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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

AO MAR SOZINHO, GUIADO PELOS ASTROS E PELO INSTINTO DAS AVES

 MEU TRIBUTO POÉTICO AO PINTOR OLAF NORDLIEN (1864-1929)  E À EPOPEIA VIKING   - c

Obra de  Olaf Nordlien - Propriedade do devaneio íntimo  no meu humilde lar
 MEU TRIBUTO AO PINTOR OLAF NORDLIEN E À EPOPEIA VIKING


"Amargo é o vento hoje à noite

Atira os cabelos brancos do oceano

Esta noite não temo os guerreiros ferozes da Noruega

Percorrendo o mar da Irlanda »

Antigo Poema Irlandês

OLAF NORDLIEN  - 1864 - 1929  -  O PINTOR NORUEGUÊS QUE VIVEU OS ÚLTIMOS ANOS DA SUA VIDA NUMA  MODESTA CABANA À  BEIRA MAR E COMPÔS ALGUNS DO SEUS QUADROS INSPIRADO NA SAGA VIKING

Olaf Nordlien - Foi um pintor norueguês do final do século XIX e início do século XX, que viveu, entre 1864 e 1929, tendo passado os últimos anos da sua vida numa cabana à beira mar - Tenho o prazer de possuir uma das suas telas, a primeira destes dois quadros e  de  a poder ter nas mãos e a contemplar .
A BBC já lhe dedicou um extenso e aprofundado documentário,  retirando-o, de algum modo, do esquecimento a que parecia votado. 

É dito que  ele  "pintou principalmente imagens de paisagens e paisagens marítimas puras. Sua obra mostra paisagens de montanhas e árvores predominantemente desertas: Nordlien pintou paisagens com montanhas cobertas de neve, lagos claros e cachoeiras trovejantes inspiradas pela grande natureza escandinava - de vez em quando há pequenas casas que testemunham a existência do homem. Basicamente, a gama de cores dos artistas é guiada pela realidade, com variações de tons mais brilhantes e mais escuros de suas pinturas”

Obra de  Olaf Nordlien

Tenho uma profunda admiração  pela saga Vikings - Contam-se fantásticas e varridíssimas  histórias sobre a sua audácia!!.. Quão arrojados não foram esses navegadores!... Em mares tão bravos e frios do Atlântico Norte! - No entanto, eles fizeram longas distâncias, introduzindo novos métodos da navegação, ousaram enfrentar dificuldades inauditas  - Povoaram várias regiões, desde a Europa à América. Contam-se mil histórias, associando-os ao saque e à pirataria nos mares - Bom, essa uma questão algo dúbia. Pois, em boa verdade, não é muita clara a fronteira, onde acaba a realidade e começa o mito ou a  ficção - Diga-se o que disser, eles foram corajosos marinheiros - E, só por esse facto, merecem a minha maior admiração.


POETAS E GUERREIROS  -  É dito que os “vikings recitavam poemas em campos de batalha. Na hora do combate, enquanto alguns treinavam, outros improvisavam versos. Criar estrofes e recitá-las era considerado uma habilidade do homem nórdico e estava presente do café da manhã ao jantar. Qualquer situação era motivo de declamar. O historiador islandês medieval Snorri Sturluson da Edda em Prosa, considerada a maior fonte literária da mitologia nórdica, descreveu episódio na Saga de St. Olaf, datada de 1230, um episódio que ilustra bem esse apreço. Logo antes da batalha de Stiklestad, em 1030, o rei Olaf 2º, da Noruega, pediu ao poeta do reino recitar alguns versos. Foram tão épicos que os sobreviventes agradeceram ao poeta por ter levantado a moral da tropa antes da derrota (o rei foi morto). A poesia eddaica tinha enredos envolventes em estrofes curtas, gravadas em pedras e pedaços de madeira. Os nórdicos tinha um incrível poder de concisão. http://celtic-vikings.blogspot.com/2015/05/guerreiros-poetas.html









A SÓS À FLOR DO MAR
Sozinho perante tão extrema  grandeza marítima, 
tão imensa e misteriosa amplidão 
e ser-se ao mesmo tempo
  extrema fragilidade e ínfima pequenez, 
é, sem dúvida,  coragem, triunfo e arrojo 
às adversidades da  inóspita natureza!...

