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segunda-feira, 8 de julho de 2019

12 de Julho de 1975 - 44 anos depois - Vem aí a data histórica do 44º Aniversário da Independência de S. Tomé e Príncipe – Previstas as tradicionais cerimónias na Praça da Independência de véspera e no próprio dia, ao sul, no Caué, com desfiles patrióticos, concertos ao ar livre, danças étnicas e uma série de outras atividades festivas – Em Portugal, a efeméride é recordada por um grupo de Associações da Comunidade, aqui residente nomeadamente: MÉN NÓN, ACOSP, PROSAUDEC, ...

Jorge Trabulo Marques - Jornalista




São Tomé e Príncipe celebra e completa esta sexta-feira 12 de Julho, 44º Aniversário da Proclamação da Sua Independência.

Este ano, o acto central terá lugar no Distrito de Caué, ao Sul do país, e diversas actividades recreativas descentralizadas em todos os Distritos do país, e na Região Autónoma do Príncipe .
O LEMA DESTE ANO: " Pela Coesão Nacional, Justiça Social e Progresso Económico".

A Praça da Independência, antiga Praça de Portugal, situada no coração da capital de STP, que tem sido o tradicional cenário das celebrações do 12 de Julho, data em que, as duas ilhas, deixaram de pertencer ao domínio colonial português, este ano vai deslocar-se para o sul da ilha, com os discursos do Presidente da República e do Presidente da maior autarquia santomense, seguida da tradicional parada militar e outros desfiles e múltiplas atividades musicais dos artistas mais populares e do folclore nacional. E com os representantes do corpo diplomático acreditado no país e outros convidados nacionais e estrangeiros.

As cerimónias, começam de véspera à noite, com a  chegada da tocha, em forma olímpica, que, depois de  passar por muitas mãos e feito o seu percurso por vários lugares,  irá acender a “Chama da Pátria”,  erguida num obelisco no centro da referida praça,  que, à semelhança dos anos anteriores, se espera seja recebida   de forma apoteótica e festejada com fogo de artificio, exivbições de folclore e  concertos musicais.

Em Portugal, a efeméride, é celebrada no dia 13 de Junho, em  Oeiras, no Parque dos poetas, uma iniciativa de várias associações santomenses: MÉN NON, ACOSP, PROSAUDESC, PLATAFORMA CAFUKA, FÓRUM DA DIÁSPORA e MINU YIÉ com o apoio institucional da Embaixada de São Tomé e Príncipe em Portugal e da Câmara Municipal de Oeiras
As actividades terão início às 10h00, sendo que o acto central terá início às 14h:30 com a presença da 1ª Secretária da Embaixada de São Tomé e Príncipe em Portugal - Dr.ª Bilma Mandinga e do Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Dr. Isaltino Morais.
Para assinalar a ocasião, haverá uma mesa redonda sobre o tema “Redes sociais e fake news, sua influência na tomada de decisões políticas e sociais em São Tomé e Príncipe”.
XIX Feira do Livro de São Tomé e Príncipe, além de Exposição artes plásticas, e artesanato, danças típicas das Ilhas de São Tomé e Príncipe; 
Contamos convosco!

 EXCELENTE TRABALHO DE HÁ QUATRO ANOS, DIGNO DE SE RECORDAR - - S. Tomé e Príncipe - retalhos de uma história - Trata-se de um excelente trabalho televisivo, que fala das várias fases e episódios por que passou o processo de Libertação do domínio colonial português sobre S. Tomé e Príncipe, que, além de recuperar memórias, vai certamente fazer história e animar futuros debates, tal o profissionalismo e a qualidade com que, Nilton Medeiros e Jerónimo Moniz, realizadores do programa “Nós por lá”, da RTP-África pegaram nos diversos capítulos da história de um país, que no dia 12 de Julho, comemora o 40º aniversário da sua independência, ou seja, a idade da prata, em que, nas pessoas, começam a aparecer os primeiros cabelos brancos, sinal de experiência e de maturidade para tomarem boas decisões, não se cometerem erros, que, aliás, é o que se espera e deseja dos seus governantes. Mais pormenores em . 

O documentário já foi exibido, por duas vezes, na televisão de S. Tomé e Príncipe, e é  do que se fala na atualidade, ao mesmo tempo que se anuncia a chegada do Presidente da República de Cabo Verde, da Guiné Equatorial, entre outros altos dignitários, que vêm associar-se  às comemorações do 12 de Julho, alusivas ao 40º aniversário da Independência  destas Ilhas.

