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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Marechal Francisco Costa Gomes –Recordar o Presidente Português obreiro da democracia e pacifista : mais de metade dos cientistas do Mundo estão ocupados em meios de combate em vez de se empenharem com “os problemas da fome, do analfabetismo, do meio-ambiente e da saúde - Entrevista repartida em dois videos


Jorge Trabulo Marques - Jornalista  - Desde 1970  - A HONRA  E O PRAZER DE TER ENTREVISTADO UM HOMEM VALOROSO, GENEROSO E PACIFICO - Entrevista dividida em dois videos - Mas há outros excertos que não me foi possível ainda recuperar

Foi o décimo-quinto Presidente da República Portuguesa, o segundo após a Revolução de 25 de Abril.  Natural de Chaves, 30 de Junho de 2014. Faleceu  em Lisboa, aos 77 anos, em 31 de Julho de 2001 - De família numerosa, de onze irmãos (dos quais três vão falecer antes de chegar à idade adulta), muito cedo Francisco da Costa Gomes fica órfão de pai, ainda antes de completar 8 anos. Após terminar a instrução primária, em Chaves, aos 10 anos entra no Colégio Militar, provavelmente falta de posses, para que possa aí prosseguir os estudos, prosseguindo a carreira de armas. Sobre a profissão militar o próprio diria mas tarde: «se pudesse não teria seguido.».

Entrevista -  Registo sonoro de uma antiga cassete - De entre as centenas de entrevistas e apontamentos, que ainda guardo no meu extenso arquivo em memórias de um repórter

Tenho pois  a honra e o prazer de editar o excerto de uma longa e  interessante entrevista, que me concedeu em sua casa, não obstante estar num período de convalescença, por razões de saúde  - "Sabe, que ainda ontem tive 40º graus de febre" - Confessava-me 

COSTA GOMES  - O MILITAR PACIFISTA

O paladino da paz –.Um dos militares mais pacifistas, que, após deixar a Presidência da Republica, não aceita ser  chamado a desempenhar qualquer cargo político, optando pelo  Conselho Mundial da Paz, como terreno de intervenção, seguindo, atentamente e com preocupação, o recrudescimento das armas convencionais e atómicas das duas grandes potências, que, ao invés de olharem mais para os problemas da saúde e das condições de vida das populações, gastam milhões em armas atómicas e convencionais.  –


RETIROU-SE DA POLITICA MILITAR PARA SE DEDICAR À PAZ MUNDIAL

JTM - O Sr. Marechal Costa Gomes é um homem retirado da cena política? É um homem que acompanha atentamente os problemas! Como vê a política: como interveniente ou como observador?

F.C.G. A política nacional vejo-a simplesmente como observador e um observador muito atento, porque, como tenho dedicado a maior do meu tempo, às questões internacionais, sobretudo àquelas que dependem da paz e do desarmamento, e, como isso me leva, muitas vezes, a conferências para fora do país e me obriga a um preparação, quando estou em Portugal, que me faz alhear um pouco da política do dia a dia do nosso país, é claro que eu estou mais a par daquilo que se julga que constitui hoje a política internacional e a situação internacional de propriamente da politica nacional.

JTM - Porquê essa preocupação?

F.C.G - Bom, a preocupação deriva de várias coisas:  em primeiro lugar do facto  de julgar que nós estamos realmente  de baixo da uma ameaça terrível que pode, de um momento para o outro destruir por completo a vida sobre este belo planeta, que é a Terra. É isso. Pode-se dizer  que as pessoas mais lúcidas e aquelas que se têm dedicado mais a este assunto, desde 54, desde o rebentamento da primeira bomba atómica, começaram a prever esta situação. Mas, não  há dúvida nenhuma, que, durante as duas primeiras décadas, praticamente o assunto da era atómica, foi completamente ignorado, as armas atómicas foram completamente ignoradas! Ninguém sabia nada  do que se passava, espacialmente nos países onde a luta começava a ter um cariz de competição muito forte, e, nos anos 70,  o mundo começou a ser surpreendido com a ideia de que, já havia nessa altura, armas suficientes para destruir várias vezes a humanidade.

“MAIS DE METADE DOS CIENTISTAS  DO MUNDO OCUPADOS EM APERFEIÇOAR MEIOS DE COMBATE” – Em vez de se empenharem com “os problema    da fome, do analfabetismo, do meio-ambiente e  da saúde

JTM – Acha que ainda há uma grande tensão entre os dois blocos?

F.C.G. Eu julgo que ainda há uma grande tensão mais forte do que aquela que devia existir, porque há uma desconfiança mútua, não só  do ponto de vista político, com sob o aspeto militar, que inibe e que faz  com que não se possam adiantar e definir determinados assuntos com a lógica, e, sobretudo,  com a necessidade que os mesmos impõem. Veja, por exemplo,  este facto que agora se deu, ultimamente, insólito: pois,  estamos todos à espera que, de um momento para o outro, se possa assinar o acordo  que elimine os mísseis intermediários e os mísseis táticos  da europa. Pois bem, qual é a atitude que a Nato toma perante esta decisão? É que… sim, senhora …vamos acabar com os mísseis mas temos que reforçar as forças convencionais.

Ora, eu acho que esta atitude é uma atitude absolutamente negativa! O que nós precisamos não é de reforçar as forças convencionais  é de reduzir também as forças convencionais! Porque, um dos  maiores problemas que existem no Mundo – e sem a redução dos orçamentos militares, se não será possível resolvê-lo – é o problema    da fome, é o problema do analfabetismo, é o problema do meio-ambiente, o da saúde, enfim, são uma série de problemas  que realmente fazem com que, a maioria da população mundial, dia a dia, veja os seus problemas acrescidos, agudizados e não sinta que há uma luz, que não há uma pequena ação solidária  dos países – que os têm, que, no fundo, os têm assegurado – para melhorar esta esta situação.

