Em finais de Julho de 2015 - Em S. Tomé – Decorreu no Centro Cultural Português - Sob o título “Sobreviver no Mar dos Tornados, 38 dias à Deriva Numa Piroga” – “Experiência de vida única” que é “também a demonstração do querer humano sobre as adversidades” “davam um filme” – Palavras de Olinto Daio”, Ministro Educação, Cultura e Ciência,

Muitos são os homens que
perseguem um ideal, que procuram dar um sentido às suas vidas. Porém, muitos
deles acabam por serem surpreendidos pelas emboscadas da tragédia e da morte –
Felizmente, ciladas de morte tive-as sempre por companhia ao meu lado, em
perigosas escaladas e nas várias aventuras marítimas em que me envolvi, mas
foram os ditames da vida, a força de vontade e a coragem a levarem a melhor de
vencida.


Foram três as travessias: depois de ter feito
a ligação, em canoa, desde a baía Ana Chaves, da capital de S. Tomé, ao Padrão
dos descobrimentos, em Dezembro de 1969 para me associar ao inicio das
comemorações dos 500 anos da descoberta das ilhas verdes do equador, pois uma
coisa é a coragem dos nossos navegadores, outra bem diferente foram os
sucessivos regimes coloniais que se instalaram e nas demais colónias e ainda
perduram sob diferentes máscaras.-
A primeira travessia foi de São Tomé ao Príncipe, três dias; que me viria a custar a prisão nos calabouços da policia fascista PIDE-DGS , por suporem que eu me ia juntar ao movimento do MLSTP, sediado no Gabão, visto ter partido à meia noite e clandestinamente. e uma pesada coisa da capitania marítima - Claro, que, ninguém me autorizaria fazer essa viagem numa piroga de 40 cm de altura por 60 de largura e pouco mais de um metros e meios de comprimento, numa distância de 172 Km. Pois, antes de ir de canoa ao Padrão dos Descobrimentos, pedi para me autorizaram a dar a volta à Ilha de S. Tomé e não fui autorizado – Até fui insultado pelo capitão dos Portos, que me chamou maluco.

