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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

HOJE É DIA DA INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA: UM DIA DE FESTA PARA MUITA GENTE” (e eu perdido na mar) “PARA MIM UM DIA TÃO TRISTE!".

Editado em 11 de Nov de 2010 - - Jorge Trabulo - C Marques -Jornalista e antigo navegador solitário


Completam-se hoje 35 anos: tantos como a Independência de Angola. Estava eu com 22 dias de mar a bordo de uma piroga. Sozinho e à deriva no imenso Golfo da Guiné. Foi a 11 de Novembro de 1975. Para muita gente, especialmente os angolanos, foi um dia de muita alegria, de uma grande festa e de muita felicidade. Tive essa confirmação através de um pequeno transístor, enquanto não se esgotaram as pilhas. 




Para mim, foi um dos dias mais tristes e atribulados no mar: não houve nada que eu não tivesse enfrentado. Os registos do meu diário, que vou reproduzir mais adiante, extraídos de um pequeno gravador, que preservei da ofensiva do mar num contentor do lixo, em plástico), não deixam margem para dúvidas. No mesmo dia, apanhei de tudo!.. Desde o tornado violento à podre calmaria. Não foi um dia de desespero mas andou lá próximo. Aproveitarei ainda para aqui revelar os nomes pelos quais rem conhecidas as Ilhas do Golfo da Guiné

O MEU TRIBUTO AO POVO DE ANGOLA, COM OS SONS INESQUECÍVEIS DO DUO OURO NEGRO E OS DESEJOS DE PAZ, PROGRESSO E O BEM-ESTAR DO SEU POVO



E TAMBÉM OS MESMOS DESEJOS EXTENSIVOS AO POVO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, ERAM JÁ CONHECIDAS NO TEMPO DOS ÁRABES, POR ASBEN E SANAN

ILHAS SITUADAS NO EQUADOR E NO MEIO DO MUNDO, JÁ FESTEJARAM O DIA NACIONAL NO PASSADO DIA 12 DE JULHO, DATA EM QUE COMEMORARAM OS 35 ANOS SOBRE A PROCLAMAÇÃO DA SUA INDEPENDÊNCIA.

PODE BEM DIZER-SE, QUE AMBAS SÃO POSSUIDORAS, NÃO DE CINCO SÉCULOS DE POVOAMENTO, MAS DE UMA ORIGEM AINDA MUITO MAIS ANTIGA OU LONGÍNQUA, QUE A PRECONIZADA PELA HISTORIOGRAFIA COLONIAL. - ABORDAREI A QUESTÃO NUMA DAS PRÓXIMAS POSTAGENS. COM A PUBLICAÇÃO DE UM MAPA DE 1375 - ANTES DOS PORTUGUESES OS ELABORAREM.


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CANOA CARREGADA A BORDO DO PESQUEIRO AMERICANO HORNET, FUNDEADO AO LARGO E A NORTE DA PEQUENA ILHA DE ANO BOM - A ILHA MAIS SETENTRIONAL DO GOLFO DA GUINÉ - À FRENTE, EDITAREI O DIÁRIO DE UM DOS DIAS MAIS DRAMÁTICOS NOS 38 DIAS EM QUE ANDEI À DERIVA NUMA FRÁGIL PIROGA DE SÃO TOMÉ..

"FIQUE CONNOSCO! VOCÊ VAI MORRER! A CANOA NÃO RESISTE!". - PEDIAM-ME ALGUNS TRIPULANTES. MAS EU PARTI RUMO AO DESCONHECIDO: - UMA VEZ MAIS POR MINHA CONTA E RISCO, ACABANDO POR SER CONFRONTADO COM UMA DAS MAIS DURAS E PROLONGADAS LUTAS DE SOBREVIVÊNCIA NAQUELES TURBULENTOS MARES - INFESTADOS DE PERIGOSOS TUBARÕES E ASSOLADOS POR CONSTANTES TORNADOS

Lá fui no meu "luxuoso paquete" - Sim, o mar quando quer pregar alguma partida, não escolhe categoria social ou tamanho do barco. - Sofri muito mas fui mais feliz que as centenas de vidas que se afogaram a bordo do Titanic - Nos meus tempos de estudante, na Escola Profissional Agrícola Conde S. Bento, em Santo Tirso, o meu Prof. de religião e moral, Rev. Padre Serra, natural de uma aldeia de Famalicão, gostava muito de nos recordar nas suas aulas a tragédia do dramático naufrágio, cantando connosco o Cremos em Vós, ó Deus, Sim, muitas vezes me lembrei desse hino e implorei a Deus protecção, conquanto não me sinta um católico praticante.





"FIQUE CONNOSCO! VOCÊ VAI MORRER! A CANOA NÃO RESISTE!". - PEDIAM-ME ALGUNS TRIPULANTES. MAS EU PARTI RUMO AO DESCONHECIDO: - UMA VEZ MAIS POR MINHA CONTA E RISCO, ACABANDO POR SER CONFRONTADO COM UMA DAS MAIS DURAS E PROLONGADAS LUTAS DE SOBREVIVÊNCIA NAQUELES TURBULENTOS MARES - INFESTADOS DE PERIGOSOS TUBARÕES E ASSOLADOS POR CONSTANTES TORNADOS
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QUANDO SE VAI PARA O MAR, SABE-SE QUANDO SE PARTE MAS NÃO SE PODE TER A CERTEZA ABSOLUTA SE SE CHEGA A BOM PORTO OU SE SE REGRESSA AO PONTO DE PARTIDA



A canoa havia sido carregada, ao largo da Cidade São Tomé no pesqueiro americano Hornet, que ali deixara um tripulante hospitalizado. Como os ventos e as correntes, são dominantes do Sul para Norte, eu precisava de ser largado na corrente equatorial, um pouco a Sul da Ilha de Ano Bom, que é onde a Corrente de Benguela se divide: uma parte vem perder-se a Norte do Golfo e a outra deriva em direcção ao Equador para o coração do Atlântico, até voltar para sul, junto à costa brasileira, num périplo que desce até quase ao Oceano Antárctico, confluindo depois para a costa africana.

O comandante, desse pesqueiro, comprometeu-se a lagar-me naquela corrente, mas faltou à palavra. Ou antes, fez tudo para que eu ficasse a bordo a trabalhar e não me metesse nessa aventura - na travessia oceânica - visto achar demasiado arriscada a minha ousadia, até porque, os dias de viagem até à ilha de Ano Bom, haviam sido marcados por constantes tempestades tropicais. Especialmente ao fim da tarde e à noite. Em que ninguém podia parar no convés: as vagas varriam-no de proa à popa. E muitos tripulantes, tentavam dissuadir-me: "Fique connosco!... Você vai morrer!... Fique connosco! A sua canoa não vai resistir"

E, de facto, ninguém se atrevia a expor-se ao vento e à chuva. À fúria do mar. Eu olhava a escuridão, por detrás das escotilhas e fixava os olhos bem abertos na borbulhante e pálida espuma, ouvia o marulho das vagas a desfazerem-se contra o casco e galgarem-no!... Olhava e escutava pasmado a sua inaudita violência com alguma apreensão, mas estava determinado...


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Nada deste mundo podia demover-me!... Sentia-me ao mesmo atraído por uma espécie de resistível desafio e tenebroso fascínio...Sentia que o palpitar do meu coração precisava de vibrar ou se aquietar com a palpitação do mar. Os meus olhos só queriam espraiar-se e deleitar-se com o imenso azul clarinho dos dos céus e o azul profundo da vasta superfície oceânica.












