Jorge Trabulo Marques - Jornalista
Vasco Graça Moura nasceu a 3 de Jan.1942 Porto Recordo a memória do escritor, poeta e tradutor português, falecido em 2014.- Ao lado da pintora Graça Morais, na inauguração de uma exposição intitulada “A Máscara e o Tempo”, que contara ainda com a presença de Júlio Pomar, a em Novembro de 2009, na Rua da Academia das Ciências, na galeria Rattom, na qual foi apresentado um conjunto de 42 trabalhos, que visavam mostrar "uma grande reflexão sobre o tempo longo e lento do campo
Graça Morais nasceu a 17 de Março de 1948 no Vieiro, pequena localidade de Trás-os-Montes. O local que a viu nascer e crescer torna-se determinante para as vivências da artista, revelando-se um local de memórias e eternos retornos na sua obra plástica.

Dizia a pintora transmontana, Graça Morais a propósito dessa sua mostra, que “As pessoas, quanto mais envelhecem, mais o tempo lhes parece veloz. E então ficam com medo de morrer. Um destes desenhos é a cabeça da minha mãe, que é uma pessoa que eu adoro (eu desenho muito a minha mãe). Fazer estes desenhos é uma forma de a agarrar, de a prender, de deixar um testemunho de uma pessoa que é natural que vá desaparecer daqui a uns tempos. A transformação daqueles rostos com tubérculos é o tempo que se nota nas marcas que deixa nas suas caras. Quando as pessoas envelhecem numa relação normal com o tempo, as caras das pessoas velhas já não são caras, são vegetais, estão cheias de experiência.in Graça Morais, pintora-perdiz ...
A TRANSITORIEDADE E A TRANSFORMAÇÃO DA VIDA No fundo, é também de algum modo o objetivo desta minha singela evocação: refletir a temporalidade e a transformação da vida – Sim, porque, no fundo, o percurso de Vasco Graça Moura, desde o poeta, romancista, dramaturgo, cronista, tradutor, ensaísta, crítico literário, político, o gestor, o intelectual, em todas essas facetas, refletia isso mesmo: uma constante preocupação sobre a vida – Tal como foi dito, no DN, por ocasião da sua morte, “Além de um criativo de excepção, VGM foi um intelectual interveniente, que respondeu aos desafios que a vida lhe facultou com trabalho, rigor, empenho e independência intelectual. Irrequieto quando não truculento, cruzou a acção com a contemplação, a intervenção com as torres de marfim. Gostava de provocar intelectualmente e de ser provocado. Sabia dizer sim ao serviço público, do mais mediático ao mais anónimo, não se desviando da visão humanista que perfilhava da vida da pólis e da cultura." - InVasco Graça Moura: um criativo multímodo - Opinião - DN
“Vasco Graça Moura, um portuense como nós, tinha na voz, mas sobretudo na palavra, a sinceridade, o sentimento e a profundidade quanto baste, para merecer que o assinalemos neste local de letras, de palavras e que não queremos esquecido em nenhum dia do ano. É a homenagem dos portuenses, à palavra de um portuense”, do presidente da Câmara do Porto vieram depois. Rui Moreira, por ocasião da primeira Feira do Livro do Porto a Vasco Graça Moura –Público.
SONETO DO AMOR E DA MORTE
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
Notas biográficas
"Personagem polifacetada da vida cultural portuguesa (Foz do Douro, 3 de Janeiro de 1942 — Lisboa, 27 de Abril 2014). Poeta, romancista, ensaísta, tradutor, foi secretário de Estado de dois Governos provisórios, desempenhou funções directivas na RTP, na Imprensa Nacional e na Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Em 1999, foi eleito deputado ao Parlamento Europeu. Para ele, a poesia "é uma questão de técnica e de melancolia", crescendo d' A Furiosa Paixão pelo Tangível através de uma densa rede metafórica que combina a intertextualidade, relacionada especialmente com Camões, Jorge de Sena, Dante, Shakespeare e Rilke, objectos privilegiados de estudo deste autor, e uma tendência ironicamente discursivista assente na agilidade sintáctica. É autor de três ensaios sobre Camões: Luís de Camões: Alguns Desafios (1980), Camões e a Divina Proporção (1985) e Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens (2000). Em 1996, a sua obra foi reunida em volume. Dos títulos deste autor, podemos salientar Concerto Campestre, os romances Quatro Últimas Canções (1987) e Meu Amor Era de Noite (2001), os livros de poesia Uma Carta no Inverno, que lhe valeu o prémio da APE, e Poemas com Pessoas (ambos de 1997). Recebeu o Prémio Pessoa em 1995 e a medalha de ouro da Comuna de Florença em 1998, ambos atribuídos à sua tradução da Divina Comédia de Dante.O advogado que passou a escritor (e político)
Na altura, apenas a poesia definia a sua expressão, com títulos como "Modo mudando", estreia nas Letras, em 1962, a que se seguiram títulos como "Semana inglesa" e "O mês de dezembro". Mas Vasco Graça Moura era também o jurista, o gestor e o político.
Em 1974, após o 25 de Abril, aderiu ao Partido Popular Democrático, atual PSD, tendo assumido a secretaria de Estado da Segurança Social do IV Governo Provisório, liderado por Vasco Gonçalves. A experiência governativa duraria pouco mais de cinco meses, de março a agosto de 1975, e não voltaria a repeti-la.
Antes, foi diretor da RTP (1978), administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1979-1989), cuja política de edição literária dinamizou, foi presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Fernando Pessoa (1988) e da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1988-1995), para a qual coordenou a revista Oceanos. – Excerto de o Expresso


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