Ora, esta situação só pode ser melhorada, diminuindo drasticamente as despesas militares, não só o que diz respeito aos orçamentos. Como também no que diz respeito à investigação científica. Porque, hoje, mais de metade dos cientistas no mundo, estão dedicadas a aperfeiçoar armas e aperfeiçoar  meios de combate, quando, realmente, a todas as pessoas bem intencionadas,  lhes parece que se deviam dedicar as era para o bem-estar  da Humanidade, e, portanto, pró  melhoramento das condições de vida de todos os Povos.

JTM – Acredita na possibilidade de um novo conflito à escala mundial?

F.C.G. -  Acredito! Não porque as pessoas o queiram! Podemos dizer que 90% da população mundial é contra um conflito à escalda mundial  - Mas, com o acumular de armas que existem no mundo e, com os pequenos conflitos locais, que ainda não conseguimos debelar e, outros que se podem desenvolver de um momento para o outro, como é, por exemplo, a situação do Golfo Pérsico, pois, uma destas situações, pode, sem querer, levar a um conflito mundial! E isso é extremamente perigoso, porque, as armas que depois se possuem, são de tal maneira potentes e de tal maneira poderosas, que, se elas forem empregues,  durante muito tempo, será o tempo suficiente  para aniquilar a vida sobre a Terra.



O PERÍODO QUENTE PÓS 25 DE ABRIL

JTM - Outra questão que eu gostaria que o Sr. Marechal recordasse – alguns anos já volvidos sobre aquele período da revolução: um período, naturalmente, muito confusão, como é que a esta distância, o Sr. Marechal. Os recordaria?

F.C.G. – Bom, eu acho que foi realmente um período muito confuso! Muito perturbado! A revolução fez-se, mas, claro, dadas as circunstâncias em que ela teve de se efetuar. Não houve uma preparação, sobretudo para se poder  transitar do regime  que havia para um outro, onde as liberdades e os direitos humanos, estavam salvaguardas e estavam em plena pujança, e isso deu como resultado, que, houve, de facto, durante os primeiros tempos – no primeiro Governo (em todos os governos mais ou menos provisórios – deficiências muito grandes, que, só o trabalho e só a boa vontade e dedicação  de muitos, conseguiram, não digo suprir, mas pelo menos atenuar.

“OTELO TEVE AS SUAS DEFICIÊNCIAS MAS, DE UMA MANEIRA GERAL, FOI UM ELEMENTO POSITIVO  E A REVOLUÇÃO DE ABRIL DEVE-LHE MUITO.

Otelo Saraiva de Carvalho, detido a 20 de Junho de 1984 pela Polícia Judiciária, no âmbito deste processo. Da FP, com uma pena de 18 anos .De recordar, que o principal operacional do Movimento das Forças Armadas. nunca assumiu a criação das FP-25 nem a militância no grupo. Do tempo total de pena cumpriu apenas cinco anos. Em entrevista, concedida há Lusa, em 2010, Otelo confessou que, no dia em que recebeu a notícia da criação deste partido revolucionário armado, a encarou com "apreensão e perturbação com a ideia". Otelo: FP-25 foram "choque grande e um prejuízo tota
  
JTM – Sr. Marechal. Uma das figuras muito conhecidas e, de grande interveniência, na revolução, é Otelo Saraiva de Carvalho, atualmente preso: como é que vê a prisão de Otelo Saraiva de Carvalho?

F.C.G – Eu, como tive ocasião de dizer no Tribunal,  só conheço regularmente, a ação do Tenente-Coronel Otelo, quando ele parte ou do Conselho da Revolução
, em que me esteve diretamente subordinado.  – No Concelho de Revolução, porque eu era o Presidente do Concelho de Revolução; no COPCON COPCON –, porque o COPOCON estava dependente  do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e eu acumulava as funções de Presidente da República e de Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Ora, nesse tempo, eu posso dizer-lhe que, Otelo teve as suas deficiências,  mas, de uma maneira geral, foi um elemento  positivo e a Revolução de 25 de Abril, deve-lhe muito.

Depois, do 25 de Novembro, praticamente nunca mais tive contactos  com Otelo, mas, daquilo que eu conheço, a forma como eu pus o problema no Tribunal,  eu julgo que o caráter , a   moral e a maneira de ser do Otelo, não são de molde a admitir que ele, direta ou indiretamente, tenha tomado parte em qualquer das ações terroristas.

Era bom que se visse, que se estudasse bem, as ações terroristas, não só a partir  de 1974 mas que se vissem bem as ações terroristas, entre 1975 e 1976, porque, realmente, nessa data houve muito terrorismo em Portugal!  - Terrorismo absolutamente escusado! Terrorismo que que visava, única e simplesmente,  o regulamento do status quo, então estabelecido, em que as pessoas, não hesitara em matar, em destruir, em fazer ações, que realmente todo o mundo hoje as condena, porque, felizmente, o terrorismo hoje está condenado internacionalmente de uma forma absoluta.

JTM – Portanto, em sua opinião, acha injusta a prisão de Otelo?

F.G.C – Não posso dizer que é injusta ou justa. Eu não sei as causas que levaram à prisão de Otelo. Penso que –  nisso acredito, acredito na Justiça Portuguesa -, que o juiz que fez o inquérito  e que promoveu a sua detenção, tinha as suas razões. Podem não ser razões que não sejam razões suficientemente fortes para justificar a prisão durante tanto tempo de Otelo.

Não há dúvida nenhuma é que, Otelo Saraiva de carvalho, tem, em toda a Europa,  uma data de pessoas importantes, sobretudo no campo jurídico, que o apoiam, que o defendem e que estão constantemente  a fazer diligências para a sua libertação.