Sede insaciável de se ser bafejado pela luz mais clara e pura dos astros!
Voar como ave perdida pelos vastidão infinita dos espaços! 
Errar como um vagabundo pelos mares de todo o mundo!
Instantânea e antiquíssima harmonia! Voluptuoso jorro de energia! 
Lufada fresca, vivo e perene rasto a divindade! 



Levado a sós por genuínos impulsos de aventura,
pensamentos insondáveis, chamamentos 
de bravura ocultos, inimagináveis!
É o aspirar da palavra solar, 
ter por companhia,
o ritmo, a graça, a melodia
o deslumbramento dinâmico do anelado azul,
a vibrátil claridade.
A conjugação de  todas as ânsias reprimidas
na esteira de se  alcançar, num só desejo, numa só vontade,
os limites do inatingível, a margem 
do insuperável e do sobrenatural!

Percorrendo vastas planícies salgadas em turbulentas águas,
deixando para trás preocupações triviais, ódios mesquinhos.
Mesmo que a ousadia  condene a viver um só instante de eternidade,
oh, sim! vale a pena viver o sublime,
correr o risco e a temeridade.
Decifrar  os enigmas do incognoscível
estar ao mesmo tempo dentro e fora da verdade,
dos misteriosos limites que comandam os desígnios 
da morte e da vida.

Navegar sozinho, sem outros meios náuticos de navegação,
com o destino completamente à mercê de um  errático acaso,
ao sabor do imprevisto e do filtro do instinto,
 perdido entre o vento, o olvido 
e as espáduas do esquecimento,
oh! não é temeridade vã, inútil o laço da solidão! 
Mas o desejo porfiado e ardente em decifrar 
os calmos  e febris prodígios do desconhecido, 
a busca incessante do oiro na sua essência,  
no seu estado original, ainda incandescente
a procura dos silêncios visíveis 
dos sons puros na grande imensidão,
no seu estado selvagem, verdadeiramente inocentes!
 Vozes, rumores e murmúrios de todos os tempos
que  soem e repercutam ecos
de invulgar pureza e  libertação!

 Guiado pelos astros e pelo mesmo instinto das aves
- tal foi o meu caso: uma  Bússola
dá uma ajuda mas não indica o lugar.
 Os Vikings  usaram a Bússola Solar Mais nada.
Todavia, dominaram  os mares no seu tempo.
Leituras  satélite por GPS, informações astronómicas, 
a posição exacta a qualquer hora:
a latitude e longitude da  rota.
Instrumentos náuticos, esses, só os grandes barcos, ao largo!
- Vi alguns mas não me viram a mim - Eu não era nada.
Até ia perdido, prisioneiro de um incerto e amargo destino -
E eles, os pilotos sem os instrumentos a bordo?!...O que seria deles?!..
Mesmo assim, talvez se sentissem menos livres
e mais prisioneiros do que eu!..

Ir sozinho para o mar, é partir 
em demanda dos mais ténues rumores e labirintos sagrados!
Saciar a  fome da floração silenciosa, da vagabunda dança de um sopro íntegro  
de fulgor furtivo de sabedoria e pureza. 
É fazer-se ao mar e navegar  sem contrapartidas seguras à partida
e não ter qualquer  certeza de paisagens imaginárias ou reais à chegada!..
É a transparente e claríssima sede de nostalgia dos mais puros céus!
É viajar na senda dos séculos passados, eras volvidas 
ou dos que ainda  hão-vir por  vontade de Deus.


Apelar ao instinto animal (que raramente se engana, tal como o da ave)
É vidência!  Deslumbramento! Itinerário transfigurado.
É trocar o certo pelo incerto
- Sem todavia saber que próximo futuro o aguarda,
a que portos  poderá  arribar,
que enseadas de ilhas frondosas o esperam, 
que  recortes de orlas vai contemplar,
que escolhos vai ter pelo caminho,
que perigos e ameaças
lhe poderão interromper a viagem.

 

Largar tudo - os horários, a família, os amigos, 
a tranquilidade de um lar - e partir 
mar fora numa frágil piroga
ou até em barcos maiores e bem equipados, 
singrando o ondulante manto líquido, 
trocando o certo pelo incerto, o desconhecido,
não receando os revés da ousadia e  a má sorte,
não temendo as partidas da omnipresente imagem da morte,
alheio a tudo: às inesperadas variações dos ventos,
à dança e contra-dança de correntes poderosas
súbitos vendavais, "súbitas trovoadas temerosas!"


