expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

terça-feira, 28 de outubro de 2025

8º Dia à deriva numa piroga no Golfo da Guiné 28-10-1975 Ó Solidão Purificadora da Terra, dos Mares e dos Céus!.

 Jorge Trabulo Marques 

Ó Solidão Purificadora da Terra, dos Mares e dos Céus!...  Em noite alta, solitária e cerrada, escura é a noite, escuros  serão os  caminhos    que se me abrem em todas as direcções!......E também  escuros   serão certamente os caminhos que  me conduzirão a Deus... 

Imagem registada com a máquina fixada ao mastro e disparada com um barrote
Jorge Trabulo Marques. Recordando os meus 38 dias à deriva numa canoa no Golfo da Guiné , pelos mesmos mares    que o épico de  “Os Lusíadas! Cantou

"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
No grandíssimo gólfão nos metemos,
Deixando a serra aspérrima Leoa,
Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas que ali temos,
Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou"


 “
O tormento no meu coração me dá alegria; que a esperança enganosa fique longe de mim”


Si dolce è’l tormento

Si dolce è’l tormento
Ch’in seno mi sta,
Ch’io vivo contento
Per cruda beltà.
Nel ciel di bellezza
S’accreschi fierezza
Et manchi pietà:
Che sempre qual scoglio
All’onda d’orgoglio

Versos de Claudio Monteverdi

Por aqueles que sulcaram mares nunca dantes navegados e conhecidos - Sons épicos e versos de Euclides Cavaco, evocando Vasco da Gama - O grande marinheiro português, aquele que abriria a primeira rota marítima entre os Oceanos Atlântico e Índico, vídeo, com sons dos mares, em que, arrojados navegadores, partindo em frágeis caravelas, desbravando os sete oceanos, foram dando a conhecer novos mundos ao mundo;



Ó Solidão Purificadora da Terra, dos Mares e dos Céus!...
Em noite alta solitária e cerrada,
a sós com Deus e com minha alma,
mais taciturna que tranquila ou alvoroçada,
sinto, escuto e medito quão medonho e triste
é o manto escuro que ondula e me envolve!
Como, se em cada vaga que espuma e me sacode,
em cada inesperado golpe penúmbreo e volúvel
que cruelmente investe sobre o casco instável
e tombaleante do meu frágil e penoso esquife,
no dorso do tosco madeiro em que resisto e vogo,
subitamente rolasse comigo, inteiro e vivo
e, sem poder sequer pronunciar uma palavra
ou implorar uma prece ou gritar um simples ai
- Oh! Quem me socorre! Ai! Quem me acode! –

Sim, imediatamente descesse até ser envolvido
pelos lodosos e talvez florescentes limos
dos  escombros ou despojos de outros desgraçados
esquecidos nas mais negrissimas cavernas abissais
para ali meu corpo se decompor e diluir para sempre
ofuscado completamente da  luz solar  ou do luar!
Perdido  e esquecido para um nunca mais
no fundo do mais abissal  e fantasmagórico sepulcro!

Todavia, enquanto assim quiser o meu ínvio  destino,
vou indo sem rumo, não sei bem para que outro mundo!
Açoitado e arrastado por montões de sinistro brilho!
E na iminência constante de ser tragado e engolido!
Na liquidez da vasta superfície de um agoiro escondido!

Um caixote de lixo a servir de baú 

Mas esta é também a vasta e sombria noite que habito!
que silenciosamente perscruto e me faz companhia!
Num permanente reencontro, entre o cismo e o pasmo !
A noite de todas as eras, silêncios, marulhos e rugidos!
A noite assombrosa que vou prosseguindo sempre
no seu movimento e ritmo constante mas renovado!
Perpetuadamente instável, fluídico e inacabado!
Sob um espesso teto de pardas ou brancas névoas,
ou buracos, que ora se entreabrem ora cerram
no infinito azul profundo e estrelado
que não me inibe, intimida ou apavora,
por tão familiar eu lhe pertencer,
mas que também não me deslumbra
nem  conforta meu ser ou me consola!