A entrevista, que, honrosamente me concedeu, continuaria  com  ainda com várias perguntas, desde a sua próxima deslocação a Tóquio, no âmbito das conferências do Conselho Mundial da Paz,  assim como de como recordava as  funções que desempenhou, em Angola,  1970-72, como  comandante-chefe da Região Militar de Angola – Perguntei-lhe, que, tendo também estado,   como militar nesta ex-colónia,  no meu  tempo (1966) se constava que havia quem, dentro do Quartel general, passasse informações do MPLA – Costa Gomes, negou que, de sua parte, alguma vez tivesse tomado essa atitude, não passando de calúnias e de falsidades. Pena não puder reproduzir as suas palavras, visto,  no dia seguinte ter ido fazer uma entrevista ao Monsenhor Moreira das Neves, em sua casa, e, inadvertidamente,  ao usar a mesma cassete, apagado o resto da entrevista.  Contudo, ainda disponho de uma outra entrevista, esta feita no torno de uma conferência, em que ele também participara, que igualmente conto editar oportunamente em vídeo.

Costa Gomes morava na Av. João XXI, próximo do cruzamento da Av. de Roma, em Lisboa. Nessa tarde, que me recebeu, estava sozinho e, curiosamente, os móveis da sala, estavam todos cobertos com lençóis brancos, visto ir para obras, mais parecendo a enfermaria de um hospital. Mesmo assim, teve a gentileza de me receber, já que a entrevista havia sido marcada uns dias atrás e ele não quis faltar ao compromisso. - 


Militar sempre preocupado com a paz, de perfil civilista, indo ao pormenor de, sintomática e simbolicamente, restringir o uso da farda apenas às ocasiões em que tal lhe era exigido, é no entanto, na Guerra colonial, de entre os grandes cabos de guerra, o mais renitente em utilizar a força bélica em grandes e pequenas operações, e, paradoxalmente, o que mais êxito teve em termos operacionais e bélicos.

Costa Gomes foi, com uma antecedência assinalável, em 1961, o primeiro chefe militar a defender claramente que a solução para a guerra colonial era política e não militar, não obstante cumpriu com brilhantismo as suas funções como comandante militar da 2.ª Região Militar de Moçambique, entre 1965 e 1969 (primeiro, como segundo-comandante, depois, como comandante) e, seguidamente, como comandante da Região Militar de Angola.

Após o 28 de Setembro de 1974, com o afastamento do general Spínola, Costa Gomes é nomeado para a Presidência da República, onde lhe caberá a difícil missão de conciliador de partes em profunda desavença, com visões radicais do mundo, algumas verdadeiramente inconciliáveis. Levará sobre os seus ombros tudo quanto se irá passar até à crise de 25 de Novembro de 1975, onde lhe coube o papel capital de impedir a radicalização dos conflitos poupando o país a enfrentamentos violentos e uma possível guerra civil. Costa Gomes é considerado um dos principais obreiros da instauração da democracia em Portugal.



«A APRENDIZAGEM DA ARTE DA «PRUDÊNCIA»

“A figura que sai das páginas de Luís Nuno Rodrigues é a de um general renitente. Da obra ressalta, desde logo, que a carreira militar de Costa Gomes deriva não tanto de um gosto pelas armas, mas sobretudo de uma evolução imposta pelas necessidades materiais da família. Do Colégio Militar à Academia Militar, o percurso de Costa Gomes resulta de uma evolução natural imposta pelas condicionantes familiares. A carreira militar não satisfazia em pleno Costa Gomes, que acabou por frequentar a Universidade do Porto, aí concluindo a licenciatura em Ciências Matemáticas (1939-1944). Este facto não o impediu de percorrer, ainda jovem, um extraordinário caminho como militar, ganhando prestígio no meio castrense, não deixando, contudo, de evidenciar uma renitência: a renitência ao uso e ao abuso da violência. Para o futuro marechal Costa Gomes, a violência (a força armada) só devia ser aplicada enquanto fosse útil ao equilíbrio e à paz na sociedade. O uso excessivo da violência, assim como a utilização da violência de forma inútil, eram-lhe repugnantes.

Na lógica do marechal Costa Gomes, cabia aos militares dosear o uso da violência, tendo sempre como fim assegurar os objectivos de ordem e paz social. – Excerto Relações Internacionais (R:I) - O general «renitente»

 
Marechal  Francisco Costa Gomes -   Uma das grandes personalidades, militares e cívicas,  Membro da Junta de Salvação Nacional desde a madrugada de 26 de Abril, e, como chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas em 30 de Abril de 1974. O primeiro Presidente da República Portuguesa a discursar perante a Assembleia Geral das Nações Unidas - Em Janeiro de 1975 está presente na assinatura do Acordo de Alvor, entre o governo e os movimentos de libertação angolanos, relativo à independência de Angola. Depois de dar posse ao IV Governo Provisório, também chefiado por Vasco Gonçalves (25 de Março de 1975), preside à assinatura, em 11 de Abril de 1975, do primeiro pacto MFA-Partidos.

Declarações inéditas de Francisco Costa Gomes, uma vez que,  da longa entrevista, que  honrosamente me concedeu, na qualidade de repórter da extinta Rádio Comercial RDP, apenas escassos minutos foram transmitidos. O  tema principal da minha deslocação a sua casa, versava sobre questões relacionadas com  o armamento atómico e convencional  das duas grandes potências e  o  papel do Marechal na Conferência Mundial da Paz, que, por agora, apenas reproduzo em texto .

E, de facto,  foi a propósito  destes assuntos, num tempo em que pareciam desanuviar-se algumas tensões, entre os dois blocos, que começaria por fazer as primeiras perguntas. Contudo, outros temas acabariam por ser abordados, nomeadamente, o que pensava do período quente pós 25 de Abril e da prisão de Otelo Saraiva de Carvalho  -   Conteúdo editado em vídeo. – Porém,  é minha intenção,  vir a editar,  no Youtube, também outra interessante entrevista, sobre este tema

 “Francisco da Costa Gomes toma posse como Presidente da República na sequência da renúncia de António de Spínola, a 30 de Setembro de 1974. Em pleno processo revolucionário terá de enfrentar situações de grande complexidade.

