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quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Angola independente há 46 anos – Andava eu perdido há 22 dias numa piroga no gofo da Guiné - Declarou hoje, João Lourenço: "Temos um passado que nos orgulha e nos impele para a construção de um futuro melhor".

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Antigo navegador solitário

Angola tornou-se independente do “império” colonial português a 11 de novembro de 1975, há exatamente 46 anos, 19 dos quais de paz efetiva.  Nesse dia, andava eu perdido há 22 dias numa piroga no Golfo da Guiné – Tinha mais 16 pela frente -  Para os angolanos, foi um dia de muita alegria, de uma grande festa e de muita felicidade. Tive essa confirmação através de um pequeno transístor, enquanto não se esgotaram as pilhas.  Dizia eu para o meu diário gravado: “É manhã do 22º dia, ou seja dia 11 em terra … um dia de festa para muita gente! E para mim, um dia tão triste!” – Naqueles longos e dramáticos dias  e noites de uma fracassada travessia oceânica   Era também o aniversário de minha mãe” – Pormenores, mais frente.



 
Quando, na madrugada de 11 de Novembro de 1975, o saudoso Presidente António Agostinho Neto proclamou solenemente, em nome do Povo Angolano, perante a África e o Mundo a nossa Independência Nacional, nascia um novo país e sagrava-se a esperança de todo um Povo” – Declarou, em mensagem à Nação, o  Presidente da República de Angola, João Lourenço, que  recebeu as felicitações do Primeiro-Ministro são-tomense, Jorge Bom Jesus, a quem desejou ao seu Governo e ao Povo Angolano as nossas mais vivas felicitações e augurar futuro brilhante de paz e desenvolvimento económico, social e cultural” https://www.stp-press.st/2021/11/11/primeiro-ministro-sao-tomense-felicita-presidente-de-angola-por-46o-aniversario-da-independencia-angolana/

“Hoje, por força da pandemia da COVID-19”, diz o Presidente João Lourenço – “ainda não nos permite celebrar como gostaríamos a nossa Independência - Mas apesar disso hoje é um dia de festa, um dia de vitória, de esperança e de glória, um dia de reflexão sobre o nosso percurso glorioso, e sobre o muito que temos pela frente para vencer os desafios do nosso tempo” .

Naquela noite, juntos celebrámos com júbilo o culminar de uma longa e difícil caminhada. Ao proclamarmos a nossa Independência, passámos a ser livres e iguais, a ser donos do nosso próprio destino, passámos a ser, finalmente, orgulhosamente ANGOLANOS.

A partir daquela madrugada, passou a flutuar alto no concerto das nações a nossa Bandeira e a ecoar firme o nosso Hino, o hino da liberdade e da esperança.

Temos um passado que nos orgulha e nos impele para a construção de um futuro melhor. Fazer de Angola uma Nação próspera é o principal desafio do nosso tempo, é possível e está ao nosso alcance. https://governo.gov.ao/ao/noticias/por-ocasiao-do-46-aniversario-da-independencia-nacional/

JAMAIS PODEREI ESQUECER-ME  DESSA LONGA  NOITE, ANTE A SOLIDÃO DO MAR E DO CÉU - Até porque, se tratava de uma data em que nasceu a minha saudosa mãe: ou seja, no dia de S. Martinho


Baú onde pude preservar as memórias que me restam
Há 46 anos foi proclamada  independência de Angola: houve festa de arromba, de muita folia, música e diversão  pela noite adentro:  “Um dia de muita alegria e para mim um dia tão triste!” –. Desabafava  eu para o meu pequeno gravador, o meu diário de bordo, - Sim, pude testemunhar esse ambiente de entusiasmo e de grande esperança, algures no Golfo da Guiné, depois da meia noite e  por algumas horas  ao correr da  madrugada, ao sabor do vento e das correntes, perdido a bordo de uma frágil piroga; através de um pequeno transístor a pilhas, que pude preservar num simples contentor do lixo das constantes tempestades e das vagas que me flagelavam, além de um pequeno gravador onde fazia o registo do diário de bordo e da máquina fotográfica. Tenho ainda comigo esse registo histórico, bem como, de resto, as seis cassetes de todo o diário, das quais me venho servindo para  o transcrever

Algures no Golfo da Guiné, 11 de Novembro de 1975


Um dos tubarões pescado

Diário de Bordo 1 - Já é manhã do 22º dia. Passei uma noite normal. Estive muitas vezes acordado. Não dormi assim muito mas não choveu. Estive a ouvir a rádio até altas horas, até quase de manhã, sobre a reportagem da independência de Angola. Portanto, hoje é dia 11 em terra.

Amanheceu uma manhã bastante agradável: o mar não está assim muito agitado e o céu não muito encoberto. Apenas umas nuvens de onde em onde.

Meus pais, que nunca os esqueci e cedo me deixaram
Eu disse, ontem, que, quando não se possuía uma boa vela, um perfeito domínio da embarcação, era preferível deixá-la à deriva. De facto, cheguei a essa conclusão, mas, atendendo a que devo estar muito próximo de terra e porque as correntes já não devem ter grande força, talvez valha a pena pôr à prova os modestos recursos que disponho.

Não podia deixar de me referir à companhia dos meus fiéis tubarões...continuam!...Isso é infalível!... A dar aqui as suas voltinhas, a fazer a sua escolta à canoa.

SENTIA-ME ARREDADO DE TUDO - O MEU CALENDÁRIO NO MAR ERA DIFERENTE DOS DIAS QUE CORRIAM EM TERRA

Diário de Bordo 2 - São mais ou menos oito horas da manhã do 22º dia, ou seja dia 11 em terra. Realmente experimentei a vela. Andei cerca de uma hora e tal, mas praticamente já não havia vento. Há uma calmaria muito grande. Tudo leva a crer que haja trovoada lá para o fim da manhã ou princípio da tarde. Oxalá que sim; uma trovoadazita até faz bem para acelerar o andamento da canoa, se não nunca mais saio daqui!... O problema é este: só há vento quando há trovoadas. O pior é que nessas circunstâncias é difícil navegar, porque há que ter toda atenção na segurança da canoa. Portanto, neste momento, limito-me a aguentar os balanços da canoa e o calor, que está já a fazer sentir-se, até que venha um bocado de vento, que, com certeza, virá acompanhado de alguma trovoada, que está já a formar-se ali para leste. Aguardemos.

Diário de Bordo 3 - Quanto ao meu estado de saúde, doem-me bastante as costas, o pescoço, tenho inúmeras borbulhas nos braços e nas pernas e a vista muita cansada de olhar para o horizonte e também dos reflexos do sol. De resto ainda não sinto qualquer perturbação: mas tenho aqui medicina, uns comprimidos e algumas vitaminas. Enfim, espero que não surja qualquer complicação no meu estado de saúde.

