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sexta-feira, 20 de julho de 2012

ANTIGO AERÓDROMO CIVIL DE SÃO TOMÉ – O DIA EM QUE O TIGER DO COMANDANTE GROMICHO AFOCINHOU NA PISTA E O FESTIVAL DO AEROCLUBE IA ACABANDO NUMA TRAGÉDIA

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

 

  











Foi em 1971, por ocasião de um festival aéreo organizado pelo Aeroclube, destinado a assinalar a entrega dos diplomas aos alunos do 2º  curso de  pilotos. Sim, que decorrera no então aeródromo de São Tomé e Príncipe, por essa altura, já tornado mundialmente famoso, devido à ponte aérea São Tomé-Biafra .
A avioneta afocinhou a uma vintena de metros à minha frente. A pessoa que se vê no primeiro plano da imagem à direita, sou eu a correr para junto da Tiger, mal acabava de afocinhar. Um  pouco mais à minha frente, correm dois funcionários do aeródromo, com os extintores, prontos para apagarem os primeiros sinais de fumo, que logo começaram a notar-se.

Encontrava-me no local a fazer a cobertura para uma reportagem da revista de Luanda, Semana Ilustrada, de que era seu delegado em São Tomé. Ainda hoje me interrogo, como foi possível, a frágil aeronave, ao embater com um  tal estrondo, com a hélice e o motor sobre o duro asfalto da pista, não ter sucedido  a quase inevitável explosão. Houve muita sorte.  Além do tripulante, teria havido ali uma tragédia, já que os estilhaços, teriam certamente atingido as pessoas que se encontravam junto à pista, eu teria sido uma delas – Felizmente, tudo não passou de um grande susto – O bastante, no entanto, para a última  parte do festival, a mais aguardada, ter sido abruptamente ensombrada e interrompida, não tendo permitido que fosse o corolário de um extraordinário espectáculo aéreo, tal como até àquele  momento,  estava a decorrer.

Findo o rali-aéreo, que tivera a participação dos novos pilotos, seguiram-se os  momentos mais aguardados do festival, com as várias acrobacias  dos pilotos veteranos:  Alfredo Trindade,  pilotando um Austim, o chefe da pequena esquadrilha; Comandante Gromicho, a asa direita, num Tiger e o Comandante Damião a asa esquerda, numa Piper Cub

E, na verdade,   mal os pequenos aparelhos se ergueram no espaço em voo rasante sobre o traço rectilíneo da pista, logo deixaram antever que o público ia assistir às mais inconcebíveis demonstrações de voo e de perícia. E, de facto,  assim sucedeu, nos voos em grupo, com os três experimentados e hábeis pilotos. Só que, quando chegou a altura dos voos isolados, de cada piloto demonstrar, individualmente, as suas habilidades, aconteceu o inesperado: o Tiger tripulado pelo Comandante Gromicho, que iniciava a fase apoteótica do festival, ao  fazer um voo de alto risco, picado e rasante,  afocinhou com a  frágil avioneta, embatendo impetuosamente com a fuselagem no solo, deixando-a totalmente amolgada e danificada, fumegante, em começo de incêndio, cujo alastramento foi impedido pela pronta intervenção dos extintores.

Houve algum pânico. E houve quem desatasse a escapar-se do local, mas também houve (os responsáveis pela segurança, pilotos, repórteres e outras entidades), sim, que acorreram  imediatamente em direcção à avioneta acidentada. Confesso que ainda hoje me interrogo, como, naquela tarde de um belo domingo equatorial,  o Comandante Gromicho (um dos pilotos que fazia regularmente as ligações, entre as Ilhas de São Tomé e Príncipe), logrou sair com vida do pequeno Tiger – Mas a explicação, em boa parte, ficou a dever-se à sua notável destreza e larga experiência, fechando acto contínuo a  bomba de gasolina, e, num ápice, abrindo a porta e desembaraçando-se da  modesta máquina voadora que tripulava, sofrendo apenas umas ligeiras escoriações.
 
Declarações (excertos)

Comandante Damião, instrutor

“É pena que não haja mais incentivo, mais vontade de ajudar, porque o aeroclube é um aeroclube pobre. E faz o máximo que pode e tem aqui instrutores bons,  verdadeiramente amigos do aeroclube – No tocante ao curso, não posso ter ficado mais satisfeito do que estou. Foram realmente extraordinários"

Capitão Teixeira da Silva – presidente interino da Comissão Administrativa do aeroclube e director técnico do curso de pilotos de 1971 salientou as provas do Viriato Moura e do jovem Vale – "O acidente que depois se passou no rali, são casos de quem tem o brevet."

IMAGENS: avião da famosa ponte aérea com o Biafra, levantando voo da pista do aeródromo civil de São Tomé, a outra é a de um artigo, igualmente de minha autoria, chamando atenção para o péssimo estado da aerogare - No primeiro plano, ao fundo do texto, o avião que fazia semanalmente  a ligação com Angola, uns metros à frente do velho hangar onde estavam estacionados dois caças do Biafra, sem as asas - Lá mais ao fundo, podem ver-se, também, os velhos constellations da ponte humanitária. A última imagem é a da Baía Ana de Chaves, com as suas canoas, numa passagem de ano. Foi desta Baía, que eu partira à meia-noite, numa frágil piroga, igual às que ali se vêem na fotografia, disfarçado de pescador, para efectuar a travessia até à Ilha do Príncipe, tendo depois sido preso pela PIDE. 

  
 - Este apontamento, ocorreu-me, aqui transcrever na sequência de uma amável mensagem que recebi de  António Amorim, cujo gesto muito sensibilizou e muito lhe agradeço; lembro-me do seu nome, mas já não consigo associar a sua imagem ao nome.