Nascido em Chaves, no seio de uma família numerosa, a sua infância é marcada pela morte do pai nas vésperas do seu 8.º aniversário. As dificuldades económicas da família levam a que, terminada a instrução primária, ingresse no Colégio Militar em Lisboa. A solução não lhe agrada, sobretudo devido ao afastamento da família.

Adicionar legenda
Com uma carreira militar brilhante, várias comissões de serviço nas colónias e estágios no Quartel-General da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), acabará por ser convidado, em Agosto de 1958, pelo ministro da Defesa, general Botelho Moniz, para o cargo de subsecretário de Estado do Exército. Começa assim uma carreira política que, depois de várias vicissitudes, o projectará ao mais alto cargo de Estado: a Presidência da República.

(…)Apesar da ambiguidade de que muitos o acusam, todos lhe reconhecem o mérito de ter conseguido evitar a guerra civil.

Ao ocupar a cadeira presidencial, uma das suas primeiras preocupações parece ser a de garantir a estabilidade, apesar da conjuntura revolucionária que se vive. Demonstra-o, primeiro, ao reconduzir Vasco Gonçalves para o cargo de chefe do governo (III Governo Provisório, em 1-10-1974). Depois, durante a viagem que efectua aos EUA onde procura não só estabelecer contactos com vista à cooperação entre os dois países, sobretudo económica, como também tranquilizar a comunidade internacional quanto ao rumo da transição portuguesa” – Excerto de . Biografia completa - Museu da Presidência da República


domingo, 23 de novembro de 2025

34º Dia-23-11-1975 Diário de um Náufrago 38 dias no Golfo da Guiné, em piroga-"Viver também cansa". Mas a fome mata! Não tenho nada na barriga. Não tenho comida... Sinto uma grande dureza no estômago... Uma grande dor nas costas!... Todo o meu corpo me dói... Há uma fraqueza geral em mim... Estou fraco, muito fraco!.."


Algures no Golfo da Guiné, 23 de Novembro de 1975 - Há 50 anos - Na sequência de tentar atravessar o Oceano Atlântico, numa piroga santomense, pela rota da escravatura, lembrando os ignominiosos tempos do tráfico de escravos, em que as Ilhas de São Tomé e Príncipe, serviam de interposto desse hediondo e desumano mercado .
O diário neste dia foi parco de palavras: mais de silêncio de que de narrativa: ainda não me sentia rendido à solitária fatalidade, que parecia estender-se por um imenso manto líquido em torno de mim, mas as energias anímicas iam realmente fraquejando.



Algures no Golfo da Guiné, 23 de Novembro de 1975 - Há 50 anos - Jorge Trabulo Marques  - 
 

Navegando com a pequena vela de tempo
O diário neste dia foi parco de palavras: mais de silêncio de que  de narrativa: ainda não me sentia rendido à solitária fatalidade, que parecia estender-se por um imenso manto líquido em torno de mim,  mas as energias anímicas iam realmente fraquejando. À frente os pormenores. Mas este era o meu estado de espírito, que jamais esquecerei.

Estou muito fraco. Mal me posso levantar: tenho-me limitado às tarefas mais indispensáveis. A pôr a roupa a secar e a despejar a água que se acumula no fundo da canoa. Mas tudo isto é exaustivo!..  Exige-me um inaudito esforço e eu estou muito fraco!.. . Disponho apenas de uns três ou quatro anzóis. Mas não tenho iscas; não vale a pena lançar a linha e o anzol. .

Travessia Nigéria S.Tomé - 12 dias - Março 1975

Muitas vezes, prostro-me de  joelhos junto à borda de canoa para ver se apanho algum peixe à mão. Há sempre peixes de todos os tamanhos à volta da canoa e acompanhá-la. Alguns vêm  à cata das lapas que nascem no costado. Mas quando estendo o braço para os apanhar, escapam-se-me; são mais rápidos de que eu!  Mais das vezes acabo por desistir e deito-me no fundo da canoa para poupar as minhas forças – Pois, mesmo atolado numa autêntica salmoura, tenho necessidade de descansar.  Nem que fosse sobre um tapete de pregos.  - Até porque não consegui dormir em toda a  noite.

Diário vertido para um pequeno gravador, guardado num velho contentor do lixo

SINTO UMA GRANDE DUREZA NO ESTÔMAGO...


Diário de Bordo 1 É já o fim de tarde  do 34º dia. Mais um dia que passei... praticamente deitado sobre o fundo da canoa... Com os braços cruzados, pois não tenho outra solução.... O mar continua com bastante ressaca... O vento agora não é muito forte.... Mas a única solução que tenho é realmente deitar-me no fundo da canoa, até para não gastar energias... Para não fazer muito esforço físico.

Não tenho comida... Sinto uma grande dureza no estômago... Uma grande dor nas costas!... Todo o meu corpo me dói... Há uma fraqueza geral em mim...

De manhã, vi muito ao longe a chaminé de um barco....mas bastante afastado! O mar contínua muito bravo!... O equilíbrio é realmente difícil...

Estou apenas com três comprimidos e água das chuvas... Mais nada no estômago... Tenho um apetite voraz...Neste momento eu comia não sei o quê!...

Um pormenor importante que notei é apenas da água... que têm uma cor esverdeada... Mais escura de que o habitual....Agora as correntes mudaram de direção. Estou sendo arrastado para sul... Agora já não é de oeste para este... 



A bem dizer, a morte é a minha companheira de todas as horas. Convivo, lado  a lado com a sua vertigem, seja atraente ou aterradora, vagueio à superfície do abismo da sua imensa sepultura. A qualquer instante poderei desaparecer e  quase sem dar por isso. Basta que os dedos engalfinhados das suas poderosas mãos, que a noite cobre com golas rendadas e franjadas de luto,  me surpreendam a dormir ou até em qualquer instante da minha penosa vigília. Mas, se tiver de morrer, se for chegada a minha hora,  paciência!... Também não é caso para desesperar. Antes de me meter nesta aventura, equacionei todas as hipóteses: de viver e de morrer. Estou preparado para tudo; para o que o der e vier. - Só desejo que ao menos me acolha no seu leito, como um dos bravos, dos que  não lhe viram a cara e lhe dão luta, e, sendo assim, só lhe peço que ao menos seja um pouco mais complacente e me livre da terrível agonia dos miseráveis afogados que impiedosamente já sufocou e tragou nestes mesmos mares. 