Navegar sobre as ondas encapeladas,
ir de velas enfunadas, é sentir a alma rubra!
Alheia aos perigo que rondam por toda a parte,
subindo ou imergindo 
dos insondáveis abismos! 
 Navegar à flor das águas agitadas é ter  por companhia
a menos de um palmo ou da grossura de uma tábua,
a cova funda e horrível da mais funesta e imensa sepultura
. 
Deixar, enfim, que o mar e o vento cumpram a sua palavra!
Não pensar em horários nem perder tempo em coisas banais
Ser sonho ousado que se cumpra e nada mais!

Jorge Trabulo Marques 


A terra natal dos Vikings era a   Noruega,Islândia , Suécia e Dinamarca. - Uma das figuras que ainda hoje mais admiro, naqueles países, é o noruguês Thor Heyerdahl - Já expliquei (noutro post) as razões pelas quais ele influenciou as minhas travessias, -  porém,  volto aqui a reproduzir a breve nota.



CÉLEBRE EXPEDIÇÃO DE THOR HEYERDAHL – KON-TIKI - INCENDIARAM A MINHA IMAGINAÇÃO. - Thor Heyerdahl é uma das minhas referências e um dos meus míticos heróis .

Os relatos da expedição do norueguês Thor Heyerdahl no seu livro "A Expedição Kon-Tiki -, verdadeiro clássico da literatura de viagens , exerceu em mim um profundo fascínio .Não apenas pelo ousado espírito de aventura, mas sobretudo pelo realismo e consistência científica, com que pretendeu demonstrar as suas investigações.
Numa jangada de pau-de-balsa, reprodução exacta às das jangadas índias feitas na América do Sul desde os tempos da pré-história, Heyerdahl partiu de Callao, no Perú, com uma equipa composta por seis homens para as ilhas Tuamotu da Polinésia , percorrendo mais de 8000 Km, ao longo de três meses.


"Quando os primeiros europeus se aventuraram a atravessar o maior dos oceanos, descobriram com espanto que, exactamente no meio dele, existiam ilhotas montanhosas e recifes de coral liso, em geral, segregados uns dos outros e do mundo por vastas áreas de mar. Cada uma destas ilhas já era habitada por povos que aí haviam aportado antes dos europeus"
"Sabemos, com absoluta certeza, que a primeira raça Polinésia deve ter vindo em alguma época, espontaneamente ou não, ao sabor das águas ou com a força das velas de uma embarcação qualquer, até essas ilhas longínquas" diz o autor da Kon-Tiki, no seu livro
"(...) "De onde podiam ter vindo essas levas tardias de emigrantes?" (...) Falavam uma língua que nenhum outro povo compreendia” (...) Como e quanto teriam erguido as suas pirâmides e estátuas?!. Do livro A Expedição Kon-Tiki  
Estas foram as questões que levaram Heyerdahl a organizar a célebre expedição Kon-tiki, . Com esta expedição buscava provar que as ilhas do Pacífico poderiam ter sido povoadas a partir da América do Sul. Fez um estudo das correntes marítimas e dos ventos dominantes e de alguns aspectos culturais similares, concluindo que o povoamento da Polinésia só poderia ter sido feito a partir do leste, contrariamente à clássica teoria que defendia as migrações a partir do sul da Àsia, uma vez que, as 5000 milhas que supostamente teriam que navegar, sendo contra as correntes, constituiriam uma façanha pouco provável
.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

DIA DOS FINADOS - AOS MORTOS NO MAR... Aos milhares de vidas que foram sufocadas e tragadas pela violência das ondas salgadas ou sentiram o tormento imenso da sua afronta nas vastas planícies oceânicas


Jorge Trabulo Marques - Jornalista e antigo navegador solitário

 

25ª DIA
"Sinto-me muito cansado, cheio de sede. Estou sem água das chuvas.. Mas vai-se aguentando com paciência... Vai-se aguentando!..."

(...)Sim,  leve e doce é  o silêncio neste dia de calma!...
Todavia,  grande é a dor e o tormento,
nestas longas horas solitárias!...
Nestes longos momentos de  ausência
e de infinito cansaço da minha alma!..