 
Olá Jorge
Certamente já nem se lembra de mim. Eu fui testemunha desses momentos da guerra do Biafra pois nessa altura  eu trabalhava nas comunicações aeronáuticas do aeroporto de S. Tomé. Foram dos momentos mais desgastantes e também os que mais me chocaram cada vez que os aviões chegavam carregados com  as chamadas "crianças do Biafra". Você deu um grande contributo para a memória desta guerra na qual S. Tomé teve um papel muito importante com as crianças que acolheu. Bom trabalho, parabéns.
Mais tarde encontrámo-nos na ilha do Príncipe, (24 DEZ 1974) chefiava eu o aeroporto, aquando da queda do avião Piper28 pilotado pelo comandante Teixeira da Silva. Tenho um registo fotográfico desse momento

Caro Amorim:

Lembro-me do seu nome mas não consigo associá-lo. Só com a fotografia ou falando pessoalmente consigo. 
 
Muito obrigado, pois, pela sua lembrança e pelas palavras tão amáveis. Vou tomar a liberdade de publicar a sua mensagem no meu site. Se estiver por Lisboa, ou passar por esta cidade, não deixe de me contactar. Creia que dar-me-ia muito prazer recordar aqueles  meus tempos, e seus, ali vividos,  nas maravilhosas Ilhas de São Tomé e Príncipe. Caso disponha de algumas imagens, teria muito gosto em editá-las no meu site

 De facto, a guerra do Biafra foi uma tragédia para alguns milhões de seres humanos, mulheres, homens e crianças - A ponte-aérea de São Tomé para aquele território rebelde da Nigéria, foi muito importante, todavia incipiente para tamanho desastre humanitário. Mas o que conta, são as boas intenções e os voo heróicos. Se bem que, por detrás de  muitas intenções, houvesse a corrida aos dólares e ao ouro negro. E quem sofre são sempre os que menos culpa têm, as crianças, as mulheres e os idosos, os mais vulneráveis. E foi isso que ali ambos pudemos testemunhar, com as crianças famélicas, que ali chegavam para serem carinhosamente assistidas.

Um grande abraço amigo

de Jorge Trabulo Marques

quinta-feira, 12 de julho de 2012

São Tomé e Príncipe, comemora hoje o seu Dia Nacional - 37º Aniversário - A Minha Saudação Amiga





 


São Tomé e Príncipe, comemora hoje o seu Dia Nacional





SAUDAÇÃO A SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE  


Sob os céus distantes do Equador, 
amanhece e desponta um novo dia!
Irrompe e acorda a resplandecente aurora, desprendem-se do ar
sons dedilhados de luz, erguem-se à superfície das águas
brumas transparentes, evoluem halos leves de claridade,
cintilam e vibram os vultos verdejantes e iluminados
de duas ilhas encantadas: São Tomé e Príncipe!

Ó ilhas formosas! Édens longínquos da minha memória!
Radiosa respiração dos astros!
Ressonância inacessível da minha saudade!
- Agora, que tão longe estais dos meus olhos, quanto peso vai no meu coração,
quanta recordação, quanto me lembrais!




Ó melodiosa harmonia celestial! - Meu paraíso  perdido!
Voz oculta do meu próprio destino!
Eco silencioso do meu pensamento nostálgico!
Via errante dos meus passos! - Onde poderei agora encontrar
o perfume inigualável  das vossas florestas,
o elixir com que alimentava a minha alma e os meus sentidos?!...
- Oh! aqueles aromas inebriantes que exalam
do fundo húmido dos vossos fecundos solos,
tornam ainda mais fresca e pujante a natureza!

Irrompem na sinfonia cromática do aveludado verde da folhagem,
reflectem-se através dos raios de luz que penetram
as próprias gotículas do orvalho, atravessam
os frondosos arvoredos, dissolvem-se
em misteriosos vapores e nevoeiros
até à alucinação, à clara saturação

que pousa sobre as  montanhas.  



Oh, sim, as fragrâncias e os perfumes
que saturam a atmosfera da  brenha densa vegetal
respiram-se por todo o lado, até na crista dos mais eriçados picos,
invadem a orla das douradas ou negras praias,
circulam por entre as cubatas das aldeias
- e até nas ruas e jardins da cidade, quando as acácias florescem - 
Espalham-se sobre as copas de todas as árvores, 
infiltram-se até às  raízes,  cheiros plenos de substâncias  aromáticas
sobem do fundo da vegetação rasteira e arbustiva,
impregnam a margem das estradas e dos caminhos.
São arrastados pelos ventos, lá dos pontos mais altos,
perseguem o leito dos rios e das ribeiras
até se dissolverem no sal-gema 
 das maresias e brisas marítimas 
ou do sopro violento  dos tornados.
 


Oh! o meu passado que não volta 
mas ressurge intacto na minha memória.
Aqueles dias de permanente descoberta nas Roças Uba-Budo,
Ribeira Peixe e Rio do Ouro - Eu pouco menos era de que outro escravo, 
todavia, a beleza do mato?!..  - Uma maravilha inigualável!...
Eu tinha 18 anos e partira da minha aldeia
 para  ali fazer um estágio como Agente Rural,
que frequentei na Escola Agrícola de Santo Tirso;
 tudo para mim era novo e me fascinava!...
Não havia uma encosta ou uma grota que fosse igual à outra!
Os cacauzais repletos de frutos de todas as cores, desde o tronco às pernadas
 e aquelas árvores exóticas enormes, que lhes serviam de sombra,
 que eu não descansei enquanto não lhe conheci 
todos os seus nomes - Depois havia ainda as matabalas 
e outras herbáceas com as folhas pintalgadas e até ananases bravios
que nasciam por entre o capim verde. De volta e meia dava duas machinadas
num cacho de bananeira e metia-o numa velha cova aberta de cacaueiro,
 dois dias depois, todas as bananas estavam maduras e amarelinhas, que consolo! 
- Reacendiam de aromas e de cheiro!


