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quarta-feira, 26 de julho de 2023

S. Tomé e Príncipe - Dia Mundial dos Avós e Idosos. – Avó Alegria foi avó de 30 netos e vários bisnetos - Nestas Ilhas, os idosos ainda são acarinhados pelos familiares e não despachados e amontoados nos Lares, apesar das muitas carências – Governo regional do Príncipe, anuncia ir criar um fundo de emergência social para atender as situações de maior vulnerabilidade

                                                  Jorge Trabulo Marques - Jornalista


São-Tomé, 25 Jul 2023 (STP-Press) – O Governo Regional de Príncipe vai criar um fundo de emergência social para atender as situações de maior vulnerabilidade, segundo uma decisão saída segunda-feira da 9ª sessão ordinária do Conselho do Governo Regional.

O  Governo Regional também deliberou pela fixação do preço do pescado, de acordo com as categorias, não devendo ultrapassar as 70 dobras por quilo, os peixes de primeira,  e uma variável de 10 dobras em caso de ruptura de combustível.. https://www.stp-press.st/2023/07/26/governo-regional-adoptou-um-conjunto-de-medidas-para-conter-o-aumento-do-custo-de-vida-e-vai-criar-um-fundo-para-emergencia-e-vulnerabilidade/


Margarida Lázaro dos Ramos, mais conhecida pela Avó Alegria, nasceu, em S.Tomé, no dia 4 de Agosto de 1933 – Conhecemo-la no dia do seu aniversário rodeada dos filhos e filhas, netos e bisnetos com muitos sorrisos, muitas provas de afeto e de carinho  – Um dos filhos, chegaria justamente no momento em que me preparava para deixar o “quinté da familia  Quaresma  - Foi em 4 de Agoto   2015  -


EM SÃO TOMÉ E PRINCIPE, OS IDOSOS AINDA SÃO ACARINHADOS NO SEIO DA FAMÍLIA E NÃO DESPACHADOS  PARA OS LARES


Na verdade, o sentimento de generosidade e de solidariedade, ainda está profundamente enraizado na sociedade santomense, tanto a nível familiar, como coletivo. Mas é sobretudo no seio da família, que esse sentimento encontra mais profunda expressão: o gosto, o prazer de compartilhar os bons momentos, as horas de alegria, mas também de se expressar nas horas de dor ou de tristeza – Dai, que os idosos, sejam sempre acarinhados, continuem a viver rodeados dos afetos, dos muitos carinhos,  dos filhos, netos, bisnetos, tidos, primos, dos restantes membros da família. 




Foi justamente esse exemplo que se me deparou, ao passar na rua do Bairro 
Quilombo: a Prof. Aida, que se encontrava à entrada do “quintê” Quaresma, onde as bananeiras se misturam com um pequeno aglomerado de casas de madeira, habitadas todas pela mesma família, me  pergunta, se eu sou o Jorge Marques,  – o que, de resto,  é frequente, pois, em S. Tomé, toda a gente ouviu falar das minhas aventuras marítimas e da escalda ao Pico Cão Grande.  Dois dedos de amável diálogo, e eis que fico a saber que estava ali à espera de outras pessoas da família e amigas para festejar o aniversário de sua mãe. Perguntei-lhe se não se importava que lhe fosse dar os parabéns. E assim aconteceu o apontamento fotográfico, que pude registar, rodeada de uma imensa ternura, de muito amor e  carinho, por parte dos familiares, que ali se encontravam.



Pavilhão do Conhecimento - Centro Ciência Viva - festejou seu 24º aniversário em caloroso ambiente com programação inspirada na EXPO’ 98, através de interessantes eventos de ciência, animadas exibições de música e dança, recriando a memória vivida daquela época, com a presença do arquiteto João Luís Carrilho da Graça, autor do projeto da emblemática obra, que nos confessou sentir-me muito feliz pela comemoração

      Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Reportagem em video no Youtube aqui acessivel e também em https://templosdosol-chas-fozcoa.blogspot.com/2023/07/pavilhao-do-conhecimento-centro-ciencia.html


O Pavilhão do Conhecimento - Centro Ciência Viva, originalmente Pavilhão do Conhecimento dos Mares, foi projetado pelo arquiteto João Luís Carrilho , fica localizado na margem direita do rio Tejo, é um museu interativo criado com o objetivo de estimular o conhecimento e divulgar a cultura tecnológica e científica. Fez parte da área abrangida pela Expo 98 em 1998, um dos espaços mais visitados da exposição mundial, atualmente denominada Parque das Nações, em Lisboa.

VÍDEO DE VÁRIAS IMAGENS EM FILME E FOTOS, - Além de algumas palavras do Arquiteto João Luís Carrilho da Graça, que tive o honroso prazer de registar 

Com esta obra, Carrilho da Graça foi contemplado com o Prémio Valmor e Municipal e obteve o Grande Prémio do Júri FAD 1999 em Barcelona, que a reconheceu como um espaço arquitetónico de elevado nível, onde se misturam simultaneamente a simplicidade e a complexidade. 

“Parabéns, Pavilhão do Conhecimento. Parabéns, equipa. E obrigado aos 5.000 visitantes que hoje fizeram a festa connosco”.- Palavras divulgadas na página do Facebook da Presidente da Direção Rosália Vargas

Sublinhando: “Foram tantas as atividades durante o aniversário do Pavilhão do Conhecimento que é difícil escolher o momento favorito dos nossos visitantes. Aprendemos a cozinhar sopa miso no Pavilhão do Japão, no Pavilhão do Futuro mergulhámos numa “piscina de genes” e no Pavilhão do Oceano conhecemos, com a ajuda de investigadores, uma espécie de crustáceo das salinas. Soprámos as velas com os nossos visitantes e tivemos a honra da visita do Arquiteto Carrilho da Graça, responsável por projetar o edifício que é a nossa casa há 24 anos. Obrigado, a todas os que tornaram este dia memorável

Foram tantas as atividades durante o aniversário do Pavilhão do Conhecimento que é difícil escolher o momento favorito dos nossos visitantes. Aprendemos a cozinhar sopa miso no Pavilhão do Japão, no Pavilhão do Futuro mergulhámos numa “piscina de genes” e no Pavilhão do Oceano conhecemos, com a ajuda de investigadores, uma espécie de crustáceo das salinas. Soprámos as velas com os nossos visitantes e tivemos a honra da visita do Arquiteto Carrilho da Graça, responsável por projetar o edifício que é a nossa casa há 24 anos. Obrigado, a tod@s os que tornaram este dia memorável

UM LEGADO DE ALTO VALOR   - A 25 de julho de 1999 reabriu as portas ao público como Pavilhão do Conhecimento – Centro Ciência Viva e desde então pretende ser – a par dos outros espaços que no Parque das Nações continuam a desenvolver ações que diariamente mobilizam milhares de visitantes - um núcleo de interesse, um polo de atração e um parceiro qualificado na promoção da educação científica e tecnológica na sociedade portuguesa.