Se ao  menos, em todos os pontos do imenso círculo,
 que se estende a perder vista à minha volta
se escancarassem  todas as janelas do mundo?!...
Se abrissem todas as portas dos recantos da Terra?!...
- Para que eu, de tão longe, pudesse  ver- vos....
 – ó remota e tranquila  aldeia donde  nasci!... –
alcandorada e de asas abertas, como ave branquinha,
pousada  nas graníticas  quebradas
do longínquo planalto!...

– Oh, como eu gostaria  de te  ver e que tu me visses
 também a mim, com os teus próprios olhos,  sempre abertos
 à Terra inteira  e perpétuamente voltados
 ao  imenso Universo!!..

- Sim, estou arredado de tudo!... Ninguém  sabe onde estou!...
Ainda se ao menos pudesses imaginar  o caminho por onde eu ando
- ó amável saudade! -  ou pudesses adivinhar  o errático destino
que eu trilho e para aonde eu vou?!... – Oh, acredita!..
 Já me sentiria  muito  feliz!...Mesmo que algum tornado
me fizesse  desaparecer no meio do seu torvelinho!!.. 
– oh, testemunho querido do meu berço!
-  Tenho a certeza  que, nesse crucial  momento,
eu  não estaria tão sozinho!. Creio que os vossos olhos
estariam tão turvos de sal e  rasos do mar como os meus!...

.



(...)Descansa coração, angustiado!... Descansa!..
Sê paciente, acalma-te!... Não desesperes!...
Afinal não é isto o que tu procuras?
Não é isto o que tu queres?!...
Não foi esta a missão a que te impuseste?!...
- Transcende-te e ultrapassa os limites do impossível!
Não é este o teu sonho?!.. Oh, sim... aproxima
as tuas batidas  com as do coração dos anjos
e, tal como eles, torna-te invisível!...
-Eu sei... Eu sei!...coração amigo!...
No fundo é o que tu desejas... e  tens conseguido!...
Sim, não vês que o vínculo que há em ti
entre o passado e o presente
é o mesmo que a distância
que vai agora de ti ao futuro?
...inexistente!...
 
 
EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE - NÃO RARAS VEZES A TRAGÉDIA BATE À PORTA DAS POBRES PALHOTAS
DOS CORAJOSOS PESCADORES DAS FRÁGEIS PIROGAS - FUI 
TESTEMUNHA DE ALGUNS DESSES INFAUSTOS EPISÓDIOS
 
TÃO FREQUENTES NAQUELAS MARAVILHOSAS ILHAS DO MEIO DO MUNDO

Pescadores são-tomenses desaparecidos podem ter morrido 
20 Janeiro 2005

"As autoridades marítimas
são-tomenses receiam pelas vidas dos dois pescadores da zona de Neves
ainda desaparecidos, que faziam parte dum grupo inicial de seis que
se perderam no mar devido à bruma.

No último fim-de-semana, o nevoeiro atenuou e permitiu a um avião da
força aérea portuguesa fazer uma missão de busca e salvamento para
localizar os seis homens.

Mas algumas fotografias tiradas pelo avião mostram pelo menos duas
canoas, ambas partidas ao meio.
 
 (...)Ainda traumatizados, António Filipe e seu filho Geraldo recordam os
momentos aflitivos que viveram no mar.

Dizem ter passado momentos angustiantes no mar durante sete dias e
sete noites sem comida nem água e obrigados, por isso, a comer peixe
cru e a beber ou a água do mar ou a própria urina.

Tinham partido para o mar a 10 de Janeiro passado, mas o manto de pó
branco que encobria os céus são-tomenses impediu-os de reconhecer o
caminho de volta à casa".

 
Desamparados e sem saber o que fazer, deixaram-se levar pela
corrente das águas, pois, as várias tentativas para encontrar terra
firme, esgotou as últimas reservas de combustível que tinham na
piroga, explicaram.

Na segunda-feira, e depois de o nevoeiro ter atenuado e aberto um
pouco os céus das ilhas, António e Geraldo Filipe avistaram terra
firme, mas já muito longe de casa. A corrente marítima  empurrou-os
de Neves para o ilhéu das Rolas, do Norte para o Sul da ilha de São
Tomé.