Postal Colonial
Os serviçais, ao terminarem as  empreitadas das capinas, 
da apanha ou quebra do cacau ou da sulfatagem, eram obrigados
apanhar  umas quantas ratazanas que tinham de apresentar antes de largarem  
- a maior praga do cacau - , mas, alguns,  à falta de proteínas, 
até as levavam para casa, como se fossem pequenos coelhos
- E só depois, os infelizes, eram autorizados a  voltar  à senzala 
- Mas, o  empregado de mato (sempre de machim na mão), lá ficava 
a vaguear por aqueles frondosos caminhos das plantações 
até quase ao pôr-do-sol. Só depois regressava
ao terreiro e ao chalé. Mata-bichava e almoçava da marmita
que o muleque lhe tinha ido levar,  confecionado
pela samú negra - A minha tinha o dobro da minha idade!
Na roça ninguém podia ficar sem "muala."
E depois (numa breve pausa) lá ia saborear a banana com peixe,
regada com azeite de palma ou um arrozito, 
 com a marmita entre as pernas, sentado 
num tronco tombado e apodrecido ou numa pedra 
e com nuvens de mosquitos a quererem devorar-me.
A ementa pouco ou nada variava e o melhor era a fruta.
Findos os trabalhos, ficava por lá  o santo dia inteiro, chovesse ou fizesse sol.
 Eu entretinha-me a cortar os rebentos dos cacaueiros e a contemplar cada recanto. 
Às tantas divertia-me a apanhar as amarelíssimas centopeias gigantes. 
Agarrava-as pela cabeça, cortava-lhe os dois ferrões e depois deixava-as
 passear pela camisa, até cairem ao chão. Incomodava-me era o cheiro pestilento.
Com as cobras rateiras (muito grossas e igualmente mal cheirosas),
 também cedo aprendi a enrolá-las no pulso - E, mais tarde, 
até enxames (barbas) de abelhas africanas,
cheguei a fazer pousar no queixo 


-
Mas, às cobras pretas e às tarântulas, eu nunca lhes tocava, 
sempre  tive algum cuidado e respeito pelo seu veneno - Seguia
os seus movimentos, como o pássaro encantado 
e nunca lhe virava as costas, sem me certificar para onde se dirigiam.
Que havia eu de fazer - o resto do dia - sozinho no mato?!..
Eu era um cafuso (este o nome que era dado na cidade aos empregados de mato);
mais instruído de que os analfabetos (mais deles mal sabiam escrever o nome), 
mas às tantas - como na roça o que contava era a grossaria e não as habilitações -
quase ia ficando, tão analfabeto como eles: à noite queria escrever uma carta 
e, tão confuso me sentia, que não sabia como. 
Estive vários meses sem mandar umas linhas aos meus pais.
  O que me distinguia deles  era a forma de lidar com os serviçais.
Nunca tratei um trabalhador por tu ou o castiguei. Mas sofri por isso.




Oh! tantas! tantas recordações! Algumas das quais 
bem dolorosas, é certo, mas a maravilhosa paisagem
está ainda muito nítida na retina dos meus olhos
ofusca todas as outras imagens, deslumbra-me 
e é a única tela que eu agora revejo.
Mesmo, quando o tornado - vindo do mar - assolava
a encosta e era preciso abrigar-me junto ao tronco de  uma jaqueira
-  a árvore de raízes fundas e resistente a todas as intempéries - 
para não levar com uma pernada nas costas ou um pau seco na cabeça.  
Ainda conheci vários empregados aleijados - Os trabalhadores.
esses, coitados, cabo-verdianos, moçambicanos, tongas  ou forros,
abrigavam-se como podiam, porém,  como as árvores resistentes,
não davam para todos,  já era a habitual algum partir as costas,
e servir de carne para canhão - Até o peixe seco,  já deteriorado 
fedorento e o feijão bichoso, vindos de Moçâmedes (guardado em armazéns húmidos),
lhes devia saber mais  a bichos, a bolores  azedos e a ranço que outra coisa. 
Oh, mas de que infâmia eu havia de me lembrar! 
- Agora não quero trazer ao presente  
esse comportamento esclavagista ou as chibatadas que eram dadas
pelo capataz aos mais renitentes, 
que muito me decepcionou e me entristicia-
Bem me bastou ver a miséria no local e os castigos que me foram aplicados
 (enviado pelo Administrador-geral a contar cacaueiros abandonados 
numa dependência da Roça Ribeira Peixe, ao Sul, infestada de cobras venenosas) 
 por me haver recusado a tratar os trabalhadores por tu e ao velho e infame estilo colonial:
prefiro agora dar largas a outras  belas memórias.

Ó prodigiosa graça iluminada! 
 Alucinante prodígio Equatorial!
Vinde  preencher a minha alma das alegrias (e até das tristezas) 
que me roubou a vossa longa ausência!
  Vinde colmatar o vazio que me criaste 
por nunca mais vos ter visto.
Oh, sim! onde irei eu agora apanhar as tão belas rosas de porcelana,
as orquídeas, as begónias que colhia nos vossos frondosos hortos?!
E aqueles ramos das tão delicadas flores, brancas e roxas do macá
e do pau lírio?!...- Oh, tantas flores selvagens de cores lindíssimas!
Tantas flores exóticas e bonitas, tão variadas! - Que florescem e rescendem

debaixo do quente e húmido manto arbóreo,
no qual se entrelaçam as lianas, o lemba-lemba, 
vegeta a corda-pimenta, a corda de água,
desprendem-se e soltam-se  os mais surpreendentes bálssamos 
na diversidade da profusa e maravilhosa cobertura vegetal! 


