Os pedidos dos SOS pelo telégrafo são escutados - E vários os navios respondem aos desesperados apelos - Navegam demasiado longe...
Vão demorar a chegar...Aos foguetes lançados para o alto da atmosfera
e, aos sinais luminosos que cruzam os negros ares,
não surge das imediações qualquer resposta.
- Perscruta-se o círculo do horizonte e não se vislumbra
a luz de uma lanterna a espreitar a escuridão à volta e do outro lado de lá.
Para qualquer ponto que se olhe, o mesmo silêncio e a negra vastidão! - Algures,
porém, descobrem-se umas tímidas luzes que não saem do mesmo sítio, quase disfarçadas
mas vão permanecer misteriosamente em frio silêncio e de costas voltadas....
- Os botes estão lutados, repletos e nem mais uma alma comportam!...
Os primeiros desceram quase vazios mas os últimos
vão cheios! - E agora há quem se agarre desesperadamente
e não os largue!... Agarram-se às mãos da filhinha ou do filho,
da chorosa mulher ou da amargurada namorada por entre as mesmas lágrimas,
os mesmos soluços ofegantes e doridos prantos, suspiros angustiosos e alucinantes!
Não suportam que os corações se apartem e dilacerem para toda a vida!
Procuram salvar-se a todo o custo ou pelo menos a morrerem juntos e abraçados!
E muitos são os que preferem que a morte os una na eternidade que agora os separe.
Dir-se-á que não há vida que se agigante mas escombros, pânico, o caos!
Mas há, todavia, gestos de solidariedade humana, de gritante coragem e heroicidade!
E também os inevitáveis egoísmos - Os mais inconformados e temerários
chegam a ser repelidos a tiro.- É a lei da sobrevivência!...
É o testemunho dramático, descrito por quem se salva, assiste impotente
e de olhos não menos chorosos à perda de entes queridos
ou companheiros de viagem e vai perpetuar aos vindouro,
o inolvidável drama da trágica afronta e narrativa
.
Oh! como é imensa e fatídica a noite!...
É o mar! Oh Deus!.. É a noite e o mar!!...
- Ó desumanidade divina!.. Ó cruel desumanidade!
Oh! maior aflição de quem
sentindo-se definitivamente esquecido e perdido,
têm plena consciência do infortúnio que o espera!
Daqueles que sabem que já ninguém lhes poderá valer ou estender a mão!
Oh! drama horrendo e intraduzível ! - Que só o náufrago protagoniza e bem conhece!
Perscrutam e olham incansáveis o circular horizonte escuro e silencioso mas tudo fenece!
O tão falado e anunciado Titanic, já não é mais um barco
mas o pálido escombro, o despojo enorme de um terrível fantasma!
Interrompido, abruptamente, na sua marcha,
agora é o corpo bruto de ferro, amolgado e ferido, que ainda flutua,
mas já não se desloca! - Inerte, range e soçobra,
devassado por turbilhões de massas de água escura
que o esventram, o inundam o afogam!
Está na iminência, a que, milhar e meio de vidas,
ali sejam abandonadas, sorvidas e tragadas
no mesmo sorvedouro e torvelinho - Ali deixem,
perpétuamente, o mesmo trágico destino traçado!
- Resvale e se afunde a pique, as mergulhe e arraste
para os abismos mais fundos da mais gélida e funda sepultura!..
Oh destino atroz! Oh terrível sorte!...
Ó surda vastidão onde tudo é fugidio e espumoso, a vida se esvai e desprende!
Ai daqueles pobres corações encimados
que, no alto do imponente convés meio tombado, vendo
a morte tão próxima, e cientes de que não lhes escapam, ainda gritam!...
Que efémero tempo lhes restará de vida?!...
De que lhes valerá agora alimentar sentida crença ou religiosa fé?!..
Implorar piedosas súplicas ou sagrada misericórdia!...
Não lograram entrar para o salva-vidas!
Ó cruel certeza! - Ó impotência vencida!..
Rostos aterrorizados! Olhos esbugalhados, irradios, perdidos na escuridão!
Olhos pregados na aridez enregelada
do terrível mar, gritam! - Imploram, rezam!.. Suplicam divina protecção!
que um barco, uma tábua ou uma bóia os venha salvar, os socorra, lhes valha!!...
- Em vão!... Vendo-se esquecidos, sentindo que que já não têm salvação,
em aflitivo desespero, atiram-se e mergulham como suicidas!
