Oh,sim, às vezes só quero irmanar-me com a liberdade destas formas dispersas...
Ia não sabia para onde... Mas sabia que o mar é uma estrada grande que nem sempre nos conduz a um ponto certo do infinito...
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Pelos sagrados lugares da minha aldeia e com o pensamento nos longínquos mares das ilhas encantadas.
Luz Abençoada
(...) Oh, desce, desce amada luz! Desce esplendorosa e impregnada da mais pura beleza! Pois, sempre que me prendo ao teu rosto, me rendo ao teu fascínio, todo o meu ser se transcende - Oh glorioso! Todo o meu ser se eleva à altura onde irradia o teu brilho, Todo eu me sinto infinito, sinto que não pertenço à Terra, sinto que sou divino!
Luz abençoada dos meus olhos! Retira o ceptro da tua luminosa juba E repousa da tua caminhada, sobre horizonte, algures.. Não te apresses... não te escondas... Faz-me companhia. Ou então segue o teu curso mas mais devagarinho... Faz com que os teus raios se transformem nas contas de um milagroso rosário, e, que, ao desapareceres, sejam os braços e as mãos suaves e carinhosas, banhadas pela luz mais brilhante que o brilho do mais fino ouro e prata!...
Vá, Sol Amigo! Segue o teu curso mas me abandones a um destino que não sei aonde me leva, a que ponto do horizonte me conduz..
Não te afundes no mar, não me percas de vista! Sê a mais segura tábua da minha salvação, a esperança, que me alimenta e reconforta!.. E, se acaso te fores embora, promete-me ao menos, que amanhã, voltarei a reencontrar-te, radioso e cedinho... E que haverá um novo dia...
Oh, sim, como eu gostava de seguir o teu rasto, iluminado e acarinhado pelo teu brilho! Oh, mas não posso: tu segues o rumo da claridade, eu vou pela noite negra e eterna adiante... Vou à deriva à flor das águas... Vou sem rumo e sem destino... Imerso por mil pensamentos e mágoas... Imerso por difusas trevas, Revolvido por agitadas e turvas águas! (...)
Jorge Trabulo Marques
Jorge Trabulo Marques - Jornalista e antigo navegador solitário no Golfo da Guiné em pirogas de S. Tomé
Imagem captada no momento do ataque do tubarão - o barrote que se vê, estava atravessado de través e servia para ajudar a conferir algum equilíbrio à canoa, na triste deriva em que vogava
Image captured at the time of shark attack - the beam can be seen, was crossed abeam and served to help give some balance to the canoe, in which floated sad drift.
VIGÉSIMO SÉTIMO DIA - Excertos do Diário.
É já manhã do 27º dia... Passei uma noite chuvosa. Quase sempre acordado para tirar água fora da canoa. Estou todo molhado, todo alagado em água!...
Dois Pequenos tubarões capturados
Já tive a visita do perigoso tubarão, que investiu logo contra a minha canoa!... Dei-lhe umas machinadelas e foi-se embora!... Entretanto já apareceram aqui dois tubarões martelos e fiquei mais descansado ... Afastam os escuros, os mais perigosos!..
São aí três da tarde. ..Há pouco tive a impressão de ter visto terra mas afinal de contas não vejo nada!... Estou cheio de fome e está um calor de matar!... É mesmo um calor forte! Sinto-me cansado
É talvez a uma da manhã. Está uma noite de luar. ..Até agora o tempo tem estado bom; o mar é que tem estado agitado.
Todas as noites vêm aqui dormir á popa e á proa da canoa, duas aves... Parece que são as mesmas...Uma branca e outra é preta.
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. ATACAM NAS HORAS MAIS FATÍDICAS!.
O mar não me dá tréguas!... Não me dá uma pausa de descanso!... Raros os momentos de absoluta tranquilidade!... Tenho sempre o meu coração suspenso, em sobressalto! Todos os meus sentidos em alerta máximo!.
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Mas a minha tristeza e o meu infortúnio nem sempre me deixam isolado... também têm os seus visitantes inesperados!... – Mas muito indesejados!... Mesmo assim, ignoram os meus pacíficos sentimentos e não deixam de voltar com assiduidade!.. - Quando vêm em cardumes, não se demoram... Espalham-se para todos os lados, e, conforme chegam, assim desaparecem!... Mas, quando solitários e bem maiores, noto que não há nada no mar ou fora das águas que os amedronte e lhes refreie o ínvio instinto de vorazes predadores: rodopiam e avançam velozes... Jamais se aquietam e acalmam!.. - Não dormem, nem param!