Estou ouvindo rádio, que uma vezes constitui realmente o meu passatempo favorito, outras, enfim, é o silêncio, a solidão única coisa que me agrada.

AO FIM DA MANHÃ, CONFIRMAVAM-SE OS MEUS RECEIOS - Surge a tempestade: o que eram sinais de velada ameaça, subitamente, transformam-se num afrontoso pesadelo - O mar!... O mar!... Quando se enfurece, o mar é sempre igual em qualquer parte.




Diário de Bordo 4- Neste momento estou a enfrentar violenta tempestade! Tive que lançar a âncora flutuante. A canoa correu sérios riscos!...Nunca estive em tantas dificuldades como agora!… mesmo assim o tempo acalmou ligeiramente, mas ainda continua a tempestade a sentir-se e arrastar-me agora de este para oeste!… Está a retardar novamente a minha viagem!... Devem ser aí umas 11 horas da manhã!…Estava uma manhã estupenda e, de um momento para o outro, apareceu esta tempestade que ameaça a todo o instante virar a minha canoa.

Diário de Bordo 5 -O mau tempo continua a fazer sentir-se!... Não sei qual o destino onde vou ter!… É difícil neste momento fazer qualquer prognóstico… É um tornado dos maiores que tenho enfrentado...E o pior foi encontrar a minha canoa na posição pior de segurança, porque, a canoa, tem uma posição em que pode enfrentar mais ou menos as tempestades...Tive que lançar a âncora e um bidão de plástico que força com que a canoa fique ligeiramente de proa à vaga…De qualquer modo, a situação continua melindrosa!... Agora não chove mas está a fazer uma grande ventania e o mar está muito cavado!... Estou a ser arrastado para Sul, portanto, estou a ser retardado!... As perspetivas de chegar a terra, estão a ser cada vez mais morosas. É realmente uma situação verdadeiramente dramática!... A canoa esteve há pouco à beira de se virar!... Só por muita sorte, só por milagre não se virou!...

NESTES MARES, EM QUE OS DIAS SE REPARTEM POR IGUAL COM AS NOITES, TUDO É SÚBITO E INESPERADO: Uma simples nuvem no horizonte num claro céu azul e limpo, tanto pode significar o princípio de uma tempestade, como de uma podre calmaria  - Agora, as alterações climáticas estão profundamente alteradas, em todo o planeta; não sei se, naqueles mares, para pior ou melhor - Mas há 44 anos, eu vivia ali um longo e tormentoso drama  Ao sabor dos ventos e das correntes e balanceado para todos os quadrantes. 

Diário de Bordo 6 - Sinceramente, o tornado já passou... Está agora a notar-se a ressaca... Estou bastante afastado da Ilha de Fernando Pó, muito afastado!...Estou convencido que não vou ter a oportunidade que já tive...Neste momento, não sei qual a minha posição; estou bastante para Sul!... Não sei se voltarei a ter a oportunidade que já tive!... Afinal o que me interessa é terra e eu parece que estou a brincar com o meu destino!... Não pode ser!... Estou francamente perturbado neste momento!... Vou ver se consigo conservar o máximo de calma!... Mas já estou saturado... Estou cansado... Estou com fome!… Estou longe de terra! Agora estou muito mais longe do que já estive!

Mais afastado de terra e fatigado.  Não estou desiludido ou desesperançado. Pelo contrário, sinto-me mais forte e mais habilitado. O mar já não é aquele lençol líquido rebelde e ondulante, a sua fisionomia está moribunda  e não demorará a quedar-se numa ténue e plácida superfície.

Diário de Bordo 7 - Duas horas já são passadas... Não há vento. O mar tem uma ligeira ondulação: está mais ou menos calmo... Depois de um grande susto e de momentos de grande aflição... Porque, de facto, a trovoada foi violenta e ameaçou a cada momento voltar-me a canoa, não tivesse eu lançado a âncora flutuante, aliás, que é um sistema que eu improvisei (com um bidão de plástico, amarado a uma corda e à proa da canoa, na primeira noite em que fui assolado pelo tornado, forçando-a a ficar de proa à vaga e que me fez perder o remo e o leme e alijar da maior parte dos alimentos, para evitar ir ao fundo)  mas cheguei à conclusão que posso muito bem dar a terra, à costa de África... Quer dizer...se não houver vento de sul para norte, não preciso de pôr a vela, porque a corrente me arrasta... Se a trovoada surgir de sul, ponho a vela e a canoa evolui para noroeste...portanto, para a costa de África. Cheguei também à conclusão de que, realmente, numa tempestade, a embarcação não pode ficar completamente à deriva; se ficar com a vela, furta-se às vagas e não se vira tão facilmente. Claro que a vela tem de ser pequena, porque, se for grande, pode-se voltar...Por exemplo, neste momento tenho a vela e a canoa está a evoluir para a noroeste...E é pena não haver um pouco mais de vento... Portanto, eu posso muito bem ir dar à costa de África, tanto à Nigéria, como ainda a Fernando Pó. Para ir a Fernando Pó, basta que eu ponha a vela, quando houver vento de sul para norte; não preciso de remo sequer; basta prender a vela; prendo-a e então a canoa desliza para nordeste

Neste momento, já estou mais otimista... Depois daqueles momentos de grande aflição, em que vi quase a canoa virada e tive que me deitar para um dos lados, porque a canoa esteve mesmo... Havia vagas grandes, alterosas!…Entretanto, lancei um plástico agarrado à âncora  (a âncora flutuante), isso fez força, esticou a corda e evitou que a canoa se virasse... A canoa, correu realmente o risco de se virar!... Ora isso não pode acontecer de maneira alguma... Aliás, uma pessoa, nestas condições, a cabeça tem que estar sempre a pensar!... Sempre a improvisar... Não podemos cruzar os braços perante o perigo...Temos que ter sempre ideias novas para fazer face a novas situações... Este é um predicado muito importante... Pois nunca se pode uma pessoa dar por vencida!...Pode chatear-se, saturar-se, enfim, desanimar um pouco, mas por vencida nunca se deve dar!... Eu, apesar de tudo, apesar de já estarem 22 dias passados, aqui nesta situação, verdadeiramente dramática, muito difícil, eu não me dou por vencido!... Eu sei que hei-de ir dar a terra, custe o que custar!... A menos que a canoa se parta, mas isso não há-de acontecer


Livros pouco tempo para os ler
Diário de Bordo - Um pormenor curioso: tem piada que tive uma manhã bonita, uma manhã de sol!...Estava eu a ler um livro: “A Funda” de Artur Portela Filho, quando comecei a ver nuvens escuras e a ouvir um murmúrio, um ruído enorme: vi logo que era vento!... Pois, mal dei aqui uma arrumadela à canoa, surgiu logo essa trovoada, e de que maneira!