J
á não era a minha primeira experiência solitária, o meu encontro a sós com o mar alto e também sabia que, quanto maior é nau maior é a tormenta...Pelo que, ao ser confrontado com alguns temores e dúvidas, quando aquele turbulento cenário nocturno mais me impressionava, imediatamente a minha imaginação me transportava para as façanhas daqueles corajosos pescadores de São Tomé - os "angolares" - a desafiarem o mar encapelado, a abandonarem a praia ou a fugirem do tornado. Alguns deles haviam sido os meus mestres e a sua agilidade encorajava-me.

As canoas vogando à flor do mar, com vento de popa ou mesmo impelidas pelo remo, entram numa espécie de desenfreada vertigem e furtiva cavalgada do sobe e desce, e, mesmo que as ondas sejam tão altas como as montanhas, acompanham sempre a sua hilariante dança!...

Só se a sorte for demasiado madrasta é que o mar não brinca com a sua impertinente fragilidade. Ou que o homem do remo deixa de se integrar no ondulante e translúcido seio. Estava pleno de fé, confiante!...
Mar! Mar! Mar! ... Esta palavra mágica de três letras não me saía do pensamento. Eu queria a voltar a estar sozinho com os olhos extasiados ou circunscritos em todos os confins do círculo que se abrem sobre o vasto mar! - E, ao sulcar as suas ondas, ir buscar raízes e pedaços da história, perdidos no tempo e no esquecimento.

 





Havia-me preparado, longamente, na arte de navegar nas pirogas dos pescadores daquela linda Ilha. Navegava de praia em Praia e afasta-me para o largo. Voltava a canoa de costado para o ar e empinava-me novamente nela. Preparara-me para todas as circunstâncias de tempo e de mar. Aliás, na viagem ao Príncipe, o sono surpreendeu-me, e, às tantas da noite ao adormecer, rolei no seu bojo e fiquei debaixo dela. Mas depois - embora muito a custo - lá voltei a equilibrar-me naquele esquifezinho ou escavado tronco de madeira.

Não é fácil esquecer-me dessa minha primeira travessia oceânica, entre as duas Ilhas: apanhei um grande susto e quase me ia afogando mas não esmoreci: de pé ou sentado, sobre uma das travessas, lá naveguei, noite adentro, à vela e a remos, algo perturbado e não sabendo bem para que ponto do horizonte me dirigir: seguia o instinto. A piroga era muito estreita, não podia desistir, não podia deixar de remar ou velejar. Não podia adormecer, sob pena de voltar a cair de lado e de me virar no mesmo remoinho. Perdera a pequena bússola e o garrafão de água, mas dispunha de um remo e uma vela suplente amarrado no bordo da canoa. Era uma maratona que tinha de cumprir: calculara dois ou três dias no máximo, perdera muitas noites ao relento, sentado nas paredes do antigo Forte de São Jerónimo, junto ao mar, sem dormir, olhando a escuridão, preparando-me e ambientando-me para fazer a travessia, sem largar mãos do remo ou do cabo de escota. A embarcação era demasiado minúscula e, deixada à deriva, podia desequilibrar-me e mergulhar nas águas. E foi o que aconteceu, quando o sono fora mais forte de que a minha resistência e me surpreendeu.

Mas felizmente lá me livrei daquele rodopiante sorvedouro. Lá recuperei o anterior domínio e me fiz de novo à escuridão das águas. Largara à meia-noite da Baía Ana Chaves, disfarçado de pescador para não ser reconhecido - pois sabia que as autoridades, não me autorizariam a meter-me nessa aventura. Tanto assim, que ao regressar a São Tomé, seria preso pela PIDE (policia do regime) e severamente punido com uma pesada coima. De resto, para navegar, desde a baía da cidade até ao Padrão da Espraínha (Água Ambô, junto à Ponta Figo), praia onde terá aportado, João de Santarém e Pero Escobar, foi o cabo das arábias! Fiz o percurso no dia em que se comemoravam os 500 anos: mas o Capitão dos Portos, só muito a custo, me concedeu autorização.

Fazia essa viagem de 40 milhas, ida e volta, por duas razões: por um lado, como meu primeiro grande teste, com vista às futuras ligações entre as ilhas e o continente africano (comprovando assim a minha teoria: de que era possível fazer ligações de canoas em grandes distancias pelos povos africanos do litoral com as ilhas do Golfo) ;

por outro lado, queria prestar homenagem - não à
colonização, de que também fora vítima (principalmente na Roça) mas à heroicidade e temeridade desses bravos navegadores, cujas façanhas, tanto alimentaram o meu imaginário, desde criança e que haviam sulcado, aqueles mesmos mares, a bordo da suas frágeis caravelas. Além de que, só indo ali, arvorando um tal propósito, poderia ser autorizado.- .São Tomé e Príncipe... São Tomé e Príncipe - Wikipédia,

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE - ANTIGAS ILHAS: ASBEN E SANAN


E, AFINAL, QUEM FORAM OS NAVEGADORES PORTUGUESES QUE REDESCOBRIRAM AS ILHAS DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE? -

ALÉM DE JÁ TEREM NOMES E SEREM REFERENCIADAS NUM PLANISFÉRIO CATALÃO, MUITO ANTERIOR AOS QUE OS PORTUGUESES COMEÇARAM A DESENHAR, E TEREM SIDO VISITADAS POR ANTERIORES VIAJANTES ISLÂMICOS, QUE LHES CHAMARAM
ASBEN - À ILHA DE SÃO TOMÉ; SANAN - À ILHA DO PRÍNCIPE)

Tema que
desenvolverei, mais detalhadamente, noutra postagem, graças ao amável contributo da jornalista e investigadora ...Fernanda Durão Ferreira que também é autora da obra .A Terceira Atlântida

Conhecendo as razões das minhas viagens de pirogas, em demanda das origens do passado destas ilhas, teve a gentiliza de me oferecer uma cópia do estudo que desenvolveu com a socióloga e jornalista, Sara Santiago.
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Para já, deixo aqui o registo de alguns linkes da versão histórica mais conhecida e de estudos - Um dos quais faz referência às minhas travessias,Questão da Origem dos Angolares situando-as, creio, por lapso, nos anos oitenta Nos anos oitenta o jornalista português Jorge Trabulo Marquês foi de canoa de. Tomé para o Príncipe e para a Nigéria a fim de provar que os antepassados dos angolares poderiam ter chegado ao sul de São Tomé através do mar nas suas próprias embarcações. Outros links São Tomé e Príncipe... São Tomé e Príncipe - Wikipédia,.......Sao Tomé e Pincipe no coraçao |.......Enciclopédia - Artigos: São Tomé e Príncipe....Sobre S. - Missão São Tomé e Príncipe




"VIAGEM CLANDESTINA AO PARAÍSO"

Este o título que eu dei a uma série de artigos, sobre a atribulada travessia à ilha do Príncipe, que na altura publiquei na revista Semana Ilustrada, de Luanda, de que passei a ser correspondente, em São Tomé, graças a essa mesma aventura, com reedição, mais tarde, no Diário Popular (publicações, ambas já extintas) - Mas, retomando o episódio, a que atrás me estava a referir, sobre aquela noite, em que a canoa se voltou, sim, cheguei mesmo a acreditar, quando acordei envolvido no tumulto das águas, que era o fim da minha vida. Felizmente, a minha estrelinha, aquela que seria talvez o meu anjo da guarda, embora num céu encoberto e sem estrelas, não me abandonou.


