
Numa canoa: de São Tomé ao Príncipe, em 18/02/1970 172 Km – Parti à meia-noite da Baía Ana Chaves, disfarçado de pescador: depois de ter realizado uma viagem costeira, desde a Baía Ana de Chaves (onde se situa a cidade), até à praia onde se encontra o padrão que assinala a chegada dos primeiros navegadores portugueses, precisamente na véspera do dia em se iniciavam as comemorações dos 500 anos da descoberta das ilhas (experiência que serviria também de teste para outras viagens mais arrojadas), parti então para a primeira aventura, que foi a travessia de São Tomé ao Príncipe.Larguei à meia-noite, clandestinamente, pois sabia que, se pedisse autorização, me seria recusada, dada a perigosidade da viagem, levando comigo apenas uma rudimentar bússola para me orientar. Fui preso pela PIDE, por suspeita de me querer ir juntar ao movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, no Gabão, o que não era o caso. Levei três dias e enfrentei dois tornados. À segunda noite adormeci e voltei-me com a canoa em pleno alto mar. Esta era minúscula e vivi um verdadeiro drama para me salvar, debatendo-me como extrema dificuldade no meio daquele denegrido sorvedouro das águas
Foi numa minúscula embarcação à vela e a remos - uma canoa muito fragil e tosca, esburacada, de onde em onde pela traca e a proa com uma enorme racha, que durante 58 horas consecutivas,- e algumas que longas horas: - em pleno mar alto do Golfo da Guine, sob o sol escaldante do Equador, muito longe de qualquer rumor humano, num percurso de mais de 170 milhas (300 km) e, que numa luta constante com a tempestade, a euforia de volumosas vagas, a solidão, e finalmente, a sede, a fadiga, o domínio do sono e o náufrago, que vivi os momentos mais-difíceis, mais dramáticos, senão também ,embora não pareça, alguns dos mais aliciantes de toda a minha vida:
Este o texto que editei em cinco edições da revista Angolana Semana Ilustrada
O NOSSO REPÓRTER DIZ QUEM É!
Sou um jovem, natural da freguesia de Chãs, Concelho de Vila Nova de Foz Côa, nascido e criado no campo até à idade dos 14 anos, altura que iniciei a frequência do meu curso de Agente Rural, na simpática Vila de Santo Tirso, portanto, como a maior parte da minha infância vivida no apego da terra, entre rudes montes, e bem longe do contacto ou influência das gentes do mar e do imenso e misterioso Oceano.- Excepto, quando, aos 12 anos, trabalhei como marçano em Lisboa.
Porém, talvez por isso mesmo, aqui esteja a razão que marcou no meu espírito uma enorme ânsia, uma indomável paixão pelo desconhecido, a que o mar e tão extraordinariamente propicio.
Não somos nos, portugueses, um Povo de Marinheiros e de um passado histo- rico tão repleto de gloriosas tradições na epopeia marítima que, sabe-se la, não poderá ser também esta teima aventureira uma herança dos nossos antanhos?
COMEÇA AVENTURA
Sim, lá parti, de facto, no dia previsto, sem ninguém dar por minha conta, como se de um vulgar passeio se tratasse, alheio a todas as contingências do tempo e do espaço, do ignoto ou do incerto. em suma: a merce dum destino imprevisível.
E evidente, que não fui com aquela certeza, que é habitual, se bem que nutrindo sempre todas as probabilidades de êxito; quando se tem de fazer uma viagem num grande barco - transatlântico - ou sequer, num avião, onde tanta gente ainda tem medo, ou noutro qualquer transporte adequado, mesmo por mais longa e perigada ou inverosímil que nos pareça a viagem mas, desde que para o efeito, ela reúna ou pelo menos nos mostre aquela garantia mínima indispensável de comodidade, de segura.nça, de conforto e de confiança, as coisas tornam-se vulgares.
Mas o que e que se poderia imaginar, o que e que se poderia vaticinar ou exigir da fragilidade de uma canoa? Um tronco de árvore escavado, com o fundo abaulado, e a forma concavo- -convexa, a favorecer um desequilíbrio permanente na sua deslocação tomboleante, com as dimensões de:
Porém, talvez por isso mesmo, aqui esteja a razão que marcou no meu espírito uma enorme ânsia, uma indomável paixão pelo desconhecido, a que o mar e tão extraordinariamente propicio.
Não somos nos, portugueses, um Povo de Marinheiros e de um passado histo- rico tão repleto de gloriosas tradições na epopeia marítima que, sabe-se la, não poderá ser também esta teima aventureira uma herança dos nossos antanhos?
COMEÇA AVENTURA
Sim, lá parti, de facto, no dia previsto, sem ninguém dar por minha conta, como se de um vulgar passeio se tratasse, alheio a todas as contingências do tempo e do espaço, do ignoto ou do incerto. em suma: a merce dum destino imprevisível.