O céu por cima da minha cabeça está praticamente desnudado. Mas não tem aquele tom luminoso de um puro azul, que me inspira alegria.  Está encoberto por uma fluidez baça, por uma película levemente brumosa e prateada. Porém, em toda a periferia do horizonte, notam-se altos cúmulos. Estas nuvens têm aspetos muito giros mas algo misteriosos e inquietantes que não me inspiram absoluta tranquilidade. Porventura, reservam-me alguma surpresa desagradável....Vivo numa verdadeira inconstância de altos e baixos...

Diário de Bordo 8 - São neste momento perto das quatro horas da tarde, sensivelmente. Agora há uma paz!... Há um silêncio...O mar está calmo, sereno!... Um verdadeiro contraste com o mar que há bocado estava..O céu tenuemente enevoado, o sol mal se faz sentir....Sinto-me absolutamente desprezado neste momento!

Sinceramente, estou saturado! Saturado, porque não estou a navegar, a fazer da canoa aquilo que eu quero...Estou à mercê do mar, dos ventos, das correntes, das trovoadas!... Sou para aqui aquilo que os ventos e as correntes quiserem!...Estou farto de vislumbrar o horizonte, em busca da desejada costa africana!... Vejo lá longe Fernando Pó...Se calhar tenho de ir para lá, porque, senão às tantas, nem para lá nem para outro lado!...

Sinto ao mesmo tempo uma réstia de esperança... Há bocado vi que a minha canoa podia-se ter voltado de um momento para o outro!... Correu sérios riscos!...Eu não perdi a esperança, apesar de tudo...Tenho tido bastante sorte, também....

Não há ninguém...Nem um barco de pesca, nem um barco!... Não vejo nada!… Nem aves, tão pouco... Nem peixes!... Apenas os tubarões, azuis e os martelos, continuam em volta...Mais nada!... A água tem uma cor escura!...Não sei que dizer mais... Esperar, até quando?!.. Esta ânsia!... Quando eu posso pisar terra firme?!...Quando?!...

Entretanto, tenho aqui o meu pequeno aparelho com o qual , quando tenho um bocadinho de disposição, me vou entretendo a ouvir música (ligo o pequeno rádio, aliás, à Rádio Nacional de São Tomé) - Neste momento está a dar música .Ouve-se aqui perfeitamente apesar da distância. Hoje tem estado a transmitir muitos trechos de música africana. Hoje é o dia da Independência de Angola. Um dia de festa para muita gente e para mim um dia tão triste!


NEM SEMPRE O NÁUFRAGO PODE DISPOR DA  COMPANHIA DOS SONS DE UM PEQUENO RÁDIO – ESCUTEI-OS, POR VEZES, ENQUANTO AS PILHAS, NÃO SE GASTARAM, DEFENDENDO DA VIOLÊNCIA DO MAR NO INTERIOR DO MEU BAÚ, UM VULGAR CAIXOTE DO LIXO  

 E foi desse modo que pude acompanhar o memorável acontecimento da celebração da Independência do Povo Angolano. Mas foram também os sons musicais africanos, esses sons pungentes de sofrimento, de alegria, amor e nostalgia, que falam sempre ao coração, e até os que escutava de Portugal, através da EN, que ora me conduziam a estados de paz e de tranquilidade, ora me  comoviam, fechando-me ainda mais no meu silêncio ou rompendo-o, em lágrimas e com as mil dúvidas e interrogações que então me assolam

Diário de Bordo 9  - Aqui...isolado há 22 dias!... Meu Deus! O mar às vezes é tão belo! Tão maravilhoso!...Outras vezes...Há uma solidão!... Eu não sei já o que sou, afinal! O que sou, afinal, eu?!...Sinto fome!…A alimentação tenho-a racionado!.. A água, há bocado, devido a atenção que tinha que manter, descuidei-me!.. Agora só tenho um bocadinho... Vou-me remediar e terei que beber água do mar...Meu Deus!...Até quando?!...

Construção da Cobertura  da canoa
O tornado deixara-me muito cansado e enfraquecido. Na noite anterior mal pegara no sono. À medida que se aproximava o fim da tarde - e ali, o sol ia pôr-se às cinco e meia - sentia-me invadido por uma profunda tristeza. E, nesse dia, chorei. Não direi que me sentisse derrotado mas estava muito triste. Muito abatido...É verdade que, no dia anterior, chegara a ter no horizonte a Ilha de Fernando Pó. Mas estava ainda longe, porque, se estivesse muito perto, não conseguiria distinguir se era uma linha da costa ou uma ilha. Pois a ilha ainda é grande. Mas deu para ver que era realmente Fernando Pó – a  Ilha de Bioko. Mas, a verdade seja dita, eu não desejava ir lá parar: receava que fosse preso; o regime era intolerante. Infelizmente foi para onde acabei por aportar. 

Entretanto, até lá, os tornados, haveriam de me balancear para os vários quadrantes do horizonte, sem todavia me arrastarem para qualquer recanto da costa. - Num fim de um dia de grande abatimento e solidão mas que, ao contrário de outros dias, me deu para exteriorizar longamente os meus sentimentos para o pequeno gravador. E até para verter as minhas lágrimas. Agora já com o pequeno rádio desligado:

Diário de Bordo 10 - Mas, oh mar!... Foste tu que me chamaste, afinal?!... Ou eu que sou louco?!.. O que foi afinal?!...Eu sinto qualquer coisa em mim!!... Qualquer coisa em mim!!...Não sei!.. Oh Deus!... Porque é que estou aqui, afinal?!...Mar!... Vastidão! Vastidão!... Só vastidão!!... Silêncio!...Lonjura!!... Só mar!... Mar!... Mar!... Mais nada!...Absolutamente mais nada!!!... Só mar!...Mar!...Eu e a minha canoa!... Só mar!mar!...

Oh mar! Fala!...Fala!!... Diz-me se posso chegar a terra!!....Quando?!... Hoje?!.. Amanhã?!...Nunca?!... Responde! Oh mar!....Agora tudo calmo!... (já não se ouvem os sons do pequeno rádio, que desliguei) Daqui a bocado, outra vez... Outra luta!.. Não me dá tréguas...Umas vezes assim, sereno!.. Outras tempestuoso!...Mas que será isto?!...