Mal me livrei das garras daquelas enegrecidas vagas, lá me dispus, pela segunda noite, a encarar o desconhecido, singrando à superfície daquela massa informe e viscosa, ondulante e negra, donde surgiam manchas luminescentes, em cada rebentação ou mesmo escorrendo da pá do remo, devido ao planton, que vinha das profundezas à superfície, em virtude da intensa escuridão. Manchas que ora pareciam arder em fogo vivo, ora branquejavam, por entre sulcos negros e o ruído da espuma que se desfazia. Sim, em torno de mim pairava o absoluto abandono e um cenário de afronta, terrifico; sob um céu turvado de grossos e enegrecidos novelos de nuvens que rolavam desvairados, quase sobre a minha cabeça. Navegando numa canoa, bem mais pequena do que aquela que agora ia carregada a bombordo e sobre o tombadilho do Hornet.

Sabia que, se a mesma se virasse no alto mar, e sendo mais pesada, seria muito difícil voltar a meter-me dentro dela. Mas estava certo que as pirogas estão talhadas para enfrentar todas as situações de mar. Tinha a convicção de que havia sido, com tão primitivas mas seguras embarcações que as ilhas do Golfo haviam sido povoadas. E queria demonstrá-lo. Admiro muito a coragem dos nossos primeiros navegadores, mas a sua audácia não pode colidir, de maneira alguma, com a verdade histórica. Confiava nas ancestrais capacidades de navegação das pirogas.









Do alto das velhas muralhas do Forte de S. Jerónimo, onde tantas vezes olhava a espuma que ali ia rebentar nas rochas negras e contemplava o mar ao largo, sim, muitas vezes ali me envolvi em prolongadas cogitações. E só via o mar... Só pensava, obsessivamente, nas distâncias e nas entranhas do mar.!.. Olhava-o com pasmo e respeito, mas queria sentir-me também parte dele! Ser mais um elemento do mítico e misterioso oceano! Ir por ali a fora numa das ágeis pirogas.! Desvendar segredos esquecidos no tempo!...

Oh, e quantas vezes ali mesmo, não experimentei as estreitíssimas cascas de noz, navegando em frente ou embicando na areia da pequena praia ao lado, naqueles meus habituais treinos, ao Domingo, vindo da Praia Lagarto (ao fundo da descida a caminho do aeroporto), passando em frente da Baía Ana Chaves, Fortaleza de São Sebastião, costa da marginal, Praia Pequena e ponta do Forte de São Jerónimo -e, por vezes, ainda um pouco mais a sul, à Praia do Pantufo.

São Jerónimo era geralmente a baliza de chegada e de retorno ... E, também, muitas vezes ao fim da tarde e pela noite adentro, era o meu local preferido (até por ficar um pouco isolado e retirado da cidade) para me familiarizar profundamente com o mar.

Lembrava-me das façanhas dos pescadores são-tomenses, dos seus antepassados que demandaram as ilhas, dos barcos negreiros que ali aportaram e também dos nossos marinheiros (antes desse vil mercado) que por aquelas águas navegaram; imaginava quantos naufrágios e sofrimentos aqueles mares, já não teriam causado.

Sabia dos muitos perigos que me podiam esperar - não os desdenhava! - mas entregava-me ao oceano de coração aberto, possuído de uma enorme paixão, em demanda dos grandes espaços e de uma infinita liberdade, tal qual as aves migradoras! Olhava-o como se fosse já meu familiar e meu amigo. Embora sabendo que a sua face, quando acometida de irascível crueldade, havia sido palco de muitas tragédias, havia engolido muitos barcos e tragado muitas vidas. Contudo, eu não ia ali apenas movido pelo prazer da aventura: só por isso, não sei se compensaria... Mas orientado por razões mais fortes


E havia algo, no fundo de mim, como que estimulado por um pendor sobrenatural inexplicável que me fazia acreditar que, mesmo que apanhasse alguns sustos, tal como já havia acontecido em anteriores viagens, lá haveria de sobreviver e de me safar!...

Pois o mar também é generoso quando quer ... Acreditava que haveria de compreender os objectivos pelos quais que norteava o meu espírito e a minha temeridade.
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TRAVESSIA PELA ROTA DOS ESCRAVOS - SÃO TOMÉ - BRASIL - PARA EVOCAR O QUE FOI E AINDA CONTINUA A SER SOB AS MAIS DIVERSAS FORMAS

Na Ilha de São Tomé, recebera o melhor apoio e carinho e não queria desiludir ninguém; de forma alguma podia defraudar essa ajuda: a canoa fora mandada fazer a um pescador da Vila das Neves, que derrubou um ocá na floresta e que depois a escavou com o machim e à inchó, tendo sido paga com os apoios recebidos de várias pessoas.

Pois regressara a São Tomé, após a bem sucedida viagem clandestina à Nigéria, sem um tostão na algibeira. Mentalizara-me de que a travessia estava ao meu alcance, sabia que, se precisasse de socorro, ninguém me poderia valer. Não levava meios de comunicação com ninguém. Servia-me apenas de uma bússola, orientava-me por ela, pelo sol e pelas estrelas.Mas era assim que se enquadravam os propósitos dessa minha aventura. Os primeiros povoadores das ilhas, também se orientavam como as aves. E eu achava que valia a pena correr todos os riscos. E nada podia demover-me.

Antes da canoa ser baixada ao mar por um dos guindastes, o comandante chamou-me então à sua câmara onde assinei um termo de responsabilidade. Desejou-me boa sorte e recomendou-me para abandonar aquela área o mais rápido que pudesse: dada a penúria de alimentos existente na ilhota, havia o risco de alguma canoa vir atrás de me mim para me roubar as provisões. Lá fui largado (ao largo, em pleno alto mar) com os acenos dos meus amigos que entretanto fizera a bordo. Para qualquer lado que olhasse, só via o mar azul. Estava sozinho, mais uma vez só podia contar comigo.

DUAS CANOAS REMAM O DIA INTEIRO ATRÁS DE MIM PARA ME ASSALTAR

E os perigos começaram, logo nas proximidades da Ilha de Ano Bom. Mal o barco levantou ferros e zarpou, duas das canoas, que andavam por ali na pesca, avançaram a remar imediatamente na minha direcção. Para evitar esta situação, o comandante do Hornet, ainda chegou arrear a canoa na véspera ao pôr do sol - e até me levou algumas milhas a Norte, para sair daquela zona. Depois começou a navegar em torno do horizonte. Vendo que não havia vento e pairava a ameaça de uma tempestade, voltou aproximar-se e içar-me a canoa. Veio à ponte e disse-me que era melhor passar a noite no barco e ser largado de manhã. Aceitei a sua disponibilidade. Durante a noite, mais um "sermão" para eu abandonar a canoa, mas não me demoveu. De manhã cedinho, mal o sol se erguia a Oeste, uma ordem, em inglês, soava pelo auto-falante: "canoa ao mar!!!"


- O mar estava um bocado agitado; quase se ia partindo ao ser arreada. Do alto do convés, o cozinheiro, curvado da amurada, atira-me uns enchidos sobre a canoa. Não os chagaria a comer, pois o mar mos levaria. E, mais uma vez, lá me despedi e fui ao meu destino. Porém, como o barco voltara a fundear ao largo da ilha, naquela manhã eu estava perigosamente muito perto. E já havia várias canoas as sulcarem as águas.

