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domingo, 24 de dezembro de 2017

Poema de António Rosa - Véspera de Natal – Em Memória das Vitimas dos incêndios de Pedrogão Grande e de outras terras em que as chamas lavraram, devoraram e queimaram até à morte. “Cada árvore é um ser para ser em nós”


2017   - Vítimas dos incêndios - Morreram mais de uma centena de mortes e arderam 440 mil hectares -     foi o ano em que mais ardeu nos últimos dez anos ...— quatro vezes mais que o habitual -


O MEU PENSAMENTO NESTA SILENCIOSA, FRIA E SOLITÁRIA NOITE VAI PARA VÓS - Em Vésperas do Santo Natal, por entre o silêncio espectral destes ramos e troncos enegrecidos, pisando a caruma reduzida a pó e as cinzas, sinto uma profunda dor de alma, num misto indecifrável de amargura, silencio e abandono, lembrando-me daqueles cujas vidas as chamas traíram no infernal e abrasivo fogo devorador ou que perderam os seus haveres no fantasmagórico cataclismo do vasto cenário dos pinhais ardidos
Todavia, agora que pisas as cinzas e os esqueletos das giestas e da caruma ardida, não indagues o que te angustia e quem foram os culpados mas responde às perguntas que este negro vazio te cria – Assim vai este mundo confuso, atribulado, injusto e incompreendido


Que a Luz da Natividade Natalícia atenue a dor dos que sofrem, aspiram conforto e justiça e Ilumine de plena alegria e de graças todas as famílias e lares que vos Bendigam





De António Ramos Rosa
Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses







O que tentam dizer as árvores
No seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência,
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade. 
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.


António Ramos Rosa publicou perto de uma centena de livros de poesia. Aqui fica uma brevíssima escolha de alguns poemas seus de diferentes épocas, terminando com um texto do livro inédito MúsicaContínua Cordilheira, que teve a sua primeira edição no PÚBLICO, a 3 de Março de 201

António Ramos Rosa , nasceu em Faro,  17 de Outubro de 1924 –  E faleceu, em Lisboa, a 23 de Setembro de 2013), foi um poeta, tradutor e desenhador português




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