Peregrinando pelos arredores da minha aldeia
Fim de tarde!... Fim de tarde!... Quando a terra chegará?!...Perdido!.. Aqui!...Nesta vastidão! Nesta vastidão!!... Só mar, mais nada!... Absolutamente, mais nada!!... Agora, nem aves!... Silêncio!... Silêncio!... Onde estão as gentes, onde estão as pessoas?!... Onde estão os milhares de habitantes da terra?!... Onde estão os pesqueiros?!...Os barcos, onde estão?!... Sou eu que estou no mundo apenas!...

QUANDO A DESEJADA COSTA DE ÁFRICA? 

Ó meu Deus! Ajudai-me! Ajudai-me!... Continuai alimentar a minha esperança!... Apenas uma coisa  eu sinto!... O meu peito, o meu coração está livre de tudo! Ninguém me incomoda!...Ninguém me chateia, me pede satisfações!... Não tenho que dar satisfações a ninguém!... É a única vantagem que tenho... De resto...é o silêncio!... Silêncio!... Silêncio, apenas!... Silêncio!... (as lágrimas toldam-me de novo meus olhos)



Com o remo improvisado - Foto disparada com um barrote
No barco que me levou de canoa até Ano Bom, eu pensava demorar dois dias!.... Finalmente encontro-me há 22 dias.. Se tivesse ido para o Brasil, eu sabia que ia demorar dois meses, três meses. Eu estava mentalizado para isso. Eu iria, com certeza, com o leme, com as velas; iria ter domínio na minha canoa...Quando me decido pelo regresso a São Tomé, foi porque sabia que não podia fazer a viagem: a canoa estava com rachas, desequilibrada. Por outro lado, não era possível levá-la para as correntes. Portanto, estava mentalizado já para regressar a São Tomé. Entretanto, passaram dois, três, quatro, cinco dias!..Hoje?!....Amanhã?!... São 22 dias passados!... Umas vezes de indescritível alegria, prazer!... Outros de angústia, de aflição! De Verdadeira aflição!... Esperando a cada momento que uma onda me galgasse!

Eu vejo aqui em volta peixes que nunca vi na minha vida !...Sinceramente, não sei as suas intenções!...Sei que se caísse, cairia num domínio que não é o meu!...Estaria irremediavelmente perdido!... Cá ando, não sei até quando...

Mas tenho algumas culpas!...Eu poderia estar na Ilha de Fernando Pó, mas por teimosia minha decidi ir para a costa de África...Entretanto, as dificuldades estão a surgir... maiores do que eu previa!... E sabe-se lá se uma coisa ou outra eu poderei encontrar....Mas...Meu Deus!...No fundo de mim, no íntimo, alimento uma fé, uma esperança!... Até porque, se não tivesse a certeza de chegar a terra, naturalmente que já teria ficado noutro sítio qualquer...Porque eu já enfrentei tantas dificuldades, tantas tempestades!... Tantos maus momentos, que até agora tenho-os vencidos a todos!...Oxalá continue a poder resistir-lhes
-TARDE MORNA VAI MORRENDO – O sol, qual disco vermelho, ora a despontar ora a sumir-se por entre encastelamentos de nuvens escuras, desce vagarosamente a oeste sobre a curvatura do horizonte, espalhando tonalidades pálidas na leve ondulação, que mal se faz sentir. O ambiente que agora se espelha, bastante mais calmo – Mas oh que contraste com o mar revolto  e encapelado do princípio da tarde! -  É no entanto a imagem de uma imensa desolação e desamparo, mas, ao mesmo tempo, de profunda serenidade, inspiradora de deslumbradas e nostálgicas divagações. Onde as palavras aspiram à plenitude, os sentimentos procuram harmonizar-se entre o coração e a planura horizontal.

Diário de Bordo 12 - Fim de tarde do 22º dia. Que nome hei-de eu dar a este silêncio?!.... Um princípio de tarde agitado... E um fim de tarde morno, triste!...Em que até o sol brilha menos... Em que até o sol está menos luminoso, menos radiante!…O mar mais escuro... O céu mais cinzento... O horizonte mais limitado, mais circunscrito...Não é tão vasto!...O mar! uma vastidão!... Uma planura!... Apenas uma ligeira ténue brisa!...Umas pequenas ondulações!... Como que rugas de um manto imenso... Cinzento!.. Profundo!... Muito profundo!...

Olho para a minha canoa, que vejo?!... Tudo desarrumado!.. Dois plásticos: um com meio litro de água, outro vazio...Outro com algumas coisas dentro... As minhas pequenas roupas, estão a secar sobre as bordas da canoa...A canoa tombaleando...Ligeiramente... Levemente!... Sem fazer qualquer ruído, como que a enquadrar-se neste silêncio!... Neste mesmo quadro para não destoar...Quadro?!... Que nome eu daria este quadro?!... Não sei!...Agora, neste momento, o sol começa a despontar entre nuvens escuras!... À minha retaguarda sobressai um reflexo luminoso... de miríades!.. Um reflexo brilhante!... Lá!...Um peixe deu um salto. Outro voou!...

Para lá do oeste, nuvens escuras!... Mais escuras!...E o sol a surgir no meio delas como uma aparição!... Mas num brilho não tão radiante, não tão radioso como por vezes, o é!...Há um rasto luminoso atrás de mim!... Que ele provoca, como que a apontar-me, como que a dar-me uma réstia de fé, de esperança!...Tudo o mais é cinzento!... Tudo o mais é abandono!...Apenas o reflexo, este reflexo!...É doirado e prateado!.. Cheio de anéis de ouro!... A única coisa que brilha é o sol!... Esta réstia de luz que se estende dele até mim!...Tudo o resto é cinzento!... É abandono!... É esquecimento!...Vastidão!... Lonjura!... Distância!...Numa circunferência imensa!...Sem limites... Sem espaço!... Sem dimensão!....


SOB A CALMA E O SILÊNCIO DO ENTARDECER… Momentos para ouvir alguns sons africanos... Que se perdem na magia e tranquilidade da vasta planície oceânica.

Reina uma atmosfera serena e agradável. Respira-se um ar puro e tépido. Sinto-me absolutamente calmo, nada me perturba. Como se explica que, estando eu perdido no oceano e longe das vistas de qualquer outra presença humana, consiga superar ou esquecer, tão rapidamente, os momentos mais atribulados?... É um segredo que só o mar conhece ou quem, vogando à sua superfície, sinta profundamente todas as suas convulsões ou calmos espasmos. Não se consegue explicar por palavras. O meu espírito goza, de facto, neste momento, de uma quase sublime serenidade. Os sons que ouço fundem-se e refundem-se como ondas vibratórias, em sentimentos de verdadeira magnificência, plenitude e beleza.