E evidente, que não fui com aquela certeza, que é habitual, se bem que nutrindo sempre todas as probabilidades de êxito; quando se tem de fazer uma viagem num grande barco - transatlântico - ou sequer, num avião, onde tanta gente ainda tem medo, ou noutro qualquer transporte adequado, mesmo por mais longa e perigada ou inverosímil que nos pareça a viagem mas, desde que para o efeito, ela reúna ou pelo menos nos mostre aquela garantia mínima indispensável de comodidade, de segura.nça, de conforto e de confiança, as coisas tornam-se vulgares.
Mas o que e que se poderia imaginar, o que e que se poderia vaticinar ou exigir da fragilidade de uma canoa? Um tronco de árvore escavado, com o fundo abaulado, e a forma concavo- -convexa, a favorecer um desequilíbrio permanente na sua deslocação tomboleante, com as dimensões de:
Comprimento 4,5 m; de boca 70 cm; de pontal 40 cm; da linha de obras vivas a altura da borda 30 cm Era assim, tal e qual desse tamanho, o habitaculozinho que, levantou cara ao mar, que, mesmo depois de singrado e vencido, gente houve que não acreditou logo no meu sucesso, achando-o impossível.Foi, pois, num elemento estreitíssimo que transpus um grande braço desse portentoso oceano, esse mar equatorial repleto de lendas, de ameaças e de perigos, infestadíssimo de enformes tubarões, de frequentes e de inesperadas tempestades de caracter ciclónico - os tornados -, exposto por completo à chuva, a um sol abrasador, ao arrefecimento da noite, desprovido sequer, ao menos do ínfimo indispensável de quaisquer condições de repouso, de segurança, e, vá lá de orientação; enquanto a canoa não se voltou e não me deixou praticamente sem nada, vali- -me ainda duma pequeníssima bússola de algibeira adquirida na véspera, numa casa comercial em S. Tome, pelo modico preço de 30$00, mas até mesmo isso, que tanto jeito me fizera, havia de me falhar mais tarde numa grande parte do percurso.
Quem pois, nestas circunstâncias era capaz de premeditar um êxito certo?
TODOS ME METIAM MEDO
Dos pescadores da terra, tão exímios neste primitivo e rudimentar meio de locomoção marítimo, nunca se ouviu dizer, ou pelo menos se conste que, voluntariamente tenham ido tao longe.
Não obstante, coitados, que tal houvesse acontecido quando o tornado os arrasta até lá
E isso quando acontece, é já ter muita sorte, porque às vezes, quando a correnteza das águas ou a fúria impiedosa de algumas tempestades os leva de frente, e mais vulgar dizer-se o seguinte: era uma vez um pescador que saiu da praia para o mar, e até hoje, nunca mais apareceu. Sim! Eles têm razão em dizerem o seguinte:
Gente não vai ao Príncipe não senhor. La fora tem muito calema e muito tornado. Se canoa vira , vem logo gandu grande (tubarão) que engole inteirinho perna de gente. Isso pescador que vai lá parar é tornado que o levou a ele e é gente de feitiço , porque outro pessoa , não pode mesmo senhor. Morre no caminho. Você experimenta,"
Contudo, os pescadores destas duas ilhas não temem o mar. Olham-no com, respeito. É muito diferente. Pois, eles , vão até onde o alcance da sua vista os não deixa evadir por completo da terra, o que, mesmo assim, em condições climatéricas favoráveis , representa uma distância considerável de milhas.
Mas para quê? Qual a necessidade de ir tao longe?
A sua vida, já é de si tão dura e perigada, é mais do que uma constante aventura: é um desafio permanente à natureza quando esta nem sempre é prodiga ou benevolente.
Conheço-os de perto. Tenho mantido com eles, amiudadas vezes, interessantes diálogos. É uma gente muito franca e muito devotada ao seu laborioso trabalho.
Estes bravos e humildes pescadores são donos de uma experiencia _tao vasta e de uma noção tao exacta, tao perfeita, embora empírica, claro está, de muitos dos segredos do mar e previsões do tempo, que as mais das vezes, quando me apercebo da certeza dos seus conhecimentos ou dos seus cálculos, mais me lembram adivinhos do que simples homens do mar.
MAS CHEGUEI!
E descritas estas breves linhas, quase ao de fora da pergunta atrás formulada, direi ainda:
De facto, nem eu, nem ninguém poderia predizer um êxito certo.
Não sou um crente fervoroso ou um religioso praticante; e as minhas contas com Ele de há que tempos não andavam seriamente atrasadas!
Porém, havia sempre uma réstia de fé, mas agora mais do que nunca, me convenço de que: sem a Sua Divina proteção, as coisas nem sempre tomam o melhor caminho, e, que Ele é o Pai da infinita bondade, e Ele é o pai, que continua a ter piedade de nos, seus filhos, mesmo quando nos lhe voltamos de todo as costas.
Sinceramente!
Desde há muito tempo que havia cá dentro de mim qualquer coisa, uma espécie de vazio, que não me deixava ficar absolutamente tranquilo. Não sei se, talvez, por estar longe da família, há já alguns anos, certamente, também por isso, mas a verdade é que quando tentava rebuscar qualquer alivio espiritual, não tinha coragem e desistia.