Mais a mais, se eu partir para o lado de lá, ninguém vai saber como e quando a morte me chamou. Ninguém vai ter de cavar a minha sepultura, pois tenho-a, aqui ao meu lado, sempre aberta. Não, não posso receá-la... Pois haverá maior solidão do que aquela que agora que me envolve?!...Do que aquela em que  estou profundamente mergulhado?!... Haverá maior martírio do que aquele que eu vivo nestas horas, dolorosamente incertas  e  infinitas?  Que me arrastam, não sei para que confins desta  imensa e tumultuosa negridão!

 A morte?!... Como posso eu  temer a sombra da minha própria sombra se nem sequer a enxergo?... Que diferença fará a minha triste figura das sombras soltas, do confuso tumulto que campeia à superfície da conturbada planura que a espessa noite impele, transfigura e oculta?!... Noite  sobre a qual vogo e ninguém me distingue e nem eu vejo o fundo do madeiro que piso!... Que contraste haverá de mim e das trevas  que ondulam por toda a parte e têm como coberto o negrume de um espesso e pesado céu?!...Oh, sim!. Haverá maior solidão do que aquela que povoa o meu coração de mil sobressaltos, angústias  e de incertezas?!... Sim,  que me confunde e esmaga sob o teto da mesma assombrosa atmosfera em que vagueio, sem rumo e pedido!.. 

Oh, como posso eu virar as costas à  Soberana Morte, se ela me chamar?!... Até porque, se o mar me levar, meu corpo, nunca ficará  tão sozinho como agora se encontra....Há uma cova continuamente aberta, que já recebeu milhões de vidas e não se importa de continuar a receber ainda muitas mais vidas!  - Que foi a sepultura  dos milhares de escravos que, nestes mesmos mares, agonizaram horrivelmente, nos escuros porões dos barcos negreiros ou foram atirados vivos para o tumulto das ondas!.. A morte quando bate a porta, não distingue o escravo do escravizador, do pobre do rico. Levou corsários e piratas, criminosos algozes, sem escrúpulos, que não chegaram a ser mais valentes com as tempestades de que com   as suas vítimas. Não poupou e não se condoeu  de corajosos e  intrépidos pescadores, pilotos e marinheiros. Oh quantas vidas, por aqui  já não terão parecido, na vastidão do "Grandíssimo Golfo", nestes mesmíssimos mares de outrora, do passado e do presente!... Mares eternos" Mares de sempre! Mares de inesperados tornados e perigosos tubarões!


Na verdade, já lá vão algumas horas depois que o sol se pôs, e eu continuo sem me poder deitar. Sinto-me exausto e possuído por um desejo irresistível de dormir. Estou para aqui enrodilhado como um miserável trapo. Abrigado  debaixo de um toldo para me defender dos  espirros das ondas, porém,  do que eu não consigo proteger-me e defender-me, é da água que entra através da rachas. Há a que aflora pelo sítio onde assenta o mastro e também ainda a que atravessa as rachas que estão acima da linha das águas. Só que, acima dos 40 cm submersos, os 20 cm que restam, é muito pouco. Entra lentamente mas, como não pára de entrar, vai-se avolumando. E eu não disponho de bombas para a escoar; tenho que o fazer eu com o balde ou com a espátula.

 Apetecia-me estender ao comprido, pois é assim que eu faço nas noites mais serenas, e quando não chove, tal como são estendidos os cadáveres nos caixões - Sim, esta canoa é um caixão flutuante. Não é feito de várias tábuas mas num só madeiro. Mas estou a ver que não vou conseguir. Sofre constantes balanços. As ondas estalam no costado com fortes chicotadas. Por mais que escoe a água, o fundo continua num autêntico charco. De volta e meia, lá tenho eu de me ajoelhar para a escoar e espreitar o ambiente lá fora. E é o que vou fazer agora. Não deve faltar muito para a meia-noite. Mesmo sem horas, sinto o seu peso. E de noite já reajo às mesmas horas, como um autómato. Não para verter a água que faz da canoa uma banheira, pois só a baldeio quando me cobre as costas - E agora não estou deitado, mas quero saber como tempo está lá fora.

Está a molinhar. Vejo relâmpagos a rasgar o negrume das distâncias. Com o barulho das ondas ainda não ouvi o trovão, mas não deve tardar a fazer soar por aí a sua orquestra.  Meu Deus!...Este mar não me dá tréguas nem descanso!.. Pelo que vejo, espera-me um resto de noite, ainda mais confuso e atribulado.  Uma noite, açoitada  por um vento furioso, que parece não se acalmar. 

Vejo as habituais manchas luminescentes, aqui e além no ondulado negro das ondas, brilhos confusos e terríficos, vindos de mil direções, e certamente também das profundezas,  que refulgem, que reluzem e tremeluzem de onde em onde. Que aparecem e desaparecem. São as manchas do plâncton  e certamente da fauna marinha das profundidades que o persegue às horas mais escuras e sinistras,  que aflora à superfície.  