 O fascínio do mar começou nesta Baía
Diário de Bordo 13 - Estou ouvindo música no meu pequeno aparelho... Música africana!.. Estou num local africano... próximo de África, onde os sons, são sons apenas!... Não há outros ruídos!...Estes sons chegam-me aos ouvidos, com pureza!... Com agradabilidade!....Com expressão!... Sinto-os!...Não ouço mais sons, senão apenas aqueles que são transmitidos pelo rádio...O som, aqui,  é mais agradável! É mais musical. É muito mais expressivo!...Sinto-o!... Vêm até mim!...Vêm ao meu peito!... Diz-me qualquer coisa!... É melodia!... É qualquer coisa que me diz!... Que me trás!... Que me alimenta!!... É alimentação... É, como que, comida!...

ENTRETANTO A NOITE CAI – E, NAS REGIÕES EQUATORIAIS, CAI QUASE ABRUPTAMENTE – TAL COMO A CORTINA QUE ENCERRA O FIM DE UM ATO NUMA PEÇA DE TEATRO - NÃO HÁ CREPÚSCULO –  A noite cai repentinamente e quase nem se dá por isso. É pois a hora de prestar atenção a outros sons e de perscrutar, atentamente, o que vai além do já quase ensombrado e escurecido horizonte

Diário de Bordo 14 - A Ilha de Fernando Pó está quase a confundir-se no horizonte...Está mais distante, mais cinzenta!...Sinto agora um ruído!!... Virá ele agora perturbar o meu silêncio?!... Agora tudo é mais sombrio, mais cinzento!… Nem o sol brilha!...Escondeu-se!... As nuvens esconderam-no!...Virá ele perturbar o meu silêncio?!... E depois disto o que virá?!... A noite, daqui a pouco, surge... Silenciosa ou tormentosa?!... Sinto que a canoa vai vagueando pela acção das correntes.... A correntes, que são invisíveis, mas que têm força!... Continuam a impeli-la...Agora para Norte!...Há bocado veio de Norte para Sul, impelida pela trovoada...Agora volta para Norte!...E assim ando, assim navego...

Treinos na canoa com que ligaria S.Tomé-Príncipe
Daqui a pouco é noite....Depois é tudo escuro!...Ficarei metido na minha canoa, deitado no fundo dela...De vez em quando, vigilante!...Observando o horizonte, a ver se vejo...Ah!, porque eu quero a costa de África!... Eu quero a misteriosa costa de África que custa a mostrar-se!... É o que me interessa!...

HORA DE BALANÇO DO DIA: Pouso o gravador para uma breve pausa. Tranquilamente  e a meditar nas palavras que registei. Que parecem ainda ressoar-me aos ouvidos numa animadora e reconfortante esperança. Tanto mais que os ruídos que julgava ter ouvido  há pouco, afinal não terão passado de ecos dos sons do rádio, como que  a repercutirem na minha mente ou como, se porventura, ecoassem dos  confins do espaço. Depois é altura  de fazer o balanço: do que ainda me resta e do que o mar me levou, questionar as desilusões e de acalentar novas esperanças. E de me lembrar da carta marítima oferecida pelo cantor francês Antoine


 

Diário de Bordo 15 - Não trouxe carta nenhuma para me orientar. Aliás. tenho um esboço, uma cópia de uma carta marítima de correntes e ventos, entre a África e o Brasil, na faixa do equador e na qual estão apontadas as Ilhas de Ano Bom, São Tomé e Príncipe e Fernando Pó (Bioko). Mas isso é uma coisa muito rudimentar, não é muito pormenorizada. Uns traços apenas, algumas indicações muito ligeiras. Essa cópia foi-me oferecida pelo cantor francês Antoine, quando passou por São Tomé, no seu veleiro, com o qual anda a dar a volta ao mundo. Farto-me de olhar para esse bocadinho de papel  vegetal e chego à conclusão de que realmente estou próximo. Muito perto!....Porque será que custará então a descobrir?!... Essa é a interrogação que eu tenho.... Da outra vez, quando fui para a Nigéria, ao fim de treze dias eu estava lá!....Claro que tinha leme, podia navegar com a canoa conforme queria. Podia conduzi-la pela orientação mais desejada. Agora não o tenho mas já tenho utilizado  a vela, e, com o remo que improvisei, a canoa já tem andado bastante!... Já são 22 dias passados... Claro que venho de mais longe!... Mas já era tempo de chegar à costa de África. 

Disponho de duas bússolas a bordo: uma que posso fixar na canoa, a outra que trago permanentemente no pulso...Este é que é o meu relógio, é o que me interessa... São os pontos que me interessam!... A direção norte interessa-me...A nor-noroeste, também...Neste momento, as horas para mim não contam... Conta apenas a direção que a canoa leva e mais nada!... E é para esta bússola, que eu trago sempre no pulso, que eu olho permanentemente...De resto, as horas para mim não contam!

MAIS UMA NOITE LONGA – SIM, DURANTE A NOITE, AS HORAS CONTAM – E, POR VEZES, NÃO SÃO HORAS MAS  ETERNIDADES!

Diário de Bordo 16 -Já é praticamente noite do 22º dia. Apenas se vê no horizonte uma língua de fogo a assinalar o crepúsculo....O Céu apresenta-se completamente coberto de nuvens cinzentas, um bocado espessas para sudoeste, o que indica que iremos  ter chuva esta noite, de bom lado... Quer dizer, de sul para norte...Se vier com esta direção, favorece. E vou dar uma arrumação à canoa a fim de ver se passo mais uma noite...

Eu não perdi a esperança, apesar de tudo... Esperar!... Até quando?!..

...




terça-feira, 9 de novembro de 2021

Presidente Carlos Vila Nova - “As alterações climáticas em São Tomé e Príncipe já provocaram a perda de cerca de 4% de território com a subida das águas do mar” – As queimadas a norte e as desflorestação a sul, vão alterando também o clima em S. Tomé, com menos chuvas - Alerta que não pode ser ignorado – Somos testemunha dessa ameaça: do que era a Ilha de S. Tomé, há 46 anos e das áreas, agora submersas.


JORGE TRABULO MARQUES - Jornalista


O Presidente da República Democrática de STP, numa entrevista à DW, dias antes  de participar na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia, a decorrer entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro, com a participação de vários líderes mundiais, reconheceu que tem "uma importância acrescida" para São Tomé e Príncipe, apesar de não ser um país poluidor

Efeitos das alterações climáticas -  Tendo declarado que, “o arquipélago, formado por duas ilhas principais, sofre sobremaneira os efeitos das alterações climáticas. "Como consequência, registamos com desagrado a diminuição do espaço terrestre do país. Perdemos cerca de 4% do território nacional com a subida das águas do mar. E isto é muito preocupante. Acontece connosco e acontece com os outros países", lembrou.

