Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador -
SARA VIEIRA, UM EXEMPLO DE DEDICAÇÃO E DE AMOR EM DEFESA DAS TARTARUGAS MARINHAS
Atualização – 26/01/2017A Associação de Conservação das Tartarugas
Marinhas em São Tomé e Príncipe está a criar outras fontes de rendimento para
as mulheres “Palayes” do arquipélago que comercializam a carne de tartarugas
marinhas.São Tomé e Príncipe: “Palayes” incentivadas a abandonar a
venda de
Corações dedicados e generosos
Há vidas que são um exemplo de dedicação e de amor à Natureza ou
ao Próximo, em que não se olham a sacrifícios pessoais, a meras vaidades ou
caprichos de ostentação, mas à defesa de uma causa, quantas vezes longe do lar, da
família e dos amigos mais próximos – Um verdadeiro apostolado, em prol do
bem-comum: de uma fé, de um ideal, de uma causa nobre – Este é realmente o
exemplo seguido pela bióloga, Sara Vieira, coordenadora dos trabalhos da ATM, em
S. Tomé e Príncipe, com larga experiência em projetos de tartarugas marinhas em Cabo Verde, por onde passou, antes de, há três anos, ter rumado às Ilhas
Verdes do Equador.
Durante a minha estadia, em S. Tomé, tive o prazer de ter oportunidade
de visitar as instalações da ONG Marapa, uma das principais parceiras da
ATM em são Tomé e Príncipe, uma organização não governamental e sem fins lucrativos,
que trabalha em regime de voluntariado, pugnando pela conservação das
tartarugas marinhas, assim como de assistir à largada, na praia Jalé, ao sul da
Ilha, de S. Tomé, de algumas centenas de pequenas tartarugas, acabadas de sair de um ninho do centro incubador para onde são recolhidos os ovos, quando as tartarugas ali vão desovar, de modo a serem protegidos dos predadores e de outras ameaças. A coordenar o projeto, está a bióloga, Sara Vieira, sem
dúvida, uma verdadeira peregrina em
defesa da proteção das tartarugas marinhas, palmilhando as praias de norte a
sul, Micolóló, Fernão Dias. Morro Peixe, Santana, Porto Alegre e outras praias - Além de ficar a conhecer uma personalidade de uma grande generosidade, um coração sensível, dedicado e amoroso, bem como de também poder saber das suas preocupações, em
relação à falta de mecanismos capazes de uma fiscalização eficaz - Pois teme que a lei, que foi aprovada. se transforme numa lei morta e a matança das tartarugas persiga..
EXISTEM HÁ MILHÕES DE ANOS - MAS HÁ ESPÉCIES QUE ESTÃO EM VIAS DE EXTINÇÃO
As tartarugas marinhas
existem há mais de 150 milhões de anos, conseguiram sobreviver a todas as mudanças do
planeta, mas atualmente são dos seres mais vulneráveis do planeta. De acordo
com estimativas cientificas, de 1000 filhotes nascidos, apenas um chega à idade
adulta. "E o grande problema das tartaruguinhas é que, se elas
desaparecerem, nós também vamos ficar com o ecossistema marinho mais pobre –
Reconhece a bióloga, Sara Viera, frisando
que a sua importância ecológica é muito grande, principalmente nas zonas de
recrutamento dos peixes, onde os peixes se vão reproduzir e desenvolver"
De facto, São Tomé e Príncipe podia
ser o maior santuário mundial da desova de tartarugas marinhas, já que, das
sete espécies existentes no mundo, cinco são atraídas pelas maravilhosas praias
das Ilhas Verdes do Equador - Tantas
como as que se dirigem à costa brasileira, sendo que, quer no outro lado do Atlântico,
quer nas duas Ilhas do Golfo da Guiné, duas espécies estão em risco de extinção
As tartarugas marinhas,
além de contribuírem para o equilibro do biodiversidade, podiam trazer grandes
dividendos turísticos e à investigação científica e ambiental, bem maiores da atracão que, atualmente, já exercem,aos
visitantes que demandam as praias para assistirem à maravilhosa largada dos ninhos em direcção ao
mar, porém, as organizações, que, em regime
de voluntariado, proporcionam a incubação
dos seus ninhos, em lugares protegidos, ainda se vêm a braços, tanto com falta de apoios, como, sobretudo, pelas capturas
indiscriminadas para o consumo da sua carne.
Em 2014, foi aprovado
pelo Governo de São Tomé e Príncipe. uma lei sobre a captura e comercialização
de tartarugas marinhas – Considerada, então, pelas organizações ecologistas, uma
grande vistoria – Mas o receio da bióloga Sara Viera, a coordenadora dos projetos
científicos e de fiscalização, é que se transforme numa lei morta: não basta
que a lei tenha sido vertida ao papel: é preciso fiscalizar porque é um
problema realmente muito grande. Não são somente quatro ou cinco pessoas que
capturam tartarugas marinhas, são centenas de pessoas que dependem desta
atividade como meio de subsistência", explicou Sara Vieira, pelo que a bióloga defende um "maior compromisso" do Governo para ajudar a encontrar alternativa
económicas para essas pessoas, porque caso contrário "essa captura nunca
vai acabar".