A segunda aventura foi de São Tomé à Nigéria,
13 dias ,e, por fim, já depois da independência, a tentativa de travessia de
piroga ao Brasil, que, pelo facto de não ter sido largado na zona da grande
corrente equatorial, pelo pesqueiro americano que tomara esse compromisso, e
estando-se em pleno período dos tornados, acabaria por se saldar num longo e
penoso naufrágio de 38 dias, acabando por ir acostar a Bioko – ou seja, ora
navegando e velejando com um remo improvisado, ora indo à deriva (devido à
perda de remos e outros utensílios) desde a ilha mais meridional à setentrional
do Golfo da Guiné.Mas há males que vêm por bem – Pois, foi desse modo, que eu
pude conhecer a verdadeira situação de náufrago.
OBJETIVOS Por um lado, demonstrar as capacidades das
canoas em longas travessias, indo assim ao encontro da origem do povoamento das
Ilhas do Golfo da Guiné, por outro, norteado pelo admirável exemplo de Alan
Bombard, comecei a matutar e amadurecer a ideia de que, um dia, deveria deixar
as pequenas viagens de praia em praia, ir mais longe! Demonstrar aos pescadores
que, mesmo perdida a terra de vista, no meio da tempestade, o mundo não ia
desmoronar aos seus pés: - Não deviam cruzar os braços resignarem-se à
fatalidade de um destino incerto. Confessavam-me eles: quando o pescador se
perde, “só gente de feitiço é que vai parar ao Príncipe ou ao Gabão; outra
pessoa morre pelo caminho: “gandú” vira-lhe a canoa e come-lhe a perna”
Ora, foi justamente contra estes velhos fantasmas, entretanto incutidos pela presença do colonizador, que lhe teriam feito esquecer as extraordinárias aventuras dos seus antepassados, a sua memória ancestral, por que me bati, contraditando esses estigmas, restabelecendo-lhes a confiança de antigos e corajosos navegadores das grandes travessias, entre o continente e as ilhas. – Estou convicto de que as minhas teses, estão amplamente comprovadas – De resto, assim também o testemunham antigas cartas marítimas, anteriores à colonização, que permaneciam ocultas nos arquivos e que, investigadores dedicados e esforçados, lograram trazer à luz do conhecimento – Sobre estas questões, o leitor poderá encontrar desenvolvidos textos no meu blogue : canoasdosmares.
De qualquer modo, o esforço tem sido insano. O meu coração teve que aumentar o ritmo das suas pulsações. Os meus pulmões, o meu cérebro, em suma, todo o meu organismo, não se poupou a um trabalho exaustivo, quase sobre sobre-humano. Ainda bem que apanhei o coco. Apareceu em boa hora. Pois não sei o que seria de mim se não o tivesse achado. Até parece que foi uma dádiva providencial a permear a heroicidade da minha luta e do meu combate. Fosse como fosse, veio em boa hora. Primeiro extrai-lhe a casca com o machim, depois fiz-lhe um furo no extremo e levei-o imediatamente aos lábios para lhe aproveitar a água. Pouca mas muito saborosa!... Soube-me muito bem. De seguida, e após me ter deliciado com tão divino néctar, foi a vez de me servir da sua amêndoa - Eis como exortei com esse momento:
Na verdade, há momentos que, por tão tormentosos e solitários na vasta imensidão oceânica, são verdadeiras eternidades – Que o digam todos aqueles que passaram pela dramática e dificílima situação de náufragos. Outros, nunca o terão podido expressar, visto terem ficado sepultados para sempre no silêncio eterno do fundo dos abismos submarinos. Pessoalmente, quis Deus ou o destino que fosse um dos sobreviventes, de entre os milhares de vitimas, que, por esta ou por aquela razão, anualmente, são tragados pela voragem dos oceanos e pudesse transmitir o testemunho daquilo que o engenho, a força de vontade e o querer humano, poderão lograr, face às maiores provações.
Ó Deus Omnipotente e Salvador!... Ó JESUS CRISTO!...Ó BELO E MAGNÍFICO EXEMPLO SENHOR MEU!... Que maior tormento e suplício aquele!... Deitado no duro fundo daquele inconstante, encharcado, tosco e frágil madeiro escavado!… Porém, mesmo assim, quão doce e infinito era aquele meu tormento!... Quantas vezes, me lembrei da tua cruz e do teu calvário!... Quando já estavas prostrado e rendido às leis da morte e da vida para te lançarem estendido ao sepulcro!.. Quantas!... Quantas vezes!... Quando tudo à minha volta me parecia revolto e perdido… Sim, no meio avassalador daquelas espessas trevas e noites de breu, cercado pelo tumulto escuro do mar e do céu! E, ante a imensa e tenebrosa solidão, apenas se me afigurava vislumbrar o perfil do teu piedoso rosto… Embora triste e macilento, banhado de suor e de lágrimas!... Mas coroado de esplendorosa caridade e de compaixão… por aqueles mesmos que te traíram e não compreenderam a tua humana, divina e nobre missão! Mas aos quais a áurea que iluminava a tua face, me parecia resplandecer apenas emanada por um infinito sentimento de amor e perdão…
Ó Deus Omnipotente e Salvador!... Ó JESUS CRISTO!...Ó BELO E MAGNÍFICO EXEMPLO SENHOR MEU!... Que maior tormento e suplício aquele!... Deitado no duro fundo daquele inconstante, encharcado, tosco e frágil madeiro escavado!… Porém, mesmo assim, quão doce e infinito era aquele meu tormento!... Quantas vezes, me lembrei da tua cruz e do teu calvário!... Quando já estavas prostrado e rendido às leis da morte e da vida para te lançarem estendido ao sepulcro!.. Quantas!... Quantas vezes!... Quando tudo à minha volta me parecia revolto e perdido… Sim, no meio avassalador daquelas espessas trevas e noites de breu, cercado pelo tumulto escuro do mar e do céu! E, ante a imensa e tenebrosa solidão, apenas se me afigurava vislumbrar o perfil do teu piedoso rosto… Embora triste e macilento, banhado de suor e de lágrimas!... Mas coroado de esplendorosa caridade e de compaixão… por aqueles mesmos que te traíram e não compreenderam a tua humana, divina e nobre missão! Mas aos quais a áurea que iluminava a tua face, me parecia resplandecer apenas emanada por um infinito sentimento de amor e perdão…



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