Sim, vogo por este imenso vale despido !

Alheio a  tudo que é vivo e floresce!
Através deste  ermo deserto noturno,
que ora reaparece ora se me ofusca!
Aberto e livre a todos os instante e marés!
Mesmo quando a arcada das minhas pálpebras
descai e soçobra vencida ao sono e à fadiga
mesmo assim, ao mais leve estremeção
ou mais agreste báte-báte de violenta vaga,
estertor a fustigar o casco da  frágil piroga,
abro logo meus espantados olhos,
como que em sintonia ao pulsar
mais acelerado do meu coração,
tendo de imediato a nítida percepção,
de quão sozinho vou indo continuamente
arrastado pelo hálito das correntes e  ventos
vogando à flor de revolto mar
ou de perturbadora e podre calmaria
triste e desamparado,sentindo,
porém, em mim, não propriamente o tolhedor medo
mas a vital necessidade de um acolhedor abrigo ou afago,
de encontrar neste imenso circulo de turvos brilhos de mar
a tão desejada e justíssima aspiração à paz e plenitude,!
Sim!.. Mesmo na vastidão do distorcido e turvo espelho
da ondulante toalha líquida que se expande e não tem fim!
Sinto em mim, o hálito salgado com que me entonteço e respiro!


Vou indo  assim à deriva, sereno e grave, 
sem precisar de auxilio de ninguém!
Pois, mesmo que dele precisasse, 
ninguém me estenderia a meu lado ou do alto a sua mão!
Atento e indiferente  ao estrondo  e à luminescência de tudo 
ao silêncio que cintila ou à surdina do ecoar do surdo marulho!
Vestido com as vestes da nocturna e translúcida solidão!
Absorto  à crua e nua verdade transfigurada de assombro!

As trevas adensam-se na atmosfera e,  por tão habituais,
quase  já não me impressionam, não me comovem mais.
Fazem o seu percurso. Eu  vou  fazendo sinuoso o meu!
Embora não sabendo qual o destino que Deus me deu!...


Alguns dos tubarões pescados

Sim, as sombras estão por todo o lado,
flexíveis e em sagrado âmago e comunhão!
Espalham-se em círculos  de tingida água de luto,
em cintilante matéria alada de arcos de estranho veludo
sobre mim, em qualquer ponto ou aérea linha ou direçao!

Vagueio sem destino  com a coragem e o medo que ainda não sei vencer.

Não recuo a nada....Porque, enquanto tiver algum medo é sinal de que vivo....
Vou indo com o soooar do mar! Com o mar que soa! Com o mar que brâaame!..
Vou indo, derivando com o mar que voa!... Com o mar a bramaar!

Sou o cavaleiro andante sonhando acordado!... Sonhando cavalgando
este vasto largo, este imenso ondular.. Sonhando e cavalgando o mar!...
Porque, ao sonho, não há limites, depurações nem outras barreiras!
A noite atormenta corações solitários, ante um mudo firmamento! 
Ou quando espessas névoas ofuscam o sono luminosos do sonho!
Mas esta é a pupila e o aroma fluido do meu  ilimitado tormento 
bem longe das vistas do mundo, dos ocultos e longínquos astros!
E agora que o silêncio é submerso pelo rugido do vento e do mar,
Vestindo as  roupagens da noite, tendo-as por únicas companheiras!..





Mas, ó  piedade impiedosa dos céus!..
Nenhum sinal de vida! Ninguém...Nem vivalma!
Este é o nervo desta desmaiada e violeta evidência!
Só as vagas.... e atrás das vagas, outras vagas ainda!
O vento soluça e geme. Perpassa-me pelos meus ouvidos
como um fino acorde quando menos se exaspera ou aquieta!
- Estou continuamente envolto  pela lividez da sua fulgência!