Adia-se o último suspiro, a derradeira aflição
por mais alguns instantes ou momentos,
que, todavia, serão verdadeiras eternidades!
Debatem-se com as águas geladas - Temperaturas mortais!
Sabem que o tempo se escoa e vão morrer!
Os coletes que envergam de nada lhes poderão valer!
De nada lhe servirão as súplicas, os seus gritos e ais,
os destroços que bóiam, a que desesperadamente se agarram e abraçam
- Não o salvam! De nada adiantam!É sobre-humano resistir e lutar à tona de superfície tão funda e gélida,
sob atmosfera tão adversa, a condições tão extremas e fatais!
À volta é o deserto e a mais fria e escura solidão!...
O navio - que à luz do dia parecia glorificar
os mares e os céus - agora naufraga e soçobra!...
a flutuante sombra amortalhada
que, em dois grandes pedaços disformes
e indistintos, se verga e dobra!
"Às 2h18, as luzes do navio piscam pela última vez,
depois apagam-se para sempre"
As bombas, que continuamente bombeavam o fluxo das águas,
pouco mais fizeram que a retardar o inevitável...
O Capitão Smith e o engenheiro-chefe Thomas Andrews permanecem,
não abandonam seus postos - Procedimento heróico e nobre!...No entanto,
Bruce Ismay, o milionário armador pira-se num dos últimos botes, impedindo
que uma vida mais jovem se salve em seu lugar - Enfia-se num bote salva-vidas
destinado a mulheres e crianças - Vai ser duramente criticado
em vários jornais ingleses e noutros países do Mundo.
Mas que importância terá isso para um covarde
que nem sequer teve o elementar cuidado
de mandar equipar o Titanic
com as balsas indispensáveis?
. Foi ele que pressionou o comandante do navio
para que as caldeiras atingissem o rubro,
acelerasse a velocidade e metesse prego a fundo.
Atmosfera húmida, enregelada! - Gélida negridão!...
Sorvedouro! - Lugar ermo e de abandono!...Aquele que, há algumas horas atrás, era a grande novidade,
o último grito da navegação,
agora é um vulto enorme - Um gigantesco destroço,
que se confunde com a palidez do mar e a pavorosa noite!
Inundam-se totalmente os porões! - As luzes
que feericamente o iluminavam,
Apagaram-se as fornalhas!
Ouvem-se as últimas explosões das abrasivas caldeiras,
quando as águas brutalmente as invadem, as arrefecem
à mistura dos últimos gritos lancinantes e aflitivos!
Enquanto um sopro estridente e agudo!
Um gorgulhar de alarme e de abismos!...
- Estranhamente, tudo sorve engole e emudece,
desmorona, silencia, escurece e consome!
Quase num abrir e fechar de olhos,
vão para o fundo mil e tantas vidas!....
Oh! e como recordar o silêncio ensurdecedor dos passageiros da terceira classe
que morreram asfixiados!..Que foram forçados
a permanecer reunidos e trancados
num grande salão na traseira do navio!... Para que o pânico não se alastrasse
e pusesse em causa a evacuação das mulheres e crianças da primeira e segunda classe
- Sabiam que os botes não chegavam para todos, decidiram-se prioridades -
Oh, sim, atitude compreensível... Mas os eternos sacrificados,
são sempre os mesmos! - Os pobres!... Nos menos afortunados
não moram os privilégios - Poucos se salvaram!.... "Revoltaram-se,
e alguns aventuraram-se pelos labirintos de corredores no interior do navio
para tentar encontrar outra saída" - Libertaram-nos quando faltavam
escassos dois botes para abandonarem o navio - Cruel sina ou suplício!...
De nada lhes serviria abrirem-lhes as portas, quando, lá fora,
apenas os esperava o salto para o abismo...
Mais deles, nem a tanto ousaram...
O pânico instalou-se e venceu-os: morreram atropelados,
- Quando a morte bate à porta, difícil é escolher como a receber...
Poupados à visão terrífica e gelada
que pairava em torno do barco que os transportava, no qual confiaram
os seus sonhos e os seus destinos, sucumbiram à mesma tragédia,
que atingiu largas centenas de vidas - Sim, a morte
não distingue classes sociais nem os passageiros ricos dos pobres
Todos os que não tiveram a sorte de entrar nos botes,
foram tragados!
