Jorge Trabulo Marques
Naquela 3ª noite, antes do tornado, adormeci e virei-me com a canoa: “Pronto! Chegou a minha hora! Acabou-se!” Pensei que ia morrer: quando, uma massa de água, se ergueu, como uma vasta muralha e se abateu repentina e pesadamente sobre mim, enrolando-me com a minha canoa, em sucessivas voltas, aturdindo-me o cérebro, enchendo-me de zumbidos e atravessando-me o corpo de arrepios que pareciam farpas
Ao mesmo tempo que uma espécie de surdo clamor, um misto de marulhar de água, um soar de vento, me ecoava e vibrava pelos ouvidos, ferindo-me quase os tímpanos, seguido por um ecoar ainda mais forte e intenso: uma espécie de grito estridente e agudo que parecia querer furar-lhe a fina membrana, rebentar de violência o canal auditivo, como um aviso fatal, um sinal impregnado de extortor e morte, enquanto, por outro lado, um sabor acre a maresia me entupia as narinas, me irritava a garganta e me provocava uma tosse convulsa e sufocadora, e de novo meu cérebro regurgitava de imagens, com uma sequência ainda mais nítida e vigorosa que a anterior
Contudo, e mau grado a tragédia que tão claramente se me desenhava, posso dizer que não me apavorei nem cruzei os braços ; pelo contrário, nunca, como naqueles momentos, me senti tão forte, profundamente calmo e sereno.
Nada me atemorizava: nem o mar selvagem e deserto em que nadava, se mostrava já bárbaro e cruel; nem a abóbada pesada e sombria que se erguia por cima da minha cabeça – qual cúpula imensa de uma sepultura eterna! – voltava a parecer-me que iria desabar sobre mim e fechar-me no mais completo abandono para que imediatamente me sepultasse.
Nem a imagem purpurina e desmaiada da própria morte, que antes já tivera a impressão de ver figurada no meio daquele cenário catastrófico e aterrador, me assombrava e apavorava.
Tudo girando como que à volta do mesmo eixo, era ao mesmo tempo, como que feérico e sombrio, ruidosamente suave e uniformemente compacto e vazio.
Dir-se-ia que a nítida comunhão com o perigo, ao invés de me fazer desesperar, me colocava de certa maneira fora de mim e longe dali.
Como tal, dispus-me aceitá-lo, desafiando-o, assim como se apresentava, com a gravidade e a importância de todos os riscos e receios que se me opusessem, nadando a parte incerta, nadando por entre demoníacas vagas e os espectrais fantasmas da noite.
Mas, maldito gozo! Terrível Gozo disfarçado de luto cintilante!
Ainda bem que não o desfrutei por muito tempo!
Da experimentação do gozo far-me-ia, certamente, passar ao delírio e, posto que me conduzisse a esse ponto, oferecer-me-ia, inevitavelmente a atração irresistível da magia do abismo, o qual, por seu turno, não me perdoaria a ousadia , como que por efeito de centrípeta sucção, naturalmente que depressa me arrastaria no meio da mais asfixiante e vertiginosa agonia para o momento derradeiro e crucial do fim da minha vida.
Mais uma vez a sorte estivera ao meu lado ou ou a minha boa estrelinha, fiel condutora naquelas horas de tão escuro abandono, ao despontar talvez por entre uma súbita abertura daquela massa de nuvens me faz, chamar com o seu brilho à realidade e alterou o curso da minha vida para o seu verdadeiro destino: um destino que, estaria escrito, não podia findar-se ingloriamente por aliDepressa me liberto dessa espécie de torpor em que parecia deixar-me envolver e recupero o movimento e a vida!
Sim, uma coisa e outra, pois era o final do caminho para a morte em que acabava de sair e escapar
Felizmente, tudo aconteceria também muito rápido. Se tivesse que relembrar, nesse preciso instante, os pensamentos e as imagens que me acudiram igualmente, ao cérebro, durante aquele tumulto que ficava para trás, talvez tivesse tido a impressão de que tudo se passara na sequência de um único impacto.
Sim, de um momento para o outro, como que num súbito despertar, volto a ver-me agarrado à canoa, abraçando-me de seguida ao casco, pronto a retomar fôlego e prosseguir a minha luta.
Felizmente, lá consegui voltar a encavalitar-me nela e continuar a minha aventura noite fora , graças a um segundo remo que tinha como suplente, amarrado à borda do casco da frágil canoa, até poder acostar à praia da Roça Sundy na Ilha do Príncipe-
O meu regresso foi de avião para São Tomé, mas com a PIDE-DGS, a repressora policia fascista à minha espera e a enviar-me para o escuro calabouço, onde fui barbaramente espancado por julgarem que eu me havia metido na canoa para me ir juntar aos MLSTP, sediado no Gabão"
Com esta afronta e justificação: És amigos dos pretos! Seu cabrão! Ias-te juntar aos terroristas no Gabão!!! .
Felizmente, graças a intervenção de pessoa amiga, lá me libertaram ao fim de duas semanas, tendo ainda como prémio uma pesada coima da capitania dos portos por ter feito a travessia sem a sua autorização.
Estes alguns pormenores do meu relato, que vim a poder descrever em cinco edições da revista angolana Semana Ilustrada, visto o chefe de redação se encontrar nessa altura em S. Tomé, quando fui libertado dos calabouços da PIDE-DGS, o que me possibilitou, a partir daí, também ficar seu correspondente, iniciar a carreira jornalística, graças aos textos desta minha aventura, a que viriam a seguir-se mais duas, em 1975: uma de S. Tomé à Nigéria, 13 dias e outra depois, de Ano Bom a Bioko 38 dias, na Guiné Equatorial.
Relato esse, que, anos mais tarde, também pude vir a recordar, em cinco edições do suplemento do vespertino Diário Popular e no jornal Ecôa. Além da revista Século Ilustrado e do jornal O Tempo.
.


Nenhum comentário :
Postar um comentário