Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista
Dos tais paraísos onde nem faz frio nem
faz calor - Mesmo quando a chuva é diluviana e o nevoeiro paira no denso arvoredo dos montes em redor como algodão em rama. Embora a noite seja mais fresquinha e convide a algum
agasalho – Mas de dia anda-se bem e até de tanguinha.
Todas as roças em
S. Tomé têm nomes que não foram dados ao caso mas explicam acidentes
geográficos ou os mais diversos motivos e origens. O caso da Roça Bombaím, que parece remeter-nos
aos confins do oriente e não é sem razão, como explicarei mais à frente.
Pois a resposta parece apontar para o intensivo trabalho escravo que ali existiu. – Está acima dos 700 metros de altitude, num clima que, embora sendo caracterizado por super-húmido, com uma precipitação anual normalmente superior a 2. 425 mm e com temperaturas que oscilam entre 13,5 a 23º, podia considerar-se, de algum modo benévolo e temperado para o europeu que ali trabalhava, contudo, já o não era em termos de acessibilidades, sobretudo depois de se deixar o percurso para a Roça Monte Café. Era como que um lugar quase perdido ou esquecido nas brenhas da floresta mais elevada da Ilha – Daí ter sido escolhido para desterro de vários portugueses, que caíam em desgraça – Mas principalmente como campo prisional de nativos e serviçais das roças.
Na imagem está também a Jamila, de origem cabo-verdiana, aqui nascida e uma das dezenas de pessoas que aqui vive e trabalha, e que, nas horas vagas, depois da empreitada, se dedica a vender alguns dos produtos que cria na senzala. – Sorridente, comunicativa e amável, tal como é apanágio dos filhos e filhas desta maravilhosa ilha – E também daqueles que acabam por fazer desta terra, sua pátria. A beleza e a tranquilidade, que aqui é contemplada e transmitida aos corações, só pode infundir sentimentos de harmonia e de paz .
Com a independência, os seus antigos donos, receando
adaptarem-se aos então conturbados tempos de mudança, abandonaram-nas. Ficaram os trabalhadores, que lá residiam
(sobretudo contratados cabo-verdianos), entregues à sua sorte. Com a nacionalização,
pretendeu-se devolver a terra, a quem a trabalhava, a intenção era louvável mas
a inexperiência, a falta de quadros técnicos e de incentivos financeiros para
conservar pelo menos os edifícios, que acabaram por ficar degradados, não
permitiu que mantivessem os níveis de produção anterior. Todavia, surgiu uma
nova realidade: a de possibilitar a sobrevivência de numerosas famílias, que,
no tempo colonial, se limitavam apenas a ser mão-de-obra escrava. E, aos mais insubmissos, além de poderem ser
alvo da dura e déspota disciplina da roça, ainda poderem ser presos ou acabar na
colónia penal de Bombaim, em trabalhos forçados, de cuja memória ainda restam
alguns edifícios, a que Jamila se refere.
BOMBAIM NOME DE ROÇA QUE O TRANSPORTA ÀS
ÍNDIAS – MAS COM ALGUM FUNDAMENTO
Um bem-haja, muito
especial ao Coronel Victor Monteiro, que, além de me ter proporcionado, um
maravilhoso passeio, na sua viatura, ao sul da ilha, ainda fez de câmara-men,
neste video
HONRAS DA CASA
| Domitilia e Emerson, ladeados pelo Coronel Victor Monteiro |
Trata-se, de
facto, de uma antiga roça, atualmente transformada em media empresa familiar,
com uma área total de 143 hectares, situada num dos pontos mais elevados e mais
belos da Ilha de S. Tomé, quase junto ao coração do obó, sim, fonteira
com o manto selvagem e luxuriante da grande floresta equatorial –
Em cujo terreiro ou à sua volta, se conservam ainda alguns dos antigos
edifícios do tempo colonial: - desde os chales, senzalas, armazéns
e secadores do cacau, que, pouco a pouco têm vindo a ser recuperados,
laborando com a rotina habitual de outros tempos, só que, mais tranquilamente,
com outra alegria e sorrisos de quem ali trabalha e faz da roça, o seu ganha
pão e ao mesmo tempo o seu lar, fazendo esquecer o jugo escravizante de
outrora, onde o trabalhador era mero instrumento de servidão – o escravo
serviçal - não propriamente a pessoa humana –E, com uma novidade, muito
atrativa para o visitante: a de poder pernoitar na antiga administração,
que foi transformada numa magnifica e acolhedora pousada hoteleira –
Imagem que lhe surgirá, depois de se deslumbrar pela queda de uma das mais
impressionantes cascatas, e tornear caminhos orlados da mais pujante verdura
florestal, como se, subitamente, convidasse o visitante a espraiar o olhar por
um amplo e aberto espaço, que vai desde o espesso e verdejante manto arbóreo,
até lá ao fundo, onde se divisa a orla marítima e se estende o azul do infinito
oceano.
Tal como
escreveria, Fernando Reis, autor da “Roça” e da “Ilha No Meio do Mundo”, “nos
cemitérios da ilha estão muitos corpos de colonos que vieram para cá cheios de
esperança e por cá morreram, depois de se darem, de economizarem, certos que voltariam
mais tarde às suas terras, com a compensadora independência económica. E
as suas esperanças apodreceram com os seus corpos, já esquecidos dos seus
amigos e dos eus familiares, exceto, claro, das mães, enquanto vivas.
TURISMO NAS
ROÇAS – CONCILIADO COM A VIDA DAS COMUNIDADES - PORQUE NÃO!