António Filipe que há  mais de 40 anos se dedica à pesca, diz agora
que vai largar a profissão, enquanto que o filho, ainda jovem,
promete continuar a desafiar o mar porque, argumenta, é daí onde
retira o sustento.
 
 .
 

domingo, 23 de outubro de 2011

OH QUE SAUDADES DE SÃO TOMÉ! - CESÁRIA ÉVORA, PÕE-ME OS OLHOS RASOS DE LÁGRIMAS - SÓ DE OUVI-LA EMOCIONAM-ME AINDA MAIS AS BELEZAS NATURAIS - AS PAISAGENS, AS PESSOAS E OS CANTARES DAS MARAVILHOSAS ILHAS!


Jorge Trabulo Marques - Jornalista e navegador solitário



"SÃO TOMÉ – OH QUE SAUDADES
DA MINHA LINDA ILHA!

Lá longe, ao sul e além do mar,
ó graciosa Ilha, meu coração me foge
e se perde, há quanto tempo! há quanto! choram
por ti os meus olhos, saudosos de poderem olhar-te!
Em cada dia,  ao pensar em ti, só
ao lembrar-me de poder olhar para onde estás,
ó filha dos deuses do Jardim do Éden,
sinto que a minha alma se dissipa e aparta,
angustia, rejubila e sofre!...

Sim, estás muito longe de mim, ó formosa ilha!
Em cujas margens  quentes sopram doces maresias!
Contudo, ó tufo pujante! ó frondoso incêndio de verdura!
Ao recuar no tempo, a beleza da tua alegria,
invade-me o peito, é saudade imensa e sofrida,
é doce paz e harmonia, que se perde em mim,
como a suave brisa que sopra do mar
e vem acalentar minha alma e abençoá-la!

Por isso, hoje,  quero,  no silêncio do éter, seguir calmo e tranquilo
o caminho mais fiel e directo que me conduza a ti e sentir a tua amável harmonia..
seja por via do pensamento, seja em corpo, seja pela imaginação ou fisicamente.
Eu, que um dia te busquei errante, qual peregrino que parte em navio fantasma
em demanda de um esquecido paraíso -  que me servisse de pátria
enquanto fosse vivo, sim, hoje, quero deixar de ser o exilado
porque nem vivo já sob a luz do teu sol equatorial
nem permaneço sob o astro que brilha e ilumina
as quebradas e o planalto da minha aldeia.
- Esta é o meu dileto refúgio mas não a morada habitual:
talvez um dia, ó bela Ilha, eu possa ir ter contigo,
em pessoa, incorporado com todo o meu espírito.
Mas, por agora, gostaria de sentir a alegria, a emoção de revisitar-te,
ter a sensação de ir por oceano a fora e poder atravessar
o longínquo  braço de mar que me separa de ti.
- Seria exigir-te muito?!... Com a mesma idade
que te conheci - Tinha eu dezoito anos, vê lá tu!..
Ver-te rodeada  pelo mesmo azul do mar
e pelo claríssimo azul do céu,
com a mesma luz, a mesma claridade
com que desembaraçara do velho Uíge.



Contemplar-te, ó bela ilha, lá ao largo e ainda alguma distância do cais,
debruçado da amurada onde fundeavam os navios,
sobre um mar intensamente azul  mas quase sempre  revolto,
nas ondas das quais  as ágeis  pirogas dos pescadores, faziam prodígios de equilibro
enquanto os esqualos pequenos e graúdos andavam numa imparável azáfama
atrás da babugem e dos restos que eram vertidos às águas,
rodopiando de barbatana em riste num permanente corropio
- Oh, foi há tantos anos! e como eu ainda  tão bem me recordo!...

