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domingo, 23 de agosto de 2026

Fui náufrago 38 dias. Meu abraço solidário aos dois pescadores mexicanos resgatados 5 dias à deriva no oceano Pacífico dentro de uma caixa térmica, a cerca de 241 km da costa de Chiapas.

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista e antigo Navegador Solitário em pirogas no Golfo da Guiné

Fui náufrago 38 dias. Meu abraço solidário aos dois pescadores mexicanos resgatados 5 dias à deriva no oceano Pacífico dentro de uma caixa térmica, a cerca de 241 km da costa de Chiapas.

Dois homens, Daniel Guerrero Martínez, de 53 anos, e José Luis Pórtelas, de 32 anos, estavam desaparecidos desde 14 de agosto, quando saíram para pescar a bordo da embarcação “Camaronera” Correio Braziliense Correio Braziliense



A Marinha mexicana percorreu por mar e pelo ar uma vasta área do Oceano Pacífico, acabando por encontrar os dois homens a flutuar dentro de uma grande caixa térmica de pesca, a cerca de 240 quilómetros da costa de Chiapas, um estado no sul do México que faz fronteira com a Guatemala

NÃO O ESQUEÇO MEU DRAMA -
Também eu conheci esse drama - Não esqueço esses 38 longos dias e noites e o sofrimento de todos os náufragos que passaram por esse extremo abandono- Nomeadamente, os pescadores das canoas de S. Tomé e Príncipe, quando os tornados os arrastam e perdem a sua ilha de vista

O remo improvisado, continua a ser pouco ou nada eficaz. Não posso comunicar seja com quem for. Senão com a vontade de Deus. E também não tenho a certeza se me vê ou se me ouve. Mas eu existo, e, a bem dizer, sou um náufrago. E o drama que vai no coração de quem anda perdido no mar, é intraduzível em palavras - Aqui ficam, pois, as que foram faladas (para o diário) e alguns dos pensamentos que ficaram guardados na minha memória

Algures no Golfo da Guiné, 25 de Novembro de 1975


À medida que as forças me vão fraquejando, são mais os pensamentos  que me assolam de que as palavras que expresso para o meu diário. Embora com os olhos pregados nos contornos de  terra à vista, assim vai decorrer mais um dia perdido no mar, sem todavia a poder alcançar. Mais propenso a pensar de que a expressar as minhas emoções ou observações  para o modesto gravador,  que religiosamente guardo num simples contentor de plástico,  que em terra servira de caixote de lixo – Estou completamente desligado do resto do mundo. A bússola permite-me saber a direcção que tomo mas não sei onde estou. Vou ao sabor dos ventos e das correntes. Que nem sempre me levam pelo melhor rumo.

Nos meus treinos 
 O remo improvisado, continua a ser pouco ou nada eficaz. Não posso comunicar seja com quem for. Senão com a vontade de Deus. E também não tenho a certeza se me vê ou se me ouve. Mas eu existo, e,  a bem dizer, sou um náufrago. E o drama que vai no coração de quem anda perdido no mar, é intraduzível  em palavras - Aqui ficam, pois,  as que foram faladas (para o diário) e alguns dos pensamentos  que ficaram guardados na minha memória. 

Estou completamente desligado do resto do mundo. A bússola permite-me saber a direção que tomo mas não sei onde estou. Vou ao sabor dos ventos e das correntes. Que nem sempre me levam pelo melhor rumo.


A minha canoa mantém-se imperturbável...
Está totalmente alheia à grande incerteza
e aos muitos fantasmas que me povoam a alma...
À inquietude que absorve o meu coração.
E voga pelo negrume varrido da noite
como se nada tivesse a temer!...
É admirável a sua altiva galhardia!
Parece conduzida por uma estranha força
que a leva a um ponto preciso da vastidão!..

Mas, oh Deus! Eu queria dormir!...
Necessitava de descansar, adormecer!...
Cair em sono agora e acordar ao amanhecer!
Ser como o rude barqueiro,
que ao fim de uma longa jornada,
dura e sem descanso,
encosta o seu barco à margem e dorme...
embalado pelo sussurrar da ramagem que o envolve!...
Mas aqui, é o mar a bramar! a bramar!...
É o mar sem fim e sem fundo!...
Não há margens, nem portos de abrigo!..

É a noite eterna!... É um outro mundo!..

Meu colchão é côncavo estreito e duro - Muito desconfortável.
Não me permite sequer abrir os braços, mal posso respirar.
Pior ainda quando estendo e cubro a canoa com o toldo de plástico.
Meu coração, quase sufoca, possuído pelas sombras do oceano noturno.
Mesmo assim, meus olhos, cegos de cansaço, perdidos
num horrível vazio sonoro e escuro,
não cerram as pálpebras, não cedem
à continuada afronta que os amarra
mergulha e sobressalta!

Vão abertos, em persistente vigília e alerta! - Não param de sondar
os ruídos, os marulhos! - E, quando estes ressoam no casco
ainda mais os intrigam e assustam - Arregalados,
perscrutam e devassam a penumbra absoluta -Porém,
nada enxergam do que vai dentro ou lá fora - Vão cegos
mas não desistem!- Nesta horrenda dança de vida
ou morte, são eles e os meus ouvidos,
o mais íntimo sonar,
desta minha inarrável errância marítima



.