Sonâmbulo abandono o meu, estranha vida esta a minha!...
Onde irei eu numa noite de breu assim e por este mar fora?!.. 
A que distância haverá um qualquer porto ou cais de abrigo? 
- Praia de areia fina dourada ou grossa e negra em costa rochosa 
onde possa eliminar as sombras dos meus olhos e ali possa repousar!...

As nuvens vão correndo  escuras e velozes no tropel da sua marcha,
 galopando lívidas, enroladas de novelos, quase sobre a minha cabeça 
fazendo-me confundir  com o cenário do mesmo sombrio e caótico  tumulto! 
Quase me sentindo esmagado e sufocado pelo  pelo seu corrido e alado peso. 


Em que ponto do mar ou do céu poderei pousar o meu olhar?!..

Bravio e deserto! Espectral cenário!  - Estranha e cruel beleza!
Quem se compadece de mim?!... Tão prolongado já vai
o sofrimento, a angústia que me aplaca e não se esvai,
que, de tanto penar neste deserto varrido, cinzento e sombrio
e, dos céus cerrados, vir somente a indiferença e a imanente  frieza,
sim, tamanha já  é a minha dor, a amargura intensa que não se me apaga,
que, esta contínua incerteza, este permanente amargo e continuado penar,
este resignado sentimento na sua dinâmica dureza que me fustiga e perturba,
se transforma, simultaneamente, não só em persistente,  profusa e sentida dor
mas também num misto de sereno, doce e balsâmico alívio e vão contentamento!
Como se eu fosse - mesmo diluído e  errante como as sombras desta agitada vastidão
o Deus de mim próprio e das escuras névoas, o meu próprio Senhor e Génio Criador!



De peregrino nos mares a peregrino da terra e da luz

















É o vento, são as vagas!...
No tropel desta imensa e negra vastidão!...
Encadeadas umas atrás de outras vagas! 
E de outras que invisivelmente lhe vão sucedendo, 
no interminável movimento do seu infatigável carrossel!...
Neste tumulto de esquecimento, talvez só meio silenciado ou apagado  
nas covas da  sua tumultuosa e espumante e nocturna ímpia ondulação 
ou  então quando raiar a alvorada a mostrarão ao iodo acre estampado 
nos meus olhos, à  minha face  e ao meu coração talvez em ruínas e devassado!

Sim! Há  um marulho a toda à volta que tumultua, se levanta, blasfémia e uiva!...
Sob o teto de um firmamento  escuríssimo, cobrindo-se de desumana imensidade!
Mais cerrado e  debaixo dos longínquos astros, ofuscado das estrelas, como nunca!
Que põe nas cadências da minha alma e na angústia do meu peito magro e dolorido,
um estremecimento estranho e inexplicável, uma dor aguda, vazia e árida,
que, na eternidade dos timbres  dos remoinhos deste negro mar,
na  volúpia de uma caótica e desarmoniosa modulação,  
sobre a tosca tábua onde vagueio e sem qualquer refúgio,
 faz sobressaltar  ainda mais o palpitar meu pobre coração!



Soergo-me ajoelhado, tímido levanto o húmido oleado
com que cubro a piroga, envergando ainda a capa 
com que durmo e debruço-me sobre a  frágil borda,
espreito por uma nesga o que vai lá fora,
olho a noite de olhar turvo e arregalado
para descortinar o que vai ao largo....

É o fuzilar de relâmpagos e mais relâmpagos a rasgar negridão.
Fico preocupado…Além dos sinistros raios a incendiar o mar,
que fulgurantemente rasgam a espessa vastidão que me cobre
e  a turbulência do turvo horizonte em todo o circulo, além de mim,
nada mais  ouço que o uivar do vento e, nos  sombrios confins, 
também agora a trovejar o  ribombar de um sinistro trovão!..