(Praia das Sete Ondas Postal Colonial)

 Ó divino e formoso sortilégio! - Minha linda Ilha de São Tomé!
-  Imagem ardente dos anos  da minha juventude mais ousados! 
Dada a impossibilidade de poder vislumbrar-vos,
pelo menos por agora  - será que terei eu de conformar-me, 
dando-vos  por definitivo o meu adeus para sempre!
Oh, não! não posso acreditar em tal fatalidade! - Ó plenitude  perdida dos meus olhos!
Imagino-vos bem longe de mim mas tenho-vos sempre no pensamento!...
Não estais esquecida!... Por ora, eu não  posso  ir  junto de vós, 
mas vinde então vós ao encontro do meu coração! 
Vinde numa manhã qualquer  e trazei-me 
a esperança de um espasmo alegre de frescura, 
a junção da terra  às palpitações do  meu peito!
Mesmo que seja a névoa saturada, o nevoeiro
que pousa no cimo dos florestados montes ou apenas um único raio de  luz do firmamento azul
que vos serve de arco - Vinde ter comigo,  abençoada dádiva! -  Generoso Éden terrestre!
Trazei-me as múltiplas sensações, que os anos e a distância  
já me roubaram,  os agradáveis momentos de adoração  dos verdes  coloridos,
 frescos e intensos das copadas árvores que formam os densos e misteriosos obós,
amálgamas de sinfonias de sons e de cores, povoadas por nervosas cascatas 
e  correntes de águas, impregnadas de substâncias  aromáticas  inesgotáveis,
frémitos do abandono, de silêncio  e  deslumbramento!












Oh , às os que procuram   ir ao encontro 
de novas  sensações e novidades  no devir!
Por mim, já me sentiria feliz se ao menos voltasse  
a viver um pouco das emoções  que vivi em São Tomé e Príncipe!
Sim, naqueles meus 12 anos, a vida não me foi fácil: desembarquei 
com dois tostões na algibeira 
e regressei à minha aldeia com os bolsos completamente vazios.
Mas que importância tem isso?! - Se eu também não parti à procura da riqueza!
Que importam as afrontas (não do amável e pacífico povo) quando me pus ao lado 
da sua independência!
Que importam os riscos, os muitos sustos que os tornados me pregaram,
os longos dias e noites de incertezas, longas vigílias e angústias
vividas nas frágeis canoas de ocá dos pescadores,
quando se persegue um ideal, desinteressado e por sincero amor!  
- Ó celestiais abóbadas! Ó cúpulas azuis ou brancas
que a luz satura e ofusca!- Etéreas transparências 
e afectuoso diálogo que se expande 
espontânea e livremente 
sob o copado verdejante do bosque luxuriante! - Ao menos voltasse
eu ao solitário ao mar ou ao seio ubérrimo da maternal  floresta!


Ó respiração perfumada e fértil da verde e tenra folhagem!
 Que gravitas  por ramos de poléns, de  pétalas e silabas,
transcendendo os sentidos das pessoas, das aves e animais e alastras 
por tudo  quanto se eleva acima das águas do oceano azul
Floresces ao longo das margens de  nervosos regatos e correntes cristalina,
competindo lado a lado com as palmas gigantes dos fetos,
vicejas à sombra do cacauzal perfumado das roças,
brotas em múltiplas formas  garridas e divinas, debaixo das frondosas eritrinas, 

cobres-te por  debaixo das palmas dos coqueiros e palmeiras, mangas, jacas!


Postal Colonial

Refulges e mistura-te com os tufos das bananeiras,
que escondem cachos e folhas laminadas de luz nas entranhas da mata

 ou em redor das enormes amoreiras bravas,
das figueiras loucas, dos mararapiões, coqueiros, coleiras e ocás!
Sim, é o ambiente de fornalha das gigantescas e ramalhudas árvores, 

as cores que vibram com lampejos de fogo e se misturam e confundem
com os cheiros característicos dos izaquenteiros,
safuzeiros, fruta-pão, árvore da canela, da quina,
o suave perfume da baunilha, o aroma leve dos mamoeiros
a floração adocicada dos cafezeiros! Massa selvagem viçosa e compacta,

fresca e verdejante que só o recorte da negra costa restringe e aplaca.
Ergue-se do seio exuberante da exótica capoeira,  engrinalda  
velhos muros e sebes e floresce até aos mais altos picos e serras
 - Seu reino é mesmo o do ventre cerrado e perfumado  do  òbó! 
- Fluída e refulgente exaltação verde e divinal!
 Pujante sagração vegetal que exala   baforadas de essências e de néctares
que atraem revoadas de insectos e até outras bênçãos sobrenaturais! 

Prodígios de sombras e de luz,  de cores e tons, de formas e sons, 
que invadem todos os recantos da floresta,  cobrindo toda a ilha (as Ilhas) 
num único manto. Vão  até onde o oceano tinge o verde de azul e o detém
 

Oh! não há outra dádiva mais pura e sagrada da natura  como esta!  
Prodigiosos jardins,  quão  belos e fantásticos! - Propiciadores
de bálssamos e de formas de vida, capazes de enfeitar a mais linda jarra
para depois  - sob o cântico  do verde e dourado ossobó -,
ao coro do chilrear melodioso da  multicolorida passarada, 
ser colocada aos pés do altar
do omnipotente Deus ou da Deusa mais sublime e venerada,
como saudação à iluminada palavra 


 INDEPENDÊNCIA - LIBERDADE!... 