Mas foi no passado dia 3,  pelas 17 horas, que teve lugar a  antestreia  mundial, numa sala de conferências do Hotel  Omali Lodge , localizado na Praia Lagarto,   com alguns dos protagonistas e outros convidados.



O vídeo, que aqui apresentamos, é constituído por registos fotográficos que obtivemos durante a exibição do referido filme, outros da assistência, e, na ponta final do vídeo, de alguns recortes  do nosso arquivo da Semana Ilustrada,  tendo alguns dos quais servido de ilustração  no referido documentário

Trata-se, com efeito, de um excelente trabalho  televisivo, que fala das várias fases e episódios por que passou o processo de  Libertação do domínio colonial português sobre S. Tomé e Príncipe, que, além de recuperar memórias, vai  certamente fazer história e animar futuros debates, tal o profissionalismo e a   qualidade com que, Nilton Medeiros e Jerónimo Moniz,   realizadores do programa “Nós por lá”, da TVS pegaram nos diversos capítulos da história de   um país, que no dia 12 de Julho, comemora o  40º aniversário da sua independência, ou seja, a idade da prata, em que, nas pessoas, começam a aparecer os primeiros cabelos brancos, sinal de experiência e de maturidade para  tomarem boas decisões, não se cometerem erros, que, aliás, é o que se espera e deseja  dos seus governantes. 

Sem dúvida, um excepcional trabalho televisivo, que procurou recuar à  década de sessenta, altura em que um grupo de nacionalistas, organizavam as primeiras reuniões  clandestinas na localidade de Bobô Fôrrô, distrito de Água Grande, génese do Comité de Libertação de S. Tomé e Príncipe, que, anos depois, haveria de transformar-se no MLSTP – Documentário este, inserido nos diversos atos comemorativos do 40º aniversário da República Democrática de S. Tomé e Príncipe, que procurou  abarcar o período  marcante da luta pela independência, antes e após o 25 de Abril, incluindo o impacto desta revolução no processo descolonizador e libertador, até às primeiras ações governativas, com a nacionalização das roças. Tema este que continua a dividir opiniões e a ser   um dos pontos  mais controversos da sociedade Santomense, 

 Recuar-se ao  período pós 25 de Abril era inevitável  a abordagem da dinâmica e importante acção mobilizadora (para outros destabelizadora) da Associação Cívica Pró-MLSTP. Das sinuosidades da Frente Popular Livre, que surge, inicialmente,  como que impulsionada, ainda por ventos neo-coloniais, inspirada por uma certa burguesia  santomense, que temia perder os seus privilégios, começando  por defender uma federação com Portugal,  – A desmilitarização da Companhia de Caçadores de STP, o acordo de Argel, assim como o papel do Alto Comissário, Pires Veloso (no nosso ponto de vista, o homem certo no momento certo), bem como  os momentos emocionantes do dia da Independência, no 12 de Julho de 1975, estes, entre outros temas colocados também aos deponentes.

“São Tomé e Príncipe –“Retalhos de uma História” – Diga-se que  não é propriamente um documentário de retalhos, mas um documentário sabiamente composto por várias declarações, que, embora surgindo avulsas, se encadeiam, nos prós e nos contras, surgindo com  vivacidade e oportunidade na abordagem de uma história com os seus principais intervenientes e capítulos.

Com depoimentos:  de Manuel Pinto da Costa, Miguel Trovoada, Olegário Tiny, José Freet Lau Chong, Leonel Mário D’Álva, Filinto Costa Alegre, António Pires Veloso, António Tomaz Medeiros, Moreira de Azevedo, Albertino Bragança Neto, Almeida Santos, Maria do Carmo Bragança Neto, Almeida Santos, Guadalupe Ceita, António Pires dos Santos e Pedro Umbelina.

GUARDIÕES DA UTOPIA”

Manuel Pinto da Costa, disse:  “Nós não estávamos muito acreditados na sinceridade dos dirigentes portugueses”

Olegário Tiny: “Nós temos muito  orgulho e honra em dizer que fomos os principais mobilizadores para esta caminhada da independência. A direção do MLSTP, que na altura se encontrava em Libreville, teve um papel muito importante – e Porquê?... Porque eles foram os guardiões  da utopia”.