Anualmente, pode ver-se no pavilhão grandes exposições temáticas nas áreas da Física, Matemática, Química, Biologia e Ciências Sociais e centenas de módulos interativos que tornam este centro numa casa de ciência para todos. Existem ainda atividades no Laboratório e na Cozinha que também é um laboratório, conversas com investigadores, atividades experimentais, dias temáticos, projeção de filmes e peças de teatro onde a ciência é o guião.

Ao longo dos anos várias figuras emblemáticas visitaram este espaço, tais como António Guterres, Bill Clinton, Bill Gates, os nóbeis Ada Yonath, Robert Huber e Arthur McDonald e os astronautas Eugene Cernan, Paolo Nespoli e Scott Parazynski.

UMA BIOGRAFIA DE ALTO MÉRITO NACIONAL E INTERNACIONAL

João Luís Carrilho da Graça é um  arquiteto português de prestigiada referência  - Obras como a Escola Superior de Comunicação Social, o Pavilhão do Conhecimento dos Mares ou a recente extensão do Palácio de Belém, são alguns dos pontos altos da sua carreira

Nasceu em Portalegre em 1952 e formou-se pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa em 1977. E, desde então, dirige o seu próprio atelier. Foi assistente na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa entre 1977 e 1992, onde lecionou, alternadamente, a cadeira de projeto do primeiro e do último ano curricular.

 

Desenvolvendo uma arquitetura com referências ao movimento moderno, desde as primeiras obras suscitou atenção nacional e internacional. O seu projeto para um conjunto de habitação social para Alter do Chão (1977-94) esteve presente na XIII Biennale de Paris -1985 e, desde aí, participa em diversas exposições e conferências. Em 1990 é nomeado para o prestigiado prémio Mies van der Rohe, pelo projeto do Centro Regional de Segurança Social de Portalegre (em colaboração com Gonçalo Byrne e João Paciência). Em 1992 recebe o Prémio Secil de Arquitetura pelo projeto da Escola Superior de Comunicação de Lisboa. Embora ainda não muito numerosa, a sua obra inclui vários outros edifícios de grande valor, tais como a Piscina Municipal de Campo Maior, (1985-90, com Carlos Miguel Dias), a Pousada no Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa, Crato (1992) ou o Pavilhão do Conhecimento dos Mares para a exposição mundial de Lisboa (EXPO'98).

É Professor convidado no Departamento de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa desde 2001 e no Departamento de Arquitetura da Universidade de Évora desde 2005. Foi também Professor convidado na Escuela de Arquitectura da Universidade de Navarra entre 2007 e 2010.

Foi professor convidado para seminários e conferências sobre o seu trabalho em diversas universidades, nomeadamente em Barcelona, Sevilha, Lisboa, Roma, Milão, Turim, Verona, Cidade do México, Viena, Aachen (Alemanha) e Porto.

A 9 de julho de 1999, foi agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito.A 18 de abril de 2019, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública.  Desde 2022, é sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa (9.ª Secção - Comunicação e Artes). - No seu vasto curriculo constam ainda inúmeros prémios e distinções

O arquiteto João Luís Carrilho da Graça incorporou o seu acervo de 40 anos de produção arquitetónica na Casa da Arquitectura, numa cerimónia que decorreu a 15 de fevereiro 2020, no Arquivo da Casa. Na ocasião, foi exibido um pequeno filme alusivo que ajudou a enquadrar a obra e o arquiteto. É esse filme que aqui disponibilizamos.

O acervo de João Luís Carrilho da Graça que é produto de mais de 40 anos de trabalho do seu autor e contempla cerca de trezentos projectos, mais de uma centena dos quais tendo resultado de concursos públicos. Ainda que este extenso conjunto inclua planos executados para os mais diversos países – Espanha, França, Chipre, Itália, Suíça, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, Hungria, Finlândia, Egipto, Brasil e Estados Unidos da América –, a grande maioria diz respeito ao território nacional, incluindo projetos bem conhecidos pelo público português, como as Piscinas em Campo Maior (1982-1990), a Ponte sobre a Ribeira da Carpinteira na Covilhã (2003-2009) ou o Terminal de Cruzeiros em Lisboa (2010-2018). Entre o conjunto do material incorporado é possível encontrar desenhos e escritos de Carrilho da Graça e dos seus colaboradores, mas também uma extensa coleção de maquetas que representam tanto as obras construídas, como algumas versões diferentes das que acabaram por ser executadas, ou até mesmo, em alguns casos, projetos que não chegaram a passar do papel. – Excertos de várias fontes.


terça-feira, 25 de julho de 2023

Príncipe criou legislação para proteger as abelhas, que estão em vias de extinção- Vale a pena promover a apicultura, trabalho em que fui um dos pioneiros na recolha de exames selvagens para a sua domesticação, num pequeno colmeal, na BFAP, no Potó, onde o ex- PR Evaristo de Carvalho, também trabalhou - Meu antigo colega - As Obreiras Africanas, mais pequenas e mais defensivas que a europeias mas podem aumentar a safra do Café em 50%” - São Tomé, tem o melhor café do mundo, deve promover a apicultura – Levei milhares de ferroadas, até ao dia em que as compreendi melhor a sua linguagem e pendurei um enorme enxame, sob o queixo

 

Jorge Trabulo Marques - Jornalista



Jorge Trabulo Marques - Com José Cassandra - ex-Presidente do Governo Regional do Principe 

(…) A ilha do Príncipe, que é património mundial da biosfera, optou pela protecção do seu ecossistema como factor para a conquista do desenvolvimento sustentável. Esta semana, a Assembleia Regional do Príncipe deu mais um passo na consolidação do equilíbrio ecológico da ilha.
Os deputados da região autónoma, aprovaram o decreto legislativo de protecção das abelhas na ilha do Príncipe. «É uma lei que vem não só para punir os infractores, mas também vem dar-nos uma forma digna de produção do mel e todos os derivados de abelha», afirmou o deputado regional Francisco Gula.
São Tomé, onde os apicultores, continuam a usar fogo, para incendiar os enxames, e assim poder extrair o mel. Milhares de abelhas ficam carbonizados, em cada acção incendiária de extracção de mel na ilha de São Tomé.- Excertos de Abel Veiga https://www.telanon.info/politica/2020/08/04/32290/principe-criou-legislacao-para-proteger-as-abelhas/


Sim, fui um dos pioneiros na recolha de exames selvagens para a sua domesticação, num pequeno colmeal, em trabalhos técnicos de investigação, em S. Tomé. Os primeiros meses, foram terríveis!... Depois passei a ficar imune às suas ferroadas e a até apanhar os enxames às mãos cheias. Mas também só o podia fazer, após  montes de picadas cegas e a molho sobre a máscara e o fato e lhes aplicar várias fumigações: sobretudo após 1/3  ter-se  atirado num autêntico suicídio,  sobre mim e meu auxiliar,  dado pagarem cara a vida por cada ferroada, até que, por fim - talvez por um instinto de sobrevivência do enxame – lá se acalmarem e ficarem absolutamente inofensivas.