São os temíveis tubarões gigantes!... Surgem nas horas malditas!... Nas horas aziagas que antecedem as tempestades, os habituais tornados, quando o horizonte se reveste de ameaçadoras névoas, o céu se cobre e tinge de cinza, a cor do mar se altera: passa de azul cobalto a um mar de chumbo ondulado!... São a imagem viva da morte aos olhos aterrorizados
dos náufragos e desamparados!... Atacam quase sempre!...
Até parece que sabem escolher os momentos fatídicos
para serem bem sucedidos com os seus fulminantes golpes!...
Peregrino do mar e da terra - em demanda da claridade e do conhecimento..
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ATACAM NAS HORAS MAIS FATÍDICAS!.
O mar não me dá tréguas!... Não me dá uma pausa de descanso!... Raros os momentos de absoluta tranquilidade!... Tenho sempre o meu coração suspenso, em sobressalto! Todos os meus sentidos em alerta máximo!.
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Mas a minha tristeza e o meu infortúnio nem sempre me deixam isolado... também têm os seus visitantes inesperados!... – Mas muito indesejados!... Mesmo assim, ignoram os meus pacíficos sentimentos e não deixam de voltar com assiduidade!.. - Quando vêm em cardumes, não se demoram... Espalham-se para todos os lados, e, conforme chegam, assim desaparecem!... Mas, quando solitários e bem maiores, noto que não há nada no mar ou fora das águas que os amedronte e lhes refreie o ínvio instinto de vorazes predadores: rodopiam e avançam velozes... Jamais se aquietam e acalmam!.. - Não dormem, nem param!
São os temíveis tubarões gigantes!... Surgem nas horas malditas!... Nas horas aziagas que antecedem as tempestades, os habituais tornados, quando o horizonte se reveste de ameaçadoras névoas, o céu se cobre e tinge de cinza, a cor do mar se altera: passa de azul cobalto a um mar de chumbo ondulado!... São a imagem viva da morte aos olhos aterrorizados
dos náufragos e desamparados!... Atacam quase sempre!...
Até parece que sabem escolher os momentos fatídicos
para serem bem sucedidos com os seus fulminantes golpes!...
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Vêm sempre ladeados por uma autêntica flotilha
de pequenos peixes zebrados! – Lembram
pequenos submarinos de guerra!... Há quem os endeuse
e diga que são seres pacíficos... Mas tudo isso é muito contingente...
Aqui portam-se como feras! - Quais sinistras criaturas vigilantes,
a fazerem em surdina os seus giros... Com a barbatana dorsal
singrando à flor das águas, tal qual uma navalha apontada aos céus!..
- Investem com inesperada ferocidade!.. . -Afasto-os à machinada!..
Depois deixam-me em paz... Uma paz podre, temporária...
Até agora tenho tido muita sorte...
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Pobres náufragos de todos os tempos e de todos os mares!
Tristes miseráveis desamparados! - Quando a estrela
mais misteriosa do fundo do mar ou a mais alta na Via Láctea
vos abandona e vos não protege, oh má sorte a vossa!!...
- À mercê de todos os perigos! Vogando em pequenas balsas
ou em troncos escavados, empurrados por tempestades,
desviados do vosso destino! Na iminência de serdes tragados
na voragem das vagas ou de servirdes de felino repasto
à irracionalidade predadora de vorazes esqualos!..
Oh angústia das noites eternas e agitadas por tempestades!
Em turbados mares de cóleras selvagens e corações desesperados!
Oh olhos perdidos na solidão nocturna de erráticos caminhos!
Oh desamparo imenso que habita as horas malditas e incertas!
Oh inconsoláveis mágoas na linguagem antiquíssima das espumas!
Ó Senhor dos Navegantes! Ó coração piedoso pai dos Mareantes!
As preces e gritos ecoam no vazio mas as vozes são vos dirigidas!
Não as entregueis a tão triste sina - Nos derradeiros instantes,
lançai-lhe uma corda salvadora, um olhar largo solidário e amigo
mas, sobretudo, mão carinhosa que as socorra e afaste do perigo!
que
do fluxo e refluxo das marés fizestes as vossas veias!...
Viajantes
transitórios do mar passado e do mar actual!