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Não tive dúvidas que vinham para me assaltar. Em cada uma delas, dois homens, em tronco nu , com uma pequena tanga pela cintura, não paravam de se vergar e impulsionar o remo. Pela facilidade com que navegavam, deveriam ser pescadores muito experimentados. Felizmente, as correntes favoreciam-me e, os alísios , que sopravam do sul, eram constantes; corria um bom vento. Não havia calmaria. Vela a todo o pano e vento de popa, foi a minha sorte. Chegaram a aproximar-se a menos de uma milha de mim.


Só os perdi de vista depois de anoitecer. Se foram apanhados pelo tornado, que surgiu depois de escurecer, calculo que devam ter tido muitas dificuldades para regressarem à sua ilha. Mas, pelos vistos, a fome obrigava-os a arriscar a vida - e talvez a não se importarem de afrontar a minha - Foi por isso que o tornado me apanhou de surpresa: eu não tirava os olhos de uma estrela a Norte. Nem olhava para as vagas que entretanto começavam a levantar-se: quando, quis colocar a vela de tempo, já era tarde de mais. Uma onda avançara, impetuosamente e submergira-me praticamente toda a canoa e, só Deus sabe, porque não me quis levar naquela noite, tempestuosa, infernal!

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A pequena ilha Ano Bom, lá ao fundo, parecia um pequeno boné. Fica localizada no Atlântico Sul, a 350 km da costa oeste do continente africano e 180 km a sudoeste da ilha de São Tomé (São Tomé e Príncipe). O território mede aproximadamente 6,4 km (comprimento) por 3,2 km (largura), com área superficial total de 17,5 km². A actualmente a população da ilha é determinada em 5.008 pessoas. As actividades económicas principais são a pesca e extracção de madeira.. Porém, naquela altura, diziam-me que não teria mais de mil almas, quase esquecidas do resto do mundo, havia muita mortalidade infantil e só vivia um único europeu: um sacerdote, que, aliás, chegou vir a bordo do barco para receber alguma caridade, dada a penúria e escassez de alimentos, que por lá existia. Eu próprio fiz permuta com algumas latas de conserva por cocos e bananas.


Os pescadores vinham nas suas estreitíssimas canoas para vender à tripulação os seus frutos frescos e, no fundo, para matarem a fome. A ilhazinha faz parte da Guiné Equatorial, tal como a de Malabo, ex-Fernando Pó, onde haveria de ir parar (e era o que menos desejava ) visto ser então governada por feroz ditador, que logo me mandou prender: o Sr. Francisco Macías Nguema, um autêntico tirano; mais tarde apeado do poder pelo sobrinho, o actual Presidente, através de um sangrento golpe de Estado. O povo vivia amordaçado e, apenas mantinha, com aquela pequena ilha, uma só ligação marítima anual.

Que será feito agora do atuneiro Hornet e da sua tripulação? De um pesqueiro, que, aliás, segundo me disseram na altura, já tinha alguma história para contar, visto ter chegado a estar aprisionado no Vietname. Os tripulantes foram muito amáveis e até pintaram o fundo da canoa de azul - estava pintada de negro de alcatrão, mas achavam que era para lhe conferir ainda mais resistência e evitar o apodrecimento. Porém, muitos trabalhos me haveria de dar, por ser uma cor clara que iria atrair os tubarões, que investiram por várias vezes. Também pintaram o nome do barco na ponte da pequena coberta da proa, bem como o símbolo da paz e do amor.

Fiquei com saudades dos dias que ali passei. Guardo boas recordações. A viagem de dia era espectacular mas de noite, o mar alterava-se e até cheguei a marear, devido aos fortes solavancos das vergastadas das vagas e aos cheiros das máquinas. Fui muito bem tratado. E, de facto, lá no barco, a faina era dura mas comia-se bem: a mesa era farta e variada, não faltava nada. Toda a gente se servia em torno de uma enorme mesa rectangular e comia o que quisesse e lhe apetecesse. A temporada era de seis meses e havia provisões em abundância. A jornada era dura mas era paga a dólares. Era uma autêntica babel. Sobretudo oriundos de América Latina.

Mais tarde, quando já não tinha nada para comer e água potável, de noite, até cheguei a sonhar com aquelas boas refeições, mas depois, quando acordava era a desilusão. Olhava para o fundo da canoa e estava completamente vazia: a fome no mar é cruel! Dois bidões de água já vazios, uma toalha, as velas, uma lona, a capa que haviam oferecido e só quase a roupa que trazia no corpo. No entanto, por vezes, o fundo da canoa era uma banheira. À noite sentia um grande desconforto. Fome, sede e ainda por cima dormir mal, é muito violento.

Felizmente que o contentor, onde guardava o gravador, a máquina fotográfica e o pequeno transístor, não tinha metido água e estavam salvaguardados. Porém, nos dias de maior abandono e fraqueza, cheguei realmente a arrepender-me não ter aceitado os conselhos daqueles bravos pescadores... Mas era tarde. Estava ao sabor das águas , aos caprichos da sorte. E não podia dar-me por vencido.



Decorria a época das chuvas e essa era a pior altura para se navegar numa canoa naquela zona. Ainda se fosse na Gravana: o tempo refresca, os ventos são constantes e não há tornados. Coincide com o Verão no Hemisfério Norte. No entanto, eu acreditava que, sendo largado um pouco a sul daquela ilha, na grande corrente equatorial - e bastavam mais umas 20 ou 30 milhas - que ficaria livre das maiores turbulências . Ele porém não me deu essa oportunidade. E colocou-me num dilema: "Ou fica a bordo a trabalhar ou a canoa tem que ser largada ao mar".

Na impossibilidade de navegar para Oeste, decide-me então por não abandonar a canoa e aproveitar os alíseos e as correntes que correm em direcção a Norte, na esperança de alcançar a Ilha de São Tomé e adiar a aventura para outra oportunidade. Só que, ao fazer isso, eu ia realmente apanhar, logo ao fim do primeiro dia e mal a noite havia caído, um violento temporal, que me fez perder a maior parte das provisões e dos apetrechos.

Eu já havia enfrentado tempestades semelhantes nas duas anteriores viagens (nos 3 dias São Tomé ao Principie e nos 13 de São Tomé à Nigéria), pelo que não era uma situação nova para mim: só que o tornado surgiu de repente ; eu não tive tempo de reduzir a vela e uma enorme vaga colocou-me de través, encheu a canoa de água, tendo perdido quase tudo: umas coisas tive que me alijar delas para aliviar o lastro, outras foram levadas pelo vento e pela fúria do mar.


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Estava agora a 22 dias, praticamente à deriva. Os remos improvisados, com barrotes do estrado e pedaços arrancados aos bordos da canoa, junto à popa, eram demasiado rústicos para poder navegar com o mínimo de condições. Eis de seguida, o registo de alguns dos momentos vividos nesse longo dia - afinal, um dia, cheio de dificuldades como tantos outros que ainda tinha pela frente.


De referir que, naquela região equatorial, o sol nasce às 5.30. TMG e põe-se às 17.30 da tarde: doze horas de dia e doze horas de noite.Praticamente não há alvorecer nem crepúsculo: a passagem da noite para o dia ou vice-versa, é quase repentina: às cinco da manhã, nas noites sem luar, é noite escura; meia hora depois, em céu limpo, quando a manhã surge descoberta, abre o dia e irrompe o sol glorioso do "fundo" das águas..