Depois era a  pequena aventura no  "gazolina"desde o barco ao cais,
com ao farol e a velha fortaleza, como primeiros testemunhos coloniais,
e a bela surpresa da  Baía Ana de Chaves, formando quase um semi-cícrulo,
com as águas de um azul de safira ou de turqueza  (nem sempre tranquilas)
a separar o vasto oceano   - e, da mesma transparência e cor,
também toda a margem da orla que dali se avistava.
.
Sim, ver os batelões atracados, serenos ou a balançar;
ver a  Igreja da Sé, o Água Grande  a desaguar a lodosa ou  turva água
(causada pelas cheias ou poluída) e, em redor,  os velhos edifícios, os chalés da cidade,
e, à medida que voltava a  erguer o olhar desde a orla e por ali a fora e acima,
ó maravilhosa Ilha!  - Que verdes tão verdejantes  rescindiam
desde a margem marítima até aos mais elevados píncaros!
Que panorâmica mais exótica e surpreendente!...
Que beleza tão extrema e  quão tamanha
se estendia por todo aquele  espesso manto verde
que se erguia por florestadas encostas e serranias
revestindo e cobrindo  todos aqueles
eriçados picos e montanhas!

E, já  noite entrada,  porque ali o dia começa cedinho - as humildes cubatas de madeira,
quase adormecidas e imersas na floresta - Oxalá, agora,
sem as privações, a miséria e o desconforto dos opressivas tempos  de outrora.
- Enfim, percorrer os caminhos vermelhos e argilosos da roça,
aspirar aqueles perfumes tão intensos, as fragrâncias que exalavam
dos verdes húmidos dos cacauzais, do manto verdejante das erytrinas,
das matabalas, da verdura  arbustiva e rasteira e do  espesso arvoredo,
que se perdia e fundia por entre diluídas neblinas,
que, meus olhos surpresos e pasmados,
iam descobrindo, a cada troço,
a cada curva,da sinuosa picada,
continuamente refulgindo
reflexos de humidade e de verdura,
continuamente densa e arborizada.


Chegar junto de ti, ó minha  linda Ilha! mas não em roteiro de viagem  fastidiosa,
experimentar o humano mas também o sublime, chegar  num pulinho, num voo etéreo
mas nunca na condição de colono, de servo e escravo da roça
e muito menos como um qualquer turista ou estrangeiro,
mas de olhar pasmado e terno, como o filho amado, o filho pródigo,
que ao seu  lar querido e abençoado está de volta
ou que a um lar carinhoso e adoptivo, volve e regressa!

Ó luz maravilhosa do meus olhos! - Se eu não puder chegar
até onde estais, aos céus, aos mares e às paisagens
que me foram tão queridas e adoráveis!, aproximai-vos
vós de mim! vinde a ter comigo como visão mensageira de Deus,
iluminada de amor e gratidão, ó éter calmo e luminoso!
tirai-me do peito  a melancolia deste indefinível ardor..

Oh! que vontade mais peregrina e religiosa!..
Que desejo mais sincero, incontornável!
Ó ânsia minha que palpitas intensa e irreprimível!.
Como látego de dor que vibra e revibra, quase desatina
como farpas o centro do meu coração, sem todavia  a chaga antiga
que o fustiga, angustia e consome dar ares me de sarar ou  me aquietar..

Oh ânsia que em meu peito, tanto me torturas!
Quereis  a paz e a lassidão esplendorosa?!...
- E com justa razão te é  merecida  - Porque,
 já tão cansado estais do pleito
em que em vão, me consumiste,
através do lastro, que em mim permanece,
em  memória inapagável e fraterna,
daquela tão formosa e amada ilha,
ó Deuses bons e nobres,  da juventude eterna,
não deixeis que minha alma, alguma vez soçobre
e não resista à dor, a cuidados e erros e à saudade!..


Quereis então, alma minha, que eu deixe tudo para trás
e não me importe de mais nada?!...
Oh, sim!...Possa eu  lá ir num rapidíssimo voo! - Ir-me embora!...
Desprender-me de tudo e não pensar em mais nada!...
Virar as costas ao mundo, a tudo quanto me preocupa  e escraviza
na fastidiosa rotina do dia a dia, parta  rapidamente e já  agora!...
De avião, de barco ou nas asas da esquecida
passarola do famoso Padre Bartolomeu de Gusmão

- Oh!..tanto me faz! ..Conquanto possa lá chegar   e deslumbrar-me !...
Com os verdes multicoloridos  que cobrem o magna
que irrompeu  do fundo dos abismos, e,  onde, só havia céu e água,
- Florestou e floresceu uma linda Ilha - Óh!.. duas lindas Ilhas!
Com as mais belas, variadas e frondosas espécies exóticas!..
- Quais jangadas do enegrecido basalto, que, Neptuno,
desejoso de engrinaldar suas vastas planícies azuis, seus mares,
rapidamente salvou do cataclismo diluviano de se afundarem...