Miguel Trovada:  - Referindo-se igualmente à Associação Cívica Pró MLSTP“ diz que “ foi extraordinariamente importante: primeiro, porque permitiu  dar uma face legal à luta de libertação na fase em que ela se encontrava (…) Na  vontade, no dinamismo e nos sonhos próprios da idade da juventude, que trouxe realmente um grande contributo, (…) no agitar do bom sentido, de ir para a luta da independência.

Maria do Carmo Bragança – A Frente popular Livre foi uma organização que nasceu antes da independência; antes de nós conhecermos a existência da Associação Cívica
José Freet Lau Chong.

José Freet Lau Chong, referindo-se  à Frente Popular Livre diz que os seus membros  “não estavam de acordo com a independência defendida pelo MLSTP, queriam a federação com Portugal“.

Maria do Carmo, contrapondo, alega desfiando quem quer que seja que afirme que a FPL defendia uma federação com Portugal.

Abílio Neto: -Por seu turno,  pergunta: o que é que a Federação Popular livre pretendia?... Era uma Federação com Portugal.  E o que  é que o MLSTP, através da Associação Cívica, mobilizava?... A Independência total!

Maria do Carmo, acabou por justificar que “Nós entendíamos que, a independência total e completa  e imediata, não devia ser aplicada a S. Tomé e Príncipe: Primeiro, porque, S. Tomé e Príncipe, não estava em luta armada. O Povo de S. Tomé e Príncipe, não teve que pegar em armas!”.   

Filinto Costa Alegre, dirigente da Associação Cívica Pró-MLSTP,  recorda, que, naquelas “ circunstância, a federação era uma solução que convinha mais ao poder colonial, A nossa não convinha de todo  ao poder colonial! E a Frente Popular Livre tinha um projeto que devia ser acarinhado pelos colonos que estavam presentes; quer pelo Alto Comissário, quer  pelos representantes do Poder colonial.

Maria do Carmo, refuta a acusação alegando que  “nós nunca admitimos que, para haver independência, tinha de haver gente morta. Nós fomos ao Gabão contatar  o MLSTP.

Filinto Costa Alegre: “ todos os santomenses falavam uma única linguagem, a da” independência total  Sá Cuá Cu Pôvô Mécê”.Mesmo a Frente Popular Livre, que, em dado momento era adepta da Federação, defendia que continuássemos ligados a Portugal, depois de terem ido falar com a direção do MLSTP, em Libreville, deixou de aparecer como defensora da Federação".
.
Manuel Pinto da Costa:  “ Nós recebemos os elementos da FPL, em Libreville, e, quando regressaram a S. Tomé, vinham com instruções de se chegar a um acordo; que deviam apresentar-se na sede da Associação Cívica, no Riboque”.

Maria do Carmo: “Nós fomos à sede da Associação Cívica mas fomos recebidos como leprosos”

Filinto Costa Alegre – Nós adotávamos formas de luta que levassem  a população manifestar-se; organizávamos greves  (…)nós procurávamos as mais diversas formas de dizermos aos colonos que o colonialismo é passado”

NACIONALIZAÇÃO DA ROÇAS

José Freet Lau Chong – As pessoas pensavam que éramos malucos. Mas naquela altura não havia outra saída

António Tomaz Medeiros – “Os santomenses eram bons funcionários, bons escriturários”, mas não tinham experiência nenhuma das roças”
“Vivi com alegria e mágoa: alegria porque, no fundo, era o que eu queria. Mágoa, por não poder estar presente.

Manuel Pinto da Costa: ´”O estado viu-se obrigado assumir a responsabilidade  das roças” alegando que os colonos as abandonaram.

"FALANDO COM DEUS" - Na voz do Poeta Turco Karacaoglan





FALANDO COM DEUS
“Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
Só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vos floresce;
Só é Senhor de si quem vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E vós sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha
Pois tudo quanto há, tudo em vós sabe.
Ditoso quem vosso amor se inflama.

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que sabe.
Só vos pode saber o que vos ama.”