Ilha de São Tomé -
Momento maravilhoso da largada de um ninho de tartarugas em direção ao oceano,
junto à linha do Equador na Praia Jalé - Recanto de um paraíso rodeado de
coqueiros, areia fina, dourada e macia, a perder-se por extensa superfície de
um azul esmeralda de água quente, brilhante e cristalina – Um raro privilégio
que jamais se apagará da retina de quem o contempla -
Carne e ovos de tartaruga à venda
(Atualização) – Boa Noticia) Mas há
resultados positivos. São Tomé e Príncipe: “Palayes” incentivadas a
abandonar a venda de carne de tartarugas
26/01/2017A
Associação de Conservação das Tartarugas Marinhas em São Tomé e Príncipe está a
criar outras fontes de rendimento para as mulheres “Palayes” do arquipélago que
comercializam a carne de tartarugas marinhas.
Há três anos que a
associação presidida por Sara Vieira em parceria com a organização São-tomense
Marapa trabalha para mudar o comportamento da população no que toca à
comercialização e consumo de carne e derivados de tartarugas marinhas.
A tarefa é difícil tendo em conta a
situação de pobreza da maioria da população marcada pelo desemprego e baixos
rendimentos.
02/01/2016A tartaruga Sada, uma
das cinco espécies existentes em São Tomé e Príncipe, pode desaparecer "em
menos de cinco anos", correndo também outras quatro espécies "um
sério risco de extinção Tartaruga Sada vai desaparecer em São Tomé - Correio da
Manhã
Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador - Recordando o Comandante Max
Justo Guedes – 1927- 2011 - Considerado o “Ícone da História Naval Brasileira e da História
da Cartografia” - Ouça a entrevista
“Na Marinha, dirigiu o
setor de Patrimônio Histórico e Cultural, reorganizou
e equipou o Serviço de Documentação Geral da Marinha; promoveu a
implantação de museus (Museu do Forte da Barra de Santo António – BA; criou os
Navios-Museu; Museu da Caravela – Campinas; Espaço Cultural da Marinha – RJ);
propôs e coordenou incontáveis colóquios internacionais, preparou edições críticas
e publicou coletâneas que são fundamentais para o conhecimento da história
brasileira, como por exemplo, os volumes da História Naval Brasileira. – Excerto Nosso Contra-Almirante Max Justo Guedes (1927-2011 .
VIDEO - ENTREVISTA A MAX JUSTO GUEDES - EM 1989 O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
Pedro Álvares Cabral,
quando partiu do Tejo, com uma armada para se dirigir à Índia, torneando o Atlântico
Sul, a oeste, ele já tinha conhecimento prévio da existência de terras ao sul
das que, Colombo, havia descoberto
Por isso, a descoberta do Brasil, não foi obra do acaso: "ele não ia aventura a descobrir terras: era
uma viagem definitiva. Com tudo planejado; a época de saída absolutamente
planejada –
Defende, Max Justo Guedes, um dos mais notáveis historiadores da cartografia
luso-brasileira,autor de mais de
meia centena de estudos e ensaios carto-bibliográficos dispersos em inúmeras
publicações, numa breve entrevista que, em Outubro de 1989, honrosamente
me concedeu para a Rádio Comercial, por ocasião da reedição da obra “O Descobrimento do Brasil” Um estudo baseado, não apenas nas pesquisas que efectuou, como se navegava na época, mas também na sua experiência marítima "A História das Navegações Portuguesas tem pecado por ter sido escrita, por vezes, por quem desconhecia Arte Náutica - dizia Sacadura Cabral (…) por estranhos às «coisas do mar» como eram quase sempre, cronistas e historiadores . Incapazes de se imaginarem a navegando dentro dos navios antigos. Eles fiavam-se nas versões que corriam, contadas por mareantes românticos, que acrescentavam um «ponto» ao seu «conto». - Não é o caso do Comandante Max Justo Guedes
Mas eis as palavras, que, o Comandante Max Justo Guedes, dirigiu aos leitores. antes de expor o aprofundado estudo:
"Nos últimos meses do já
longínquo ano de 1960, dei efectivo início à redacção de trabalho sobre o
Descobrimento da América do Sul, planejado desde os tempos da Escola Naval, mas
que ficara, até então, limitado a anotações esparsas.
Natural foi que cuidasse
logo do Descobrimento do Brasil, estudo concluído nos tumultuados dias de
Agosto do ano seguinte. (houve a renúncia do Presidente Jânio Quadros), que,
logo depois, foi entregue, para publicação, à Diretoria de Hidrografia e
Navegação (DHN).
Em Dezembro de 1963,
designado instrutor de guardas-marinha, iniciei. viagem de instrução à Europa e
América do Norte, deixando os originais ainda aguardando oportunidade de
impressão, situação em que os reencontrei, em Maio seguinte, quando retomei ao
Rio de Janeiro. Pude, por isso, antes de ser transferido para o Nordeste,
embora dificultado por intervenção cirúrgica que ·me imobilizou por dois longos
meses, efectuar pequenas alterações nos originais, consequentes das rápidas
pesquisas que realizara, em Lisboa, quando o NE «Custódio de Mello», navio em
que viajara, esteve no Tejo.