Nada mais enxergo que manchas fugidias e difusas!
Vultos disformes!...Vultos diluídos e montanhosos!
E, atrás desses vultos, alterosos, difusos e escuros,
outros maiores, e sem tréguas, se  enrolam fugidios
à superfície  vestida de  imensa e negra vastidão!..

Manchete da travessia S. Tomé -Nigeria 


















Ameaçado por constantes e cruéis  sacudidelas
cambaleando como um ébrio mas vigilante e lúcido
em vão perscruto o denso horizonte e nada enxergo,
senão  manchas de massas desconformes e gelatinosas,
acima da ondulante vastidão que  meus olhos cega e turva..
.
Em vão, vogando, lúcido e atento, sulcando as  movediças águas.
mais  como espírito pairando de que como ser humano  vivo e perdido,
talvez como o profeta jesus pilotando a sua barca em demanda da sua cruz! 
Em cuja imensa cúpula nem a lua nem as estrelas, dão sinais da mais ténue luz!
Só farrapos  de cinzas e penumbras esfarrapadas, pairam do alto ou vindo debaixo
vão correndo à superfície das penumbras viscosas da erma vastidão lívida e líquida.
Sobre a qual emergem  novelos  de névoas fantasmagóricas,  formas vagas e  fugidias!
Movendo-se  e avançando  na crina do vento  e do mesmo manto fúnebre e ondulante !
Descendo ou subindo a crista da vaga ou  desaparecendo, tão subitamente
como se lembrassem dispersos navios fantasmas cavalgando, avançando e ondulando!

Nenhum raio de luz vem do alto!.. E, no entanto,
as águas enrolam-se e refletem um brilho lívido e baço!
Acima de mim e  deste meu vagabundo e solitário vaguear 
Não há uma aberta, um devaneio à dor ou  assomo de  claridade!..
Por isso, sinto-me agora ainda mais recolhido e desolado. 
sozinho, triste, perdido e abandonado!  - Mas com fé!
Entregue às mãos de um milagroso e germinador Criador!
Imerso numa paz podre e angustiante, tendo por cenário,
um quadro que tem tanto de sombrio, como de horrível e belo!
Traz nas pastosas vagas que se revolvem e quebram ao meu lado,
o timbre  iminente de mais umas longas e atribuladas horas de vigília! 
De sonos perdidos, enfrentando as sucessivas ameaças e investidas!
Durante o dia ainda  se vê donde vem o perigo e como enfrentá-lo.
Porém, quando à escura  noite, sobrevém a violência dum tornado
ou a inesperada tempestade, tudo é medonho!...- Não há palavras!.

Os humores e os remoinhos do mar são um permanente catavento!
Variam subitamente  e  mudam-se como o vento e  sem desfalecimento!  


Remando com o remo improvisado

Vento e vagas! negros estão os mares e os céus!
Dentro de mim, onde vogo, em redor ao largo e ao alto
reina a solidão e o peso da noite mais funda! - Estou só!
Angustiado, face ao abandono do mundo e de Deus.
Estômago a dar horas, encolhido e vazio como um fole!
Em vão aperto o cinto, martirizado por fome atroz!
Sequioso de água potável - Corroído e atormentado
pela sede  - No equador o sol é a pino! Agora que eu faço?!..
Água potável, só a das chuvas ou recurso à do salgado mar!
Oh, sim!..Dorido das chagas, as feridas da muita humidade,
das pústulas  que me cobrem as partes! Vogando enfim
por caminhos ínvios que eu não sei - Silente e prostrado,
taciturno no fundo  de mísero esquife que flutua- Deste caixão
vergastado vogando na solidão de escuras águas de espuma!
Solitário e silencioso, nem um murmúrio balbucio mas sofro.
E choro por vezes as lágrimas sofridas da minha cruel sorte.
Errando na confusa superfície, derivando à toa e sem norte!
Qual vida sem rumo ou névoa que se esbate, esvai desfaz ou apaga.
Qual moribundo! Qual Cristo que espia descido da cruz do calvário!