Oh, sim!.. possa eu la chegar, rápido mas descansado!...
E, após maravilhado,  posto que seja  a planar sob o arco
da incomensurável  abóbada - seja céu descoberto,
seja envolto por grossas ou esfarrapadas nuvens,
brancas,alvas ou mesmo escuras  ou da cor da cinza,
esteja eu de vós, debruçado e já perto!.. - Sim, possa eu
vaguear por  alturas infindas, alcançar  as portas
que se abrem ao majestoso Universo,
debruçar-me da imensa janela que dá acesso
ao  imenso e etéreo tecto de Deus!...


Possa em fulgurante ascensão,
abrir meus braços e transformá-los
em asas, qual ave a sobrevoar o paraíso,
as terras do melhor cacau e do melhor café,
onde os frutos estão ao alcance da mão,...
- Onde há árvores que dão a  saborosa fruta-pão.
Talvez seja ousado sonho  meu, soltar-me dessa aeronave . Pois é,...
Mas como contrariar esse meu fado, essa minha sorte ou sina
se, em boa verdade, é o sonho a comandar as linhas da vida?!...

.



Ah!..possa eu respirar o suave  e lânguido bafo que envolve
a ramagem profusa e sonora das luxuriantes e frondosas margens!
Sentir a nudez e o carinhoso abraço das morenas e luminosas praias,
o doce enlevo das  avermelhas línguas ardentes, arenosas e doiradas
onde as pirogas partem e vão ao mar e ali volvem e vão arromançar
balanceadas pelas ondas sucessivas que ali se estendem e vêm quebrar!...
O! voltar a  mergulhar o corpo inteiro nas  águas límpidas e cristalinas
envolver-me naquele doce  azul turquesa, quase de cor do cobalto
que envolve os recortes, a quebrada linha verde e espumosa da ilha,
estender o olhar para além do vasto azul marítimo, escuro e ultramarino
que vai perder-se no mar alto do imenso círculo branco, esbatido e fino!...
Abeirar-me das frondosas palmas, coqueiros, rumorejantes e curvados
que se debruçam, ora balançando e  tremeluzindo esbeltos e verdejantes,
cheios de cocos e opolentos, ora silenciosos, serenos, curvos e  pasmados
nas cálidas manhãs  e por tardes ensolaradas de areias desertas e brilhantes
ou mesmo nas noites prateadas  de um luar leitoso, branco e tranquilo,
quais testemunhas vigilantes, que se debruçam ramalhudas e hirtas
em redor de discretas angras, praias finas recurvadas, lindas baías!
.
         
Oh!... maravilha dos mais belos  jardins celestes!
- Meu Paraíso Terrestre Encantado! - Possa eu voltar
a ter o prazer de  andarilhar, sentir debaixo  dos meus pés
as areias macias mergulhadas nas quentes ondas que vão e vêm
no seu vai e vem perpétuo, a virem e a recuarem, a desfazerem-se
em marulhos  de espuma efervescente - Ora sopradas por brisas mornas,
a espalharem-se e a desfazerem-se na fímbria branca e azulínea,
ora  atiçadas pelas fortes ventanias dos tornados,
por rajadas de vendavais, seguidas de turbulentas e  iradas vagas!...
- Sem dúvida!... Não há prazer igual!...Pisar  as  praias brancas de areia  fina
das Ilhas de São Tomé e Príncipe  -  É mais de que uma sublime graça divina!

 .

Deixar-me levar pela beleza e não me importar de mais nada...
Perder-me por largas manhãs, por longos dias inteiros que raiam cedíssimo!...
- Não há crepúsculos, nem prolongadas auroras que se antecipem ao romper do dia!
O sol mal se põe, assim escurece...É Equador! É a linha que atravessa o centro da Terra...
A noite e o dia, são irmãos gémeos: têm as mesmas horas e minutos...o que os distingue
é a rápida ruptura  do negrume para a claridade ou desta a mergulhar nas trevas.
Só quando há luar é que o dia entra pela noite adentro e dir-se-ia
que a noite passa então a ser dia - Noites plácidas, iluminadas
por uma luz, tão clara e branca, que quase rivaliza
com a luz do próprio astro que no alto refluge e brilha!