- Com maior ou menor sopro de vida ou réstia de fôlego,
sofreram e foram vítimas das mesmas horríveis aflições
- Não houve quaisquer distinções
nas horrendas agonias e lágrimas choradas...
A mítica cidade de New York, jamais será seu porto de abrigo,
a terra de promissão!...- Os náufragos que não foram arrastados,
envolvidos pelo mesmo remoinho e turbilhão do fantasmal navio,
pouco mais lhes restou de vida que expiar a sua afrontosa aflição!
Transidos e aflitos, debateram-se e nadaram em vão!
Depressa enregelaram: o coração e os pulmões, sufocaram,
não resistiram, todos se perderam e se afogaram!
Quando ali acorreram os primeiros socorros,a madrugada já ia avançada
mas ainda era noite, porém, tarde demais!...
Lanternas e holofotes varrem a área e deparam com um cenário macabro
- Atónitos, os marinheiros, apontam os focos para descobrirem,
possíveis sobreviventes, mas o que vêm é a morte espelhada!
A morte isolada ou abraçada aos vários destroços.
O mar está pejado de corpos que bóiam
à superfície da gélida toalha liquida, dispersos por todos os lados.
abraçados ou isolados! - Horrível imagem!
Horrenda e desoladora paisagem!
Alegres casais que viajavam
que a trágica morte apartou ou sepultou.
Crianças que se salvaram mas que ficaram órfãs de um dos pais ou dos dois.
Finaram-se maravilhosos sonhos, sufocados por horrenda asfixia! - Atroz agonia gelada!
Desfizeram-se ambições e projectos! - Destroçaram-se para sempre
corações que sofreram e morreram na mais bela flor da idade!...
COORDENADAS EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA
Repousa a 3.800 metros de profundidade - Sob as coordenadas
41º 43' 35" N, 49º 56' 54" W
Cem anos depois do seu trágico naufrágio,
o Titanic é hoje um monte de macabros destroços que repousam no fundo mar!
- A esverdeada silhueta num sepulcro aberto, rodeada de despojos humanos e outros,
sob o peso do mais escuro fundo dos abismos, quase irreconhecível,
esventrada, corcomida e enferrujada!
- Mostras arqueológicas de quem teve a coragem de iluminar
o azul sinistro que a rodeia e de a filmar.
Mais lembrando a carcaça de um simples brinquedo, meio enterrado
e sepultado em areias finas, quase da cor do sal,
exposto por detrás da vitrina de um enorme aquário,
partido em dois bocados,
em permanente degradação,
que a simples miragem do imponente navio,
capaz de enfrentar a maior distância ou vastidão
DESSACRALIZAÇÃO EM NOME DA CIÊNCIA?
Valerá apenas recuperar-se (mesmo que de forma parcial) dos lodos e sedimentos,
o esqueleto afundado e os despojos que ainda por lá se encontram enterrados e dispersos,
para se conhecerem melhor os contornos das causas da tragédia
ou será demasiada morbidez humana a juntar a tantos outros sacrilégios
que, em nome da ciência, se cometem, com absoluta indiferença
ao repouso inalienável que é devido aos mortos?!...
Não sei... Quem poderia responder,
já não está cá para fazer ouvir a sua voz -
Eu não fui um dos malogrados náufragos do Titanic, é bem verdade.
Contudo, só talvez por milagre divino não sou hoje uma das incontáveis vidas
que se perderam nos mares - Se lá ficasse e mais tarde pudesse responder,
diria que não há sepultura maior e mais pura que a do mar! - Por isso,
deixem em paz quem tanto sofreu e não escolheu ali morrer e eternamente morar.
A VISÃO DESCONSOLADORA
QUE ATÉ HOJE PERMANECE UM ENIGMA
- TAMBÉM EU VI UMA QUASE ASSIM
- E BEM PERTO DE MIM!...
Dizem que se avistaram luzes de um barco por perto
e que o mesmo barco fez ouvidos de mercador
às continuas mensagens de morse
que heróicos marinheiros, não deixaram de enviar
enquanto puderam -- "A identidade desse navio permanece até hoje um mistério"
Supõem-se que tenha sido o Californian, que, prudentemente,
teria suspendido a navegação e parado as máquinas por causa do gelo,
mas cujo operador de serviço, "pouco antes de ir dormir às 23:00 horas,
tentou avisar o Titanic de que havia gelo à frente", tendo obtido como resposta
de um tal indolente Phillips: "Cale a boca, cale a boca, estou ocupado"
Vingança a tão desplante negligência e impropério?!...