No ano e meio em que
servi em Alagoas não mais tive notícias do andamento da impressão, ..• sendo
surpreendido, em 1966, quando voltei a servir na ex-capital brasileira, com
telefonema de um companheiro da DHN, informando-me que o trabalho fora editado.
Pese embora a boa vontade
dos que trabalharam na impressão a falta de revisão, por parte do autor, em
assunto especializado e alheio ao quotidiano da Diretoria, permitiu que falhas
tipográficas e mesmo erros, que talvez pudessem ter sido evitados, aparecessem
no· texto impresso.
Ainda assim, o opúsculo
alcançou certa repercussão no Brasil, dando origem às comemorações conjuntas
Brasil-Portugal, do Quinto Centenário de Pedro Alvares Cabral, em 1968,
iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro impulsionado pelos
saudosos Wanderlei de Pinho e Pedro Calmon.
Quando coordenei, em
1975, a redacção e publicação do primeiro volume da História Naval Brasileira,
aproveitei, parcialmente o trabalho, transformando-o em capítulo da obra, com
as reduções e adaptações indispensáveis ao propósito dela; também ali incluí alguns
outros escritos que enfocavam descobrimentos americanos, mas o projecto
original e maior, acima mencionado, mercê de obrigações múltiplas em novas
direcções, não mais seria retomado. O Descobrimento do Brasil ficou sendo a
única singradura da viagem planejada.
Decorridos mais de 27
anos desde a redacção do texto original, as grandes comemorações, ora em curso,
dos Descobrimentos Portugueses, fazem com que meu trabalho seja novamente
focalizado. A editora VEGA interessou-se em reeditá-lo, com introdução - que
extremamente me honra do ilustre, admirado e querido amigo Professor Doutor
Luís Mendonça de Albuquerque.
Não faria sentido deixar
no texto os erros e omissões já referidos e de há muito notados; procurei
eliminá-los, sem, contudo, alterar substancialmente, na forma ou no conteúdo, a
primeira edição; introduzi, também, quando isto foi indispensável, algumas
notas, facilmente reconhecíveis porque indicadas pelo ano em curso.
É minha modesta
contribuição à divulgação e melhor conhecimento da gesta maior do querido e
admirado povo lusitano e meu sincero agradecimento pela obra magnífica por ele
realizada em meu país, descobrindo, povoando, colonizando, civilizando e
expandindo-o a limites quase inacreditáveis e legando-o unido, política e socialmente,
aos brasileiros de hoje.
Rio de Janeiro. Novembro
de 1988
Max Justo Guedes
UM CLÁSSICO - Entre os livros sobre a descoberta do Brasil - Disse Luís de Albuquerque
O historiador Luís de Albuquerque, no prefácio que escreveu, diz que se trata de "um clássico, sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral, os seus antecedentes e, sobretudo, sobre a exploração que a sua armada fez de uma pequena parcela da extensa costa brasileira.
Max Guedes, oficial
superior da Marinha de Guerra Brasileira prefigura um caso, em nossos tempos já
infelizmente pouco vulgar, de atracção de marinheiro pela História da Marinha
ou de temas que a ela intimamente se relacionam. O Descobrimento do Brasil,
publicado quando era capitão de corveta, é o segundo passo de uma vida dedicada
aos estudos históricos ( em 1963 publicara Derrotas dos Grandes Navegadores,
sua obra de estreia), mas que deve ser considerada o ponto de partida
definitivo para seguir uma vocação sem hiatos e de ano para ano enriquecida com
perspectivas mais ambiciosas e mais diversificadas. Nos seus estudos, que se centrifugam
em · redor do pó/o que é a Marinha, incluem: trabalhos de excepcional
merecimento para a História Naval Brasileira ( em curso de publicação), obra
monumental de que foi um dos mais entusiastas impulsionadores; textos sobre
Cartografia portuguesa dos séculos XVI e XVII, como Brasil Costa Norte
Cartografia Vestutissima ou Anónimo - António Sanches, e. 1633, ambos de 1970;
análises dos antigos roteiros, como um Roteiro Apócrifo do Estreito de
Magalhães - Tentativa de Identificação da autoria, de 1971 ou A Carreira da
India - Evolução do seu Roteiro, de 1985; edição comentada de obras-primas da
hidrografia da Costa do Brasil, como o Roteiro de todos os Sinais, de /968 ou,
do mesmo ano, o Livro que dá Razão do Estado do Brasil; contribuição do maior interesse
para a História do reconhecimento da costa do Brasil, como As Primeiras
Expedições Portuguesas e o Reconhecimento da Costa Brasileira. editado em /970:
e muitos e muitos outros escritos sobre diversos temas. incluindo wna valiosa
contribuição para a História da Independência do Brasil (1972) e cotaboraçâo
avulsa e dispersa por inúmeras publicações periódicas do Navigator à Revista
das Índias e dos Anais Hidrográficos à
Revista da Universidade de Coimbra.