 Jorge Trabulo Marques



Postal Colonial)



quarta-feira, 11 de julho de 2012

À MEMÓRIA DO POETA FRANCISCO JOSÉ TENREIRO – LÁ VAI “O BARCO DESLIZANDO SÓ COM A VONTADE LIVRE E CERTA DO NEGRO LÁ VAI...”

Jorge Trabulo Marques - Jornalista


Francisco José Tenreiro, nasceu na Roça Boa Entrada, a 20 de Janeiro de 1921. Fazia anos no mesmo dia do mês em que eu mais tarde nasci e faleceu na madrugada de 31 de Dezembro de 1963, dois meses depois de eu ter desembarcado na sua Ilha de Nome Santo. Amanhã, o arquipélago de São Tomé e Príncipe, celebra o seu 37º aniversário da independência.  Se fosse vivo, teria 91 anos. Ainda há muitos são-tomenses com a sua idade e lúcidos. Estou certo que estaria feliz. Assim espero que todos os habitantes destas maravilhosas ilhas, celebrem com alegria o  dia mais significativo da sua Amada Pátria



O MAR
A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
-Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!…
Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!
O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!

Francisco José Tenreiro  (1921-1963)
Poeta, ensaísta, contista, colaborador de diversas publicações Integrou a Casa dos Estudantes do Império, co-fundador do Centro de Estudos Africanos, professor universitário, doutorado em Ciências Geográficas (FLUL) e em Ciências Sociais (Inglaterra,1961).


domingo, 10 de junho de 2012

10 de Junho dia de Portugal, de Camões ou mais um dia dos políticos se exibirem?! - No tempo colonial celebrava-se o Dia da Raça. Eram as paradas da propaganda ao serviço do regime: confundia-se a aventura marítima com a expansão imperial e o domínio dos povos. E agora o que mudou?!...

TEMOS VERDADEIROS HERÓIS DO MAR - MAS NÃO SOBEM  ÀS TRIBUNAS...

Já não assistimos à imposição de medalhas aos familiares dos que perderam ingloriamente as vidas numa guerra longa e injusta, e mesmo a alguns vivos por haverem cumprido (com total entrega) um dever que lhes fora imposto – Quando os ventos em África sopravam a favor da libertação dos povos, nós continuávamos orgulhosamente sós afirmar que Portugal ia do Minho a Timor. 


E, agora, quais são os novos heróis de merecido mérito?!... Continua haver comendadores e amedalhados – Claro,  mais deles por serem grandes devotos de quem lhes confere o distinto galardão. Mudou o regime mas as varejas são as mesmas - Portugal já não tem mais império mas tem muita água salgada e está à venda; os principais compradores são os filhos dos novos ricos que colonizámos - Saúdo o meu país profundo que mais sofre e continua a viver a meias com a pobreza e as lindas Ilhas de São Tomé e Príncipe, para onde meu coração se reparte e cuja população aguarda ainda a sua oportunidade 

 


JÁ NÃO TINHAM QUE TRAGAR, JÁ NÃO TINHAM QUE BEBER - BEBERAM ÁGUA DO MAR: COMERAM  UMA TARTARUGA QUE PESCARAM  - E MATARAM O POBRE CÃO QUE TINHAM A BORDO PARA  MITIGAREM  A FOME

 *******- Não deixe de ouvir o testemunho de um dos meus heróis -  Tinha 16 anos. Foi um dos 73 sobreviventes do naufrágio do bacalhoeiro João Costa, que sairá de Lisboa, em   15/04/1952 para os Bancos da Terra Nova e Gronelândia – Na viagem de regresso, um circuito eléctrico, provocou um incêndio a bordo,  levando o barco ao fundo. Foram largados os 23  doris, que acabariam por andar sete dias à deriva, até que foram localizados a cerca de centena e meia de milhas dos Açores, pelo navio americano, o STEEL EXECUTIVE que recolhera 35 pescadores a bordo em 8 dóris; tendo os restantes  27, sido encontrados pelo navio Alemão HENRIETTE SCHULTE que os recolhera dos 6 dóris. - Tenho pena de não ter ficado com o nome deste bravo lobo do mar, devido a um problema de ordem técnica com a gravação. Mas aqui fica, porém, o testemunho de um dos verdadeiros heróis do mar   - Aqueles que são esquecidos e dificilmente  medalhados - Os pormenores do naufrágio poderão ser lidos em: RECORDANDO O NAUFRÁGIO DO NAVIO-MOTOR  BACALHOEIRO JOÃO COSTA

FIGURAS QUE TÊM AINDA NOS ROSTOS OS SULCOS DO  GRANDE OCEANO - OLHOS QUE SE SOFRERAM OU SE DESLUMBRARAM COM AS MARÉS - HERÓIS ANÓNIMOS QUE CRUZARAM OS GÉLIDOS MARES DA TERRA NOVA  - E  QUE AGORA  VIVEM  DE UMA MAGRA  REFORMA E DAS SUAS MUITAS RECORDAÇÕES. - A  sua terra natal é a Figueira da Foz e o seu país é Portugal.