É bem provável....No mar as heresias que se cometem,
costumam ser bem caras e ter altos preços em vidas.
Mesmo assim, a ser verdade, ó insensível cobardia e desamor!
Ó maldita frieza e crueldade! Ó vil foco de luz
em negrume-azul silencioso e sidério!
Que o diga quem - como eu - passou por esses terríveis momentos de incerteza:
Na viagem que fiz de São Tomé à Nigéria, ao 12ª dia,
eu estava já muito próximo da costa africana - Era noite escura e encontrava-me rodeado
por vários poços de petróleo - Era uma confusão...Havia clarões por todo o lado.
Tendo chegado a navegar por debaixo de uma plataforma sem ser visto
- O que eu não conseguia era localizar onde é que ficava a costa.
Às tantas, passa um barco de cabotagem perto de mim - Mal o vi
apontei a lanterna para a vela para que me vissem melhor
e não me abalroassem - De nada me valeu - Felizmente,
apenas me afastou com as ondas da hélice da esteira.
Ia um vulto de pessoas no convés e toda a gente a falar -
Eles lá foram à sua vida e eu lá fui à minha até que adormeci...
Na manhã seguinte, quando a canoa se aproximava perigosamente da praia,
tive a felicidade de ser acordado por três pescadores,
que, supondo-me perdido, pegaram nos seus remos
e foram eles que se encarregaram do resto da navegação.
- Lá me encaminharam a terra firme e a chão seguro,
onde fui acolhido como um dos seus numa modesta cabana - De tal maneira
que nem sequer cheguei a pousar os pés na extensa e dourada língua da areia
- Fui recebido com lágrimas e abraços - Foi um fim feliz.
Mas o drama dos passageiros do Titanic
foi incomparavelmente diferente - Bem dramático e horrível!
Não há pior decepção para um náufrago que ver um barco
à distância ou passar à sua frente e não parar nem abrandar
a sua marcha - É pior que acenar um rebuçado a uma criança
e depois jogá-lo fora - Se, naquele momento, vissem o seu rosto, ele espelharia
a tristeza maior do Mundo!... Mais grave que o suplício de Tântalo.
Mais desesperante de que, quando eu, naquelas tardes de calor, sem água potável
ou das chuvas para beber, me tive de valer de alguns goles de água salgada.
Sim, foi na acidentada viagem que pretendia realizar
de canoa de São Tomé ao Brasil, a qual se saldaria por um naufrágio de 38 longos dias.
- Eram sete de manhã - O Sol nasce às 5.30 e o dia já ia levantado
Mas brumoso e cinzento, com ameaças de chuva em vários pontos do horizonte.
Nisto, vejo surgir, lá nos confins, na minha direcção,
um enorme cargueiro que vai mesmo passar
a escassa centena de metros à minha frente - qual fantasma!
Despi minha capa e agitei-a! - E ele ali tão pertinho de mim, quase me abalroava!..
Como ninguém respondesse, peguei no apito
que tinha pendurado ao pescoço e apitei várias vezes...
Várias vezes levei o apito à boca e apitei..
Mas o crivo do radar não me apanhava
e apitar ou gritar naquele vasto mar era inútil...
A minha voz perder-se-ia no bruar das águas...
Apagada pelo cavar do sulco da proa e do barulho da hélice à popa.
Meu barco era um pobre madeiro escavado à deriva e à flor do mar...
ao qual tive de arrancar alguns bocados da cobertura para improvisar
um tosco remo - Era um tronco como outro qualquer,
quase da grossura daqueles paus e troncos de palmeiras
que se misturavam com os muitos detritos e destroços de toda a ordem,
quando um cardume de atuns me arrastara durante longas horas a fio
de uma linda tarde equatorial, que se prolongaram até alta noite...
E, eu, que a principio até cheguei acreditar
- estando o céu tão límpido e não havendo sinais de temporal -,
que até fosse alguma força divina, que, no meio daquele borbulhar intenso
se apiedasse de um pobre náufrago!...Me estivesse levando e arrastando
de algures do mar para algures num ponto seguro em terra...
O pior é que o inesperado cardume nunca tomava a mesma direcção....