Todos os trabalhos que
citámos, e grande cópia de outros que omitimos. fizeram de Max Justo Guedes um
historiador internacionalmente apreciado e justamente tido como autoridade nos
múltiplos assuntos a que dedicou a sua atenção. Por isso se inclui entre os
editores-correspondentes da revista Imago Mundi e é. desde 1987 e de pleno
direito. presidente da Comissão Internacional para a História da Náutica e da
Hidrografia - além de pertencer a inúmeras instituições cientificas, em
particular da Academia de Marinha Portuguesa, onde há muito entrou como sócio
efectivo. – Excerto
“Ícone
da História Naval Brasileira e da História da Cartografia, almirante Max Justo
Guedes continuou se dedicando aos estudos até ser vencido pelo câncer”
Foi
neste termos que, a ele se referiu a Revista da História, por ocasião do seu
falecimento, em 09/11/2011 “vítima de
câncer o almirante Max Justo Guedes, especialista em História Naval Brasileira
e História da Cartografia. Max, que era considerado um elo brasileiro com os
estudos do historiador português Jaime Cortesão, ajudou a formar gerações de
historiadores e inúmeras publicações sobre pesquisa cartográfica, tornando-o
conhecido em todo o Brasil e no mundo. Com seu jeito sempre receptivo a
estudantes e profissionais, nem a doença o afastou do mundo da historiografia:
Justo Guedes era um dos organizadores de um seminário no Itamaraty sobre o
centenário da morte do Barão do Rio Branco, que acontece no ano que vem.
A
influência de Cortesão norteou toda a obra do almirante. Ambos compartilhavam a
“teoria do sigilo”: para eles, a escassez de mapas em Portugal e Espanha,
quando comparada à produção holandesa, por exemplo, se deve à tentativa de
manter um rígido controle de informações estratégicas. Tais dificuldades,
porém, instigaram Justo Guedes. Para compor o trajeto da esquadra de Pedro
Álvares Cabral até o Brasil, o almirante realizou uma detalhada pesquisa de
campo que contou até com navegações e voos de helicóptero. Assim, Justo Guedes
questionou a intencionalidade do descobrimento do Brasil baseando-se em farta
documentação e justificativas técnicas – trabalho que lhe rendeu notoriedade em
todo o mundo-
O trabalho
era, por sinal, sua grande paixão. Mesmo combalido pela doença, Justo Guedes não
parou. Há cerca de dois meses, ele e o professor Arno Whelling começaram a
elaborar, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – onde Max era 2º
vice-presidente –, um seminário que será realizado no ano que vem no Itamaraty
sobre o centenário da morte de Barão do Rio Branco, que também foi, por sinal,
um dos seus objetos de estudo.
“O trabalho
era sua vida. Mesmo com a doença, ele continuava se dedicando aos estudos da
História. Foi uma figura muito importante que mudou os estudos da História
Naval no Brasil”, lembra Arno. – Mais pormenores emMorre Justo Guedes - Revista de História
Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador - Testemunho histórico na literatura luso-santomense - Excerto de entrevista em 1992 para a Rádio Comercial-RDP
Para a história da literatura luso-santomense - Sum Marki, na primeira pessoa Pseudónimo
(em dialeto) do Senhor Marques – - 1911- 2003
O escritor de origem portuguesa, nascido nas Ilhas Verdes do Equador, que
cativou o coração dos santomenses, pela sua coragem na denúncia dos Massacres
do Batepá, quer antes quer depois do 25
de Abril -
Já não está entre nós - Faleceu
em 2003, em Lisboa, aos 93 anos – Mas
tenho para lhe oferecer o registo da sua voz – Um breve excerto que pude
recuperar, nos meus arquivos, de uma
entrevista que me concedeu, em sua casa, em Algés, no dia 6 de Abril de 1992 - Mais tarde, foi ainda por mim entrevistado
e por Rui Castelar, nas madrugadas da Rádio Comercial, RDP, porém, de momento,
não me foi possível localizar esse interessante dialogo.
A OUTRA FACETA LITERÁRIA, MENOS CONHECIDA, DE JOSÉ FERREIRA MARQUES, NOS
PSEUDÓNIMOS de: Roy Harvey e Louis
Rudolfo – Expressa em algumas dezenas de romances e novelas do erotismo popular, expressão artística hoje
banalizada, tanto pela palavra como pela imagem, mas muito ousada nos tempos dos chamados “bons
costumes – Linguagem da qual ele se servira, dada a cerrada perseguição movida pela
policia Salazarista às suas obras de intervenção e denúncia.
Autor de quase três dezenas de romances, grande
parte dos quais proibidos pela PIDE/DGS, com processos que o levaram até à
prisão Filho de pais portugueses, natural de São Tomé
(1921), onde fez a instrução primária - A primeira voz a dar brado ao massacre
do Batepá – Através de"O Vale das Ilusões" (1956), "No Altar da
Lei" (1962),"Vila Flóga" (1963), ""Tempo de
Flogá" (1969) e "Crónica de uma Guerra Inventada" (2000) - .