QUANDO ME SURGIU A IDEIA
Então, em 20 de dezembro do ano transato, pus começo aos meus intentos insólitos.
Foi na véspera de um dia grande em S. Tome. O dia da inauguração do ano comemorativo do meio milénio da sua descoberta.
Decidi, norteado simultaneamente, pelo desejo da aventura e de reflexão espiritual, associar-me também a tão momentoso e significativo acto inaugural.
Como? Circunavegar de canoa a Ilha de S. Tome, e, de na passagem pela Esprainha, la colocar a Bandeira Nacional, junto ao padrão que naquele lugar foi erigido como monumento aos intrépidos Marinheiros Portugueses que, há cinco séculos, em 21 de Dezembro de 1470, ali desembarcaram pela primeira vez com a Bandeira das Quinas de Cristo
.
E a viagem, pelo menos até la e regresso, fez-se (40 milhas - 70 Km). A ida foi um tanto mais custosa: a remos, exclusivamente! Tive vento forte pela proa e mar encapelado.
Em certa altura do percurso ainda se beberam alguns "pirolitos" à pressão. Porém, a meu lado, la no fundo, o aspeto encantador da Ilha, e a orla negra e espumosa a emergir sinuosamente entre o seio do mar e a policromia da exuberante vegetação; a meu redor, a água cristalina a enrugar-se copiosamente em anéis de oiro e de luz; a minha frente, bem direitinha ao peito, a brisa fresca da vaga; lá de cima, das alturas infinitas, o céu límpido, magnifico e claro, e o sol quente, mas radiante, a tostar-me como um pimentão, extasiavam-me sobremaneira e tornavam esquecidos alguns momentos inoportunos.
ALGO BEM DIFICIL
E porque não circum-navegar a Ilha de S. Tome?
Na noite do dia anterior caiu chuva la de cima, forte, abrupta, aos cântaros, muito fria, o que me impedia ir mais longe.
Resta-me apenas, essa lembrança efémera:
Capitão dos Portos, disse: “Não! Não Senhor! Só devidamente acompanhado. Peça apo macoco que vá consigo coma traineira e depois venha falar comigo.
- Mas… eu responsabilizo-me!
- Não Senhor! .. Acontece-lhe alguma coisa , vem daí p seu pai e toda a sua família a incomodarem-me! E eu é que tenho a culpa porque o autorizei e lá tenho que mandar a vedeta à sua procura!
- Eu não tenho cá ninguém Sr. Comandante. Tomo a responsabilidade do que me acontecer… Creia que não me acontecerá nada.
- Já disse! Não insista maís. Então vá! Vá lá esta noite e suicide-se. Mas que eu não saiba. Que não me digam nada, senão mando imediatamente vedeta atrás de si e mando-o....
Devia ter graça! Uma traineira ao lado duma canoa! Um gigante ao lado dum anãozinho! Um assopro e zás - trás, aferrolhava-me logo. Era pois quanto bastava.
E uma vedeta com canhões e tudo apontar. Apanhava tamanho susto!
Era de facto, um dilema bicudo. Eu não pretendia acarretar problemas de qualquer espécie a ninguém. Confiava nas minhas possibilidades e desejava, unicamente, dar conhecimento da minha formalidade intenção e respeitar uma da Lei, já que o caso tinha aceitação de outras entidades oficiais.
E mesmo até, para a efetuação da pequena viagem à Esprainha, não foi tão fácil como, talvez se calcule.Pois tive ainda que escorregar com alguns tostões da algibeira, em papel à risca, e selos e nem assim, cumpri todas as exigências, quando não valia mais ir a pé ou de automóvel, que efeito era o mesmo.
Valeu a pena a maçada!...
Não satisfez por completo, é certo, mas ainda assim, viveram-se momentos muito agradáveis.
DE S. TOME AO PRINCIPE EM CANOA
Entretanto, dias sucederam uns após Outros, ideias surgiram e objetivos vieram ao decima.
Porém, a interdita viagem em torno a Ilha, interpunha-se: queria ficar sempre em primeiro plano. Mas não: Era desobediência craca.. Então, o quê?
Onde?
E esse onde a repercutir a passo, e a cada instante
Príncipe! - Lembrei-me um certo um cero dia
- Nunca la fui entredisse -. Dizem que é um encanto; autêntico Paraíso!
- Ora bem. De_canoa, propositadamente, nunca ninguém la foi.
Há! Sim. Há quem diga que alguns pescadores já lá foram parar, empurrados pelo tornado. Então, é possível, com um pouco de vontade ir-se la.
E, logo nessa ocasião me apercebi das inúmeras dificuldades que havia lá ir, mas convenci-me, imediatamente, que, com bastante treino, eu conseguia lá ir.
Por isso, não se julgue, que viagem clandestina ao Paraíso, foi motivada por um desejo cego ,ou inconsciente, tendo por rótulo - a sorte ou siciídio.
Não! Porque se o fosse, era fracasso absoluto. Teria sido o mesmo que ir rogar às Deusas que me passassem um visto lá para cima, que eu caá na terra, sempre triste, estava farto de viver. Preparei-me muito.


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