AOS NÁUFRAGOS DE TODOS OS TEMPOS.

Eu, humilde navegante e aventureiro,
em viagens sob azuis de além mar,
e em águas erguidas em revolta,
ou em podres calmarias de inquietar,
aqui vos evoco, vos recordo,
como quem conhece a ânsia da partida
e, depois, em noite infinda, em noite morta,
apenas tem por companhia mar e céu
em negro mar de véu e tristeza infinita,
enfim, a cruel certeza de quem não volta!

Náufragos! Dos tempos idos e da actualidade
de odisseias ignoradas e esquecidas!
Heróis sem nome, sem pátria e sem fronteiras,
que do fluxo e refluxo das marés fizestes as vossas veias!...
Viajantes transitórios do mar passado e do mar actual!
Gente tisnada e crespada por mil sóis, ventos uivantes,
diluvianas chuvadas!
.
Gente a quem a imensidade incerta devolveu a inocência
mas cuja sorte a condenou ao suplício da mais atroz morte!
Gente limpa de olhos e de alma de tanto olhar o mar e o céu!
- Todavia, gente que a ira das tormentas e a audácia da aventura
fizeram com que a fundura do abismo fosse a própria sepultura!...

Irmãos! Aqui vos evoco e me vergo em turbado pranto
evocando o plangente canto de poetas marinheiros
trinando a dolente lira de tão triste ventura e negro fadário
Que, em infindável rosário de mares estranhos, medonhos, irados,
vosso corpo vivo arremessaram, sorveram, para sempre sepultaram!

Aqui vos recordo com lágrimas de dor e mágoa pura
por tão absurdo golpe e duro sofrer - por tanta desventura!...
Não, não venho dizer-vos outros versos! Versos a valer?!...
Estes, perderam-se-me no mar! - Ficaram-me por lá todos!
Além disso, senti-os demais para agora os poder dizer!
Senti-os no interior das trevas nas muitas coisas tristes que não vi
ou vagamente descobri, mas profundamente senti! - Senti-os
também nas muitas alegrias, que intensamente vivi
e claramente vi com olhos de ver!

Tão pouco, venho acalentar
vossas tão martirizadas almas - Não!
Porque, agora, o que as vossas almas mais querem,
é que a memória não se apague, é paz e descanso eterno!
- Bastou-vos o percurso lúcido através da voragem
daquele rouco e tumultuoso inferno!
Aliás, de versos, também, cada alma,
por si e à sua maneira, os viveu
a transbordar de mar e do céu!
















Na verdade, venho elevar as mãos aos céus ...
E rezar as piedosas preces
que não pudestes terminar! - As
mesmas orações que, por tão sentidas
e sofridas, estampadas ficaram para a eternidade
no frio desvario do vosso último olhar
quando o abismo já vos sorvia e fundia!
Mas que, as longínquas estrelas do Universo,
atentas e vigilantes no seu contínuo cismar,
imersas no seu radioso brilho,
até hoje, puderam guardar.


Vou, pois, concentrar-me
no intransponível centro da imensa abóbada
que, embora desmoronando-se, em diluídas formas,
permaneceu impassível, surda e silenciosa
nos confins longínquos do amortalhado céu,
onde, ainda agora, sob os vultos do brumoso manto,
ecoam, penso eu, sumidos brados, ecos dispersos,
vagidos e gritos do vosso exaurido pranto

Vou pois escutar-vos e rezar!...
...por todas as vidas que a fúria e o desamor do mar
em fundas entranhas iradas, asfixiou e engoliu!!
E também agradecer ao Deus Criador,
com exaltado reconhecimento e fervor,
de alma e corpo escancarados, tal como,
então, perdido, no mar vogava, Louvando-O,
Bendizendo-O, em salmos esparsos
ou simples palavras soltas e  ditas,
apenas pelo surpreendente milagre - Oh Olhar Divino!
de me levares a terra firme e ainda hoje estar vivo!
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Partida da piroga para ser carregada a bordo do pesqueiro americano Hornet, onde seria pintada de azul e vermelho pelos marinheiros, com vista a reforçar a sua resistência.  E ser largada a sul de Ano Bom, na corrente equatorial. O que não aconteceu. O comandante deixou-me junto a esta ilha e um pouco  a Norte, colocando-me neste  perturbador dilema: ou ficava a trabalhar a bordo e deitava a canoa borda fora ou íamos os dois - Optei por irmos os dois, por não abandonar a minha canoa. À noite surgiu a tempestade, tendo perdido quase tudo.  Acabei por viver a situação de um náufrago - Na verdade, também era o que pretendia,  um dos objectivos dessa minha aventura era juntamente reforçar as de teses de .Alain Bombard, o náufrago voluntário .. Por isso, aqui dedico estes versos a todos quantos sofreram o mais absoluto abandono e solidão do mar .Mais deles perdidos para sempre



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