Perseguido e preso pela PIDE, que lhe aprendeu e queimou várias edições
na sua própria tipografia, na Amadora - E
também mal amado pela critica, que
sempre o olhou de sobranceria pela sua
incursão na literatura popular, humor e erotismo da qual se servira como alternativa
à de denúncia e de intervenção – Porém, nem mesmo assim, o regime repressivo o
deixou em paz - O que lhe valeu é que,
os agentes da brigada, que, de volta e meia, iam passar a revista a sua casa,
eram porventura consumidores do erotismo e do humor dos “Virtuosos”, do Bom Dia Prazer, do Insaciável
ou dos Imorais – Se bem, que, para salvar as aparências, no sistema de que faziam
parte, até o aconselhassem a uma literatura mais normal, como, Júlio Dinis, ou como Alexandre Herculano!... Enfim, livros
sérios!... – A que. o escritor perseguido, respondia: bem… sabe!... Eu não
tenho o génio de um Júlio Dinis! Eu sou um escritor principiante!... Gosto de
escrever estas maroteiras!
UMA VIDA DE CONSTANTES PERSEGUIÇÕES - EIS ALGUNS TRAÇOS DA SUA EXTENSA E VARIADA OBRA LITERÁRIA
"Antes do 25 de Abril foi preso pela PIDE e
entregue à Policia Judiciária sob a acusação de escrever livros pornográficos.
Durante 90 dias foi mantido nas celas daquela Policia, até que o processo
transitou para o Tribunal e o Juiz ordenou a sua libertação. Mais tarde
julgado, foi condenado a uma pesada pena de prisão, remível a dinheiro
Os primeiros livros de Sum Marky nada
tinham de obsceno ou pornográfico. A Comédias dos Sexos era uma crítica social,
em que certo meio da nossa sociedade é dissecado com profunda verdade. Logo foi
proibido pela censura e o autor entregue ao Tribunal. Em 1961 e 1962 Sum Marky
publica dois livros "No Altar da Lei" e "Vila Flogá",,, que
constituem uma denúncia terrível dos crimes praticados pelas autoridades
portuguesas sobre o indefeso povo de São Tomé e Príncipe.
Também estes dois livros foram proibidos
pela censura, com as consequentes perseguições ao autor.
Depois disso, publicou mais duas dezenas
de novelas ou romances e todos eles foram proibidos pela censura. Sum Marky é,
sem dúvida, o escritor português com mais livros proibidos pela censura.
Sum Marky tornou-se assim, um escritor
"underground" cujos livros se vendiam ( e ainda vendem) por redes
subterrâneas e como se constituíssem algo de abominável.
Enfim, um escritor Maldito, de quem a
critica e os jornais nunca se ocuparam, antes ou depois do 25 de Abril.
VILA FLOGÁ – Romance 1963 – Sum Marky
Pág. 9 - A cidade acordou, alvoraçada, com a rusga
nas ruas. Os cipaios, de cassetetes arrogantes,
procuravam trabalhadores para as obras do Estado. Um ou outro, mais zeloso, batia
logo, sem meso perguntar pelo “papel”. E as camionetas das Obras Públicas,
iam-se enchendo de homens assustados.
Sum Olímpio estava na manhã de sorte. Um
grupo de cipaios, empenhado na singular caçada, tal como cães raivosos, já se preparava
para lhe deitar a mão, quando surgiu o portão salvador.
Refugiou-se no quintal e subiu a escada a
correr, só respirando ao ver-se por detrás da porta cerrada. Durante um
instante, restou imóvel, a ouvir o burburinho dos soldados, o estrondo das
armas, os gritos de pavor dos homens perseguidos. Depois, pouco a pouco, os gritos
foram cessando, diluídos a distância, e ele pôde dirigir-se à escolinha.
Página 104
Tudo começara na vila da Trindade, com a população nativa a ser perseguida há meses com rusgas permanentes e arrebanho de pessoas para as obras do Estado. Ao anoitecer do dia 3 de Fevereiro de 1953, o tenente Ferreira e o Zé Mulato, acompanhados de soldados armados de espingarda e baioneta, apareceram num jipe em atitude provocatória. Um homem que passava, descuidadamente, na rua principal abatido pelas costas. A população, aterrada com o tiroteio, corre a refugiar-se no mato. E, no dia seguinte, principiaram as prisões em massa, as rajadas de metralhadora, morte de gente indefesa. Com a desculpa, disparatada, de que os nativos, armados machins, se preparavam para marchar sobre a cidade para matar o Governador. E, por fim, nomeariam como governantes personalidades desafetas ao Governo, como o Engº Graça , os professores Januário e Maria de Jesus, os chefes e mentores da revolta. E também alguns brancos-forros, Vergílio Lima, Carlos Soares, Américo Morais - In Crónica de uma Guerra Inventada – por Sum Marki
As ruas da cidade jaziam em quase completa obscuridade, de lampiões elétricos apagados. E não se via vivalma, nem sequer um cão. Uma cidade-fantasma, ou ~r, uma cidade ocupada com jipes e camionetas carregadas de homens armados a impor a lei da guerra. E as palavras do Songo, em segredo: "O senhor Doutor : saia de casa depois das 21 horas! Está em vigor o recolher obrigatório e o senhor está na lista dos inimigos a abater! Dirão, depois, que não respeitou a lei, que não passou de um lamentável incidente ... "
Consultara o relógio: 6 horas da tarde. Dispunha do tempo necessário para ir a casa tomar um duche e mudar de roupa, antes do jantar. Depois, voltaria para casa e restaria ali, tranquilamente, coligindo todas as informações que conseguira recolher.