Não desesperado, não rendido mas já mais inseguro e menos calmo,
sem que alguém me responda, inquieto, pergunto ao meu coração:
- Serei apenas a onda fugidia que se ergue franjada e se desfaz?!..
O espectro diluído e esfumado, a alma  errante de outro mundo?!..
Afinal, o que serei eu à flor deste mar negro fugidio e encapelado?!...
Serei o homem só no vasto oceano revolto vogando perdido
à espera de cair  no tumultuoso negrume da  mais horrível tumba,
envolvido pelos dedos crespos do mais insondável poço ou abismo?!..

Ó negros e opacos céus, ó negros e corridos mares!...
- Longe já vão essas noites nas densas trevas envolto
pelo bafo  permanente da aragem viscosa da morte,
as vergastadas  ou os salpicos violentos da salgada espuma!
Todavia, quão perto os tenho ainda na minha memória!
Quão posso agradecer a Deus e aos Céus, a minha sorte!

Jorge Trabulo Marques 

domingo, 26 de outubro de 2025

Benfica - Entrevista a Francisco Moreira - Estreou-se há 81 anos . Em tempo de eleiçoes, recordando um jogador dos dias em que não se ganhavam milhões - Mas alguns milhares de escudos bem contados

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e foto-jornalista

Benfica - Francisco Moreira estreou-se há 81 anos . Em tempo de eleiçoes - Recordar um jogador de um tempo em que não se ganhavam milhões - Mas alguns milhares de escudos bem contados

Rui Costa venceu a primeira volta das eleições do Benfica com 42.13% dos votos, o que significa que não houve maioria absoluta e que terá de haver uma segunda volta, com João Noronha Lopes, o segundo candidato mais votado, com 30,26%.

Luís Filipe Vieira (13,86%), anterior presidente, João Diogo Manteigas (11,48%), Martim Mayer (2,10%) e Cristóvão Carvalho (0,18%) eram os restantes candidatos à liderança, naquele que foi o ato eleitoral mais concorrido da história do emblema lisboeta, com 85.422 votantes (correspondentes a um total de 1.767.676 votos), mais do dobro dos 40.085 do anterior, em 2021, em que Rui Costa derrotou Francisco Benitez.

Benfica em tempo de eleições - Entrevista a Francisco Moreira Estreou-se há 81 anos, tempo em que não se ganhavam milhões mas uns escudecos.Nos dias dos chamados "Diabos Vermelhos" e "Cinco Violinos". Apelidado de Pai Natal .Uma das antigas estrelas das águias Em 10 épocas conquistou 1 Taça Latina, 2 Campeonatos Nacionais e 4 Taças de Portugal.´´

Confissões de uma das mais lendárias glórias do Clube da Luz - Serviu o Benfica13 anos – Naceu no Barreiro em 29 de Abril de 1915 , em cujo clube se lançou. Faleceu, em 2 de Novembro de 1991 - Entrevistei-o para a RDP-Rádio Comercial, no café Luso, cinco anos antes de partir para a eternidade

UMA VIDA DEDICADA AO FUTEBOL

13 anos a médio de defesa central -  Jogou na seleção Nacional e participou na conquista  seis campeonatos e uma Taça Latina para o Benfica

Foi uma das principais figuras  no ciclo dourado de 1947, quando Portugal bateu a Espanha pela primeira vez e se estreou a vencer na condição de visitante, na República da Irlanda. Reconhecido como um “Médio com enorme disponibilidade para a luta, fazia tudo em esforço sem preocupações de ordem estética. Em nome da paixão pelo jogo e do amor pelo Benfica.