A rainha rodeada das suas damas- Web
Eu ficava  com a impressão  de que, quando os níveis de abelhas mortas pudessem pôr em risco a sobrevivência do enxame, este, como que por um comando instintivo, deixava de atacar – Pois, como é sabido, a abelha africana, ao sentir-se tocada, facilmente se exaspera, é tremendamente agressiva, ataca tudo o que se mexer à sua volta e persegue o seu alvo até grandes distâncias – Se apanhássemos algum enxame, por exemplo, junto de habitações, a criação de galinhas ou de patos, tinha de ser protegida das abelhas – De outro modo,  atiravam-se-lhes à cabeça e matavam essa criação. 

Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Recordo-lhe aqui a minha experiência na apicultura em S. Tomé -



No serviço militar - Encarregado da Agro-Pecuária 
Uma tropa mais agrícola que militar
Apesar dos riscos inerentes  (e não eram tão poucos como isso), considero ter sido a atividade de apicultor, um dos trabalhos mais interessantes, que mais gostei de exercer, quando trabalhei na Brigada de Fomento Agropecuário, em S. Tomé - Além de que tive como empregado de mato na Roça Uba-Budo, Ribeira Peixe e Rio do Ouro - Ali na condição de mais um escravo a juntar a muitos outros - Pois quem  lucrava eram  os chamados “inspetores da Gravana ou do  cachimbo",  os proprietários, das grandes plantações, que, vivendo refastelados em  Lisboa,  ali iam  banquetear-se no período mais fresco do ano

 É verdade que as  abelhas africanas ou  as africanizadas (hibridizadas com outras espécies), embora mais pequenas,  respondem mais rápida e agressivamente  à perturbação da sua colónia,  são capazes de injetar oito vezes mais toxinas em suas vítimas, que as abelhas comuns, em revoadas de maior número e com  ferroadas de um veneno mais poderoso e letal. Em investidas  tais,  que, se houver de galináceos por perto, não escapam! Pois o ataque é logo dirigido à cabeça das vítimas! - Testemunhei essa experiência, com as abelhas africanas de S. Tomé: quer pelo que sofri fisicamente, quer pelos ataques que observei em animais domésticos e em pessoas.

Fernão Dias - Na antiga Roça Rio do Oiro
É, desde há muito reconhecido o papel importantíssimo das abelhas e de outros insectos na polinização de diversas espécies agrícolas, com o aumento substancial das suas colheitas   – Esta foi uma das razões que levou a que, a Brigada de Fomento Agro-Pecuário, sob a orientação da Junta de Investigação do Ultramar, em meados dos anos sessenta, introduzisse no campo experimental  das suas várias investigações,  junto à Roça Santa Margarida, próximo  da então Vila da Trindadeatual capital do distrito de Mé-Zóchi,  um pequeno colmeal com algumas colónias  capturadas de exames  selvagens, por forma a que  ali  se procedesse ao estudo do seu comportamento e  à reprodução intensiva, com vista ao desenvolvimento da apicultura  em STP: quer  para o aproveitamento do mel – produzem pouco, mas o mel é de boa qualidade: pois têm flora todo o ano e não precisam de o armazenar, mas sobretudo para melhorar a polinização dos cafezeiros e nos coqueiros



PR - Evaristo Carvalho - Meu antigo colega
Trabalhei nesse estudo, sob a orientação do Eng Rosário Nunes, acompanhado de um excelente auxiliar santomense, com o qual procedíamos à recolha de vários enxames e nas mais diversas proveniências, quer de buracos de  troncos de árvores, sobretudo de coqueiros, seus sítios preferidos, quer  dos novos exames que se replicavam na altura de enxamear e  iam pousar  até nos telhados, tal como sucedeu numa casa da cidade, perto do Tribunal, num percurso movimentado, onde, alguns motoristas, não querendo respeitar os avisos que lhe fizemos, de fecharem os vidros dos carros, acabaram por protagonizar os mais insólitos episódios, abandonando a condução em precipitadas fugas, enquanto as abelhas os flagelavam.  
Recordo-me bem, que, quando apanhávamos  um enxame, nas imediações do terreiro de uma roça ou onde houvesse habitações e a criação de animais, depressa se espalhavam pelos ares, zumbindo e atacando as cabeças das pessoas ou dos animais domésticos: - Tínhamos sempre mais alguém para ficar nos caminhos avisar que não passassem naqueles momentos. Mas havia sempre quem não fizesse caso das nossas recomendações e acabasse depois por fugir a pular e a sacudir as orelhas e a cabeça com as mãos. Nem por isso se livrando das suas picadas, pois a abelha africana, quando ataca, persegue, por várias centenas de metros,  tudo quanto for vivo até cair morta com o ferrão.
MEU PAI IA MORRENDO COM PICADAS DE ABELHAS 
Enquanto não me adaptei, não havia máscara e fato de apicultor que me  valesse: ao ponto de ter ficado, algumas vezes,  imobilizado em casaou com os olhos inchados e não podendo ver ou com os pés demasiados inchados e não podendo caminhar – Deus meu!  No rol das minhas aventuras,  desde a escalada de  um pico aprumo ou solitário em pirogas nos mares do Golfo da Guiné, até, por essa experiência, haveria de passar!  Quase por a mesma que  ia levando  à morte o meu pai, por ser alérgico às suas picadas: era eu criança, quando, na propriedade do nosso “Lavor do Ferro”, onde ela andava a lavrar, vendo um enxame junto às raízes  de uma oliveira, resolveu ascender umas giestas para as afugentar e tirarmos de lá o mel, como suplemento à nossa magra merenda 
Viu-se aflito! E, às tantas, de  tanto vomitar, abraçava-se a mim, dizendo-me que ia morrer – “Meu filho! Vou morrer!. Vai para casa! Deixa-me aqui ficar!” Enquanto eu o confortava a chorar!.. Estávamos só os dois e longe da aldeia. Vá lá, que, horas depois, lá se recompôs,  melhorou e pudemos regressar a casa no mancho, que era a besta com que ele andava a lavrar a vinha daquela encosta voltada para o Rio Côa – Episódio que jamais esquecerei, tal como outro, que ali me ocorreu, ainda de mais tenra idade: ao levar o macho a beber no ribeiro, enquanto ele bebia, dei-lhe um beliscão nas ancas, tendo-me dado um coice que me ia matando.
Porém, uns meses depois, desse meu trabalho em S. Tomé, quando passei a compreender melhor o seu comportamento, os sons da sua linguagem, as suas danças,  até a encarar  o meu trabalho com prazer e alguma diversão, ao ponto de as fazer pousar sobre o meu queixo com a rainha mestra engaiolada, tal como documenta a imagem, publicada no extinto Diário Popular.