Dada a extensão deste post - a transcrição relativa ao 22º dia, foi transcrita para a postagem Náufrago 22.º dia -

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"COM A FÚRIA DOS VENTOS PORCELOSOS, NESTE ESTADO, E SEM LEME, E SEM PILOTO...Ó CÉUS PIEDOSOS!" c

Jorge Trabulo Marques - Jornalista - E antigo navegador solitário


  
E lá parti de calções e descalço, sem dinheiro no bolso, sem relógio e despojado de tudo; confiante de que a canoa seria o meu único soalho e o meu único abrigo e não me deixaria ficar pelo caminho. Todavia, sem saber por quanto tempo e os trabalhos que haveria de ter pela frente....Certo, no entanto, de que (à semelhança das duas anteriores viagens: de São Tomé à Ilha do Príncipe e São Tomé à Nigéria), haveria de encontrar dias e noites de paz e de calma (momentos maravilhosos!) e outros dias e noites de sobressalto, de tormento e agitação.


Sim, o mar palpita e freme, tem muitos humores, não é um corpo sem vida e morto - e junto à costa ainda é mais turbulento e nervoso. Eu ia mentalizado para tudo... Até para aceitar o naufrágio e a morte, se fosse essa a vontade do oceano... Mesmo que estivesse aflito, a ninguém podia implorar auxílio.... Batia-me por propósitos, estava disposto a encarar os maiores sacrifícios; não era uma aventura gratuita.. Isso encorajava-me! - O que eu não esperava é que tão cedo viesse a ficar sem mantimentos, sem leme e sem remos. Afinal, em boa parte, o mar deu-me aquilo que lhe pedi... O de demonstrar que as canoas podem ligar as ilhas com o continente, tal como o teriam feito os seus primeiros povos e, ao mesmo tempo, viver as mesmas ansiedades, incertezas e privações do náufrago e chegar a terra são e salvo - Mas, oh Deus!...A que preço!... E os prémios?!...


Como se não bastasse o tormentoso calvário... Por três vezes onde aportei, fui preso e encarcerado por suspeito e perigoso! - O mar fez-me sofrer imenso mas poupou-me a vida. E, se alguma vez pecara, trazia o coração atormentado mas liberto, os olhos cansados de tanto perscrutar as noites cerradas ou os agitados horizontes mas puros de espaço e maresia, tinha a plena sensação de que o meu sofrimento me reconduzira à idade da inocência e me libertara de toda a mácula. Porém, em terra, foi tal a vil desconfiança que sempre se abateu sobre mim, que cheguei a pensar se não foi um castigo infame e maldito ter chegado vivo a terra.. se não teria sido preferível ficar para sempre - morto ou vivo - sobre as ondas ou no fundo do mar..


Ora subia ora descia numa vertiginosa ascensão e descida. Não havia horizonte à minha frente ou à minha volta. Senão névoas, chuva e mar revolto, vento e cristas espumosas que rebentavam e se desfaziam... Covas profundas e picos de montanhas que, com a mesma rapidez que me elevavam, assim me faziam deslizar...Mas lá ia a frágil piroga - o madeiro escavado - rumo ao desconhecido e superando a fúria das ondas... De vela feita de panos de sacos de farinha e presa a um pau cortado no mato. Com um tosco remo improvisado, cravado nas agitação das águas, soprado por rijos ventos, enfrentando a tempestade... Mas as dificuldades eram imensas... Insano o meu esforço. Horas depois era forçado a desistir e a deixar a canoa à deriva. Meu Deus!...Como pude resistir a tanta provação!...E como aquele mar revolto não me tragou... E foram tantas e tão duras as tempestades...

ASPECTO DA CANOA NA MANHÃ DO SEGUNDO DIA

Havia-lhe adaptado à popa um leme mas saltara juntamente com os remos - Assolado por um violento tornado em plena noite, e vendo que havia necessidade de reduzir a superfície da vela, ao abandonar a cana do leme e correr para enrolar um pouco mais o pano, a canoa atravessou-se, encheu-se de água e uma parte dos víveres e bidões de água tiveram de ser lançadas ao mar para evitar que se afundasse.


Foram momentos indescritíveis!... Mas nem assim cruzei os braços.... Já sem remos e o leme, que desapareceram naquele primeiro embate e enquanto me dirigia à proa, arranquei então o mastro e pulo ali atravessado para conferir algum equilíbrio à frágil embarcação. O mesmo fiz com outro que dispunha de suplente. Um dos bidões (meio de água) amarrei-o por uma corda à proa e lancei-o borda fora para servir de âncora flutuante e evitar que ficasse atravessada à vaga. Depois tirei o estrado do fundo da canoa, pu-lo sobre a pequena ponte e coloquei-lhe o colchão de ar para o que disse e viesse. Na esperança de pelo menos poder sobreviver mais alguns momentos, caso fosse tragada ou destruída, pois não dispunha de barco salva-vidas ou de bóias.

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Mas, oh vã esperança!... Que destino teria sido o meu se uma outra onda galgasse o simples casco que me transportava e a minha estrelinha - se bem que escondida na opaca penumbra dos astros - não tivesse de mim piedade!... Ao sabor dos mais violentos balanços e na mais completa escuridão: ora iluminado e cego pelo clarão azulado e branco dos relâmpagos que rasgavam e fulminavam os escuros céus e incendiavam a negridão do mar, ora envolvido sob a mais densa e agitada mortalha de trevas, por estampidos que atordoavam os ares, à mercê do marulho ameaçador de montões e montões de espuma que se levantavam e se desfaziam borbulhantes por baixo e em torno de mim, alvejando, como ruidosos fantasmas, por entre a massa fluída ondulante e a encharcada e nublosa cerração!


Não, não há palavras para descrever aquilo que ofusca os olhos, agita e assusta o coração, quase asfixia os pulmões e atordoa e deslumbra de espanto e aflição: a alma, o corpo, os sentidos...A vastidão dos mares, quando irados por porcelosos vendavais, em noite escura como o breu, oh desgraçados daqueles que forem surpreendidos sozinhos e em frágeis balsas, em meros esquifes flutuantes, oh! se outro inferno existe depois da morte, talvez melhor sorte terão as almas que já por lá se debatem! - Resta-lhe a resignação à fatídica hora, a imagem da assombrosa expiação, mergulhados na beleza bravia e selvagem do cenário que os ameaça ou já os devora , ou então lutarem, como bravos, até ao último fôlego e nunca se darem por vencidos. Sim, que o desespero nunca seja a última causa do termo das suas vidas.


Popa da canoa - os bocados que faltam foram usados para improvisar dois remos.Um dos quais está ao lado do contentor e outro é o que se poderá ver noutra imagem mais adiante. Dado ter perdido a maior parte dos apetrechos e víveres, devido à violência do tornado, com que inesperadamente me confrontei na primeira noite


VÁRIAS TRAVESSIAS E PROVAÇÕES, EM PROL DA HISTÓRIA, DA CIÊNCIA E DA HUMANIDADE

O vasto Golfo da Guiné é, sem dúvida, um dos mares mais inconstantes e perigosos do oceano e onde existe toda a espécie de fauna marinha: ou há calmarias podres ou violentos tornados. Tudo isso é desgastante. À medida que os dias passam, as resistências físicas, também vão enfraquecendo. Se ao menos me pudesse abrigar! - Mas tenho que apanhar no corpo o sol e a chuva e o arrefecimento da noite. Sinto um grande desconforto. Dormir exposto à maresia e de estômago vazio é terrível! É algo que não desejo a ninguém. No interior da canoa não há água potável nem existem quaisquer alimentos.Nada, absolutamente nada para comer. Quando chove bebo água das chuvas; quando não chove alguma água do mar. Não mata a sede mas alivia algum sofrimento. O sangue do peixe não é salgado mas nem sempre os consigo apanhar.

