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segunda-feira, 30 de julho de 2012

VOGANDO SEM DESTINO E A NOITE POR COMPANHEIRA.. O sol mergulhou e afundou-se há muito, algures sobre o imenso círculo a ocidente – Momentos antes, alguns dos seus raios rasgaram as nuvens, espalharam-se em mil reflexos e chegaram até mim - Como que despedindo-se



















O sol  mergulhou e afundou-se há muito,  algures
sobre o imenso círculo a ocidente – Momentos antes,
alguns  dos seus raios rasgaram as nuvens, espalharam-se
em mil reflexos e chegaram até mim - Como que despedindo-se
através de nostálgica  e reluzente estrada de luz - Já lá vão umas horas!...
Espero voltar a vê-los esplendorosos a oriente.
A noite vai alta e espessa! O mar encapelou-se
com o refrescar do vento - A canoa balança....
Atmosfera é húmida de névoas negras,
que correm baixas, rolando mui densas.....
- Para onde vou eu  na estreita concavidade
deste frágil  tronco escavado?!...
Para onde me levará este esquife fantasmal?!...
De que te lamentas, afinal,
meu coração esquivo e atormentado?!..
Não terá sido loucura insensata
ter confiado a minha vida em tão precária fragilidade?!...

Não sei, nem me importa. Vim sem destino,
meu rumo é ditado pelos ventos e correntes,
não tenho nenhum itinerário  programado!
- Não sou senhor de mim: - lancei-me ao mar
sem instrumentos náuticos e cartas de marear.
Medito e por vezes fico ainda mais triste e em sobressalto,
ao sentir o mar a rugir e o vento a fustigar-me e a uivar!
Nada mais posso fazer que sentir a ansiedade
dos vivos nas horas incertas ou esperar absorto
pela eterna paz dos mortos se a vida me escapar.
Vou balanceado para onde o vento  soprar.
À flor das águas, vogando deitado e solto!
Vou  para onde  me arrastarem as  ondas
os caprichos do destino, me quiserem levar!....





Quando não chove e o céu está descoberto, não vejo o mar
mas ouço constantemente as suas pancadas ao meu lado,
até que adormeço com o bailado das estrelas - Mas hoje
ainda não vi nem as estrelas nem vi o luar... 
Não consegui adormecer -  Oh vil ou doce tormento!
Pecados mortais meus ou ira negra dos altos céus!  

Meu colchão é côncavo estreito e duro - Muito desconfortável.
Não me permite sequer abrir os braços,  mal posso respirar.
Pior ainda quando estendo e cubro a canoa com o toldo de plástico.
Meu coração, quase sufoca, possuído pelas sombras do oceano noturno.
Mesmo assim, meus olhos, cegos de cansaço, perdidos 
num horrível vazio sonoro e escuro,
não cerram as pálpebras, não cedem 
à continuada afronta que os amarra 
mergulha e sobressalta!

Vão abertos, em persistente vigília e alerta! - Não  param de sondar
os  ruídos, os marulhos! - E, quando estes ressoam no casco
ainda mais os intrigam e assustam -  Arregalados,
perscrutam e devassam a penumbra absoluta -Porém,
nada enxergam do  que vai   dentro ou lá fora - Vão cegos
mas não desistem!- Nesta horrenda dança de vida 
ou morte, são eles e os meus ouvidos, 
o mais íntimo sonar, desta minha 
inarrável errância marítima

Neste corrocel ensurdecedor  de sonoros embates de arrepiar,
vergastas impiedosas das vagas  que vão sucedendo 
em brutais baques crispados de quase enlouquecer, 
Oh quantas ideias! Quantos pensamentos!
Quantas dúvidas e inquietações!....
Que resposta poderei eu   dar à noite?!... 
Que devo eu  fazer?!...Senão conformar-me 
ou renunciar às interrogações da sua  infinita curiosidade...
Pois todos os momentos, por mais negros e incertos que sejam,
 vão além dos mares e da terra, são parte do Universo!
São verdadeiramente  divinos!..Pertencem a Deus!
Mesmo através da mais cerrada escuridão,
elevam-se dos mares ou da terra aos céus!