Abelhas podem aumentar safra de café em 50%

“As safras de café da América Latina aumentaram nos últimos anos por causa das abelhas africanas, diz um cientista americano – Refere a BBC
Segundo David Roubik, ao polinizar um cafezeiro, os insetos podem fazer a planta produzir até 50% mais frutos.
Introduzida em 1985, a abelha africana teria se adaptado ao continente, tornando-se a maior aliada dos produtores de café latino-americanos.
No entanto, em regiões onde habitats naturais foram destruídos ou substituídos por campos agrícolas, o número de abelhas e outros insetos polinizadores estaria diminuindo. É o que se observa, segundo o cientista, em partes da África e da Indonésia, onde as safras de café vêm caindo nas
 últimas décadas. 
https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/020613_abelhacg.shtml

A Apicultura em São Tomé e Príncipe. Situação Atual e Perspetivas Futuras” – Titulo de um estudo académico português .

Diz  que “As riquezas naturais de São Tomé e Príncipe, tais como a flora diversificada, o clima e a abundância de água, associadas à eficiência das abelhas locais, permite pensar na apicultura como uma aposta promissora para o país, uma vez que, associada à preservação do ecossistema, constitui uma excelente oportunidade de negócio e fonte de rendimento para as comunidades locais. A apicultura, baseada na gestão sustentável de abelhas Apis mellifera, para além de permitir extrair o mel, a própolis, o pólen, a geleia real, a cera, entre outros produtos da colmeia, é uma atividade do agronegócio que requer um baixo investimento inicial, potenciando a geração de emprego e rendimento, o que permite a manutenção das famílias no seu meio e ainda pode despertar a consciência ambiental, convertendo os apicultores em defensores da natureza. Defende também uma dissertação académica de Jeudíger Lima do Nascimento, apresentada à Escola Superior Agrária de Bragança para a obtenção do Grau de Mestre em Qualidade e Segurança Alimentar” – Mais pormenores em https://bibliotecadigital.ipb.pt/bitstream/10198/18932/1/tesefinal.pdf

COMO EXPLICAR O COMPORTAMENTO DE ABELHAS TÃO MINÚSCULAS MAS  E TÃO TREMENDAMENTE DEFENSIVAS! – Que na América Latina, depois de um cruzamento com as abelhas nativas, até já foram apelidadas de “abelhas assassinas” 

S. Tomé - 40 anos depois 
Reconhecem estudiosos que. “Durante milhares de anos, por influência do meio ambiente, as características genéticas e comportamentais das abelhas africanas foram se diferenciando das europeias, que são muito mais mansas e fáceis de domesticar”, afirma o biólogo Osmar Malaspina, do Centro de Estudos de Insetos Sociais da Universidade Estadual Paulista (UNESP). 

Muitos produtos hortícolas também beneficial com as abelhas
Acredita-se que o modo agressivo como os nativos africanos retiravam o mel, ateando fogo nas colónias, teria provocado a formação de um espírito tão guerreiro na espécie. Assim, as abelhas africanas ficaram tão preparadas para a autodefesa que percebem vibrações no ar a 30 metros de distância e já se sentem ameaçadas quando alguém chega a menos de 15 metros da colmeia. Quando atacam, podem perseguir sua vítima por mais de 1 quilometro”.
De tão perigosas, passaram a ser conhecidas em todo o mundo como abelhas assassinas. O apelido não pegou à toa: desde a década de 50, mais de 1 000 pessoas já morreram por causa de suas picadas só no continente americano. No Brasil, elas chegaram em 1956, trazidas pelo agrónomo paulista Warwick Estevan Kerr, que queria melhorar a produção de mel – mais resistente a doença https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-as-abelhas-africanas-sao-tao-perigosas/


Príncipe precisa de 2 milhões de euros para instalar nova rede eléctrica - O governo regional já tem em mãos o estudo da rede elétrica de média tensão para a Ilha do Príncipe no horizonte 2050.

O estudo segundo o diretor de energia, Gabriel Maquengo vem dar resposta a todos os desafios do sector energético regional e privilegia energia limpa. “Uma vez implementado este projeto, teremos a estabilidade no sistema que vai garantir um bom fluxo de energia para todo o canto da ilha”. https://www.telanon.info/sociedade/2023/07/24/41169/principe-precisa-de-2-milhoes-de-euros-para-instalar-nova-rede-electrica/

domingo, 23 de julho de 2023

AMÁLIA RODRIGUES – Nasceu há 103 anos - O Amor e o Sexo na Sua Vida " Apanhei uma sova aos 13 anos" - A entrevista e a pose fotográfica que me concedeu, frente ao retrato da Severa, na Adega Machado, no final da apresentação da obra UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA”. Por Vitor Pavão dos Santos, com autógrafos de ambos

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

O episódio, que documento, num registo sonoro, deve ter sido um caso inédito na vida da mais famosa figura da música portuguesa. Andei dois anos sem aparecer à sua frente...Até que por fim fizemos as pazes - Tendo-me  autorizado a divulgar a entrevista. Mesmo assim, apenas o faço parcialmente  

Depois de um beijinho, o autógrafo e a foto frente ao retrato da Severa

AS PAZES...E A HOMENAGEM DE UMA FOTO EXCLUSIVA 

Amália Rodrigues à frente do retrato da Severa - Esta imagem foi registada no dia do lançamento do livro, " Uma Estranha Forma de Vida", de autoria de Vítor Pavão dos Santos , que teve lugar na Adega Machado - A imagem é de minha autoria e trata-se de uma pose espontânea da Amália,  selando, de forma gentil, artística e carinhosa,  o termo de um período de agastamento e distanciamento , depois da fuga precipitada de sua casa. A imagem foi obtida por uma pequena compacta de bolso.