Do poeta Karacaoglan




Karacaoğlan veio de uma família turquemena das montanhas de Tarso (Anatólia do Sul). De seus poemas sabemos que ele fez inúmeras viagens ao exterior. Ele escreveu numerosos poemas compostos sob os estilos poéticos da poesia folclórica da Anatólia, como "koşma", "türkü", "mani", "varsağı", "üçleme", "destan", "güzelleme" e "koçaklama". Suas obras possuem elementos característicos como amor, natureza e heroísmo. Aproveitando seu conhecimento de saz, um instrumento musical, diz-se que este trovador da Anatólia conquistou muitos corações femininos. Deste ponto de vista, Karacyğlan foi um dos primeiros poetas turcos que descreveram relacionamentos amorosos apaixonados entre homens e mulheres. Sua poesia é ainda hoje uma grande fonte de inspiração para alguns grupos de música folclórica turca. https://es.wikipedia.org/wiki/Karacaoğlan



domingo, 7 de julho de 2019

Kool & the Gang - grupo negro americano de jazz, R&B, - No seu melhor estilo em Lisboa, com dois espetáculos


Jorge Trabulo Marques - Jornalista 
Fantástica imagem do fotojornalista Arlindo Homem - Conhecidos como “os icones Kool & The Gang estiveram em Lisboa para dois concertos muito esperados – No palco da Altice Arena, no passado dia 30 de junho, e no Casino Estoril, em 2 de julho, onde cantaram e encantaram os fãs com os seus hits intemporais e incríveis, com apresentações ao vivo - Nascidos oficialmente em 1969, os Kool & The Gang influenciaram a música de três gerações e, a celebrar os 50 anos de carreira, a banda é uma lenda da indústria fonográfica.
Kool & the Gang é um grupo americano de jazz, R&B, soul, funk e disco, originalmente formado em 1964 como os Jazziacs, baseados em Jersey City, Nova Jérsei.[1] O grupo teve diversas fases musicais durante sua carreira, começando com um som jazz mais purista, então funk e R&B, progredindo para um pop-funk mais suave, e após 2000 criando uma música com um som mais moderno e electro-pop. Venderam mais de 70 milhões de álbuns em todo o mundo https://pt.wikipedia.org/wiki/Kool_%26_the_Gang



sábado, 6 de julho de 2019

VITORINO NEMÉSIO E O MAR - O poeta açoreano, recordado por seu filho Manuel Nemésio - Meu Pai é tudo isto: poeta-ilha, poeta-mar, poeta-navio, poeta-sempre, poeta-tudo!

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador 



 Vitorino Nemésio,  nascido na ilha da Terceira, em 1901, faleceu em Lisboa, em 1978, há 41 anos   - Publicou dezenas de obras . Poeta, romancista, cronista, dramaturgo, académico e intelectual açoriano que se destacou como autor de Mau Tempo no Canal, e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.



"NEMÉSIO E O MAR " - Título de um artigo, de autoria de seu filho, Manuel Nemésio, publicado na Revista da Armado, em 2002

Vitorino Nemésio, meu Pai, açoriano dos quatro costados, nascido de sua Ilha Mãe, a Ilha Terceira, feito sobretudo de terra e mar, “porventura mais de mar do que de terra”, como ele próprio se afirmava; criador do termo “açorianidade”, a exemplo da “hispanidade” de Unamuno; é lava de ilhéu feito ilha, é navio, arquipélago, continente, mundo cósmico saído do ovo, qual navio à deriva, perdido e achado na meia distância atlântica no mito do avante devagar, sem retorno, com garantia de piloto na rota helicoidal do Poeta:

 Ah, ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar, ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar! (1)

Em Nemésio, a sua ligação ao mar mede-se profunda (mais de mar do que de terra). Seu Pai, Victorino Gomes da Silva, músico amador de fina sensibilidade artística, foi seu búzio de mar, feito patrão de costa no cantante de sua ilha:

Meu Pai! meu Pai! minha luz!
Meu génio! (nanja ruim!)
Ó meu sangue alvoraçado
Dos espantos de onde vim!
..........................................
Meu Pai andava queixoso,
Fechou-se comigo e deu
Uma pancada na música
Que nunca me esqueceu!
Os motetes que meu Pai
Me ensinou quando fugiu
Estão cantados no meu sangue
Como a água está no rio. (2)