Quando fiz a travessia de São ao Príncipe é que eu fiquei arrepiado. Era simplesmente pavoroso ver as ondas em vez de a branquear de espumas, vê-las franjadas de lume. Com explosões que faziam lembrar um mar em chamas. Até a pá do remo parecia sair de um mar a arder. Ou saída da corrente do magma de um vulcão explodindo e cuspindo a sua lava. Estas imagens são muito comuns nos mares tropicais. Agora já  estou habituado a esses estranhos brilhos. Não é isto que me assusta ou preocupa. Mas a chuva que apanho no corpo e as tempestades noturnas que só vêm dificultar ainda mais a minha segurança e sobrevivência.







sábado, 22 de novembro de 2025

22-11-1975 Perdido no Golfo da Guiné 33º Dia - Sinto-me muito isolado!... Alagado completamente!..... Estou exausto!.... Esta tarde vi grandes toras!... Grandes paus!! E eu confundia-me com tudo isso!... Como um ser desprezível!. Mesmo assim nunca desesperei, deixei de lutar perdi a fé e a esperança. de poder alcançar chão firme e me livrar de ser engolido pelas vagas da superfície do profundo abismo marítimo

Algures no Golfo da Guiné, 22 de Novembro de 1975. -
                                                                 Jorge Trabulo Marques
Meu estendal após cada chuvada

Diário de Bordo 1 Passei uma noite, exaustiva!... De chuva... O mar extremamente agitado e muito perigoso!...A manhã continua com um mar cavado, com muita ressaca!...Há vento!... E eu sem ver a costa de África... Estou muito fraco!... Muito fraco!... Vou tentar colocar a vela... Vou ver se consigo  fazer  alguma coisa neste mar extremamente difícil e perigoso! 

 Mas é-me quase impossível navegar. Se ao menos dispusesse de um remo capaz!... Perdi o que tinha com o tornando na primeira noite - perdi quase tudo. E o que improvisei, é demasiado tosco. E o mau tempo, próximo da costa, é muito mais perigoso de que no alto mar... Continuo sem qualquer sustento. A única coisa que já meti à boca foram umas folhitas de umas ervas que encontrei vogando à superfície do mar. Água das chuvas não me tem faltado e então agora até demais., porque, desde há umas largas horas que ainda não parou de chover. Estou para aqui encolhido a um canto da popa da canoa, quase imóvel, repassado pela humidade e arrepiado pelo frio.


NOITE NEGRA, LONGA E TEMPESTUOSA E DIA CHUVOSO, CINZENTO E TRISTE - Mais um longo e tormentoso calvário de fome e de incerteza 
A manhã amanheceu baixa  e plúmbea: despertou com uma enorme tristeza de lágrimas. Ou será  porque  sou eu que me sinto imensamente triste?!... O mar ressoa a sua fúria nervosa, ainda não se acalmou, e o sol, perdido que parece estar lá pelos confins do seu habitual giro, dificilmente hoje irá  fazer a sua aparição e mostrar  a pino o esplendor do seu sorriso equatorial.

A noite foi longa e tumultuosa, com ondas intermináveis! Cada minuto tinha a dimensão da imensa negridão e, cada hora, mais parecia uma eternidade. Ondas rugidoras e lúgubres, ameaçavam cuspir-me a todo o momento para o sinistro sorvedouro, que se ocultava e estendia numa compacta massa tumultuante. Horas intermináveis, horas terrivelmente infinitas! Flutuando perdido ao sabor do rolar de vagas furiosas. Mas, finalmente, tenho um novo dia pela frente!... Sinto-me muito fraco e abatido, mas felizmente ainda estou vivo - Assim o testemunha o meu diário gravado, que defendo do mar no meu baú - um antigo caixote do lixo


Passam hoje 50 anos... O relato do meu diário, relativo ao 33º dia (o gravado, sublinhado a azul) foi registado precisamente, neste mesmo dia do mês, mas já foi há muito tempo - Muitos que me irão ler, ainda não tinham nascido. Perguntar-me-ei, hoje:  o que seria agora o meu corpo tragado no fundo do mar?!...Se calhar - por entre as algas e os sedimentos daqueles fundos abismos, sobre os quais voguei -  já nem sequer restasse a   sola das minhas sandálias.


Sim, estou vivo.  Dou graças a Deus! - Imerso pelo rolar terrível  das ondas e do grito afogado do vento, à deriva em tão minúsculo esquife  e ainda ter sobrevivido?!...Só por Obra e Graça de Deus e por Divino Milagre!... - E, todavia, não sou católico, mas reconheço que me valeu nunca ter perdido a confiança, ter sempre lutado e também nunca ter perdido a fé, que me foi ensinada em criança  -  De facto,, já não sou o tradicional católico, mas acredito em algo sobrenatural. 

Se o ter  nascido é já por si um milagre de Deus,  - pois quem é que ainda duvida que haverá milagre maior e mais maravilhoso de que um nascimento ou a reprodução das espécies?!... No entanto, o ter resistido, a tão dura provação - e o leitor há-de ver que as maiores tormentas, por que passei, ainda estavam por vir -  sim, não sei se não será menos espantoso como o milagre de a minha mãe me ter parido numa noite fria de Janeiro, no seu modesto leito habitual e sem parteira.




Tenho urinado com regularidade mas estou preocupado porque já nem me lembra que tivesse feito uso do pequeno balde de plástico para evacuar. Claro que eu sei que não tenho metido quase nada na barriga, mas precisamente por isso é que me aflijo, que às vezes os intestinos até deixem de funcionar.

 A BÚSSOLA PERMITE-ME SABER PARA QUE PONTO NAVEGO OU VOU SENDO ARRASTADO - MAS, COM O CÉU ESCURECIDO E CHUVOSO, SINTO O PESO DO TEMPO, A SUA ADVERSIDADE MAS DESCONHEÇO A QUE HORAS ANDO

 Diário de Bordo  Não sei que horas serão da tarde do 33º dia. A verdade é que até agora tem chovido bastante!... Há bocado não estava a chover... Estava o mar bravo!... Mas de um momento para o outro passou a chover... Só chuva!... E vento!...

Diário de Bordo 3 Agora volta a haver uma certa calmia... Mas já vejo  ameaças de chuva no horizonte...  Ainda não comi nada... Aliás, comi agora um bocadinho do resto do tubarão (pescado há vários dias)  que  está estragado praticamente... Estou cheio de fome! Não consigo pescar!... Não vejo terra... Estou realmente bastante... não direi desmoralizado... mas abatido psicologicamente.