 ENTREVISTA - Dividida em  duas partes - separadas por um breve separador musical - Parte do diálogo e a  discussão que se seguiu quando se arrependeu. Não se revelam os pormenores mais íntimos  - Tive que escapar-me de sua casa – com toda a sua “corte” atrás de mim para não ficar sem o gravador e a cassete


 


O  posterior encontro com Amália Rodrigues ocorreu   já na ponta final da sessão do lanlamento da sua  biografia, quando os repórteres fotográficos e a maioria das pessoas, haviam saído. 
Eu fizera outras fotografias mas andara por ali discretamente. Aguardei para o fim, cauteloso, pois não sabia como ela ia reagir à minha presença: surpreendentemente foi amistosa: "Vá... então dê cá um beijinho e tire-me aí uma fotografia!"....

Não cabia em mim de contente.... Até já parecia que estávamos mais à vontade que o resto da sua comitiva...Finalmente acabou-se o pesadelo.. Autografou-me a obra (a que se juntou o autógrafo de Victor Pavão) e parti dali como se fosse um velho amigo....

Creio que houve mais uma pessoa que terá aproveitado a oportunidade para registar a mesma pose. Mas ela voltou-se, foi para mim e perguntou-me: "Você está aqui?!..." Eu respondi-lhe: Sim, estou aqui porque não hei-de estar aqui?!... Quem não deve não teme!... Amália, sabe dizer-me se alguma vez eu usei as suas palavras da entrevista? .. As transmiti ou as publiquei nalgum jornal?!...Desculpe não ter-lhe dado a cassete e tê-la deixado se calhar preocupada mas Amália também queria o gravador e eu não podia ficar sem ele

Porém, embora nesse reencontro, com o repórter,  reconhecesse que não havia razões para ficar preocupada, me autorizasse a divulga-la, mesmo assim decidi  não a editar completamente



A entrevista 
inserira-se numa série de entrevistas, que me foram encomendadas pelo semanário Tal & Qual, com várias personalidades da vida portuguesa, acerca da "primeira vez", ou seja, sobre a primeira  relação sexual - Foi no principio da década 80, num período em que, certos tabus,  acerca  da sexualidade,  se rompiam graças aos ventos da revolução de Abril.




Entre as figuras entrevistadas , contam-se: Carlos Botelho, Graça Lobo, Simone de Oliveira, Raul Solnado, Vitoriano Almeida, Ary dos Santos, Narana Coixoró, Raúl Calado, Ivone Silva, Afonso Moura Guedes, entre outras figuras  - A Amália aceitou o desafio mas, a dada altura do momento da entrevista, arrependeu-se
 Telefonara-lhe do Botequim, tendo aceite a minha visita, que ia fazer a sua casa pela 3ª vez. Mas, às tantas da gravação, arrependeu-se e quis ficar-me com o gravador e a cassete. E eu não tive outro remédio senão tirar-lho da mão e precipitar-me numa corrida apressada  pelas escadas abaixo,  à frente dela e do grupo de  amigas, que se encontravam em sua casa.

Mais tarde, no final da sessão do lançamento da sua biografia, Estranha Forma de Vida, fizemos as pazes, selando o reencontro dando-me o prazer de a fotografar, numa pose de fadista, frente ao retrato da Severa - E, embora me autorizasse a divulgá-la, não o fiz nem o vou fazer - Senão apenas reproduzir um breve excerto. inócuo, e o diálogo subsequente(este sim, na íntegra) quando me esforcei por convencê-la a fazer uma segunda entrevista mais ponderada. - Só que, ao mesmo tempo que procurava desagravá-la para gravar outra, ia gravando também a conversa que ambos íamos travando - Por feliz coincidências, acabei por ficar com ambos os registo

Amália sempre foi um coração de oiro, expansivo, alegre e frontal; muito generosa e soube perdoar. Mas o nosso país pequeno demais para a sua grandeza mas uma grande quinta para os invejosos. Tinha muitas razões para se acautelar....Não foi a queda do regime que a magoou mas certos extremismos e oportunismos . Aliás, foi até depois do 25 de Abril, que Amália recebeu as maiores homenagens e distinções. .Foi condecorada com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo então presidente da República, Mário Soares. Ao mesmo tempo, atravessa dissabores financeiros que a obrigam a desfazer-se de algum do seu património - In..Amália Rodrigues – Wikipédia,
 
Curiosamente as farpas vieram dos que se notabilizaram em boa parte à sua custa.. Foi alvo de boatos pelos jornais e por algumas pessoas de uma certa esquerda oportunista e extremista que se meteram na sua vida íntima e a  acusaram de gatos e lagartos. .

              A ENTREVISTA FOI SUGERIDA POR  NATÁLIA CORREIA

A entrevista foi congeminada e combinada no Botequim da Natália Correia - Aliás, tal como outras sobre o mesmo tema, publicadas no Tal & Qual. Tendo, até, por via disso, chegado a escrever no Diário de Notícias, em defesa de Afonso Moura Guedes, quando Vera Lagoa (Maria Armanda Falcão) o atacou nas páginas do Semanário O DIABO 

"Então porque não entrevista a Amália?!... Seria interessante sabermos como a nossa diva do fado se desvirginou!..." - A sugestão foi secundada por uma gargalhada geral. Pois a voz da Natália (mesmo que o Botequim estivesse cheio), distinguia-se perfeitamente entre a música do piano ou o barulho de outras vozes. Ainda conservo alguns registos gravados do ambiente e de ela a cantar: "Morte que Mataste Lira" - Em sua homenagem, aqui vai uma das canções que tanto gostava.

Nem mais um instante hesitei. Estava sentado junto ao balcão do bar. Fui à minha agenda, peguei no telefone, que estava mesmo ali à mão e disquei diretamente para casa de Amália. Era já um pouco tarde, pedi-lhe desculpa pelo adiantado da hora e disse-lhe que gostaria de lhe fazer uma pequena entrevista para o Tal & Qual - Acedeu “Já está combinada!... Vou lá amanhã!" - disse imediatamente à Natália "Parabéns!... Estou cheia de curiosidade" - remata a autora da Mátria 

Na tarde do dia seguinte, lá me apresentei no antigo solar da Amália, no 1º andar do nº 193 da Rua de São Bento - hoje transformado em Casa Museu - Amália  - Era a terceira vez que me dava o prazer de me receber em sua casa. Sim, na altura a concorrência da rádio e da televisão, não era como agora. Estava na companhia de Maluda e de um restrito grupo de familiares e pessoas amigas. 