Oh!.. esquecer-me de horários, de fusos ou de calendários!...
Não ter pressa de nada mas sentir-me sôfrego e ávido do que é maravilhoso, natural e belo!..
Fruir no seio daquela doce natura, a paz e a serenidade, a quietude e o brilho,
a delícia intacta do sopro grácil  que se abre
e alarga através do espaço radioso e vasto!...

 - Oh!, sim, que  tudo em mim, ávido e saudoso  de tão prendada dádiva,
seja reconfortado na plenitude de uma suprema graça,
por via das voltas e contra-voltas de errática vida,
oferecida por  Deus ou por denodado sacrifício alcançada!
.














Oh como eu gostaria de lá voltar agora,
completar o sonho adiado e navegar mar fora!
Pegar no remo e remar na frágil piroga de ocá - partir sozinho!
Vergado ao remo o fazer dele de leme e ir à vela, de pé
ou sentado a meio do casco e numa  das travessas
daqueles toscos madeiros - frágeis troncos escavados!
Desafiar as investidas das vagas,
as leis da gravidade e do equilíbrio!





Presto-vos, pois,  aqui a minha rendida homenagem,
a Vós bravos homens do mar! - A vós heróicos
pescadores, testemunhos mártires de um povo antigo,
raízes sofridas em pavorosos naufrágios, sangue derramado e vertido,
na opressiva ocupação e domínio da vossa maravilhosa terra,
a vós, meus irmãos dos mares! - A vós meus amigos!
Eu me dirijo e vos saúdo, lídimos filhos das águas,
pioneiros de um longínquo e histórico passado,
legítimos herdeiros de uma ancestral memória...
Viajantes hábeis,  mestre e corajosos marinheiros
vindos da Mãe-África, de lá embarcados,  de lá idos,
sulcando estranhas águas, enfrentando violentos tornados
ou prolongadas e podres calmarias e sol abrasivo,
velejando e remando, noites e dias inteiros
navegando em mar aberto e desconhecido!

Aqui vos evoco: mares das epopeias anónimas
e das muitas tragédias sem glória e sem história!
De muito sofrimento, angústias, dores!
- Vós, mares do antanho e do presente,
sabeis, como ninguém, quantas vidas já destroçastes
a esses humildes  mas arrojados  pescadores!...
Quantas vezes, mesmo agitados e revoltos, eles vos encararam!
Foram ao vosso encontro,  olharam-vos  de olhar disponível e amigo,
deixaram a orlada  praia mas já não voltaram!...

Todavia, não deixaram de vos abraçar
e avançaram, como se o vosso azul, lhes fosse irmanado,
absolutamente indispensável e inseparável das suas vidas!
Em cada alvorada que se ergue, la vão eles, hábeis e destros,
corajosos e tranquilos, elegantes, destemidos e aventureiros!
verdadeiramente intrépidos, alheios aos tornados e a todos os perigos!

Venham vê-los a navegar! - São os honrados filhos do passado!
São a herança mas viva de uma história
ainda por narrar, ainda por cantar!...

Ah, que saudades eu tenho desses mares que eles percorrem
e cruzam há milénios!... Que pena agora não poder deslumbrar-me
nas suas lindas praias, orladas por esbeltos coqueiros, beijadas
por azuis e glaucas águas!

Oh,sim, quem me dera  poder aspirar os aromas perfumados,
Os sabores doces das suaves  brisas daquelas ilhas encantadas!...
Espraiar o meu olhar, perdido no azul do firmamento e do mar infinito!
Inebriar-me com a luz espelhada nas ramagens, a claridade
que rejubila e tremeluz no brilho transparente e claríssimo das  águas,
deslumbrar meu olhar, deleitar meu espírito, escancarar a minha alma!..
Por aquelas inesquecíveis manhãs ou tardes iluminadas - oh que saudades!
Daqueles dias claros de sol, de formosura inexprimível e  brilho!
Rejubilados pela endémica  policromia
do verde do coqueiros e do mato,
do azul a transbordar espanto,
maravilha, pasmo e calma!...
Não há outros mares
e outras paisagens
mais maravilhosas,
que aquela que se funde ou estende
em São Tomé e Príncipe,
sob os esplendorosos céus
de ambas as duas Ilhas.

Jorge Trabulo Marques