O tubarão é dos peixes, cuja carne não aguenta muito tempo - Mal se pesca, não tarda a que seja uma carcaça em decomposição  - No mesmo dia, pesquei dois: um deitei-o fora,  o outro guardei-o para iscas e para o que desse e viesse - Mas gera um autêntico fedete. Quando mastigo alguns bocaditos -  roendo as barbatanas, sim, é o que tenho feito, quando o vazio do estômago se me torna mais insuportável. Não fecho os olhos, mas fico com uma azia tremenda.  




Estou convencido que alguns ataques dos tubarões, que de volta e meia se atiram como torpedos contra o costado da canoa, se devem a isso mesmo: ao cheiro que os atrai. Pois os tubarões veem mal mas têm um notável olfato.



Claro que não me sinto desmoralizado, pois continuo com a convicção de que hei-de chegar a terra. O que eu desconheço é quando a poderei alcançar.  Sim, mas,  fisicamente,  faltam-me as forças, estou muito fraco. Já não tenho a mesma energia que tinha quando deixei São Tomé. A minha  canoa é comprida mas frágil – Não tem mais de que um metro de largura, por 60 cm de altura, 40 cm dos quais, estão abaixo da linha de água. Foi talhada num madeiro, cortado na floresta, próximo  da Vila das Neves, da praia donde parti.


  Diário de Bordo    Em relação às correntes, em vez de de me aproximarem para norte, estão-me a levar ao longo da costa de África... Irei ter provavelmente ao recanto do Golfo do Biafra...Não vejo outra alternativa... Agora o que eu não sei é o tempo que irei demorar.

Esta manhã, a canoa, ficou alagadíssima!... devido às chuvadas!... Estou exausto, digamos assim.

Claro que não me sinto vencido ou resignado à minha sorte, e vou lutar, lutar, enquanto puder. Mas a verdade é que, dormir no fundo de um madeiro escavado, flutuante e encharcado, submetido a constantes balanços, a rolar a rolar e à deriva num mar escuro e encapelado, numa confusão tremenda, se,  já de si, é um tormentoso calvário, que não me dá tréguas, nem descanso, quem é que, cheio de fome,  pode ter o mínimo de repouso e de tranquilidade, ter um sono reparador, com o estômago completamente vazio?!... É que, além  de toda a incerteza que me oprime, também o estômago se me contrai , num horrível sofrimento!



Fazer jejum, de vez em quando, até pode ser saudável, mas, sendo no mar e prolongado, é muito doloroso!... Desgasta e abre o apetite  -  E, então,  como eu lhe poderei dar resposta, não tendo alimentos comigo, nem tendo conseguido pescar?!... Sim, a fome, aguça o engenho, mas seguramente que não é a melhor companheira para a tranquilidade do corpo e do espírito



Oh, mas quem me dera agora recuar àquela hora ensolarada e brilhante da manhã, em que deixava a linda praia da Vila das Neves,  envergando uma simples t shirt,  de calção e descalço, empurrando a minha canoa, com todos aqueles meus amigos, que me ajudavam  a arrastarem-na para o mar. 



Eu a receber, de encontro à minha face e ao peito, a encher os meus pulmões, aquele bafo quente e acariciador, aquela doce maresia com o sabor mesclado de sal e dos odores perfumados da margem luxuriante,  caminhando e pisando as frondes (as andalas) dos coqueiros, enterrando os pés naquela areia negra e rugosa, escorregando nalguns dos seus gogos reluzentes, que pareciam cantar, com o vai e vem das ondas, com o marulhar carinhoso das águas, como que recebendo-me, festejando e participando comigo, no mesmo prazer e alegria, no mesmo sentimento comum de aventura e  descoberta, que tão intensamente me possuía! 


Prazer de total e  pura entrega a um mundo maravilhoso e sagrado, às forças brutais e naturais dos elementos, rendido à sua face sedutora e ameaçadora! Ao mundo primitivo e original da vida!... Ciente de que ia ao encontro de uma vasta superfície líquida, cujos horizontes se mantêm, continuamente, tão próximos, como distantes e inatingíveis... Mas, por isso mesmo, num permanente desafio de deslumbramento, despojamento e   descoberta -  Sim, não levava sequer um centavo no bolso. E para quê ser escravo do dinheiro?.. Era como se fosse em demanda de um Verdadeiro Mundo Novo, mais divino e mais puro.

Ah! que sensação de liberdade! Que momentos mais indescritíveis aqueles,  que se me abriam aos meus olhos, ávidos e ansiosos! Irmanado ao mar,  atraído pelo prodígio da sua grandeza e a vertigem do seu fascínio!.. Oh, como aquele oceano   se me revelava tão vasto, tão azul, lânguido e tranquilo! – Tantos sentimentos e tão belos!.. Tantas emoções, que agora recordo mas que parecem já tão distantes e arredias de mim.


Oh, mas embora longínqua de mim, como posso eu esquecer-me dessa esplendorosa manhã!  Cuja harmonia e beleza, tão calorosamente fazia pulsar meu coração!... Não de quem pertencesse a um país ou a uma pátria, ou mesmo partia de uma ilha que já era soberana e independente, onde tive todo o apoio e carinho para levar a cabo esta minha aventura. Não, esse é um sentimento e uma gratidão, que jamais se diluirá, que guardarei para sempre num cantinho especial do meu coração... 

Na verdade, o que então sentia, como que a fluir  febrilmente na minha mente e no meu peito,  era a sensação de que  o sangue que me corria nas minhas veias, era o mesmo todos os peixes e de todas as aves, que esperava encontrar na minha jornada pelo mar fora, o mesmo de todos os homens, de todos os seres e de todas as espécies, de cujo mundo me separava. Era como,  se eu próprio,  o vagabundo anarca e lascivo, que, partindo,  praticamente sem rumo e sem destino, já não pertencesse a parte alguma da Terra e tivesse, como única pátria todo mundo e toda a humanidade!...