Porém, o seu plano fora alterado. O restaurante estava cheio de risos, conversas e músicas de rádio. Um mundo alegre, confortável, diferente do mundo tenebroso que Songo descrevera, em palavras de alarme. Qual era o verdadeiro? - Interrogara-se.
O senhor Gomes, dono do restaurante, aproximava-se: "Então, senhor Doutor, que tal estava o jantar?" Era um homem gordo, bonacheirão, de riso fácil como os nativos, a palavra discreta. "Conspiração dos pretos contra os brancos, matar o Governador?" Nisso, ele não falava, não sabia nada e pronto!
De súbito, lembrara-se da hora de recolher, alarmara-se: "Bem, tenho de ir, está na hora!"
Um dos brancos ouvira-o, soltara urna gargalhada de troça: "O recolher obrigatório? Isso é prós pretos!"
A ILHA DE NOME SANTO
A ILHA DO SANTO: Sum Marky, como nos seus anteriores
romances e no seu habitual estilo sarcástico, vem denunciar as condições
pungentes em que as autoridades coloniais portuguesas exerciam a sua autoridade
discricionária sobre os nativos da Ilha de São Tomé, a Ilha Santa,
Neste livro, Sum Marky também prova que
Salazar e os seus cúmplices, com a célebre
"Lei do Indigenato", instauraram
um regime ·de escravatura, que lhes permitiu mandar
arrebanhar pessoas nos sertões de Africa,
metê-las nos porões de barcos de carga, como se· rezes humanas fossem,
transportando-as para São Tomé, para trabalhar nas roças de cacau e café em
regime de pura escravidão.
Mas, Salazar com a hipocrisia que lhe era
peculiar quis dar a tal trabalho um cunho legal, chamando-lhe de contrato, o que na realidade não era; uma vez que nele
só prevalecia a vontade de uma das partes.
Neste livro também ,se prova· que a , colonização
portuguesa, em Africa não foi tão exemplar corno nos querem fazer crer.
Aconselhamos vivamente a leitura deste livro a todas as pessoas que se
interessam pela Liberdade e seus valores eternos. - ttexto na contra-capa
Capítulo 12
Abandonara tudo para perseguir
Quando Carvalho entrou ria fábrica de
óleo, a maquinaria estava em pleno funcionamento, num estrondo ensurdecedor.
Ele ainda sentia o gosto amargo dó quinino e as fontes latejavam-lhe numa dor
de cabeça intolerável. O ruído brutal repercutia-se inteiro na sua cabeça, mas
a Suzana estava ali, entre as mulheres - a escolher caroço e ele queria vê-la,
pousar os olhos, ardendo de febre, no colo redondo, virginal, trocar com ela um
olhar cúmplice onde havia promessas de inefáveis delícias. Às vezes, parado
junto dela, ficava a olhá-la por uma eternidade. E ela, sem desviar o olhar, à
olhá-lo também. As outras mulheres, observavam a cena, disfarçadamente, a gozar
o seu enleio. Então, ele dava um berro, soltava um palavrão obsceno, para se
libertai do sortilégio, fugia ao encantamento de amor, enquanto que- as
mulheres baixavam os olhos e retomavam a sua tarefa. Mas ele sabia que lá muito
no íntimo continuavam a troçar dele, a rir-se daquele amor envergonhado, pleno
de medos. Então, fugia, encabulado, jurando nunca mais se submeter à cena
humilhante. Mas voltava sempre, como cão espancado, de rabo entre as pernas. E
. elas sorriam, numa cumplicidade feliz e sorridente, prontas à ajudar o branco
e a garota dum modo tão petulante, que ele, de humilhado, fugia
definitivamente.
Mas, nessa manhã, as pernas tremiam-lhe e
o sangue escaldava, mas não de amor e desejo. Não era mais o mendigo de amor
que suplica por uma caricia, mas antes
se comportava como alguém aflito que precisa de auxílio. Não lhe apetecia sonhar
delícias secretas, tudo o que queria era deixar-se cair no chão de cimento e
depositar à cabeça ardendo em febre no colo macio de Suzana . E que ela colocasse as suas mãos
frescas sobre as fontes latejantes, para sentir a carícia dos seus dedos
frescos. E esquecer tudo, a mulher e o filho, a terra distante que abandonara
para conseguir a quimera de uma fortuna fácil…
A SOLIDÃO DOS AEROPORTOS –
Romance – Sum Marky
Aeroporto «Leonardo da
Vinci», Fiumicino. São 18.30 horas.
