de barro”.


COM O ENG. ARNALDO SOUSA PONTES, DO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA


Ao regressar do restaurante, onde habitualmente costumo dirigir-me, pois é baratinho e come-se bem, pude ainda ter o prazer de  conhecer, num encontro casual, o Eng. Agrónomo, Amadeu de Sousa Pontes, um tanto ou quanto dececionado por S. Tomé ter  passado de 10 mil toneladas de produção de cacau, anuais, a 2 mil. “Com a descolonização, ficámos, sem técnicos, sem pessoas que percebiam da agricultura, e ainda não ultrapassámos  esses problemas”.

De facto, nas revoluções, cometem-se alguns erros, que, por vezes, são difíceis de ultrapassar. Pois, mas quem é que estava bem naquela altura?.... Os  donos das roças, refastelados em Lisboa, que não mexiam uma palha e  eram os grande senhores das riqueza produzidas por milhares de trabalho escravo. E. mesmo antes que fossem nacionalizadas, as deixaram praticamente abandonadas. É certo que agora não se produz tanto cacau, em contrapartida, quem lá trabalha e tem o seu bocado, pode colher o produto da terra e, mesmo assim, sentir-se feliz. Enquanto, no tempo colonial, quem é que podia colher uma pinha de banana, sem autorização do patrão? – Haverá dinheiro que paga a liberdade e a identidade? – Esta é a questão , que,  muitas vezes se ignora que os analistas, descuram ou  não tomam em consideração.

Em S- Tomé – Um dos fundadores do Skype veio explicar em inglês, na TEDX SÃO TOMÉ “Como utilizei a Internet para mudar o meu mundo" – Mas quem arrancou mais sorrisos e aplausos, num expressivo português com citações em “forro” foi o popular cantor Killa-z



A sala de conferências da Biblioteca Nacional, em São Tomé, na tarde e principio de noite, deste último sábado, em ambiente de muita fantasia e balões para dar colorido "aos sonhos", foi pequena demais para acolher público e oradores da   terceira edição da Conferência Internacional TEDx São Tomé, subordinada ao tema: "Ponto Sem Retorno: Tudo e Nada”, com o objetivo de “inspirar os participantes a partilhar conceitos, ideias e experiências”. – segundo palavras de Mário Lopes, co-organizador do evento, precisamente, no mesmo dia, em que, Patrice Trovoada, procedia à inauguração  de centros gratuitos de acesso à Internet

Um dos oradores, do citado debate, era o estónio Ahti Heinla, empresário e programador, um dos fundadores do  Skype, que veio explicar  como utilizou a Internet para mudar o mundo, perante um auditório, muito atento, além daquele que o podia seguir em directo  pela própria Internet  – Da chamada aldeia global, que a WEB criou e transformou, alterando  costumes e comportamentos.  – Num processo de comunicação global, que parece apostar mais na eficiência dos cifrões e da expansão liberal, na feira das vaidades e aparências,  dos egoísmos dos narcisismos   individuais, do que  propriamente no culto da  solidariedade e humanização.

Mas esta é a realidade dos novos tempos: já conhecida pela era do vazio ou do fim das ideologias, em que, já nada se faz, sem a muleta da Internet  - Sem dúvida, uma das mais espantosas descobertas da era moderna, em que  a acessibilidade do conhecimento, é incomensurável. Daí que já nenhum governante lhe fique indiferente – lhe restrinja o acesso ou o favoreça. 

De facto, na organização da TEDx São Tomé, nada ali foi deixado ao acaso: cada palestra teve a duração de 17 minutos,  seguidos à risca, podendo  ser geridos minuto a minuto, já que, em qualquer momento,  num dos lados da sala, e junto ao staff, havia alguém, com um cronómetro  digital, bem levantado,  para que orador não se perdesse e desse bem conto do seu recado, servindo ao mesmo tempo de "exemplo de  boas práticas”


Por outro lado, sugestões de ideias, relatos de experiências, também não faltaram, até para que “ se transformem "as más intenções em boas” – Tema escolhido  pelo cantor Killa-z , a quem coube dar uma nota de musicalidade, de humor e de  teatralidade ao encerramento do evento – Explicando o segredo dos seus êxitos, através da interpretação que fizera da genuína musica da sua terra, alertando para a  defesa  da identidade do “nosso produto com o selo  STP, e não “mad in China ou de qualquer outra designação alheia, que, mesmo produzido ou fabricado fora do  território das grandes potências capitalistas, continua  a ter a marca  desses grandes empórios, um produto estrangeiro na terra onde é genuíno.