Gente
tisnada e crespada por mil sóis, ventos uivantes,
diluvianas
chuvadas!
.
Gente
a quem a imensidade incerta devolveu a inocência
mas
cuja sorte a condenou ao suplício da mais atroz morte!
Gente
limpa de olhos e de alma de tanto olhar o mar e o céu!
-
Todavia, gente que a ira das tormentas e a audácia da aventura
fizeram
com que a fundura do abismo fosse a própria sepultura!...
Irmãos!
Aqui vos evoco e me vergo em turbado pranto
evocando
o plangente canto de poetas marinheiros
trinando
a dolente lira de tão triste ventura e negro fadário
Que,
em infindável rosário de mares estranhos, medonhos, irados,
vosso
corpo vivo arremessaram, sorveram, para sempre sepultaram!
Aqui
vos recordo com lágrimas de dor e mágoa pura
por
tão absurdo golpe e duro sofrer - por tanta desventura!...
Não,
não venho dizer-vos outros versos! Versos a valer?!...
Estes,
perderam-se-me no mar! - Ficaram-me por lá todos!
Além
disso, senti-os demais para agora os poder dizer!
Senti-os
no interior das trevas nas muitas coisas tristes que não vi
ou
vagamente descobri, mas profundamente senti! - Senti-os
também
nas muitas alegrias, que intensamente vivi
e
claramente vi com olhos de ver!
Tão
pouco, venho acalentar
vossas
tão martirizadas almas - Não!
Porque,
agora, o que as vossas almas mais querem,
é
que a memória não se apague, é paz e descanso eterno!
-
Bastou-vos o percurso lúcido através da voragem
daquele
rouco e tumultuoso inferno!
Aliás,
de versos, também, cada alma,
por
si e à sua maneira, os viveu
a
transbordar de mar e do céu!
Na
verdade, venho elevar as mãos aos céus ...
E
rezar as piedosas preces
que
não pudestes terminar! - As
mesmas
orações que, por tão sentidas
e
sofridas, estampadas ficaram para a eternidade
no
frio desvario do vosso último olhar
quando
o abismo já vos sorvia e fundia!
Mas
que, as longínquas estrelas do Universo,
atentas
e vigilantes no seu contínuo cismar,
imersas
no seu radioso brilho,
até
hoje, puderam guardar.
Vou,
pois, concentrar-me
no intransponível centro da imensa abóbada
que,
embora desmoronando-se, em diluídas formas,
permaneceu impassível, surda e silenciosa
nos
confins longínquos do amortalhado céu,
onde, ainda agora, sob os vultos do brumoso manto,
ecoam,
penso eu, sumidos brados, ecos dispersos,
vagidos e gritos do vosso exaurido pranto
Vou
pois escutar-vos e rezar!...
...por
todas as vidas que a fúria e o desamor do mar
em
fundas entranhas iradas, asfixiou e engoliu!!
E também agradecer ao Deus Criador,
com
exaltado reconhecimento e fervor,
de
alma e corpo escancarados, tal como,
então, perdido, no mar vogava, Louvando-O,
Bendizendo-O,
em salmos esparsos
ou
simples palavras soltas e ditas,
apenas
pelo surpreendente milagre - Oh Olhar Divino!
de me levares a terra firme e ainda hoje estar vivo!
.
Partida da piroga para
ser carregada a bordo do pesqueiro americano Hornet, onde seria pintada de azul
e vermelho pelos marinheiros, com vista a reforçar a sua resistência. E
ser largada a sul de Ano Bom, na corrente equatorial. O que não aconteceu. O
comandante deixou-me junto a esta ilha e um pouco a Norte, colocando-me nesteperturbador dilema: ou ficava a trabalhar a
bordo e deitava a canoa borda fora ou íamos os dois - Optei por irmos os dois,
por não abandonar a minha canoa. À noite surgiu a tempestade, tendo perdido
quase tudo. Acabei por viver a situação de um náufrago - Na verdade,
também era o que pretendia, um dos objectivos dessa minha aventura era
juntamente reforçar as de teses de .Alain
Bombard, o náufrago voluntário .. Por isso, aqui dedico estes
versos a todos quantos sofreram o mais absoluto abandono e solidão do mar .Mais
deles perdidos para sempre
Só o náufrago, o que sobrevive pode revelar o que é
sentir a vida que a todo o instante pode desaparecer no marulho das vagas do
mar – Tive essa experiência, ao longo de 38 dias numa frágil piroga, graças a
Deus sobrevivi
AO MENOS QUE OS SEUS DESTROÇOS SEJAM RESGATADOS DO FUNDO DAS GÉLIDAS ÁGUAS PARA QUE O TEMPO NÃO APAGUE A MEMÓRIA DOS GRITOS DAQUELES QUE SE AFOGARAM A BORDO
No domingo passado fui visitar a magnifica exposição do Titanic que é apresentada no edifício da Estação do Rossio, em Lisboa - Percorri-a demoradamente, em religioso silêncio e meditação.