Porém, às tantas, vendo que já não havia maneira
de livrar-me do seu envolvimento,
ergui a vela no tosco mastro e, com o remo improvisado,
(a maioria dos apetrechos perdera-os com o tornado) praticamente
deixei que o vento me arrastasse
para onde ele me quisesse levar - E, como não tomei
a mesma direcção do cardume,
finalmente, lá me consegui libertar.
Por isso, ao náufrago, quando todo o mundo o ignora,
de que lhe servirá gritar ou apitar?!..
Mais das vezes só depende dele: senão desanimar,
poderá assegurar a sua salvação: - O mar leva tudo para terra:
nem sequer lá quer os cadáveres: ou os desfaz ou os arrasta.
Não creio que o piloto daquele barco me visse - Foi há uns anos
mas já então havia piloto automático e outros instrumentos
que o dispensariam de olhar continuamente à sua volta.
Eu é que não tinha mais de que uma modesta bússola - Não me dava a posição,
só sabia os quadrantes e mais nada - Mais das vezes, até a dispensava
- Bastava orientar-me pelo sol, pelas estrelas, pela direcção das correntes e alisios...
No entanto, eu vi perfeitamente aquele enorme navio a passar
a uns escassos cem metros, ali mesmo à minha frente... Gigante, soberbo e nítido!...
Vi que continuou indiferentemente a sua rota e o seu caminho...
E, se me viu, fez que não me viu e não se importou...
Não seria caso inédito - Não se desviou e nem por um momento abrandou...
A vida de um náufrago é como um destroço à deriva.
Tive muitas vezes esse sentimento - Tantas vezes me senti um zé ninguém..
Mais identificando com o mar e confundido com as vagas
e até com a curiosidade dos peixes que constantemente me rodeavam
do que propriamente com o mundo a que pertencia!
Com a presença dos tubarões é que nunca me senti bem.
No entanto, a inesperada aparição daquele barco,
foi para mim pior que um balde de água fria.
Deixou-me, realmente, muito desanimado! ...
Nunca, como naquela manhã brumosa e de cinza
me senti tão sozinho, perdido e tão triste!
Depois resignei-me...Pois mais me convenci
que só podia depender de mim e da minha força de vontade...
Ah. sim!..Eu era um mero pontinho no universo inteiro.
Os meus sentimentos oscilavam entre o vazio e a plenitude.
Naquele vasto deserto de espumosas águas salgadas, o apito era estridente mas de nada me valeria...O circular deserto era imenso!...
Mas eu apitei!..Meus Deus!...Tantas vezes eu apitei!...
- Sim, nunca como então, me senti tão esquecido e abandonado
Ainda agora meus olhos, rasos de água
recordam, com clara nitidez, as lágrimas de abandono que então chorei...
Oh! mas quantas lágrimas não terão chorado aquelas infelizes almas
que se perderam e afogaram no sufoco
daquela atormentada noite do desastre do Titanic?!...
De que lhes serviriam também os seus gritos
e os seus desesperados pedidos de socorro?!...
Nearer My God to Thee" - Também eu o cantei
Será mesmo verdade que a orquestra do imponente navio, só parou de tocar- Cremos em Vós ó Deus! -"Nearer My God to Thee" quando as águas inundaram
todos os comportamentos e as luzes do Titanic definitivamente se apagaram?!...
Pelo menos o meu prof. de religião e moral, na Escola Agrícola, em Santo Tirso(1),
assim nos contou e nos ensinou esse mítico e religioso hino,
que foi justamente o que eu cantei, naquela noite em que acordei
debaixo da minha piroga, ao deixar-me adormecer e rolar em negras águas...
Na ousada viagem numa minúscula canoa da Ilha de São Tomé à do Príncipe
- Foi a primeira das três e a mais temerária... Vendo que não conseguia colocá-la a flutuar
sem ser invadida pelas vagas, e, sentindo-me já exausto, escarranchei-me no seu costado...
- Uma das boas particularidades das canoas de ocá, mesmo voltadas e sem lastro
é não irem ao fundo - Por isso, em vez de me resignar, pus-me a cantar
aquele religioso coro até recuperar as forças...
Oh, mas quão longa e sofrida não foi também aquela noite!...
Oh! pois não... quão longos os sofrimentos ou afrontosas e pesadas
não são as agonias de todos os infelizes que naufragam à superfície dos mares!...
Lisboa, noite de 14 para 15 de Abril de 2012