O Governo fez-se representar por Olinto Daio, Ministro da Educação, Cultura e Formação, que, ao ser abordado pelos jornalistas, e,  referindo-se ao sucesso das  experiências relatadas, desejou que as mesmas possam contribuir para a "mudança de mentalidades" e “contagiar todos os santomenses na mudança”

TEMAS ESCOLHIDOS

Ahti Heinla -  “Como utilizar a internet para mudar o mundo”;Abílio Bragrança Neto -  “A vida como uma garrafa de vinho”;Wildmark Trovoada -  “Quanto vale o nosso lixo”;Roselyn Silva – Como é que uma ideia  pode mudar o mundo” – Disse que conseguiu descobrir a sua “vocação através das histórias dos tecidos e o que eles representavam para cada cliente”Killa Z – “Transforme as más intenções em boas”;Yanira Tiny – “Do Sonho à Realidade”; Nayda Almeida – “Como é que a justiça pode ser justa para todos”André Aureliano Aragão




sexta-feira, 24 de julho de 2015

Exposição em S. Tomé - No Centro Cultural Português - "Sobreviver no Mar dos Tornados - 38 dias à deriva - de 28 a 30 de Julho

Exposição - No Centro Cultural Português, em S. Tomé - 28 a 30 de Julho

SOBREVIVER NO MAR DOS TORNADOS
38 DIAS À DERIVA NUMA PIROGA

Finalmente, graças à compreensão e ao louvável acolhimento da Embaixada de Portugal em São Tomé e Príncipe vou poder concretizar um velho sonho: apresentar, na capital destas maravilhosas ilhas, e no Centro Cultural Português, a exposição fotográfica e documental, que esteve patente no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, de 10 de Março a 10 de Abril de 1999, inserida no espírito da Expo98, “Os Oceanos”, subordinada ao título: SOBREVIVER NO MAR DOS TORNADOS – 38 DIAS À DERIVA NUMA PIROGA.


Sou natural da aldeia de Chãs  do concelho de Vila Nova de Foz Côa, onde, nos últimos anos, após ali ter descoberto, em 2002, vários alinhamentos pré-históricos, com os equinócios e solstícios, tenho sido o responsável pela coordenação de vários eventos culturais. Sou jornalista (da ex-Rádio Comercial RDP), tendo vivido vários anos em São Tomé – ilha onde desembarquei, em Novembro de 1963, para um estágio, na Roça Uba-Budo, da Companhia Agrícola Ultramarina, do meu curso de Agente Rural, da Escola Agrícola de Santo Tirso. Várias foram as profissões que aqui exerci, até os primeiros passos do jornalismo, assim como também muitas foram as vicissitudes, bem como os dias mais felizes da minha vida, aqui vividos, entre aquela distante data e Outubro de 1975, cujas histórias dariam talvez matéria para alguns livros. Mas ficará para ocasião oportuna.


Jornal Novo – 25.9.1976 “Ele correu perigos que assustariam o mais corajoso, incorreu em temeridades que não visavam o lucro mas uma meta mais longínqua. Um insatisfeito desejo de se afirmar e de demonstrar que moram no homem, e com ele vivem , recursos insuspeitados e adormecidos. Não se pense que se referimos a um aventureiro gratuito, que apenas pretende chamar sobre si as atenções, sem objectivos louváveis. Nada disso.(...) "

"As gravações a que procedeu no mar são empolgantes e transmitem o estado de espírito do homem que se encontra só e não conta senão com ele e com Deus. A resistência do homem á fome, à sede e ao desespero, constituem uma constante do seu relato. É comovente a transcrição do feito de Jorge Marques, o qual justificava a publicação de um livro, contendo, em pormenor, o que a escassez do espaço de um jornal não comporta."

A descrição que passou á deriva numa piroga no Golfo da Guiné, se levada ao cinema, daria um filme memorável, principalmente se o realizador extrair da odisseia a espantosa variedade de facetas que ela oferece.” Excertos do Jornal Novo



es.



Ó Deus Omnipotente e Salvador!... Ó JESUS CRISTO!...Ó BELO E MAGNÍFICO EXEMPLO  SENHOR MEU!... Que maior tormento e suplício aquele!... Deitado no duro  fundo daquele inconstante, encharcado, tosco e frágil madeiro escavado!… Porém, mesmo assim, quão doce e infinito era aquele meu tormento!... Quantas vezes, me lembrei da tua cruz e do teu calvário!... Quando já estavas prostrado e rendido às leis da morte e da vida para te lançarem estendido ao sepulcro!.. Quantas!... Quantas vezes!... Quando tudo à minha volta me parecia revolto e perdido… Sim, no meio avassalador daquelas espessas trevas e noites de breu, cercado pelo tumulto escuro do mar e do céu! E, ante a imensa e tenebrosa solidão, apenas se me afigurava vislumbrar o perfil do teu piedoso rosto… Embora triste e macilento, banhado de suor e de lágrimas!... Mas coroado de esplendorosa caridade e de compaixão… por aqueles mesmos que te traíram e não compreenderam a tua humana, divina e nobre missão! Mas aos quais a áurea que iluminava a tua face, me parecia resplandecer apenas emanada por  um infinito sentimento de amor e perdão

                    “Contar-te longamente as perigosas
                      Cousas do mar, que os homens não entendem,
                       Súbitas trovoadas temerosas,
                       Relâmpagos que o ar em fogo acedem,
                       Negros chuveiros, noites tenebrosas,
                       Bramidos de trovões que o mundo fendem,
                       Não menos é trabalhos que grande erro,
                        Ainda que tivesse a voz de ferro.”