A entrevista discorria sobre a primeira relação sexual. Mas a pergunta sacramental só viria depois do preâmbulo . Fui torneando a questão "moli e moli", como se diz em África: nunca lhe cheguei a dizer que o tema principal da entrevista era que me revelasse como tinha sido a sua primeira queca ou quem primeiro arranhou. Foi-se discorrendo... Houve que andar pelos preliminares... Até que, por fim, lá confessou o desgosto que a assolapada paixão lhe havia causado.


Recebeu-me de uma forma muito amável, no alto das escadas, muito sorridente, naquela sua expressão, a que o público também se habituou, sempre que aparecia em palco. Amália era íntegra, a hipocrisia e o fingimento não faziam parte do seu carácter. No fundo, era assim para toda a gente - para os amigos e gente anónima. Amália não tinha duas faces. Só quando cantava o fado, então é que o seu rosto era a dor ou a alegria das composições que interpretava.



Logo que transpus o último degrau, cumprimentou-me com um beijinho, levando-me de seguida para junto de um grupo de amigas, que estavam lá mais à frente, a um canto da casa do lado esquerdo e junto à janela, que corresponderam simpaticamente. E lá passei um grande bocado da tarde. Curiosamente, não se falava de outra coisa senão de sexo. Claro, de uma forma trivial: de fofoquices. Sem qualquer carácter obsceno. E foi com estas palavras que me apresentou às suas amigas: "Você também gosta de falar de sexo?!... Elas são marotas!... Não faça caso que elas sabem muito mais do que eu!..." - "Estejam à vontade"- respondi. "Eu também gosto de conversar sobre essas coisas...

 E, de facto, mesmo reconhecendo que a conversa andava à volta de questões relacionadas com o amor, o sexo, episódios de namoricos, cenas de filmes românticos e coisas do género, tive a percepção de que, Amália, estava longe de imaginar a pergunta marota que eu levava engatilhada - Costuma-se dizer que as boas reportagens são aquelas que vêm ao encontro do repórter e não as programadas - E, em boa parte, foi o que sucedeu..


Não manifestei a menor pressa em fazer qualquer registo no gravador. Por algum tempo, quase me ia esquecendo que estava ali para entrevistar Amália. Direi que não fui um participante activo nos diversos diálogos mas um ouvinte muito atento - Pois, embora bem recebido, não fazia parte do seu núcleo íntimo das suas amizades . Mesmo, perante um ambiente, tão descontraído, tinha de saber ocupar o meu lugar - E, quando se está perante alguém que diz coisas engraçadas, que nos dão prazer, é preferível falar menos e ouvir mais. Foi esse o meu papel 


De resto, Amália, até nem era das pessoas que mais falava. Gracejava, divertia-se dando umas piadas para apimentar a conversa.

Pelo que me apercebi, aquela restrita tertúlia, reunia-se com Amália, não tanto para lhe ouvir as histórias ou desabafos, mas para lhe servir de corte - Tal como os bobos e as damas na corte dos réis. Adoravam Amália e reconheciam-na como a diva, como a rainha. Estava lá também o irmão Vicente, a sua irmã Celeste e a pintora moçambicana Maluda e mais duas amigas. Não as reconheci, mas pareceu-me que eram as visitas especiais daquela tarde. Mas quem se impunha era Maluda - Sentia-se tão à vontade, que parecia fazer parte da casa, tal como o irmão e a irmã da Amália.

Maluda era de complexão forte - a saúde é que acabou por ser fraca e a levou cedo. Fazia parte do restrito grupo das pessoas íntimas de Amália - Também se promoveu à sua custa. Se não fosse essa relação estreita, estou convencida que as famosas janelas, pintadas pela artista moçambicana, teriam ficado no anonimato.


Não tinha papas na língua. Era ela a moderadora, quem trazia os temas à baila. E também a voz mais troante, até parecia ser a governanta da casa. O Vicente ria-se muito mas quase não abria a boca. A Celeste, também sempre muito alegre e participativa. As outras duas amigas, riam-se como as crianças, por tudo e por nada: - Riam-se do que contavam e das risadas que provocavam

Amália, mesmo não sendo a que puxava pelas histórias, era a voz que mais sobressaía. Sempre bem disposta. E com os seus apartes. Mas não falava dela. Se, no pequeno grupo, imaginássemos, em vez de pessoas, instrumentos ou uma sessão de fados, dir-se-ia que, as demais presenças, eram simplesmente instrumento de cordas, as guitarras que acompanhavam, e, Amália, a eterna cantadeira - Amália denotava uma grande sensibilidade e curiosidade em ouvir as pessoas que faziam parte do seu núcleo de amizade e gostava de as pôr a falar. As pessoas inteligentes não gostam de perder tempo a expandir-se em trivialidades. Mas sabem ser socáveis. E gostam de ouvir.

Deixava falar as amigas . Mas não se distanciava do diálogo. Era participativa. E as suas palavras (mesmo não cantadas) soavam com a sonoridade, que lhe é própria, tal como só ela as sabia dizer: soavam à voz inconfundível da grande fadista - A voz da Amália era sonoramente bela, falada ou cantada. O falar de Amália era tão agradável como os fados cantados - Como ela, dificilmente surgirá algum dia quem a imite.Já ali havia estado por duas vezes, em sua casa, mas apenas durante o tempo tomado para as entrevistas - Agora, de forma algo inesperada, passava ali uma tarde. - Sentia-me como se fosse uma visita habitual da casa da Amália - Até que, por fim, e vendo-a tão bem disposta, achei estarem reunidas as condições para lhe colocar algumas questões(delicadas) sobre a sua vida pessoal - "Como havia sido a sua primeira relação sexual"

E, não querendo que o barulho das outras vozes, pudesse afectar a qualidade gravação (mas sobretudo para estarmos mais à vontade) - perguntei-lhe se não se importava de nos sentarmos nutro sítio - Fui então que me conduziu para o lado oposto da sala, próximo do último degrau da escadaria, onde nos sentámos junto a uma pequena mesa, com o gravador sobre a superfície da mesma.


"Então diga lá o que me quer?!..." - pergunta-me ela, visivelmente bem disposta. Respondi-lhe: "Vamos falar sobre o que estavam a falar... Umas palavrinhas da Amália...Diga o que quiser sobre o assunto...E seja sincera como costuma ser e estavam a ser..Eu gosto muito de a ouvir cantar e também falar". Tive o cuidado de não usar o termo sexo para não lhe criar alguns antagonismos. Pese o facto, como disse, da conversa se haver estendido, praticamente sobre fofoquices desse género.