Fomos um país de marinheiros - E hoje o que somos?!..."Não tínhamos mais nada, tínhamos água. Essa ideia da extensão da plataforma continental é sempre a mesma, a de que agora não temos terra, mas temos água" Eduardo Lourenço, hoje no DN"

"O nosso mar já vale cerca de 10 a 11% do PIB" - Diz Assunção Cristas Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território" Numa entrevista ao DN, afirmando que "Não precisamos de abater barcos. Precisamos de modernizá-los - Mas onde é que estão os barcos?!... - A resposta vem do Almirante Fernando José Ribeiro de Melo Gomes "Antes do 25 de Abril tínhamos 150 navios comerciais de 300 toneladas; hoje temos 12. Deixámos de ser grandes empresários do mar"

Hoje, o saudosismo português, vive da memória do que fomos ou do que pelo menos sonhamos vir a ser. Pelo que depreendo do extenso trabalho, que o DN, dedicou aos heróis do mar no Dia de Portugal - não há os heróis de antigamente mas não faltam por aí candidatos  - Até porque "o negócio mostra que o futuro está no peixe que não vem do mar".E, na verdade, não é por falta de tubarões à solta e fora da água que o negócio deixa de se fazer.Por outro lado, podemos também dormir descansados: "Sei que o petróleo existe" - diz a mediática ministra do mar- " em princípio não há dúvidas quanto a isso. A única dúvida é sobre se é rentável explorá-lo" Também São Tomé vive na mesma miragem: dizem os especialistas  que há petróleo em abundância  nas suas águas profundas mas a altos custos - E, se houver?! - A quem serve?!..Angola vai criar fundos especiais para São Tomé e Príncipe........Sonangol está claramente interessada no petróleo de São Tomé,.............SONANGOL ADQUIRE 51% DAS ACÇÕES DA STP AIRWAYS
.....

Todos os países celebram o seu dia nacional - Nos regimes governados por ditaduras, tudo é pretexto para se enaltecer o opressor e os seus cúmplices, confundindo-se o conceito de nação com a figura intocável do caudilho.  Nas democracias, não é a mesma coisa, mas não deixa de ser mais um dia de cerimónias de aparato e circunstância para os políticos se exibirem  - Não seria mais sensato, que, em vez do habitual folclore do regime, se desse aos cidadãos a oportunidade de  manifestarem o seu patriotismo, conforme entendessem,  tomando as iniciativas  que achassem por bem defender os seus interesses e que, os políticos, ficassem de fora a observá-los?! -  Sim, porque,  uma nação é algo mais do que a  história do seu passado, é também o presente e o futuro -  De modo algum, é   um conceito abstrato, mas é todo um povo. E, como é compreensível,  nem todo ele se revê nos discursos de ocasião.

 

De facto, hoje é o dia de Portugal, de Luís de Camões – e das Comunidades Portuguesas. É mais um dos feriados nacionais - Para tornar a vida ainda  mais dura aos assalariados, no próximo ano haverá menos quatro - Vão os religiosos e até o 1º de Dezembro, dia da Restauração Nacional, não se safa! 

Mas, o 10 de Junho,  por agora ainda se mantém - Já não é o dia da raça e dos racismos;  o tempo desse,  já lá vai e não deverá deixar saudades. A 12 de Julho do próximo mês comemora-se o aniversário da independência de São Tomé e Príncipe. Que completará os seus 37 anos como nação soberana. Desembarquei na Baía Ana de Chaves, a bordo do paquete Uíge, em Novembro de 1963. Só doze anos mais tarde, voltaria à minha aldeia. Cheio de saudades. Mas, hoje, creio que são mais as que tenho de São Tomé das que tinha de Portugal, quando de lá regressei.   Sou português e admiro as odisseias  marítimas dos meus antepassados. Especialmente o grande épico Luís de Camões, que, de forma tão elevada,  ele que também foi marinheiro , soube interpretar, como ninguém,  "as cousas do mar, que os homens não entendem" 

.Nasceu no ano de 1524 e morreu a 10 de Junho de 1580, em condições miseráveis.  Aprecio a leitura de Os Lusíadas  mas já  não nutro   a mesma simpatia e admiração pelo expansionismo e domínio colonial - Os tempos áureos dessa expansão, também  foram difíceis para a grande maioria do  povo português, cuja população dos meios rurais, vivia agarrada aos campos, debatendo-se com mil dificuldades, mal fazendo face à sobrevivência. Ou a trabalhar de sol a sol para os senhores feudais. Hoje, esses mesmos campos, estão ao abandono e as cidades transformadas em colmeias e com muitas "abelhas" a passarem fome. Em África, por essa altura, não se pode dizer que os africanos (antes de serem colonizados) vivessem no paraíso das delícias, pois, entre eles, também já existiam os sobas e os súbditos. E também o comercio escravo, nomeadamente com os árabes. No entanto, tudo se complicaria ainda mais com a chegada dos cruzados: que desembarcavam com a cruz numa mão e na outra a espada. E o mais ignóbil foi a deliberada dessacralização dos seus ídolos e dos seus deuses, impondo-lhes crenças e cultos (à força) que não eram os seus  e que assentavam (assentam, ainda hoje), na hipocrisia. Já que a doutrina de Cristo, há muito foi subvertida e usada como forma se subjugarem as almas e de se explorarem gratuitamente os corpos.

1600 - A partir desta data, os Jesuítas , que se tinham estabelecido em Angola, concentrarão  os seu esforços em Luanda, onde fundarão um colégio.
Paralelamente, envolver-se-ão no comércio de escravos - a Companhia  de Jesus dispôs  dos seus próprios barcos no Brasil -, alegando que a melhor forma de converter um negro era a sua venda  para as plantações da América do Sul, que a Companhia de Jesus igualmente detinha, onde melhor poderiam ser  introduzidos na Cristandade.