Um sol ainda
resplandecente inunda a campina romana. Estou a 25 quilómetros de Roma,
informa-me um funcionário do aeroporto. Só tenho avião para Palermo às 21.15.
Disponho, pois, apenas de duas horas, impossível visitar a cidade, que adivinho
perto, mas está invisível, para além das colinas. Resigno-me e vou fazer o
«check-in», entro para a sala de embarque e sento-me.
«Banco dÍ Santo Spirito»,
leio num vasto painel luminoso, à minha frente. Desvio o olhar, mas logo se me
depara o «ecran» de uma televisão, que mostra a imagem de uma pequena ilha,
ligada a terra por uma passagem. «Azienda Soggierne Isole Eolie», leio a
legenda. O paraíso para umas férias, adivinho facilmente. Mas já a imagem
desapareceu e, em seu lugar, surge um carro «Fiat», a grande marca italiana,
que logo se dissipa, para dar lugar ao refresco «Pepsi». Umas a seguir às
outras, num desfilar contínuo, surgem mais imagens: «HERTZ - rent a car»,
CAMPARI, AVIS, MONTECATIM TERME, COCACOLA. A última imagem desaparece e surge
agora uma frase em italiano, que traduzo rapidamente: «13 milhões de pessoas
vêm os teus produtos». Seguem-se, mais imagens publicitárias: «RENAULTI>,
«FAZIENDA SOGGIERNE AGRICENTI». E, finalmente, reaparece a primeira imagem, o
paraíso dos turistas. E a solidão mais completa a cerrar-se sobre mim.
A meu lado, uma jovem
morena lê um livro numa língua qualquer deste mundo. Deve ser italiana,
presumo. Ela tem um perfil romano era provavelmente francesa ... Agora,
somos 18 pessoas e o cão, sentado no colo da dona, de orelhas caídas e olhar
triste ... Tudo imagens de um mundo distante e diferente, que não me diziam
respeito. As pessoas continuam a desfilar, incessantemente, no corredor
envidraçado. O autocarro, repleto de passageiros, arranca e dirige-se para o
avião de Alghero. Carrinhos, carregados de bagagens, cruzam o aeroporto «GULF»,
lê-se no enorme camião-tanque. A buliciosa Teresa e seu pai, desapareceram para
sempre. Ainda não anoiteceu completamente, o céu é de um azul escuro anilado.
Acendem-se as luzes, a fria claridade do «neon». Um carro da «polizia», um Fiat
evidentemente. O «gong». A solidão ... Uma italiana gorda, senta-se à minha
frente. Há, apenas, dez anos, ela era uma mulher de sonho: alia, esguia,
elegante, o cabelo louro a emoldurar um rosto bonito de epiderme muito branca,
um encanto. Agora, ainda conserva alguns traços da sua passada beleza, mas é
quase um estafermo,· que se inclina para a frente e esboça uma carícia no
focinho triste do cão.
Afinal, reparando melhor,
a rapariga a ~eu lado têm tipo de francesa. Parisiense, mais exactamente. O
«gong», .as palavras obscuras e cantantes, o avião de vigias iluminadas, pronto
a subir no céu onde só resta uma vaga claridade.
O VALE DAS ILUSÕES – SUM MARKY - Romance
Pág. 7 - Quando, cinco anos antes,
desembarcara na Ilha , sentira, vagamente,
que a terra lhe era hostil.
Depois, durante a luta que se seguira, verificara a realidade de tal
hostilidade. Mas, nesse tempo, possuía a força e energia
que agora lhe faltavam. Lutara e vencera. Ou antes, jugara vencer; o
presente difícil e amargo mostrava-lhe quão precária tinha sido a vitória e
como estava longe do ansiado fim…
Do caminho que o levara até ali , já nada restava . Aqueles anos tinham-se
esfumado sem deixar cinzas , deixando, dentro dele, um incrível vazio, uma
sensação de vacuidade que se traduzia em impotência , amarga inutilidade. O
passado recente apagara-se, sem deixar vestígios. Apenas, no seu cérebro restavam sombras vacilantes e a
lembrança pertinaz, do longo caminho…
17 . pag. 146-147- 148
Na varanda, ao sentir a brisa da manhã a refrescar-lhe
o rosto. Julgou sair de um estranho
pesadelo. Sentia os músculos lassos, invadido por
invencível cansaço. A custo, desceu a
escada que conduzia ao jardim. Com passos incertos, como se estivesse embriagado,
dirigi1u-se ao caramanchão.
Isabel estava, sentada no dongo .banco, de
rosto entre as mãos. Ao pressenti-lo, ergueu a cabeça e os seus olhos
encontraram-se por uma fracção de segundo. Mas, logo ela desviou o olhar. Levantou-se de um
pulo e fugiu, sem que ele, imóvel, pudesse esboçar um gesto para a reter.
