Meu Poema aos Tubarões. Há quase 51 anos fui atacado, pesquei-os e lutei com eles 38 dias numa piroga; agora, no oceanário, em Lisboa, pude brincar com eles neste último domingo de Maio e viver momentos de muito prazer e alegria, na reportagem a editar da festa do aniversário da neta do Médico Urologista Frederico
Recordo, entretanto, aqueles dramáticos momentos,ao longo de 38 dias numa piroga, nos finais de 1975
Os Tubarões Atacam nas Horas mais fatídicas
O mar não me dá tréguas!...
Não me dá uma pausa de descanso!...
Raros os momentos de absoluta tranquilidade!...
Tenho sempre o meu coração suspenso, em sobressalto!
Todos os meus sentidos em alerta máximo!...
Mas a minha tristeza e o meu infortúnio
nem sempre me deixam isolado... também têm
os seus visitantes inesperados!... –Mas muito indesejados!...
Mesmo assim, ignoram os meus pacíficos sentimentos
e não deixam de voltar com assiduidade!..
- Quando vêm em cardumes, não se demoram...
Espalham-se para todos os lados, e, conforme chegam,
assim desaparecem!... Mas, quando solitários, e bem maiores,
noto que não há nada que os amedronte e lhes refreie o instinto
de vorazes predadores...
Por isso, mesmo antes de os ver, é muito difícil
que a raiz dos meus cabelos, os poros dos meus braços
e dos meus pulmões, a palpitação do meu coração
os não pressintam a rondarem a canoa... a apertarem o cerco!...
Girando em círculos, cada vez mais apertados, concêntricos!...
Até investirem como se fossem disparos de violentos torpedos!...
São os tubarões gigantes!...Surgem nas horas malditas!...
Nas horas que antecedem as tempestades, os habituais tornados,
quando o horizonte se reveste de névoas ameaçadoras,
o céu se cobre de cinza, a cor do mar se altera
e passa de azul cobalto a um agitado mar de chumbo!...
- São a imagem viva da morte aos olhos aterrorizados
dos náufragos e desamparados!... Atacam quase sempre!...
Até parece que sabem escolher os momentos fatídicos
para serem bem sucedidos com os seus fulminantes golpes!...
Vêm sempre ladeados por uma autêntica flotilha
de pequenos peixes zebrados! – Lembram
pequenos submarinos de guerra!... Há quem os endeuse
e diga que são seres pacíficos... Mas tudo isso é muito contingente...
Aqui portam-se como feras! - Quais sinistras criaturas vigilantes,
a fazerem em surdina os seus giros... Com a barbatana dorsal
singrando à flor das águas, tal qual uma navalha apontada aos céus!..
- Investem com inesperada ferocidade!.. . -Afasto-os à machinada!..
Depois deixam-me em paz... Uma paz podre, temporária...
Até agora tenho tido muita sorte...
Algures no Golfo da Guiné, 14 de Novembro de 1975
Eu acredito que agora vá ter a terra, uma vez que voltei a sentir os ventos dominantes... Aquela fase das trovoadas, dá-me a impressão que já deve estar ultrapassada...Não sei, mas deve de ter sido a fase de lua-cheia; o quarto-crescente é que me deu esses trabalhos todos. Por isso, vou pôr já imediatamente a vela a ver se adianto mais um bocado. Porque, realmente, a canoa assim já se desloca muito bem. Ela durante a noite deve ter sido muito arrastada...Vê-se que há muita calema!... Esta calema arrasta-a também . Arrasta-a, exatamente, com as correntes.
Diário de Bordo - 1 Diário de Bordo - É manhã do dia 25 que viajo na minha canoa...De noite não dormi muito. Pois estive quase sempre acordado...O mar esteve bastante agitado, aliás, continua com uma ondulação muito forte e um vento dominante de sul-norte..


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