Quando de lá saí e fui assinar o livro de honra, não me contive em emoção e lágrimas. Tanta memória aquelas imagens e objectos me trouxeram! Tantas visões! Tantas recordações que pude ir buscar também ao meu passado de náufrago! - Foi, como que, se eu, subitamente, também tivesse feito parte daquela fatídica viagem - E, todavia, as minhas viagens, as minhas aventuras, foram bem diferentes: não a bordo de um gigantesco navio mas no estreito côncavo de frágeis pirogas, tendo apenas uma modesta bússola para me orientar. Face à impressão causada por aquela exposição e aos múltiplos sentimentos que me provocou, eis por que me dei a escrever os singelos versos ( ou mais propriamente textos em forma poética) e que aqui tomo a liberdade de reproduzir - Estou certo que compreenderão o motivo por que o faço.
ERA ENTÃO UM ESBELTO E MODERNO NAVIO…HOJE NÃO É MAIS QUE UM DOS MUITOS DESTROÇOS QUE JAZEM E APODRECEM NO FUNDO DOS ABISMOS…
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Grita-se aos gélidos céus! Implora-se compaixão!
Ouvem-se gritos lancinantes! Ecos de vozes,aturdidas! Vozes desesperadas, suplicando piedade às alturas, a Deus!
Almas aterrorizadas, aflitas, ante a negra e vasta imensidão! Que o mar abafa, mergulha, envolve e afoga em negro turbilhão! Cenário sideral! - Fantasmagórico! irreal! Gélida e diluída imagem de aflição e tragédia! Escurissimamente ondulante, indistinta, pavorosa e informe! Aquele magnífico navio - que à luz do dia - parecia glorificar... Os mares e os céus!...É agora mero brinquedo partido e a pique! Massa gigante esquecida, vulto perdido, que se afunda e perde! Grotesco e sombrio volume de ferros,rangendo num mar cruel!
Tudo se confunde e dilui na mesma vertigem povoada de aflição e pavor! Imersa de tumulto, de múltiplos rumores! - Sufocada de desespero e solidão!... Em redor - nos gélidos mares! - corre e rumoreja, uma aragem solta de cinza e desamor!
Perpassada de terríveis presságios!... De lágrimas que se perdem lavadas de áspero gelo e sal! Plangente e chorosa!... - De imenso abandono e esquecimento, horrivelmente afogado e triste! Nos vivos, paira o pesadelo sobre o mar! - O espelho da angustiosa aflição, desespero e morte! Dos corpos, que bóiam afogados à superfície das gélidas águas?!... Nem o menor vagido ou voz! Já não fazem parte deste mundo! - Afogaram-se!... Alguns vão rolando ao fundo dos abismos! São o vulto fugidio das liquidas sombras! - Cadáveres submersos! Nada mais têm para contar
!
Cenário gélido e perturbador! - Oh - e até os céus! Dos mais altíssimos, indiferentes e impiedosos céus !.. Donde ainda brilham escassas e longínquos estrelas no infinito! Do alto nada mais sobra ou resta que a sideral e surda mudez! Embora - aqui e além - sobre a imensa e negra vastidão ! Se rasguem, diluam ou cerrem abertas de estranhissima claridade! A dissipar a escorrência espessa que rodopia em negro e gelado torvelinho!
SOLIDÃO, O VAZIO E A MORTE!... Para onde quer que se olhe, não há vivalma! Ninguém acorre em socorro!... Nenhum farol se avista!… Nem uma pontinha de luz se descobre!... Até as estrelas, que, lá no alto, costumam ser tão rutilantes, não brilham! Parecem agora ainda mais longínquas, distantes! - Estão apagadas, escondidas!... Sumiram-se! E, mesmo os que sobrevivem e vogam à sorte,
para eles, até parece que já nada existe! - Senão o vazio, o abandono e a morte!. Jorge Trabulo Marques