NÃO SE PODE FICAR INDIFERENTE  ESTA DESFLORESTAÇÃO  DESMEDIDA - Justiça trava devastação da zona sul de S.Tomé -  Mas será que travou mesmo?

SECAS PROVOCADAS PELA GRAVANA ESTÃO A DEIXAR NO DESESPERO ALGUMAS DAS POPULAÇÕES MAIS ISOLADAS -

Tal como já  tive oportunidade alertar,  de nada poderão valer as ajudas monetárias se  a desflorestação e as queimadas prosseguirem – Esse panorama persiste e agrava-se a cada dia que passa. Em queimadas, a noroeste e, em desmatação, selvagem a sul. 

Algumas das praias poderão desaparecer até ao fim do século –O aquecimento global, atividade vulcânica dos Camarões, exploração dos carbonetos, as principais causas de uma catástrofe à vista e de imprevisíveis consequências.  Mas, a desflorestação em S. Tomé, além de propiciar alterações climatéricas na Ilha, também pode contribuir para o agravar destes riscos



Já conhecia a desflorestação através de vídeos e de fotografias - Porém, longe de imaginar que a sua dimensão  fosse tão  extensiva - Pelo que me foi dado observar,  a área devastada, ao sul da ilha de S. Tomé,  pareceu-me duplicar ou mesmo triplicar os tais 4000 hectares que  foram concessionados  pelo Estado santomense a um grupo privado Vi que existem graves ameaças ambientais, tanto à beira mar como no interior. 


Por exemplo, onde está o recife (ilha), que se situava frente à praia lagarto, que  há 46 anos ficava completamente descoberto? - Sim, no qual os pescadores iam buscar o isco  para a sua pescaria e os veraneantes  se estendiam ao sol. Não só não descobri os menores sinais desse recife espalmado, como, ainda bem pior: vi uma baía, quase  sem margem, com a maré cheia a invadir a estrada e, nalgumas áreas,  com mais cascalho de que areal.  

Bem diferente daquela que fora uma das mais aprazíveis praias – Ornada de coqueiros, por um extenso e suave areal, junto à qual surgiam inúmeros caranguejos verdes, vindos das tocas que esburacavam no mato para capturarem as suas presas.  Eram tantos a atravessarem a estrada, que havia quem se divertisse a esmagá-los com os pneus do carro, sobretudo à noite. Agora, o que se descobre é uma curta língua de cascalho, que entretanto o asfalto vai protegendo, comida pelo avanço do mar, alguns troncos de esguios coqueiros e de outras árvores, que ameaçam ser arrancados a todo o momento, devido às investidas das ondas na própria estrada, também já esta, de onde em onde, bastante comida e esventrada. 


Orlas costeiras comidas pelo mar, colocando em risco habitações, caminhos ou estradas. Então, na estrada das Neves, depois da Lagoa Azul, por mais paredões que ali se façam – e vimos que havia importantes obras em curso – não tarda, que o troço existente, acabe  por ficar submerso e de se tornar intransitável. E se torne necessário  romper as veredas e fazê-la noutras curvas de nível, mais alto. O pior é a insegurança para  as pequenas comunidades  piscatórias, que vivem as suas vidas, intimamente com o mar,  junto de encostas, tão abrutas, e ao mesmo tempo já tão ameaçadas pelo avanço das águas,  as quais, não tendo  outra alternativa onde se alojar, só restará a possibilidade de virem a  transformar-se em aves.  Pois, mas é gente que vive com um pé em terra e outro no mar – E, este, além de ser adverso, lá fora, nas fainas do seu dia, agora, ainda por cima, lhes ameaça o próprio lar, a humilde cubata de madeira.  Antevê-se, pois,  um futuro algo incerto e inseguro. 

A caminho do sul, ao chegar-se à Ribeira Afonso, até há  porcos que, na fase da maré-vazia,  tranquilamente invadem a margem do escasso areal negro que resta para se  refastelarem de marisco, contudo, um observador mais atento, nota que, uns metros mais ao nível do arruamento,  facilmente se apercebe que já  nem as obras de proteção,  igualmente ali levadas a cabo,  poderão  assegurar que as canoas, ali empoleiradas, deixem de ser  arrastadas por um temporal mais agressivo. 



SECAS PROVOCADAS PELA GRAVANA ESTÃO A DEIXAR NO DESESPERO ALGUMAS DAS POPULAÇÕES MAIS ISOLADAS - Repetimos o alerta que, por várias vezes, aqui fizemos 



Tal como é referido por especialistas, mesmo até por estudos realizados há mais de cem anos ( o caso deste breve texto)  na extensão da Ilha de São Tomé  há uma diversidade enorme de climas: enquanto se registam 11 graus centígrados desagradáveis no Pico nas manhãs da gravana ou das chuvas, a cidade derrete-se a 28 ou 33 graus á sombra; enquanto o nordeste da Ilha se mirra na gravana  seca e ventosa, chove diluvialmente  em S. Miguel


Mesmo dentro da altitude da cultura cachoeira, até 800 metros, há uma diversidade enorme de condições atmosféricas, como se vê pela época da maturação do cacau , tão diferente do norte da Ilha para os Angolares, por exemplo, e pela distribuição da colheita no decorrer do ano. Não se faz bem ideia de quantas modalidades o clima apresenta ao longo da Ilha" 


Esses são os fatores inerentes ao relevo  geográfico, porém, o mau é que a esses fatores naturais, se vieram associar as agressões climáticas  - 



VITOR CONSTÂNCIO - Entrevista - A obra Expansão Portuguesa, de Nuno Valério e a situação económica mundial, entre outras questões

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

ENTREVISTA A VITOR CONSTÂNCIO, ex-Vice Presidente do Banco Central Europeu, sobre várias questões, que surgiram a propósito da obra, intitulada: Expansão Portuguesa: Uma História Económica do Professor Nuno Valério, em declarações que tive a oportunidade de recolher, após a cerimónia que fez da sua apresentação, que decorreu no encerramento da Feira do Livro de Lisboa, bem como outros aspetos da sua vida profissional e, ainda, de como encara a atual situação económica mundial

O ex-Vice Presidente do Banco Central Europeu, referindo-se à importância da referida obra do investigador do CSG/GHES, professor catedrático e decano do ISEG, seu antigo colega, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade Técnica de Lisboa, que teve o prazer de apresentar, começou por nos declarar ser “um livro bastante factual, que não entra em polémicas interpretativas ou julgamentos valorativos, em torno do que é tão mitificado da nossa história, mas o livro de um economista, com o intuito de proporcionar um conhecimento amplo dos factos económicos, que, Constâncio, classifica como um contributo importante para o leitor poder fazer as suas interpretações

Trata-se de “uma síntese do reconhecimento das navegações portuguesas nas antigas colónias e dos seus vários impérios ao longo da colonização, que oferece uma perspetiva alargada do processo histórico e económico externo de Portugal, no espaço temporal que decorre entre a conquista de Ceuta em 1415 e a entrega da administração de Macau à China em 1999.