Vitorino Nemésio, meu Pai, açoriano dos quatro costados, nascido de sua Ilha Mãe, a Ilha Terceira, feito sobretudo de terra e mar, “porventura mais de mar do que de terra”, como ele próprio se afirmava; criador do termo “açorianidade”, a exemplo da “hispanidade” de Unamuno; é lava de ilhéu feito ilha, é navio, arquipélago, continente, mundo cósmico saído do ovo, qual navio à deriva, perdido e achado na meia distância atlântica no mito do avante devagar, sem retorno, com garantia de piloto na rota helicoidal do Poeta:

Ah, ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar, ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar! (1)

Em Nemésio, a sua ligação ao mar mede-se profunda (mais de
mar do que de terra). Seu Pai, Victorino Gomes da Silva, músico
amador de fina sensibilidade artística, foi seu búzio de mar, feito
patrão de costa no cantante de sua ilha:
Meu Pai! meu Pai! minha luz!
Meu génio! (nanja ruim!)
Ó meu sangue alvoraçado
Dos espantos de onde vim!
..........................................
Meu Pai andava queixoso,
Fechou-se comigo e deu
Uma pancada na música
Que nunca me esqueceu!
Os motetes que meu Pai
Me ensinou quando fugiu
Estão cantados no meu sangue
Como a água está no rio. (2)



No “Corsário das Ilhas”, Nemésio afirma-se, metaforicamente “tartaruga que puxa sempre para o mar”.. “Feio e teimoso bicho! (diz Nemésio). Mas bicho firme, de um só rosto e de uma só fé — a fé refeita e salgada do fundo do Oceano Atlântico.” (3). Mais adiante, a bordo do Santa Maria, o Corsário confessa-se, como que num ritual muito puro de oração matinal: «Sou ilhéu; e, tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se por um rodeio de mar por todos os lados. Vivemos de peixe, da hora da maré e a ver navios... Na infância e na adolescência era o meu mais belo espectáculo.

Quase todas as casas abastadas, nos Açores, estavam munidas de um velho óculo de alcance, e algumas de binóculos, com que se seguiam as chaminés dos paquetes e as árvores dos veleiros molhadas na linha do horizonte. Na nossa casinha de campo, na Vinha do Mão Roxa, sobre os vinhedos e lavas ambidas ao longe pela ressaca, meu pai, — músico e um pouco poeta, — trepava à varanda do telhado, sacava do grande búzio, ao pôr do sol, e metendo e tirando a mão direita na rosca corada do calcário, tirava-lhe dois aulidos alternos e melancólicos, intencionalmente repetidos, sinal de vida isolada dado à vizinhança do longe. (4)

A seu filho Manuel, cedeu-lhe, o Poeta, a fardinha-maravilha do marinheiro que não foi, pela modéstia de não ter sido encartado, — (mas foi-o, lhe asseguro, meu Pai): — (marinheiro genuíno honoris causa... pescador... valente homem do mar):

O teu filho é um peixe de metal:
Vai ao fundo das águas recolher
O lugre ardido, os sinos, o coral,
Ou a morte em flores de fogo, se morrer.

Uma vez por outra, Nemésio, exibia-se com o bonézinho do filho: aprumava-se e fazia-lhe a continência, sorrindo embevecido: — “Dá licença, senhor comandante?” — Certo que sim, meu querido Pai.
Nemésio nega-se e afirma-se: 

« Não sou marinheiro (por incontável modéstia, insisto eu), mas sou ilhéu e portanto embarcadiço. Além de que a vida é em si mesma uma verdadeira derrota, uma vasta e tremenda singradura. » (6)
Para meu Pai: « os navios são femininos, capciosos e ligeiros. Talham a linfa e o vento: umas vezes embalam como berços, outras abraçam nos de amor. E, pouco a pouco, têm--nos na sua mão estrangeira e inconstante. Mas nenhum cavername deste Mundo me pareceu valer o barquinho em que Manuel do Luís e o Bicho iam de madrugada à cavala, para voltarem à tarde a dormir no sossego e na paz dos seus casebres. » (7)

Meu Pai, feito Corsário, hesita, balançando-se: 