Sem dúvida, deram-me muito prazer aqueles momentos de convívio- No entanto, o meu objectivo principal era a entrevista, que eu não queria perder. Não tirava da mente esse desejo porfiado. Diria que agi (sem falsa modéstia) um pouco como o prestigiador. E, antes de contar o resto da história, vou explicar de seguida - talvez as razões de algumas dessas propensões

Devo dizer que, na conversa prévia, que tivera de véspera com Amália Rodrigues, eu fora um pouco omisso. Mas também devo sublinhar que não a traí porque as perguntas foram sempre muito claras, só que progressivas... Ao mesmo tempo que não deixava de a fixar... Encantado pelo que me ia dizendo... Não tanto pelo facto das suas confissões mas pela sua sinceridade. Claro que ela estava absolutamente segura do que dizia....Longe de se poder afirmar que estivesse hipnotizada... Só que se esquecera que havia ali um gravador... Mas, às tantas, lá se deu conta para onde estava a resvalar... e despertou para outra realidade... 

Depois foi um grande bico de obra... Tive que sair de lá a correr... - Quase me ia precipitando ao descer as escadas... ela e a sua "corte" correram todos atrás de mim. Vieram até à rua... Só descansei, quando apanhei um táxi... E até o taxista se apercebeu, perguntando-me o que é que se havia passado à porta da Amália com ela atrás de mim e quem na sala lhe fazia companhia naquela tarde..

A Maluda era a mais danada e inconformada...Mal eu dei ares de desandar, correu logo atrás de mim, como uma cavalona... "És mais parva do que ele!... Foste logo a falar da tua vida pessoal!..." A sua ira dava em recriminar a Amália .Já nem sequer eu era o mau da fita, mas a sua amiga.

Estou convencido que se me apanhassem, tiravam-me o gravador e ainda levava uma tareia. A entrevista ficaria a meio. 

A Amália arrependeu-se e quis tirar-me a cassete e o gravador... Argumentando: "Sou uma figura pública!...Mas que tonta estou eu!... Que disparates estou eu para aqui a dizer?!..." Ainda tenho estes desabafos gravados. Ora, mas que culpa tinha eu de dizer aquilo que não lhe convinha dizer?!... Era adulta e crescida. 

De resto, até achava que não havia dito nada especial ou de escandaloso... Mas subitamente muda de opinião. Ainda lhe propus desgravarmos e começarmos outra entrevista, anuiu mas acabaria por não aceitar. 

Eu é que não podia era ficar sem o gravador, porque não era meu mas da estação onde trabalhava - Era o meu instrumento de trabalho. Tirou-mo das mãos. Tentou tirar a cassete do seu interior mas a mola estava partida e não saltava para fora.

Eu disse-lhe: "Amáliatenha calma... Eu dou-lhe já a cassete... Dê-me o gravador por favor que não é meu ou então vamos começar de novo..."

Com Vergilio Ferreira em sua casa
Ela ainda chegou a concordar... Só que depois apercebeu-se que eu não estava a desgravar a entrevista ... Amália tinha um sexto sentido muito apurado.... Só era enganada se queria... Era muito inteligente e muito sensível. Ela quase adivinhava o que ia na cabeça das pessoas com quem falava... Fiquei com essa impressão... Tive esse eco... 

Creio que ela captou os meus pensamentos como se fosse um radar a captar as mensagens do inimigo... Eu não queria perder o primeiro registo...Até para não ficar sem nada... Sobretudo à medida que ela própria valorizava a entrevista, a que eu até aí não atribuía nada de especial E Amália apanhou-me a vibração... Grande mulher!...Tinha essa ideia fisgada e ela pressentiu-a.. Não tive a menor dúvida. E já não havia nada a fazer senão procurar recuperar ao menos o gravador. E mais se convenceu da marosca, quando eu lhe disse: "Bom mas temos que nos calar senão vai ficar tudo o que agora estamos a dizer..."

Ficou então duplamente ainda mais preocupada e com a sensibilidade à flor da pele.... Rapidamente fez a leitura de tudo o que ia na minha cabeça... Subitamente senti-me como que desmascarado... Mas também nunca dei o flanco e procurei sempre proteger o meu tesouro...Se há coisa que poderá deixar mais frustrado um jornalista é ficar sem a sua entrevista ou sem a sua reportagem. Quantos não recolhem importantes "furos" de gravador escondido ou câmara oculta, mas o meu gravador estava ali pousado sobre a mesa. Ambos estávamos sentados e não havia ali nenhum jogo escondido. Não estava a cometer nenhum atentado ou crime à honra da Amália.

Já havia passado por uma experiência, com quase idênticos contornos, com as confissões de um elemento da ETA, em Las Palmas. Deu-me a entrevista à noite (contando-me como ele e o seu grupo haviam assassinado um general em Madrid - olhos vendados e de cano de pistola apontado aos ouvidos , jogando à roleta russa ), mas, o diabo do sujeito, pouco depois, arrependeu-se e foi bater ao meu quarto para que lhe devolvesse a cassete. Disse-lhe que lha entregaria de manha. Só que eu levantei-me mais cedo e mudei de pensão. Era das mais modestas da cidade onde não eram pedidos elementos de identificação pessoais.




Com o escritor Jorge Amado
De facto, Amália tinha razão: ela já não confiava em mim nem no próprio gravador: terá pensado que, além da cassete, ele esconderia algum segredo. Estava muito desconfiada. E realmente já não havia apenas um registo mas dois: o da entrevista, de que ela se arrependeu e depois os lamentos dela, as suas justificações, durante vários minutos. Foi então que me voltou apanhar o gravador: "Você não leva o gravador!!!... Vá à sua vida que não leva o gravador!!... A mim não me engana!!..." Bom, nisto o grupo (que até aí se manteve indiferente junto à janela) pára de conversar e faz-se um silêncio sepulcral na sala... Já só se ouve então a Amália a dizer, meia arreliada: "Você não leva o gravador! Vá à sua vida!.."e eu a pedir-lhe, insistentemente, que mo devolvesse. E a Maluda, que já tinha olhado várias vezes para nós e parecia algo desconfiada de que havia por ali gato, pergunta, com voz alterada e meia zangada: "Amália!... o que se passa?!!...O que é que esse gajo te quer fazer?!....Eu já corro com ele!!!.. ...Já trato dele!!.."

Vendo a ameaça iminente da presença da Maluda, seguida pelo grupo, e quando ela lhe responde. "Eu disse umas coisas parvas e não quero que ele leve o gravador!.. Ele não vai levar o gravador!...Não vai levar o gravador!... quero que ele se vá já embora!" Pois bem, aproveitando então o instante em que ela olha em direcção à Maluda, sim, apanhando-a distraída, tiro-lho o gravador e desato a fugir escada abaixo.