 

Na verdade, mesmo deitado,  vogando à tona desta vastidão,
deste cemitério imenso, nunca estou inteiramente tranquilo 
– Imerso em tantas dúvidas! Assolado por tantas interrogações
 e por  tanto mistério! Enquanto não adormeço, 
vivo num estado de permanente torpor, angústia incerteza
 - A todos os instantes, a todas as horas, a minha alma interroga-me,
 faz-me perguntas à solidão que me assola, a que eu não sei responder.
. A canoa voga e  a minha vida voga e flutua igualmente suspensa.

Por vezes, depois de adormecer, acordo em sobressalto,
com o bater de uma vaga mais violenta ou de uma barbatana
que se encosta e roça asperamente no seu bojo - Outras vezes,
não é o sobressalto mas a desilusão: - a sonhar 
julgava-me noutras paragens mas, ao acordar,
constato que estou encaixado num exíguo espaço
e,  ao levantar-me, logo me apercebo
que nem sequer um passo  aos lados, posso dar.

O passado já não me pertence e o  meu futuro 
é como a noite: desconheço onde começa e onde acaba
-  E o presente é este estado de incerteza permanente,
que não é traduzível nem por imagens nem por palavras.
 Estendido sobre o fundo húmido da canoa,
que chega a assemelhar-se a uma salmoura - sim, às vezes só lanço mão
do vertedouro, quando a água  chincalha demasiado e me cobre.
Mesmo que não reze -  não, não rezo, só se for a  cantar
ou então quando as lágrimas me escorrem pela face,
tal como as contas de um rosário e têm o sabor a sal

 No entanto, quando me deito, depois de estender-me
por entre as madeiras do meu estreito leito,  sinto que as  minhas mãos
elas mesmas naturalmente se aconchegam ao meu peito e se entrelaçam
num gesto de  permanente pose de súplica e  de religiosa oração,
enquanto o peso do sono  me não vence  e a noite  me acolhe
com as  negras vestes  assombradas  ou maravilhadas do seu regaço
e me cobre por completo no mesmo infinito manto
da sua pacífica ou conturbada solidão. 





Eis, porque, a escolha que agora  se me oferece é só uma:
deixar-me ir para onde quer que seja arrastado,
enquanto a noite for correndo e for passando,
pasmado e confiante de que os astros longínquos
me sirvam de tecto e de  lastro, por companhia...
E que, o irromper da alvorada, não seja mais
o prolongamento da "noite eterna e antiquíssima"
mas o alvorecer e a promessa de um novo  dia...

Soergo-me, olho em redor, olho e revejo o melhor que posso,
inseguro e ansioso, mas nada mais vejo e descubro
que as trevas de um imenso, negro e medonho poço!
Enquanto a canoa, boiando na ondulante superfície,
boiando à flor do abismo, indiferentemente a tudo,
corajosamente, vai sulcando os  fugidios vultos...
.- Oh, sim!...Que vejo eu, enxergo ou  sinto
em mundo tão misterioso e desconhecido?...
Vejo que a solidão ainda é a mesma
para onde quer que alongue o meu olhar...
Sinto que vogo por um mar negro e indistinto,
Sinto-me, em parte incerta, vogando
prisioneiro do meu corpo e que,
tanto a minha alma, como o meu corpo,
ainda não são inteiramente livres um do outro..
Vou errante e solto à superfície
desta massa líquida ondulante.
Vou como ave noturna sem asas,
vogando inteiramente condicionado
e prisioneiro da minha liberdade ...

É certo que não tenho paredes à minha volta a cercearem-me
os movimentos - Pelo contrário:  esta cúpula infinitamente parda
é toda a minha, este mar  imenso  e negríssimo é todo meu,
 mesmo assim,  sinto-me infeliz, pois não sou eu
que vou a comandar a minha nau e o meu destino,
mas é o mar que me leva, não sei para onde
ou para que parte incerta do negro horizonte...
- Ó mensageira áurea luz! Errantes forças divinas!
Vós que alternais dentro do meu peito a paz e harmonia
das manhãs e tardes serenas ou mesmo as noites mais escuras e assombrosas,
com a voragem devoradora das tempestades - sejam quais forem as horas! -
 em que alturas celestiais ou erma solidão, agora estais?!..
Será que abandonaste meu pobre coração mortal?!...
- A noite nestes mares equatoriais, reparte por igual
as suas trevas com a claridade do dia 
- Quando chegará a hora - ó luz bendita! -
de vos contemplar?! Poder eu adormecer, libertar-me 
e esquecer-me de tudo isto?!...
.









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