« “Vou! Não vou?” Umas vezes: “Vou!” Outras: “Não!” Maldita condição e do gratuito...
Mas já vou mesmo!... Despedi-me. Embarquei. Parti. Fiz, enfim, um par de pretéritos perfeitos e próprios das viagens...
Já o meu próprio escrever é fluido como o mar e, como ele, ilógico. Uma cinza húmida e fresca tornou-se comum às águas, ao céu, à alma, à cabeça. Só o coração vigia inteiro e saudável nas primeiras derrotas do mar. (Eu durmo e o meu coração vigia.) Navegamos ambos, o coração e eu... » (8) — e mais adiante o Poeta acrescenta:

« O navio, aliás, navega pelos seus próprios meios, sem reboque mecânico ou animal, e é com o seu verdadeiro ambiente — a vida de bordo — que consegue enfim prender e domar a minha imaginação vagabunda. Sinto-me enfim situado. Há aqui bombordo e estibordo, proa e ré, deck e porão. E, diante de nós, uma linha imaginária a que chamamos horizonte.» (9) Mais adiante ainda, Nemésio, preocupado no exacto dos termos náuticos lembra que: «No tempo do Açor dizia-se, a ré: cuidado com as hélices, e as pessoas curiosas e instruídas discutiam na casa de fumo sobre se se devia dizer “os hélices” ou “as hélices”, e se era conveniente aguentar o h no começo da palavra... 

Como este, outros santos e eruditos costumes se perderam. Já a menina “bem” não dá a volta ao convés, de pé atado à calça daquele afoito senhor. Que é do binóculo matutino, sensível à toninha emergente e ao fumo do petroleiro? » (10). E mais, sempre mais, avança Nemésio: « Vejamos agora o mar. Chamar suave e bela a uma coisa destas, chata, mexida, com bocados brancos metidos no meio do cinzento! Gostar da água estendida como se fosse um solo, — mas sem árvores, a não ser a árvore seca de algum pobre iate em calmaria...! A hipocrisia lavrou a terra e o mar como um verdadeiro escalracho. Já não se dizem as coisas directamente; todos fingem o que não são e armam ao que não têm. » (11)... Et encore plus, logo nos adianta o autor: «A verdade
que só amo o mar rebentado e colérico, principalmente o das praias e dos recifes: 

Detesto cordialmente este mar enrolado, como massa a folhar pelo pasteleiro de bordo, — esta coisa estranha e estólida como um olho sem pálpebra, que já não tem nada que olhar. Ao menos,um veleiro é belo; um couraçado é belo! Mas o alto mar parrana não é belo. Tudo se esvai e se esfuma nesta extensão sem referência. Cheira a tinta de óleo e a corda cozida por toda a parte. Sei bem que isto é da entranha do paquete, como o fartum a rato é do ninho de rato. Mas atiro as culpas para cima do mar sem limites.» (12) Meu Pai é tudo isto: poeta-ilha, poeta-mar, poeta-navio, poeta-sempre, poeta-tudo! Assim o digo e o sinto. Em Nemésio a humanidade está no homem, alapardada na intimidade do Poeta num up-to-date de doação gratuita, e não fora do homem, desgarrada na sua perplexidade, inútil e inacessível por não se querer agasalhar. O mar de Nemésio é o mar onde o Poeta é:

A Concha A minha casa é concha. Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonhos e lixos.
O horto e os muros só areia e ausência

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
 O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal e os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
 Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
 Sentado numa pedra de memória. (13)

E assim — perante tudo — no mar, Nemésio é Ilha, “Ilha Flutuante” à deriva com piloto atento e precavido, repito, daí, que mesmo em terra, tenha consigo o seu sinete: V.N. de (Valente Navio): (Mestre e Patrão de Salva-vidas): (15)

Não subo ao Monte Brasil,
Não sou facheiro nem facho:
 Tenho o navio no peito,
Quando o quero sempre o acho. (14)

Notas (1) O Bicho Harmonioso: O Canário de Oiro:O/C VOL.I POESIA(pg.138). (2) Festa Redonda: Cantigas por alma de meu Pai: O/C VOL.I POESIA (pg.327). (3) Corsário das Ilhas: A Tartaruga: O/C VOL.XVI (pg.117). (4) Corsário das Ilhas: Pressentimentos: O/C VOL.XVI (pg.167). (5) O Verbo e a Morte: Missão: O/C VOL.II POESIA (pg.294). (6) Corsário das Ilhas: Embarques: O/C VOL.XVI (pg.121). (7) Corsário das Ilhas: Embarques: O/C VOL.XVI (pg.124). (8) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.67). (9) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.68). (10) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.69). (11) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.69). (12) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.70). (13) O Bicho Harmonioso: A Concha: O/C VOL.I (pg.131). (14) Festa Redonda: Cantigas à Ilha Terceira, à Cidade, à Praia, e aos Montes: (pg.275). (15) V.N.M.P.S. : Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva.
Manuel Nemésio - REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2002