- Imagem ao lado: bebendo um pouco de água do mar para matar a sede, que tanto me afrontava, sob 0 inclemente sol equatorial. Enquanto não chovesse não dispunha de outro recurso. E houve uma semana em que não caiu do céu uma gota de água. Imagine-se numa praia todo o dia, sem beber água!... Em pleno Verão... E no Equador, quando o sol abre, é mesmo a pino! Todo o ano!... Ainda se ao menos me pudesse banhar!... Mas havia o risco de a canoa se afastar e os tubarões - presença quase permanente - me atacarem. Mesmo assim, de volta e meia, vinham dar as suas investidas e rabanadas!... E lá tinha que os sacudir à machinada!

Oh Deus a sede é tão penosa! e tanta água em redor... Cheguei a mascar pedacitos de madeira húmida para que a boca não me ficasse tão seca. Mas é cruel a secura que me invade o peito, me faz arder a garganta e me aflige!...E lá tenho que mergulhar a tigela no mar.Vou bebendo uns golitos de vez em quando para não desidratar. Não é agradável mas mais sufocante é a sensação de não molhar os lábios e atenuar a secura que me apoquenta.

Ao cabo de quinze dias, fico sem anzóis. Foram cinco os tubarões que ainda pesquei! Mas agora só os posso ver...As rémoras colaram-se com a sua ventosa no fundo da canoa e comeram os iscos todos. Trincavam a linha e levavam também o anzol. Vou-me valendo de alguma ave (quando aqui vêm pernoitar) e a consigo apanhar - só têm penas e ossos, são autênticas carcaças... É uma dor de alma sacrificá-las mas a necessidade assim me obriga - Vou-me também esforçando por apanhar algum peixe à mão.. Passo horas ajoelhado, com os braços recostados na borda da canoa, à espera dos que vêm catar os moluscos que se vão colando à madeira exterior. Espero a minha oportunidade como eles procuram a sua - mas, geralmente, eles são mais rápidos de que eu e levam a melhor... O mar é o seu meio natural e lá vão e vêm à sua vida...

Esta situação é também um sinal preocupante: como a canoa anda à deriva, as vagas, ao empurrarem-na, vão-na deteriorando. Será que vai resistir? - É a grande preocupação e incerteza de todos os momentos. Pois não disponho de remos, perdi-os: saltaram borda fora com a violência de um tornado e os que improvisei, com pedaços da cobertura da canoa e uns barrotes que extraí do estrado e de um mastro, exigem-me um esforço sobre-humano, extremamente penoso. De seguida, alguns passos do meu diário.Cujo gravador, felizmente, pude preservar no contentor



.Construção da piroga








Breves excertos do Diário nos últimos dias


TRIGÉSIMO SEGUNDO DIA


De noite choveu ligeiramente. O mar, a partir de certa altura, mostrou-se cavado! Tentei pôr uma vela mas, visto estar bastante agitado, tive que a voltar a tirar... Esta manhã verifiquei a existência de pequenas ervas e paus... Também observei a existência de uma garça... Portanto, tenho a impressão de que estou realmente muito próximo da praia.

Já comi qualquer coisa. Aliás comi a ave que ontem apanhei. Não tenho já o estômago tão vazio. Espero que a minha canoa continue a portar-se bem. Pois, como já disse algumas vezes, está desequilibrada, mete cada vez mais água, pois tem várias rachas.

Não sei neste momento que horas serão... Serão aí umas tantas da tarde...A verdade é que, desde há quatro ou cinco horas, enfrentei sucessivas chuvadas! Estou todo encharcado... Estava convencido que estava muito próximo de terra... Neste momento não sei onde me encontro... Não sei se a trovoada me favoreceu ou não...

Já tenho que comer, meu Deus!... Mas que coisa mais saborosa! ... Tão maravilhosa!... Isto é obra de Deus não foi outra coisa!... Eu vi-o realmente à distância!... Eu não acreditava que ele passasse junto da minha canoa!... e veio realmente a ter à canoa!... É um belo coco! Tinha água e tem uma bela amêndoa! Estou a comê-lo! Estou a tentar a matar a fome com ele!... Para mim foi a melhor oferta! ...Não podia ser outra coisa!... Não sei donde veio! Mas a verdade é que ele veio ao meu encontro! Ele veio ajudar a preservar a minha vida!... Estou muito satisfeito com este coco!...


Gulf of Guinea....38 days adrift in a canoe in the Gulf of Guinea


TRIGÉSIMO TERCEIRO DIA


Passei uma noite exaustiva!... De chuva!... E a manhã continua com um mar cavado! com muita ressaca!... Há vento!.... E eu sem ver a costa de África!... Estou muito fraco! Ainda não comi nada!... Estou cheio de fome!... Não vejo terra!...Estou realmente bastante.... não direi desmoralizado.... mas abatido moralmente..... Sim, não estou desiludido... Tenho fé que hei-de ir ter a terra! Mas, sinceramente, tenho tido tanta calma, tanta perseverança... no meio de tantos perigos! ... de tantas dificuldades... Se não fosse assim, talvez já não existisse!..







TRIGÉSIMO QUINTO DIA


Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa...
Estou exausto! Bastante fraco!...Sinto realmente uma fraqueza muito grande... no corpo... dor de costas, dor do estômago... mas estou a ver se aguento, com toda a paciência, estes sacrifícios todos... O fundo da canoa está cheio de água!


Devem ser aí umas duas ou três da tarde do 35 dia.. .Estou completamente exaurido!... Não tenho nada na barriga. O meu estômago é um saco de fole! Há uma fraqueza geral em mim!... Eu sei que as palavras que tenho pronunciado são poucas... Tenho-me remetido a um autêntico silêncio mas há uma confiança inabalável em mim.




Ao sabor das ondas...


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Peregrino do mar e da terra - em demanda da claridade e do conhecimento.


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Quando me deitava no estreito fundo da canoa, era tal qual a imagem do Cristo que vêm no vídeo e que tomei a liberdade de aqui reproduzir.. Era também a imagem de um sofrimento de aceitação do meu calvário: de um tormento doloroso mas resignado, a que tinha que me resignar com suave, infinita e paciente aceitação....A beleza ou a fúria do mar - que também é bela - e os objectivos a que me tinha proposto, valiam todos os riscos e até o sacrifício supremo da minha vida.

Mar majestoso e ameaçador - Quanto maior é a nau, maior é a tormenta. A minha canoa era uma casca de noz à flor das águas. E lá ia subindo e descendo. Mas os grandes barcos são fustigados pelas vagas e nem sempre são poupados: Vi uma vez um barco no horizonte e pensei que ainda corria mais riscos de que eu.


NÁUFRAGO VOLUNTÁRIO - PROSSEGUINDO A EXPERIÊNCIA DE ALAN BOMBARD E DEMONSTRAR A POSSIBILIDADE DAS ILHAS DO GOLFO DA GUINÉ TEREM SIDO LIGADAS ATRAVÉS DE PIROGAS PRIMITIVAS, COM O POVOAMENTO ORIGINÁRIO DO VIZINHO CONTINENTE


Não levava meios de comunicação com quem quer que fosse. Nem tão pouco um foguete para ser sinalizado e pedir socorro. A missão assim mo impunha. Tal como tive oportunidade de referir em anteriores textos, foram três as aventuras marítimas: a primeira foi a travessia de São Tomé ao Príncipe. Larguei à meia-noite, clandestinamente, pois sabia que, se pedisse autorização, me seria recusada, dada a perigosidade da viagem, levando comigo apenas uma rudimentar bússola para me orientar. Fui preso pela PIDE, por suspeita de me querer ir juntar ao movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, no Gabão. Levei três dias e enfrentei dois tornados. À segunda noite adormeci e voltei-me com a canoa em pleno alto mar. Esta era minúscula e vivi um verdadeiro drama para me salvar, debatendo-me como extrema dificuldade no meio do sorvedouro denegrido das águas.