E, por estranho que pareça,  o que é que eu agora sinto, nesta manhã cinzenta, turbada e triste?!... Sinto que tudo isso  se me desvanece com a angustiante e  amarga sensação, de que, mais de que me sentir um apátrida,   sou afinal um proscrito, a criatura mais esquecida  da Terra inteira!... - Ninguém sabe onde estou, nem eu mesmo  sei onde me encontro ou para onde vou.




Diário de Bordo 5 - O céu está muito carregado e parece quase noite. ...Sinceramente, sinto-me muito isolado!... Alagado completamente!...

Eu sou a criança chorosa
Estou exausto!... Neste momento apetecia-me chamar ... Pai!...Meu pai!... Afinal, você tinha razão!....   - Porquê?!... Meu filho!...

Estou para aqui!... Não estou desiludido!... Tenho fé que hei-de chegar a terra!.... Mas, sinceramente... tenho tido tanta calma!... Tanta perseverança! ...No meio de tantos perigos... De tantas dificuldades!... Talvez já não existisse... Mas... eu hei-de chegar a terra.... Estou par aqui perdido.... nesta imensidão! Cinzenta!... Neste mar acinzentado... Nesta vastidão!...

Esta tarde vi grandes toras!!... Grandes Paus!... Tábuas!... E eu confundia-me com isso...Como um ser desprezível!... Talvez como esses paus à deriva... a mesma coisa
.

Confesso que já começo a ter algum receio que uma ou outra dessas enormes toras, de tamanhos descomunais, que aparecem e desaparecem à tona das ondas com incrível rapidez, se precipitem de encontro à minha canoa e a desfaçam. De dia ainda as vejo e ainda posso acautelar-me mas de noite é que eu não consigo localizá-las. Também existe a possibilidade de ser abalroado por um barco mas estes raramente os vejo e as toras já vi  muitas!

Realmente, nunca vi o mar assim tão sujo como agora. Desde há uns dias para cá, tenho observado  com mais frequência  essa sujidade. É certamente por me estar a aproximar  do recanto mais setentrional do Golfo da Guiné. Pois é para aqui, com certeza, que vai parar toda a sorte de detritos e madeiras, que são despejadas  pelas águas dos estuários. E depois também há os poços de petróleo. Pois também tenho visto muitas manchas de óleo, grânulos  de crude, os mais diversos objetos de plástico, esferovites, raízes - Quando vejo uma folha verde e a posso apanhar, levo-a imediatamente à boca.

DEPOIS DAS GRANDES CHUVADAS O HORIZONTE FICA MAIS DESCOBERTO E O MAR COSTUMA ACALMAR - FINALMENTE, DE NOVO  CONTORNOS DA COSTA AFRICANA OU DA ILHA DE BIOKO




Diário de Bordo 6  O fim da tarde está-se a pôr suave..O mar já não está tão agitado como esteve....Não chove.... O céu está brusco... Nublado... Apenas descoberto a poente...

Tive agora a felicidade de vir nítidos contrastes da costa de África a Norte e a Este... Que me dão a impressão de uma grande serra! De uma montanha!... Se a vista não me falha.... Portanto a distância não é muita.... Mas pode ocupar-me ainda o dia de amanhã...

Esta tarde , como já tive oportunidade dizer.... foi uma tarde bastante aborrecida... Por várias vezes choveu torrencialmente!... Alagando a minha canoa....

Como ainda não comi praticamente nada, senão umas barbatanas do tubarão... uns bocaditos para mitigar a fome....estou cheio de fraqueza....


Para evitar que a canoa se virasse
Tive ocasião de ver muitos paus, muitas tábuas. também à deriva como eu... E, de vez em quando, o mar com manchas de óleo... O que  me leva a crer, portanto, que eu estava a ser arrastado para terra... Porque o mar... as coisas não ficam!... Vão ter a terra... Estou convencido, pois, que hei-de chegar a terra.

Diário de Bordo 7 . - Espero passar uma noite mais ou menos descansado... Não sei... Não sei como será... Peço só que não chova.... Porque quando chove é muito chato!... A gente fica todo molhado... É muito aborrecido!.

Neste momento o poente apresenta um panorama bonito!... O sol por entre nuvens!... É muito agradável neste momento!... Na altura de ver o sol a poente... De resto, o céu mantém-se cinzento e o mar igualmente
 .


Diário de Bordo 8 Segundo os conhecimentos que tenho, estou convencido de que posso sobreviver mesmo só a água... Durante alguns dias... Portanto, sobre este aspeto, estou mais ou menos conformado.

E, enquanto a tarde declina,  com o sol a espraiar os seus últimos raios num ocaso esplendoroso e tingido  por um vermelho de sangue, vou-me abstraindo de todos os pensamentos e ideias funestas que durante a tarde me perturbaram. Já nem penso nas palavras que ainda há pouco me conformavam. Só vejo raios de esperança e de luz. Estou completamente abstraído de tudo o que me tem preocupado. Apesar da enorme fraqueza que me desgasta e destrói e de ter o corpo cheio de chagas pela humidade, tal como o de Cristo, depois do suplício na cruz, mesmo assim, sinto reviver dentro de mim uma infinita ânsia de vida. Apenas concentro a minha atenção para as bandas onde o sol  se esconde. Só contemplo  esses raios que se estendem até mim, sobre a vasta planura do imenso círculo  que me envolve. Donde recebo uma sensação de paz,  de majestosa quietude e devota serenidade.

.Mas por pouco tempo - O crepúsculo nestes mares é rápido e, entretanto, a noite adensa-se: a oriente e a ocidente:  o cenário já  não é o mesmo. Tudo mergulhou sob uma abóbada  densa e sombria. Por todo o lado se estende uma vasta solidão.Há um silêncio absoluto que contrasta com agitação do mar pela tarde adiante.Não sei para onde vou sendo arrastado. Mas também não adianto preocupar-me. Vogo à flor das águas, que tanto me poderão arrastar para o abismo, como para um acolhedor recanto,  um tranquilo porto de abrigo e me salvar..Só amanhã, à hora do sol nascer, quando um novo dia surgir é que eu eu poderei saber.