                                      Camões



O objetivo desta minha exposição é associar-me ao espírito das comemorações do 40.º aniversário da Independência de São Tomé e Príncipe; mostrar à população destas encantadoras ilhas, às generosas e pacíficas gentes deste jovem país, das quais tenho as mais gratas recordações, um conjunto de várias fotografias, artigos, excertos do meu diário de bordo, entre outros documentos, das minhas aventuras marítimas e da escalada do Pico Cão Grande, com a colaboração de uma corajosa equipa de santomenses. Espólio que, no termo da exposição, gostaria de doar ao Museu Nacional de São Tomé e Príncipe.


Em resumo, direi que sou autor de várias travessias em pequenas pirogas primitivas, nos mares do Golfo da Guiné, por força de muitos treinos, sempre que me era possível, de praia em praia, nas frágeis canoas dos corajosos pescadores de São Tomé, aos quais desejo aqui expressar um abraço de reconhecimento e de admiração, não apenas pela dureza e risco das suas vidas, em que se expõem, sempre que partem para o mar, como também pelos ensinamentos que me prestaram, já que foram eles os meus melhores mestres.

Depois de me sentir suficientemente preparado, que simplesmente a empreender as habituais saídas de canoa, na praia Maria Emília ou ir até à Fortaleza S. Jerónimo, na piroga que ali comparara a um velho pescador por 200$00, decidi fazer um teste um pouco mais ousado, indo de canoa desde a Baía Ana de Chaves até à praia de Anambô. Este é o local onde se encontra o padrão que assinala a chegada dos primeiros navegadores portugueses, justamente no ano em que se realizavam as comemorações do V centenário do seu desembarque, em destemidas e frágeis caravelas, filhos de um pequeno país, mas que, graças à sua notável valentia, à grande gesta destes e de outros navegadores portugueses, haveriam de mudar a história e a geografia do mundo, em admiráveis epopeias marítimas, cantadas nos épicos versos de Luís de Camões, corajosas façanhas que muito admiro, contrariamente a vários aspetos da colonização, cuja dura realidade também a senti no corpo e no espírito. A viagem de ida e volta, foi bem sucedida, não me oferecendo grandes dificuldades, concluindo que estava habilitado a outros desafios mais arriscados.

Um mês depois, aí estava eu, tal como aqueles intrépidos navegadores, e à semelhança dos arrojados pescadores destas maravilhosas ilhas, quando o tornado os arrasta para o desconhecido, a desafiar a vastidão do mar, num simples madeiro de ocá escavado.

Larguei à meia-noite, clandestinamente, pois sabia que se pedisse autorização esta me seria recusada, dada a perigosidade da viagem, levando comigo apenas uma rudimentar bússola para me orientar. No regresso de avião a São Tomé, fui preso pela PIDE, por suspeita de me querer ir juntar ao movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, no Gabão, o que não era o caso. Levei três dias e enfrentei dois tornados. À segunda noite adormeci e voltei-me com a canoa em pleno alto mar. Esta era minúscula e vivi um verdadeiro drama para me salvar, debatendo-me como extrema dificuldade no meio do sorvedouro denegrido das águas.

Cinco anos depois, numa piroga um pouco maior, fiz a ligação de São Tomé à Nigéria. Uma vez mais parti sem dar a conhecer os meus propósitos, ao começo da noite, servindo-me apenas de uma simples bússola. Ao cabo de 13 dias chegava a uma praia ao sul deste país africano, tendo sido detido durante 17 dias por suspeita de espionagem, após o que fui repatriado para Portugal. Os jornais nigerianos destacaram em primeira página o feito.

Os objetivos destas travessias visavam demonstrar a possibilidade de antigos povos africanos terem povoado as ilhas, situadas no Golfo da Guiné, muito antes dos outros navegadores ali terem chegado, contrariamente ao que defendem as teses coloniais, que dizem que as ilhas estavam completamente desabitadas. E a verdade é que, entretanto, já foram encontradas antigas cartas em arquivos, com nomes árabes que testemunham esses contactos. Contributos esses que, de modo algum, poderão pôr em causa o mérito dos ousados feitos dos navegadores portugueses.