Também é verdade que, em muitos casos, o fim do colonialismo, não se traduziu no tão desejada progresso e bem-estar dos povos. Uma nova elite tomou o lugar dos colonos e tem-se portado ainda pior.Aliás, foram buscar os  que mais  os exploraram, para que, com a sua experiência,   a exploração humana fosse ainda mais severa e despudorada. 

Claro que não estou a particularizar e apontar exemplos mas a dizer o que vai por esse velho continente adentro e afora. Até porque são questões muito delicadas para se expressarem em duas penadas e corre-se o risco de se ser mal interpretado. Bom, mas também não é esta a intenção deste  post. Hoje quero falar das coisas positivas: da coragem dos antigos marinheiros - Quer dos portugueses, que partiram mar fora em frágeis caravelas, quer dos homens das canoas, que   abandonaram o litoral africano e foram em demanda destas maravilhosas ilhas.   É para eles que vai a homenagem deste meu post. 
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“Toda a História foi um instrumento ao serviço da propaganda”

 

 Já o disse noutros passagens deste site. O que foi narrado para a posteridade, acerca das descobertas portuguesas e a colonização, que lhe sucedeu, não traduz  a verdade dos factos, mas aquilo  que mais convinha ao reino e aos patrocinadores das navegações marítimas. Ainda hoje é assim nos jornais. Quem os controla, usa a sua "verdade". Instrumentaliza-os de acordo com a sua ideologia ou os objectivos políticos ou económicos que tem em vista

Mas, já agora, vale a pena saber o que diz um dos estudiosos sobre o Dia de Raça, que daria lugar  a um outro significado mais humanista e menos imperialista  - o chamado Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas"

VISÕES DO SIGNIFICADO DO 1O DE JUNHO

Conceição Meireles, numa análise publicada no Jornal Primeiro de Janeiro, diz o seguinte: “Quando se tenta exaltar o Dia da Raça, é a raça do povo português entendida de uma forma geral, global”. O que está em causa é a “originalidade” e “a capacidade dos portugueses”, explica Conceição Meireles. 
“O Estado Novo sempre quis sublinhar a originalidade do povo português face aos outros povos europeus. Por alguma razão este pequeno povo tinha uma História de séculos; era dos Estados mais antigos da Europa e tinha um Império colonial que quase nenhum outro país europeu possuía”. 
Esta era a “raça do povo português que tinha de ser “exaltada a todo o custo”, era a “raça no sentido do dia do povo português”, explica a historiadora. O conceito de raça no Estado Novo deve ser entendido no sentido em que significa “um povo diferente, aparentemente frágil, mas com valores que lhe permitiram grandes realizações”. No dia da Raça e de Camões “exaltava-se a nação e o império, a metrópole e as colónias” - Excerto de Estado Novo: 10 de Junho é "Dia da Raça"


 ORIGEM 

A origem do Dia de Portugal encontra-se nos trabalhos legislativos após a Proclamação da República, a 5 de outubro de 1910. Um decreto que definia os feriados nacionais é publicado, sendo que alguns feriados religiosos são eliminados, para reduzir a influência social da Igreja Católica e na criação de um Estado laico.

(...) Antes da Revolução dos Cravos, 10 de Junho era o ‘Dia de Camões, de Portugal e da Raça’ (este último epíteto criado por Salazar na inauguração do Estádio Nacional,em 1944). A partir de 1963, esta data tornou-se também numa forma de homenagear as Forças Armadas. A Terceira República converte a celebração, em 1978, para ‘Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas’ - Excerto de10 de junho, Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas


OPINIÃO DE UM ESCRITOR E MÉDICO BRASILEIRO


"Portugal é um país de pequena extensão territorial e população igualmente diminuta. No entanto, ao longo de sua existência como nação, que já se vai aproximando do primeiro milênio, tem dado ao mundo exemplos extraordinários de qualidade e operosidade de sua gente.
Cinco séculos passados maravilhou o mundo de então com suas descobertas de além-mar que deram “novos mundos ao Mundo”.  10 DE JUNHO. DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS


.NÃO ME CRUZEI COM AS  VELAS DOS MARINHEIROS DAS CANOAS, MAS IMAGINEI-OS, MUITAS VEZES, NAQUELES MESMOS MARES, TAL COMO TAMBÉM, OS NAVEGADORES QUE ALI PASSARAM, MAIS TARDE, NAS SUAS CARAVELAS

 
 
Repetindo que escrevi noutras postagens anteriores  

Há que realçar a coragem dos marinheiros lusitanos, que se fizeram ao mar apenas munidos de um mero astrolábio - Não dispunham de sextante, nem de cronómetro ou sequer de almanaque náutico que lhes possibilitasse algum rigor da navegação - Não iam completamente às cegas, porém,  embora dispondo de alguma informação, iam à aventura! - Foram, indubitavelmente, grandes navegadores aventureiros!




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Sou português  e não descuro os feitos marítimos dos meus antepassados. Mas também não quero fazer  como a avestruz e meter a cabeça debaixo da areia. Nem fazer dos compêndios coloniais a bíblia sagrada.  

Sem deixar de admirar a coragem dos antigos navegadores,  busco outras interpretações. Eu próprio me desloquei de canoa, em Dezembro de 1970, desde a Baía Ana de Chaves ao recanto de  Anambó Local onde é suposto terem aportado pela primeira vez, João de Santarém e Pero Escobar  
  
Curiosamente, (confrontando as imagens Padrão dos Descobrimentos - Anambó,***e   :Anambó ) vejo que o sítio está agora mais bem conservado do que estava naquela altura, onde passei uma noite horrível, com as costas sobre lascas e gogos de todos os tamanhos e feitios (pois ali não existe praia de areia), mesmo quase sobre a margem onde as ondas vinham bater, embrulhado pelas palmas dos coqueiros mas constantemente a ser espicaçado e mordido por enormes caranguejos do mar e da terra, que não me deram um minuto de descanso 

Não me deitei no mato, receando as cobras negras. E, ao alvorecer, perante aquele vetusto e simbólico padrão,  rodeado de palmas, tão belas, sonoras e verdejantes, não me importei de  homenagear os marinheiros de quinhentos, com a bandeira portuguesa.  .