Cinco anos depois, numa piroga um pouco maior, fiz a ligação de São Tomé à Nigéria. Uma vez mais parti sem dar a conhecer os meus propósitos, ao começo da noite, servindo-me apenas de uma simples bússola. Ao cabo de 13 dias chegava a uma praia ao sul daquele país africano, tendo sido detido durante 17 dias por suspeita de espionagem, após o que fui repatriado para Portugal. Os jornais nigerianos destacaram em primeira página o feito.

O que leva um homem sozinho a enfrentar o Mar? - Largando numa piroga apenas munido de um bússola para se orientar e sem a menor possibilidade de comunicação com o mundo exterior?... - No meu caso, várias razões: o apelo da aventura, a necessidade de um profundo recolhimento de ordem espiritual: a convicção de que, posto perante a grande solidão do oceano, poderia sentir ainda mais de perto a presença de Deus, questionar-me, reflectir, ter a percepção mais lúcida e profunda da origem e o sentido da vida e os seus mistérios. Porém, o que pesou, essencialmente, foram razões de ordem de cientifica, histórica e humanitária.

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Conforme já tive oportunidade de referir em anteriores textos, os objectivos das várias travessias que empreendi, em condições de extrema precariedade, de todo exposto à bondade ou à cólera dos elementos, visavam demonstrar a possibilidade de antigos povos africanos terem povoado as ilhas, situadas naquele Golfo, muito antes dos navegadores portugueses, ali terem chegado, contrariamente ao que defendem as teses coloniais, que dizem que as ilhas estavam completamente desabitadas - E a verdade é que, entretanto, já foram encontradas antigas cartas em arquivos, do tempo dos árabes, que provam, justamente, esses contactos com povos que, de há muito, ali viviam.

Factos históricos que, de modo alguém, poderão pôr em causa o mérito dos arrojados marinheiros.
É que nem sequer se pode colocar a questão de que a história deliberadamente ocultou ou mentiu. Ainda hoje, quem se aproxime das ilhas, tal é a densa vegetação que as cobre que, a primeira sensação que se tem, é que são unicamente cobertas de florestas e que ninguém lá vive: e quem é que, vivendo tranquilamente numa ilha, se vai mostrar a intrusos, dos quais se desconhecem as suas reais intenções?!.... E, ainda para mais, completamente estranhos à cor da sua pele , ao seu modo de vida e à sua cultura - quais marcianos vindos de outros planetas! - E estranhos ainda aos meios de navegação com que se aproximavam!....Por outro lado, também é certo que a história foi sempre contada de acordo com os pontos de vistas e as conveniências de quem a narra.


Mesmo assim, a história deixa algumas pistas. Basta ver que, algumas décadas depois dos primeiros colonos ali se haverem estabelecido, estes foram de tal maneira repelidos pelos "angolares", que obrigaram que a capital fosse transferida para a Ilha do Príncipe. Trata-se de uma etnia, que nunca aceitou a miscigenação e a ocupação das suas terras, organizada e regida por rei, com fortes ligações ao mar e à pesca - que a colonização, sem fundamento e comprovação fidedigna, remete para as origens de um hipotético negreiro naufragado ao sul da ilha.


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Regressado a São Tomé, ainda no mesmo ano, e já com São Tomé e Príncipe independente, tentei empreender a travessia ao Brasil, com o propósito reforçar a minha tese, evocar a rota da escravatura através da grande corrente equatorial e contribuir para a moralização de futuros náufragos, à semelhança de Alan Bombard. Segundo este investigador e navegador solitário, a maioria das vítimas morre por inacção, por perda de confiança e desespero, do que propriamente por falta de recursos, que o próprio mar pode oferecer. Era justamente o que eu também pretendia demonstrar - Navegando num meio tão primitivo e precário, levando apenas alimentos para uma parte do percurso e servindo-me, unicamente, de uma simples bússola, sem qualquer meio de comunicar com o exterior, tinha, pois, como intenção, colocar-me nas mesmas condições que muitos milhares de seres humanos que, todos os anos, ficam completamente desprotegidos e entregues a si próprios - Porém, quis o destino que fosse mesmo esta a situação que acabasse por viver.


Nunca sabia em que ponto do mar me encontrava: apenas dispunha de uma modesta bússola para me orientar. E também do sentido das correntes, do percurso aparente do sol e da posição das estrelas, quando as nuvens não encobriam o céu - diurno ou nocturno.


Eu vos recordo e evoco! - Destemidos pescadores,
que, diariamente, na árdua faina
do vosso sustento e das vossas famílias,
sozinhos partis por esse mar de Cristo,
não olhando a dificuldades,
não olhando a adversidades,
arrostando incertezas,
enfrentando
toda a sorte de ameaças e perigos!


E também a vós, oh mares do sofrimento e acolhedores.
das epopeias anónimas e das tragédias ignoradas,
dos destinos sem rasto e sem história! - Quantas vidas,
quantas?! - Ó mares antigos e do presente! -,
Quantas, já não destroçastes a esses humildes pescadores?!...

LUÍS DE CAMÕES E OS LUSÍADAS - JÁ NO TEMPO DAS CARAVELAS O GRANDÍSSIMO GOLFÃO INFUNDIA OS SEUS TEMORES E INSPIRARA O GRANDE POETA ÉPICO...


Os bravos marinheiros que chegaram ao Golfo, em 1470, valeram-se unicamente da bússola e do sextante.Também não iam lá muito bem equipados...A costa africana já havia sido percorrida por fenícios e árabes e já então havia mapas com nomes da costa e das ilhas, sabe-se agora. O que se desconhece é se eram do conhecimento da coroa de Portugal. Ficando assim justificadas as razões que me levaram a questionar a origem do povoamento das Ilhas do Golfo. A demonstrar que as pirogas, mesmo frágeis e, até, com um só homem a bordo, podem resistir muitos dias e ligar as ilhas e o continente; sim, podem ir ao cabo do mundo: é terá sido através destes meios de navegação, que os primeiros povoadores, vindos do vizinho continente africano e bem mais próximos de que os europeus, ali terão chegado.


AS (RE)DESCOBERTAS E A COLONIZAÇÃO


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Claro que, quem patrocinou as navegações, não o fez movido simplesmente pelo espírito de aventura, mas na mira do ouro, de especiarias, madeiras e de outras riquezas - E, porventura, até já estaria informado - ou através de antigos planisférios ou por outras vias - de que existiam riquezas noutras paragens, a sul ou além das costas que bordejavam o pequeno território. E o continente africano não seria de todo desconhecido ao Infante Dom Henrique, escolhendo, justamente a ponta mais ocidental da costa algarvia, Sagres, para fundar a sua escola de navegadores. .