Sobre a descolonização, Constâncio, atual professor catedrático convidado do ISEG, reconhece que o império colonial, foi demasiado mitificado e acabou porque tinha mesmo que acabar - Pena ter sido tarde demais

Questionado se, como economista, a história lhe interessa, respondeu-nos que tem lido muitos livros de história, mas nunca fora tentado a publicar nenhum livro, tendo, no entanto, chegado, a lecionar fugazmente na área da história económica, sobretudo na parte da área económica europeia

Biografia: Vítor Manuel Ribeiro Constâncio, nasceu em Lisboa, 12 de outubro de 1943, prestigiado e economista e político português.

Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade Técnica de Lisboa, Vítor Constâncio foi secretário-geral do Partido Socialista, de 1986 a 1989, e candidato derrotado a primeiro-ministro, em 1987.

A sua experiência governativa tem início quando Constâncio é chamado para o cargo de Secretário de Estado do Planeamento, imediatamente após o 25 de abril de 1974, nos I e II Governos Provisórios, entre 1974 e 1975. A seguir, já em 1976, depois do 25 de novembro, será Secretário de Estado do Orçamento e do Plano, no VI Governo Provisório.

Iniciou a sua actividade no Banco de Portugal em 1975 como Director do Departamento de Estatística e Estudos Económicos. Foi Vice-Governador em 1977, 1979 e em 1981-84. Exerceu as funções de Governador em 1985-85 e em 2000-10, é nomeado a Vice-Presidente do Banco Central Europeu

É Professor Catedrático Convidado do ISEG/UTL desde 1989, tendo sido coordenador científico e docente do MEMF desde a sua criação até 2010. Neste momento exerce as funções de Conselheiro Científico não executivo.

 




sexta-feira, 5 de novembro de 2021

S. Tomé e Príncipe – 5 de Nov. Dia Nacional da Juventude - O Presidente da República, Carlos Vila Nova, recordou a juventude dos anos 74/75 – A efeméride foi assinalada com vários atos e incitativas, até artísticas no Liceu Maria Manuela Margarido, contou com a presença do PM Jorge Bom jesus e do Ministro da Juventude, Desporto e Empreendedorismo

Jorge Trabulo Marques - Jornalista   - 

Há 47 anos, os jovens que formaram a Associação Cívica pró-MLSTP,  deram um importante contributo para que, o  governo português na altura,  pudesse reconhecer o MLSTP como único representante do povo são-tomense, com sucessivas manifestações e comícios populares

FOMOS TESTEMUNHA DESSA PÁGINA HISTÓRICA - Em sucessivos artigos que publicámos na revista angolana, Semana Ilustrada  

A primeira Assembleia Geral, dessa histórica associação, decorreu justamente em 5 de Novembro de 1974, tendo culminado com a adoção de um caderno reivindicativo, em que os Estudantes exigiam algumas melhorias no plano de ensino em São Tomé e Príncipe – Mas também o reconhecimento do MLSP: como seu legitimo representante.

A juventude nativa, então liderada pelos irmãos,   Costa Alegre, mobilizaram não só os jovens como também  milhares de outras massas populares. -Outros pormenores mais à frente 

Associação Cívica Pró-MLST, mais conhecida scomo “Cívica”,  era apoiada por estudantes entretanto regressados da metrópole e politicamente radicalizados que, até à assinatura do acordo com o governo português, conduziram a “luta” pela independência de São Tomé e Príncipe.

A luta  incluiu manifestações (como a de 22 de agosto junto ao Palácio do Governo), greves, boicotes e ameaças a colonos e trabalhadores das roças 



5 DE NOVEMBRO - 1974-2021 - Volvidos 47 anos

A histórica data,  foi comemorada  com vários atos e iniciativas, até artísticas, nomeadamente de Cícero Alves e do seu filho Elvis Pina Narciso no pavilhão do Liceu Maria Manuela Margarido, contou com a presença do PM Jorge Bom jesus e do Ministro da Juventude, Desporto e Empreendedorismo

 Por sua vez, o Presidente da República, Carlos Vila Nova, que se ausentou de S. Tomé para participar na cimeira do clima das Nações Unidas em Glasgow, numa mensagem gravada que dirigiu ao seu pais, recordou a juventude


dos anos 74/75, que acalentaram sonhos e lutaram pela independência nacional, comprometeram-se nas tarefas de desenvolvimento nacional, deram tudo se si para a organização da nossa juventude, em suma, esforçaram-se pelas melhores condições de vida das nossas populações, em geral, e da juventude, em particular -

Jorge Bom Jesus, aproveitou  para anunciar programas específicos para juventude face aos efeitos nefastos da Covid-19-  O primeiro-ministro são-tomense, Jorge Bom Jesus, em mensagem, por ocasião de 05 de Novembro, dia nacional da juventude,  anunciou criação de programas específicos para a juventude poder, sobretudo, recuperar-se,  das consequências negativas da Covid-19.

 “O governo não está a regatear esforço no sentido de delinear no plano de retoma e recuperação económica, política, programas específicos, para a juventude” disse Bom Jesus, tendo argumentado que a pandemia da Covid-19 afectou “duramente” o programa de bolsa de estudo que se destinava a juventude nacional. https://www.stp-press.st/2021/11/08/jorge-bom-jesus-anuncia-programas-especificos-para-juventude-face-aos-efeitos-da-covid-19/


Ministro da Juventude, Desporto e Empreendedorismo, Vinício Teles Xavier de Pina, destacou também o papel da juventude há 47 anos.

Dirigindo ao Primeiro-ministro e a outras entidades presentes, numa cerimónia que decorreu no Liceu Maria Manuela Margarido, e depois de sublinhar a sua satisfação por usar da palavra neste espaço, que considerou de aprendizagem, de conhecimento e do saber para a juventude, recordou os  47 anos do movimento que deu origem ao dia 5 de Novembro, o dia da Juventude de São Tomé e Príncipe, agora comemorado num contexto de pandemia global da COVID-19

Tratou-se de um momento histórico e singular para a nossa juventude, em que embora as revindicações do passado tenham sido outras, as motivações ainda continuam as mesmas. Pois, as motivações que consistiam na busca de melhorias para a juventude, ainda prevalecem nos tempos de hoje no seio da juventude nacional.