HÁ QUE DISTINGUIR A EPOPEIA MARÍTIMA DA COLONIZAÇÃO , QUE SUBJUGOU E TIRANIZOU OS POVOS.

Uma coisa é a verdade histórica (e foi essa que eu procurei através de várias travessias em pirogas e que ainda hoje questiono), outra, as omissões ou  a que convinha ao Reino..
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Todavia, quer os portugueses, nas frágeis caravelas, quer os primeiros povoadores, nas suas toscas pirogas, foram lobos do mar e heróis desbravadores à sua maneira.

Também as canoas africanas, à semelhança das grandes migrações no Pacífico, se fizeram ao mar alto: Fizeram extensas travessias no Golfo da Guiné, tal como os primitivos navegadores da Polinésia, considerados os "navegadores supremos da história":  que, velejando  em linha, cada uma à distancia da visão da canoa  que lhe seguia atrás, até qualquer delas divisar uma ilha habitável, atravessaram vastas extensões daquele imenso oceano, colonizaram as mais remotas ilhas, algumas a milhares de milhas, umas das outras, não dispondo sequer de uma bússola ou de qualquer outro instrumento náutico

Quase assim procedi: munido de uma simples bússola, sem bóias, meios de comunicação com exterior, encaixado num frágil esquife, quase desprovido de tudo. Recuando, tanto quanto possível, às condições precárias em que foram sulcados os mares pelos antigos povos que ligaram a costa africana às ilhas do Golfo da Guiné








Do alto das velhas muralhas do Fortim de São Jerónimo, onde tantas vezes olhava a espuma que ali ia rebentar nas rochas negras e contemplava o mar ao largo, sim, muitas vezes ali me envolvi em prolongadas cogitações. E só via o mar... Só pensava, obsessivamente, nas distâncias e nas entranhas do mar.!.. Olhava-o com pasmo e respeito, mas queria sentir-me também parte dele! Ser mais um elemento do mítico e misterioso oceano! Ir por ali a fora numa das ágeis pirogas.! Desvendar segredos esquecidos no tempo!...



       A MINHA HOMENAGEM 


                   A todos os homens do mar, de todos os continentes e cantos da Terra.
                    Aos marinheiros e navegantes que, do Cais do Tejo,  partiram pela barra do rio afora, em frágeis caravelas, rumo ao misterioso oceano, em demanda de novas terras e outras gentes, sofrendo horas infinitas em escaldantes e podres calmarias ou “fugindo à tempestade e ventos duros.”
                   E, por via disso,e, porventura, devido a desmesurados sonhos ou ao desamor e à compaixão de ímpios deuses, a quantos perigos e adversidades se não expuseram!


                    “Contar-te longamente as perigosas
                      Cousas do mar, que os homens não entendem,
                       Súbitas trovoadas temerosas,
                       Relâmpagos que o ar em fogo acedem,
                       Negros chuveiros, noites tenebrosas,
                       Bramidos de trovões que o mundo fendem,
                       Não menos é trabalhos que grande erro,
                        Ainda que tivesse a voz de ferro.”

                                      Camões

         “E vendo-as todos em tão grande perigo, ficaram assombrados,
          e fora de si, temendo, e julgando ser esta a derradeira hora da vida,
          e com este temor se chegaram todos a um padre da companhia de    
          JESUS (....). E depois de confessados, e se pedirem perdão uns aos
         outros, se puseram todos de joelhos pedindo a Nosso Senhor
         misericórdia.”
                                    ( in naufrágio de Albuquerque Coelho)

                      
                      “Ó mar salgado, quanto do teu sal
                       são lágrimas de Portugal!
                       Por te cruzarmos, quantos mães choraram!
                       Quantos filhos em vão rezaram!
                       Quantas noivas ficaram por casar!
                        Para que fosses nosso, ó mar!”

                                          Fernando Pessoa




Náufragos! De ontem e de  Hoje!
Aqui, elevo aos deuses as preces
que não acabastes de rezar!
As clamorosas súplicas,
que proferistes, em vão,
beijando, perdidos,
enlouquecidos, ícones, rosários,
relíquias sagradas.
E choro,
choro as mesmas lágrimas,
de sal e de dor.
E comungo convosco
os eternos instantes,
as horas infindas de pavor,
o incontável rosário
de todas as vossas aflições!...
Sim, porque, o mar, não  mudou;
o mar de hoje é o mar antigo de ontem,  de outrora....
É o mar eterno, sem fim e sem  história!...
A sua voz é a voz dos tempos!... 
O cheiro a maresia é o mesmo,   
as ondas continuam a enrolar-se sem descanso
nos areais de todas as praias de todos os continentes!...
Ao largo, o cenário também é igual -
O mesmo círculo a estender-se,  indefinidamente -,
e, à volta do círculo, ainda o abandono,
a solidão de todas as eras...
Além disso, sei que, ouvindo o grito grave das gaivotas,
 ainda ouço os vossos gritos
 à mistura com o uivar desgrenhado do vento
 e o cavo ribombar do trovão,
que sucediam aos relâmpagos
que incendiavam e fundiam as espessas trevas!...

Excerto de um poema de minha autoria,que acompanhou uma exposição que apresentei no  Padrão dos Descobrimentos, em 1998