Começou a jogar aos 14 anos no futebol de praia. E, mesmo quando jogava, no Barreirense,  trabalhava na Lisnave, “com um “revolver” nas mãos ( máquina de cravar rebites nos barcos)
Tinha 71 anos quando o entrevistei – Confessou-me que ainda podia até ter jogado mais tempo mas os adversários, nomeadamente do lado dos Sportinguistas, apodavam-no do Pai Natal, pois o que desejavam era vê-lo fora das quatro linhas: não tanto pelo seu desmérito ou redução das suas capacidades físicas mas por ser um dos mais talentosos jogadores, a meio-campo, um dos mais categorizados distribuidores de jogo, que mais contribuía para as vitórias benfiquistas
“Lá vai cavilha nas pernas” .- Era este, de algum modo, o lema dos pioneiros tempos do futebol, naquela altura, em que valia tudo; o que contava não eram as técnicas, as fintas ou os dribles artísticos , a disciplina mas marcar golos: De uma vez levou oito pontos.

Apelidado  também de "Chico da Badana"  e pelo alcunha de Pai Natal – Por ser o jogador mais velho na equipa da luz - Quando deixou o Benfica, aos 37 anos, fizeram-lhe uma festa  de solidariedade – Com os fundos angariados  pôde então comprar uma casa.

sábado, 25 de outubro de 2025

Há 50 anos, neste dia. há 5 dias seguidos, perdido à flor do mar. Vogando e deslizando de vaga em vaga, após o crepúsculo, em plena noite escura, deitado no fundo da canoa, tal como Cristo antes de ser erguido na Cruz e Crucificado

 












Oh Deus Mesercodioso!... Onde Irei à deriva numa noite assim?!... Sozinho deitado no fundo de um mísero tronco escavado!

Há 50 anos, neste dia. há 5 dias seguidos, perdido à flor do mar.. Estendido no fundo da canoa, tal como Cristo antes de ser crucificado. Vogando e deslizando de vaga em vaga,
após o crepúsculo, em plena noite escura, deitado
no fundo da canoa. Uma violenta tempestade,
faz-me perder o remo. O improvisado,
feito de pedaços da cobertura,
num barrote, de quase nada me servia
À deriva numa frágil canoa no Golfo da Guiné,
38 longos dias e noite, em pleno mar equatorial,
Aguardando que a fundura do invisível abismo
que se estendia por baixo das minhas costas
fosse finalmente a minha eterna sepultura..

Perdido à flor do mar em plena Noite Escura

Aqui vou sozinho e mudo
Esperando o instante que passa
Alheio a nada, desconfiando de tudo
Puro, como a sombra que esvoaça.

Mas serei eu porventura assim
que por esta noite escura vou indo
Indo comigo e fora de mim
Preso a um desejo, sentindo?!...

É muito difícil a resposta
Impossível talvez responder
Sei que a tristeza me bateu à porta
Sei donde venho, é o que posso dizer
Não sei todavia onde estou
Não sei tão pouco a que venho
Não sei tão pouco onde vou..



Sim, a sós, comigo e com a minha intimidade,
aqui vogo, voz emudecida, flutuando à deriva e à solta,
acima e abaixo de alterosos montes e sulcos
De negras e altas montanhas líquidas,
que, cavalgando ao meu encontro,
ora se erguem, abruptamente,
ora parece que nelas me envolvo e afundo.

Porém, sempre de fronte pura e aberta
à negra imensidão do infinito!
Às sucessivas rabanadas
do agreste uivo do vento,
aos seus golpes duros!
Arrastado pela sua fugidia
e perturbadora fúria, que ecoa espaço a fora!
Vogando em mar deserto, de mil remoinhos,
de fervente espuma escura!

Imerso nas vestes da imensa solidão noturna, perdido e esquecido
De todo mundo e, porventura, até dos escuros e turvados Céus.
E certamente que também da misericórdia ou piedade de Deus .

Nenhum sinal de vida. Ninguém. Vivalma – Só as escuras vagas!
E atrás das vagas, outras e outras ainda!
Alterosos vultos que não cessam de se erguer e levantar,
vindos não sei donde!