Numa grande noite do fado, ao passar frente ao camarim, nos bastidores do Coliseu dos Recreios, ela viu-me: "Mas o que é que você anda para aqui a fazer?!!..." - Tive que me escapar imediatamente dali, antes que fizesse algum escândalo. Mais tarde fizemos as pazes: foi no lançamento do livro de Victor Pavão - "Uma Estranha forma de vida", que decorreu na Adega Machado. Autografou-me o livro e deu-me um beijinho muito querido. Depois pousou expressamente para mim, à frente do retrato da Severa – Obrigado Amália Rodrigues  por tão belo momento, cuja foto guardo como um relicário. Também fazia anos em Julho e era do signo Leão, tal como a Bethe. Já vi que cada biógrafo apresenta a sua data, mas creio que você me disse que fazia anos no dia 26 de Julho. Mas também já não estou bem certo...

Adorava ter sido seu conselheiro. Vi que tinha um fraquinho pela astrologia. E eu também sou um curioso dessas questões. Pois ainda falámos sobre o assunto. Fui o Rasputin de várias damas que me foram apresentadas pela bethe - a russa Ludmila, no Ritz, é que me catalogou desse alcunha. Elas queriam mais alguma coisa: que eu fizesse feitiços aos maridos... pelas mais diversas razões. Mas era consigo que eu me teria sentido um príncipe numa corte real. E olhe que gostaria apenas de ter estado no papel de um mero pajem ou animador de convívios. Marimbar-me-ia para o resto. Mesmo já com a idade que tinha. Sim, não era o sexo... Mas a presença fascinante da sua personalidade!... Nunca mais no mundo vai aparecer figura igual!.

Amália tinha também o seu lado de vespa quando subia aos arames... Que eu dei-me conta disso... Zangada era como uma leoa da selva... Mas, no fundo, ela era mesmo a grande diva: não apenas do fado mas como pessoa. Fora bela, sorridente e escultural, quando nova. E, mesmo quando os anos já avançavam, até parecia que nada nela havia mudado: mais ainda: firmara-se no seu rosto, no seu inigualável perfil, o sorriso, a expressão, o olhar entre o alegre e o triste, a candura e a natural beleza, tal como o escultor que eterniza o instante mais nobre e magnífico do busto de uma rainha ou de uma princesa.

Muito determinada e senhora do seu querer e das suas ideias. Era forte como uma padeira de Aljubarrota mas ao mesmo tempo tão frágil como a flor mais bela de um maravilhoso jardim. Esse é o tipo de mulheres que eu sempre mais admirei. Paradoxalmente, em vez de serem os seus namorados a perderem a cabeça por ela, afinal foi a Amália que chegou quase a suicidar-se por um deles...- E tanta vida ainda à sua frente!... - E logo num primeiro embeiçado!...Ele não merecia tão alto suplício, como, de resto, ela reconheceu. Que desastre, mais fatídico, não teria sido para ela, para o fado e para todos quantos ainda hoje a veneram e admiram!... Espero, todavia, que, quando reencarnar e decida cá voltar à companhia dos terrenos, para uma nova fase evolutiva, tenha aprendido melhor a lição...

Na verdade, a sua vida foi mesmo "Uma estranha forma de vida" - Mas que o destino felizmente soube preservar: "cantarei o fado até que a voz me doa" . E, de facto, só a morte lhe calou a voz mas não a memória e a fabulosa herança dos fados que nos legou.

Os milhões que a adoram e a continuam a idolatrar têm razão, porque ela era inimitável.. O seu nome e a sua voz, agora continuam ligados a uma estação de Rádio – A Rádio Amália,  em tão boa hora, lhe dedicaram. Ela partiu mas a sua voz é eterna. Não está connosco fisicamente mas eu estou receptivo às comunicações do seu espírito, quando ela quiser....Quando me apanhar, naquelas noites, lá pelos penhascos da minha aldeia, dialogue comigo, minha alma querida!

Repito o que disse: conservo a gravação mas até hoje nunca a divulguei e, por enquanto, não o tenciono fazer, por respeito à sua memória. Pessoalmente não vejo que me declarasse algo de especial ou de escandaloso. Ela mudou, porém, de opinião, que eu respeitei. Se um dia revelar alguma coisa - parcial ou totalmente, será todavia neste site - Mas nunca aquilo que eu considero que ela não gostaria que fosse além da sua intimidade.
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David Mourão-Ferreira E O SEU FILHO JOÃO DAVID -  LANÇAMENTO DO LIVRO "UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA"

O POETA E ESCRITOR FEZ APRESENTAÇÃO DA OBRA E DISSE PALAVRAS MUITO BONITAS SOBRE O SORRISO E A VOZ DA AMÁLIA - EXISTE UM VÍDEO EDITADO NO YOUTUBE Amália Lançamento do livro estranha forma de vid

AMÁLIA É O HETERÓNIMO DE PORTUGAL - DISSE O POETA

"Este é o livro do sorriso da Amália. Eu creio que se podia fazer um estudo sobre o sorriso da Amália. Porque, o sorriso de Amália exprime, simultaneamente, o que em nós há de sorridente e de triste. Porque, mesmo por baixo do não sorriso, vislumbramos dentro, o sorriso que tem sido como a voz , evidentemente, e com todo o fascínio da sua presença, um dos grande segredos do mito que é a Amália, do milagre que é a Amália e da grande sorte de todos nós sermos seus contemporâneos"

"Este livro leva-nos até à infância de Amália. Revive os lugares, as pessoas e, sobretudo, é um documento indispensável para compreendermos precisamente o seu extraordinário percurso"

"Falar de Portugal ou dizer português em qualquer parte do mundo é imediatamente ouvirmos como um eco o nome de Amália. Eu já disse uma vez que Amália é um heterónimo de Portugal" - David Mourão Ferreira




Está sepultada no Panteão Nacional, entre os portugueses mais ilustres. - De seu nome completo, Amália da Piedade Rodrigues, os pais eram da região de Castelo Branco mas nasceu em Lisboa, 23 de Julho de 1920, faleceu  na mesma cidade, que tantas vezes cantou e celebrou com a sua voz e timbre inigualáveis, em  6 de Outubro de 1999 - Além de fadista, escreveu também poemas e participou como atriz em vários filmes - Foi a maior embaixadora da música portuguesa de todos os tempos.

 Aqui presto, pois, nesta efeméride  do seu nascimento, e uma vez mais, a minha singela homenagem à grande Diva do Fado, que, por três vezes me deu a honra de me receber em sua casa -  Esperandp que este registo sonoro possa também constituir-se  como mais um interessante contributo para  estudiosos e admiradores da mítica  personalidade da Musa do Fado