Regressado a São Tomé, ainda no mesmo ano, e já com São Tomé e Príncipe independente, tentei empreender a travessia ao Brasil, com o propósito de reforçar a minha tese, evocar a rota da escravatura através da grande corrente equatorial e contribuir para a moralização de futuros náufragos, à semelhança de Alan Bombard. Segundo este investigador e navegador solitário, a maioria das vítimas morre por inação, mais por perda de confiança e desespero, do que propriamente por falta de recursos, que o próprio mar pode oferecer. Era justamente o que eu também pretendia demonstrar. Navegando num meio tão primitivo e precário, levando apenas alimentos para uma parte do percurso e servindo-me, unicamente, de uma simples bússola, sem qualquer meio de comunicar com o exterior, tinha, pois, como intenção, colocar-me nas mesmas condições que muitos milhares de seres humanos que, todos os anos, ficam completamente desprotegidos e entregues a si próprios. Porém, quis o destino que fosse mesmo esta a situação que acabasse por viver. 

A canoa foi carregada num pesqueiro americano para ser largada, na corrente equatorial, um pouco a sul de Ano Bom. Porém, à chegada a esta ilha, o comandante propôs-me abandonar a canoa e ficar a trabalhar a bordo, alegando que a mesma estorvava e que a aventura era muito arriscada. Na impossibilidade de ser levado para a dita corrente, decidi-me pelo regresso a São Tomé para tentar a viagem noutra oportunidade. Foi então que uma violenta tempestade me surpreendeu em plena noite, tendo perdido a maior parte dos víveres, os remos e outros apetrechos. Ao sabor das vagas, num simples madeiro escavado, é difícil imaginar pior situação. Mesmo assim, com a canoa completamente desgovernada, não cruzei os braços e nunca me dei por vencido. Peguei num dos mastros e coloquei-o de través para garantir algum equilíbrio. Um dos bidões foi amarrado a uma corda e largado para servir de âncora flutuante. No dia seguinte improvisei um remo com um dos barrotes do estrado da canoa e pedaços da cobertura, a fim de conseguir dar alguma orientação. Mas de pouco me haveria de valer face à fúria dos constantes tornados. Como bóia de salvação utilizei o resto do estrado e adaptei-lhe um pequeno colchão de ar; frágil recurso para forças tão descomunais!

Foram momentos de extrema aflição, que me pareceram verdadeiras eternidades, durante 38 longos e difíceis dias, 24 dos quais a beber água do mar e das chuvas, e duas semanas sem alimentos que não fosse algum peixe que ia apanhando (e quando acontecia) ou ave que, entretanto, pousando, sacrificava. Enfrentando tempestades, sucessivas, incluindo ataques de tubarões. Ainda cheguei a pescar alguns de pequeno porte, enquanto tive anzóis. Mas, até estes, mais tarde, me haveriam de faltar.

Acabei por ser arrastado pelas correntes até à Ilha de Fernando Pó, já no limiar da minha resistência física, onde fui tomado por espião, algemado e preso numa cela de alta segurança, a mando do então Presidente Macias Nguema, após o que fui repatriado para Portugal, tal como me acontecera na Nigéria. Mas, agora, graças a uma pequena mensagem que levava do então jovem Governo de São Tomé e Príncipe, que recentemente tinha ascendido à sua independência, para saudar o povo irmão brasileiro, quando eu aportasse na sua costa.

Os objetivos dessas minhas travessias foram vários: antes de mais, o fascínio que o mar exerceu em mim desde o primeiro dia que desembarquei, do velho Uíje, ao largo da baía azulinha da linda cidade de São Tomé; o desejo de me encontrar a sós com a solidão e a vastidão do oceano e, de perante esse cenário, me poder interrogar, ainda mais de perto, sobre a presença e os mistérios de Deus. Mas também por outras razões de carácter histórico-científico e humanitário, tais como evocar a rota da escravatura, ao longo da grande corrente equatorial, lembrar esses ignominiosos tempos do comércio de escravos e chamar atenção para esse grave problema que, sob as mais diversas formas, continua afetar a existência muitos seres humanos na atualidade. Mais, demonstrar a possibilidade de antigos povos africanos terem povoado as ilhas, situadas naquele imenso Golfo, muito antes dos navegadores portugueses ali terem chegado. Por último, contribuir para a moralização de futuros náufragos. Felizmente quis a minha boa estrelinha e, creio, com ajuda de Deus, que pudesse resistir a tantos dias de angústia, de sobressaltos e de incerteza.

Já se passaram vários anos, porém essa minha experiência ainda está muito presente na minha memória. E duvido que algum náufrago possa alguma vez esquecer os seus longos momentos de abandono e de infortúnio.

Jorge Trabulo Marques


São Tomé

julho 2015