Obviamente que aqueles que partiam: uns forçados outros por vontade própria, ambos acalentavam os mais díspares sonhos. Do impulso da aventura, ao enriquecimento rápido e à fortuna fácil. À audácia destes, sim, mesmo que partissem apenas movidos por intuitos materiais, eles foram os grandes heróis: à coragem e temeridade de pilotos e marinheiros, ficaram a dever-se as grandes e arrojadas viagens marítimas: o terem dado a conhecer a Portugal e à velha Europa, a existência de novas terras, outras gentes e novos mundos! - Porém, o que depois sucedeu: o período da escravatura e da colonização, TRÁFICO DE ESCRAVOS o mais cruel sistema de exploração colonial e de esclavagismo, a que deram lugar as descobertas ou redescobertas, tráfico fomentado e explorado sob várias bandeiras, sem dúvida, embora já tivesse raízes bem fundas no passado, é a grande mancha negra na História da Civilizações e da Humanidade A escravatura.........História da Escravatura..

Resta, pois, enaltecer e admirar o espírito quinhentista: daqueles navegadores e marinheiros que, pela primeira vez, se confrontaram com o mar bravio e desconhecido, com a toda a sorte de ameaças e de perigos - Mais deles, jamais regressados aos seus lares, à sua pátria e por lá perdidos, tragados nos vendavais e remoinhos infernais das águas.
E o mítico golfo, quer hoje, quer nesses lendários tempos das naus e das caravelas, continua a ser o imenso palco, a grande e misteriosa amplidão, sulcada por fortíssimos tornados ou acalmada por vastas planícies liquidas a perder de vista, onde o belo e o maravilhoso, vivem a meias com a tragédia e destruição. - Camões, poeta e aventureiro, andou por lá, com os seus olhos rasos de mar, a sensibilidade solta e à flor das águas e a quem os feitos e as cousas ousadas, que tanto o maravilhavam, não passavam despercebidas: por isso, não deixou de o citar e cantar nas extraordinárias epopeias dos seus "Lusíadas"


"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
No grandíssimo gólfão nos metemos,
Deixando a serra aspérrima Leoa,
Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas que ali temos,
Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou".
Os Lusíadas - Canto V.







OH! QUANTAS VIDAS ALI NÃO TERÃO MORRIDO! QUANTAS AS NAUS ALI NÃO TERÃO DESAPARECIDO!.... QUANTOS NAUFRÁGIOS DE PEQUENOS OU GRANDES BARCOS - DE PESCADORES E OUTROS MARINHEIROS, - JÁ NÃO TERÁ HAVIDO!...


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Fernando Pessoa
Não à guerra mas paz eterna a todos os marinheiros que perderam a vida nos mares... Desde as mais primitivas embarcações à actualidade. Para eles, as orações expressas neste vídeo.

No war but eternal peace to all sailors who lost their lives in the seas ... Since the earliest boats to the present. For them, the prayers expressed in this video.

SONETOS
de António Dinis da Crus Silva



XXVI


Agora que o Sol vai para o Ocidente
Os seus brilhantes raios inclinando,
E um doce e fresco Zéfiro apresento;


Agora que nas grutas, que a corrente
Do Tejo pouco e pouco vai cavando,
Os molhados chinchorros pendurando,
O lasso pescador dorme contente.


Saiam de perto as ânsias, que recata
Há tanto tempo nele o sofrimento,
Só por não ofender quem maltrata.


Mas onde me transporta o sentimento?
Se é tão sublime a causa, que me mata,
Que inda sou devedor ao meu tormento!.




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XI


Vem, oh saudosa Tarde, vem voando
Suavemente pelo ar sereno
Com as compridas asas mitigando.


Por tuas vitrais auras suspirando
Estão as flores desde prado ameno;
E sem forças deitado sobre o feno,
Bala o gado por ti de quando em quando.


Toda a selva te aguarda impaciente;
Mas Elpino inda mais, que os resplendores
De Licori por ti verá contente:


Ah! Vem Tarde feliz, não te demores;
Que dum tenro cordeiro o sangue quente
Tua Ara banhará cheia de flores.

terça-feira, 29 de junho de 2010

CANCÃO DO MAR DE DULCE PONTES E MAR AZUL DE CESÁRIA ÉVORA - EM MEMÓRIA DAQUELES QUE NAUFRAGARAM NAS PROFUNDEZAS OCEÂNICAS




Dulce Pontes - Canção do Mar


Breves excertos do Diário registado num pequeno gravador, guardado num contentor do lixo - o meu baú)

Décimo Quinto dia

É uma hora da tarde do 15º dia. Está um calor abrasador!...Uma calmaria muito grande! Não há praticamente vento! O que pode ser mau sinal porque, quando assim o tempo está calmo, normalmente segue-se um temporal violento!..De tempestade!... De ventos fortes.

Apetecia-me realmente beber água... E tomar um banho fresco! Sim, mas é impossível aqui neste mar...Há muitos tubarões em volta, muita fauna marinha que não me convém visitar... Mas o céu está totalmente descoberto. O mar de um azul muito claro. Há por aqui algumas aves que andam a voar à procura de peixes...Eu sempre na mira de ver terra!


Hoje avistei duas grades baleias!...aqui próximo da canoa e um tubarão monstro! Um tubarão muito grande! Que andou aqui a voltear a canoa de um lado para o outro...Os pequenos tubarões, esses, continuam a todo o momento. Pois até já pesquei dois.

Há uma serenidade!... Só se vê mar! Absolutamente mar! Mar e mais nada! ... a minha canoa a vaguear, a vaguear!... Eu não sei onde estou... Não sei!... Mas não estou desesperado! Não perdi a confiança!... Estou emocionado, com certeza!... mas continuo confiante!... Realmente o homem!... Eu acho que o homem é precisamente nestas circunstâncias que ele se superioriza a si próprio....o seu espírito se enaltece!...

Há qualquer coisa de místico!...Ontem! No meio daquelas ondas!!...alterosas!...De vez em quando uma ou outra entrava com alguma água dentro da canoa!...Eu sentia-me ao mesmo tempo pequeno e gigante!... Pequeno! no meio de tanta grandeza!... E gigante! por vencer tamanha força!.








Náufragos! - Meus irmãos da desventura!

Náufragos! - Irmãos do sofrimento e do infortúnio!
- De todos os mares, em todas eras e em todos os tempos!...
- Filhos das vagas! Do tumulto das trevas
e do bramido dos ventos!... - Aves perdidas de asas cortadas
na fulminada irrupção da noite!... - Erráticos duendes
à deriva no pavor das tempestades!
Fantasmas peregrinos, vogando assombrados,
atordoados, vogando balanceados à toa
num silêncio antigo, vertiginoso!
- Em demanda de um pouso,
duma tranquila enseada,
dum acolhedor porto de abrigo!...

Em Vós, e no meu coração, a angústia das longas horas de vigília,
ansiosamente aguardadas, interminavelmente vazias, em vão!...
- Em vós, o cerrado horizonte!... O inesgotável círculo!...
Sempre à frente dos olhos, a um escasso palmo da mão!...
- Todavia, sempre mais além
da fronteira da vida,

da outra margem que a separa,
do que aquém..
.

.








MAR AZUL - Cesaria Evora


..
Yemanjá - Rainha do Mar.

Náufragos, meus irmãos!
Afinal, irmãos de todos os homens,
de todos os seres e de todas as coisas!
Tal como vós, fiz do meu pequeno barco
o mesmo lar no grande mar!...
E, através das suas ondas
rugidoras de presságios,
se não tive a vossa sorte,
quantas vezes não naveguei e aspirei,
em cada espuma, em cada noite cerrada,
em erma e afrontosa bruma, um perfume salgado de morte!...