Deste modo, pela determinação e coragem nas reivindicações destas necessidades, quero aproveitar este púlpito para prestar as minhas homenagens a todos os autores deste movimento e, neste mesmo púlpito, endereçar os meus mais respeitosos cumprimentos e felicitações a todos os jovens de São Tomé e Príncipe.

Dirigindo-se, depois aos jovens,  disse que “ um  Momento como este permite-nos festejar, mas também obriga-nos a todos a reflectir no sentido de continuarmos a trabalhar em busca de soluções capazes de criar impacto positivo na vida de cada jovem de São Tomé e Príncipe.

Neste sentido, o Governo através do Ministério da Juventude, Desporto e Empreendedorismo, e os parceiros do Sistema das Nações Unidas (UNICEF, FNUP, PNUD), dentre outros, têm contribuído na busca de melhoria em prol da Juventude Nacional.- Excertos de https://www.telanon.info/politica/2021/11/05/35605/dia-da-juventude-de-stp-5-de-novembro/


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Beldade da Guiné Equatorial - Vence a primeira edição de Miss Premium África

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

Pelo que já pude observar, quando voltei à capital  da Guiné Equatorial, 42 anos depois, de ali ter aportado numa piroga, a sua beleza está patente, tanto  na sua paisagem como nos rostos tranquilos e sorridentes do seu povo. Tal como acontece nas demais Ilhas do Golfo da Guiné: em S. Tomé e Príncipe  

A jovem modelo Melissa Angélica Toghanro Eyang, de 23 anos, vence a primeira edição do Miss Premium Africa 2021. O concurso foi realizado de 15 a 30 de outubro de 2021 em Port Harcourt, República Federal da Nigéria, onde mais de 15 Misses de todo o continente compareceram.

Esta primeira edição do Miss Premium Africa aconteceu de 15 a 30 de outubro de 2021 na cidade nigeriana de Port Harcourt. Após esta edição, o concurso será organizado todos os anos, mas em diferentes países.

O concurso de beleza Miss Premium Africa é um concurso focado na promoção da cultura africana, na reorientação dos valores do turismo, na integração sócio-cultural, na promoção da paz, na aquisição e desenvolvimento de talentos e habilidades, no desenvolvimento de capacidades de auto-suficiência , trabalho autónomo e empoderamento de mulheres jovens no continente africano 

A grande final desta primeira edição foi realizada na noite de sábado, 30 de outubro de 2021, quando o grande júri proclamou Melissa AngélicaToghanro Eyang digna da coroa e jackpots da competição, como um veículo, um terreno na Nigéria, uma viagem paga para Dubai, um tour pela África e uma soma financeira de um milhão de francos CFA.

Melissa AngelicaToghanro Eyang é natural de NzokNzomo, província de Kie Ntem - Informação da página oficial da GE

GENTE BONITA EM ILHAS DE BELEZAS LUXURIANTES 

A ilha de Bioko, com a capital de Malabo , assim como o pico Basilé, o ponto mais alto da ilha de Bioko e da Guiné Equatorial, com 3011 m de altitude, que faz parte da linha vulcânica dos Camarões, bem como as plantações de cacau de Sampaka ou o paraíso nas praias de Ureka e suas tartarugas gigantes, a exuberante vegetação das suas florestas, entre outros tantos motivos, é considerado pelo visitante, um dos mais belos lugares mágicos que se conhecem

Malabo fica a 32 km da costa de Camarões e uma área de 2.017 km². Antigamente, nos tempos espanhóis, era conhecido como Fernando Poo, nome  descobridor português no século XV, Fernão do Pó. 

A Guiné Equatorial que gostaria de conhecer - Recomendação da Embaixada da Guiné Equatorial em Portugal - Ver em https://www.embarege.com/a-guine-equatorial-que-gostaria-de-conhecer


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Por volta de 1471, Fernando Pó, navegador português quase desconhecido, chegou ao Golfo da Guiné e, navegando para Sul, aportou a várias ilhas: São Tomé, Príncipe, Formosa e Anno Bom. Estas duas viriam a fazer parte da República da Guiné Equatorial. A Formosa cedo tomou o nome do seu descobridor – Fernando Pó – vindo só, após o século XIX, a chamar-se Bioko, a sua designação actual.

Fernando Pó - 1771
1771 - Ano Bom

A Guiné Equatorial tornou-se independente em 1968 após 190 anos de colonização espanhola, e após 11 anos de sofrimento às mãos de um regime cruel  e destruidor, o Povo da Guiné Equatorial foi libertado em 3 de Agosto de 1979, pelo chamado Golpe da Liberdade.

É um país da África Ocidental subsaariana, com cerca de 1,1 milhões de habitantes. Encontra-se situada no Golfo da Guiné e é integrada por uma região continental e uma região insular. A capital, Malabo, está localizada na ilha de Bioko. O país encontra-se dividido administrativamente por oito províncias: Annobón; BiokoNorte; Bioko Sul; Centro Sul; Kié-Ntem; Litoral; Djibloho   e Wele-Nzas.

A Guiné Equatorial constitui um dos países mais pequenos e menos povoados da África continental. As línguas oficiais são o espanhol,  o francês e o português.

A sua economia depende, essencialmente, da agricultura e da pesca, da exportação de madeira e de  minerais, sendo que, desde finais do século XX, a Guiné Equatorial tornou-se num dos maiores produtores de petróleo da África subsaariana, integrando em 2017 o 14º lugar da Organização dos  Países Exportadores de Petróleo (OPEP), passando assim a ser o sexto país africano na OPEP, juntando-se a Angola, Argélia, Gabão, Líbia e Nigéria, e é o segundo país lusófono a estar presente neste núcleo petrolífero, que representa a maioria da produção petrolífera mundial.

A Guiné Equatorial aderiu à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2014 e, em junho de 2017, no âmbito da XV Conferência dos Ministros da Justiça dos Países de Língua Oficial Portuguesa, que teve lugar em Brasília, foi aprovado o Protocolo Adicional número três ao Acordo de Cooperação que estabelece o Regimento da Conferência dos Ministros da Justiça dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CMJPLOP), que redenomina a Conferência e permite a adesão da República da Guiné Equatorial à dita Conferência como membro de pleno direito.

A CPLP mantém a sua disponibilidade para apoiar a Guiné Equatorial no âmbito dos compromissos decorrentes das Declarações de Díli e Brasília, relativamente à adopção do Acervo da CPLP, nomeadamente em matéria de Democracia, Estado de Direito e do respeito pelos Direitos Humanos.