Sonâmbulo abandono o meu!...
Errante e estranha vida a minha!
Para onde serei levado neste miserável esquife,
em noite assim?!...
Para onde me arrastará a minha canoa
nesta louca e incerta deriva?!...
Fantasmagórico e vertiginoso carrossel,
que o vento leva à sua frente, bramindo e uivante,
soando na mesma sinfonia das invisíveis correntes.
Dos vultos sombrios das medonhas e alterosas vagas,
que tumultuam em torno de mim,
vindas de todos os cantos do enegrecido horizonte,
sem todavia saber para onde vão,
sem lhe distinguir direção alguma.

Oh, escura é a noite!
E também escuros são os caminhos à minha volta!
Múltiplos os caminhos que se abrem
para onde quer que me volte!
E, por certo, também escuros os caminhos
que me conduzirão a Deus…
Sim, vou indo, indo arrastado, c
om um medo que ainda não sei vencer.
Mas cá vou indo, porque, enquanto vou vogando assim,
é sinal que vivo.
Indo, sim, com o soar do mar,
com o mar que soa, com o mar que brame,
Com o mar que voa! À flor do mar!
– Qual cavaleiro errante, sentado
No fundo de tosco e frágil madeiro,
sonhando acordado, errando
à superfície deste escuríssimo
e ondulante manto, vasto mar!

Porém, em torno de mim, brame e crepita a densa escura treva!
Avança em turbilhões de fumo e vertigem o tumulto da vaga!
Só as escuríssimas ondas, e, atrás delas, outras ondas mais ainda!
Ao mesmo tempo que nos ares se enrola
e desvanece a baça névoa!
Erguem-se e perpassam à minha volta,
fugazes rolos de inúmeros trapos!
Que se fundem e refundem,
num duelo incessante, desvairado torvelinho!
Enquanto meus olhos, mergulhados de afronta,
pasmo, medo e mistério,
me provocam mil interrogações!
Se alucinam de díspares e mil perguntas!

Varrem e escrutinam, todos os confins
do convulsivo e misterioso oceano!
Perdidos na superfície da ondulante massa escura, imensa sepultura aberta!

Sim, a sós, comigo e com a minha intimidade,
aqui vogo, voz emudecida
flutuando à deriva e à solta,
acima e abaixo de alterosos montes e sulcos
De negras e altas montanhas líquidas,
que, cavalgando ao meu encontro,
Ora se erguem, abruptamente,
ora parece que nelas me envolvo e afundo.
Porém, sempre de fronte pura e aberta
à negra imensidão do infinito!
Às sucessivas rabanadas do agreste uivo do vento,
aos seus golpes duros!
Arrastado pela sua fugidia e perturbadora fúria,
que ecoa espaço a fora!
Vogando em mar deserto, de mil remoinhos,
de fervente espuma escura!
Imerso nas vestes da imensa solidão noturna, perdido e esquecido
De todo mundo e, porventura, até dos escuros e turvados Céus.
E certamente que também da misericórdia ou piedade de Deus .

Jorge Trabulo Marques – Por mares do Golfo da Guiné

Foram 38 longos dias, uma parte dos quais sem mantimentos, bebendo água do mar e das chuvas, valendo-me unicamente dos recursos do mar, enfrentando tempestades, sucessivas e frequentes ataques de tubarões. Ainda cheguei apanhar alguns de pequeno porte enquanto tive anzóis. Mas, até isso, me haveria de faltar. Acabei por ser arrastado pelas correntes até à Ilha de Bioko (antiga Ilha de Fernando Pó), já no limiar da minha resistência física, onde fui tomado por espião, algemado e preso, numa cela de alta segurança, a mando do então Presidente Macias Nguema, após o que fui repatriado para Portugal, tal como já me havia acontecido na Nigéria.