MANUEL MONJARDINO DE AZEVEDO GOMES NEMÉSIO (n. 1930)
O Comandante Manuel Monjardino de Azevedo Gomes Nemésio é filho do escritor Vitorino Nemésio e de Gabriela Monjardino de Azevedo. Reside em Castelo de Vide. 

Foi um dos fundadores do MUD Juvenil em Coimbra e por "vocação e paixão" entrou para a Escola Naval, seguiu a carreira militar como oficial da Marinha de Guerra Portuguesa e participou activamente no movimento das Forças Armadas (MFA), em Abril de 1974. 

Cursou Filosofia, tendo sido professor cooperante em Cabo Verde, e pertenceu à Comissão de Redacção dos Anais do Clube Militar Naval. 

Colaborou em inúmeras revistas e livros evocativos de seu pai.

Publicou "Construção da Casa do Ser (ou Roteiro Sentimental de Castelo de Vide)" (1996, Colibri), "Caligramas Electrónicos- Poesia" (2001, Ed. Moura Pinto) e "Vitorino Nemésio- Centenário do Nascimento - 5 Poemas de Vitorino Nemésio (2001, ed. ilustrada com gravuras e litografias de Alberto Péssimo, José Emídio, José Rodrigues e Ruy Anahory.  - Biografia escrita por Alberto Ferreira




BIOGRAFIA  - Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva GOSE • GCSE • GOIH (Praia da Vitória, 19 de dezembro de 1901 — Lisboa, 20 de fevereiro de 1978) foi um poeta, romancista, cronista, académico e intelectual açoriano que se destacou como autor de Mau Tempo no Canal, e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

(…) Em 1934 doutorou-se em Letras pela Universidade de Lisboa com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Entre 1937 e 1939 leccionou na Vrije Universiteit Brussel,[4] tendo regressado, neste último ano, ao ensino na Faculdade de Letras de Lisboa.

Em 1958 leccionou no Brasil. A 19 de julho de 1961 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, a 17 de abril de 1967, Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.[5] A 12 de setembro de 1971, atingido pelo limite legal de idade para exercício de funções públicas, profere a sua última lição na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensinara durante quase quatro décadas, passando a ser Catedrático Jubilado.
Foi autor e apresentador do programa televisivo Se bem me lembro, que muito contribuiu para popularizar a sua figura e dirigiu ainda o jornal O Dia entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976.
Foi um dos grandes escritores portugueses do século XX, tendo recebido em 1965, o Prêmio Nacional de Literatura e, em 1974, o Prémio Montaigne.

Faleceu a 20 de fevereiro de 1978, em Lisboa, no Hospital da CUF, e foi sepultado em Coimbra. Pouco antes de morrer, pediu ao filho para ser sepultado no cemitério de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Mas pediu mais: que os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.
A 30 de agosto de 1978 recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, a título póstumo.[5] Em 1978, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou o escritor dando o seu nome a uma rua na zona da Quinta de Santa Clara, na Ameixoeira.[6]
Obra
Vitorino Nemésio foi ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador da literatura e da cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo e comunicador televisivo, para além de toda a actividade de docência. O seu nome consta da lista de colaboradores da Revista dos Centenários[7] publicada por ocasião da Exposição do Mundo Português e nas revistas, Panorama [8] (1941-1949) Conímbriga [9] de 1923, Renovação (1925-1926) [10] e Litoral [11] (1944-1945).
Levou a cabo, na sua obra, uma transformação das tendências da Presença (que de certa forma precedeu), que garantiu a eternidade dos seus textos. Fortemente marcado pelas raízes insulares, a vida açoriana e as recordações da sua infância percorrem a obra do escritor, numa espécie de apelo, revelado pela ternura da sua inspiração popular, pela presença das coisas simples e das gentes, e pela profunda humanidade face à existência e ao sofrimento da vida humana  - Excerto de  https://pt.wikipedia.org/wiki/Vitorino_Nem%C3%A9siomana.