Ficou parado, vendo-a afastar-se, sem proferir
uma palavra sentindo arrepios a percorrer-lhe o corpo . E seguiu-a com olhar, até vê-la desaparecer na esquina da varanda. Depois, sacudido por um tremor de febre,
arrastou-se através do jardim e atravessou o terreiro , em direcção ao seu
quarto.
Atirou-se para cima da cama, mesmo
vestido, envolvendo-se na roupa que encontrou. Apesar disso, tremia de frio. O coração pulsava com violência
e cada pulsação repercutia-se no seu cérebro, como uma martelada. Os dentes entrechocavam-se
e sentia o estômago revolvido ·pelos vómitos. A boca seca amargava-lhe como se tivesse
bebido fel. E, enquanto o corpo tremia de frio corpo tremia, a cabeça escaldava-lhe.
Todos aqueles sintomas, ele os conhecia bem: paludismo!
Perdeu a noção do tempo que jazeu ali,
amarfanhado de músculos tensos; encolhendo-se
sob a violência dos tremores. Quando de
novo, tomou conhecimento do mundo à volta,
do· quarto de paredes de madeira pintadas a óleo, despidas de adornos, sentiu a
febre queimá-lo, corno se nas suas veias e artérias, em vez de sague, houvesse
chumbo em fusão. Doía-lhe a cabeça intoleravelmente, mas uma sensação
sobrepunha-se a todas as outras·: a sede!
Era uma sede horrível, que o fazia gemer:
água, água, água! Mas, ninguém o ouvia. E até tocar o sino, dando por terminado
o primeiro período de trabalho, sofreu o atroz suplício da sede.
Passava meio-dia , quando o Rebelo, ao
passar no corredor, ouviu os seus gemidos. Entrado no quarto, foi encontra-lo,
de rosto congestionado pela febre. Imediatamente, foi buscar um copo de água, que ele bebeu, sofregamente .
Mas, depois disso, ainda tinha sede. Parecia-lhe que não havia água capaz de matar-lhe a sede ardente.
OS IMORAIS – Louis Rudolfo
Página 3 - A triste conclusão a que sou
forçado a chegar, após três meses de casado, é que minha mulher é umã autêntica
pedra de gelo.
Durante esse tempo fiz tudo quanto
humanamente é possível para derreter aquele iceberg em que ela se envolve, sem
o menor êxito.
Ainda esta noite, comecei fodê-la às dez
horas da noite e duas horas depois tive de desistir sem conseguir que ela se
viesse! Fiz tudo, senhores , desde as espremedelas nas mamas até ao beijo no ventre. Mas acho talvez melhor
descrever em pormenor tudo o que lhe fiz, não vá o leitor pensar que sou uma
pessoa sem experiência e que a culpa foi minha .
Como já disse, fomos para a· carna cedo,
ainda não e eram dez horas. Isto depois
de muitos rogos, pois minha mulher não gosta de se deitar cedo, provavelmente
porque não ignora a sorte que a espera. Assim, inventa mil desculpas para não
me fazer a vontade. Ontem, por exemplo, inventou um trabalho de costura, um vestido
que tinha de arranjar para um passeio que tínhamos combinado dar para o mês que
vem. Fiquei furioso, verdadeiramente danado, e só quando me viu assim, é que
acedeu aos meus rogos. Mas não julguem que foi logo para a casa e me abriu as
pernas. Isso sim!
COMÉDIA DOS SEXOS –
Romance - Sum MRKY
Pág. 152 O dia de Natal desse ano foi mais triste de
toda a minha vida. Sozinho, na terra estranha,
longe de todos os meus, sentia-me o mais abandonado de todos os seres
vivos. Era como se estivesse perdido num deserto ou prisioneiros nos ermos
glaciais, na solidão silenciosa das
regiões polares.
A Maria Isabel, convidara-me
a passar esse dia com a sua família, mas o nosso conhecimento era tão recente,
que resolvi não aceitar. Ela tinha irmãos, já cassados, que se reuniriam nesse dia e eus sentir-me-iam
intruso no meio deles.
O círculo das minhas
amizades era muito restrito, posto isto recebi alguns convites para almoçar ou
jantar. Recusei-os delicadamente. O Natal é a esta da Família e eu não queria intrometer-me
num lar, que não era o meu. A minha presença seria bem recebida, estou certo,
mas , aos meus próprios olho, teria o
aspecto de intrusão. E sentir-me-ia mais só e distante da minha própria família.
SIMBADE O MARINHO – Novela edição de
autor - Sum Marky
CONTO DAS MIL E UMA NOITES
Sindbad Harum-Al-Raschid, o célebre
mercador e aventureiro, no fim do banquete, mandou distribuir a soma de mil
squins aos seus convidados mais pobres.
- Que Alá te conserve a vida e os teus
bens! -· gritou, histericamente, um dos vagabundos. E depois prosseguiu em tom
normal: - Agora, que saciaste a nossa fome e a nossa sede, rogo-te,
encarecidamente, que nos contes uma daquelas maravilhosas aventuras que, a par
de mil perigos, te trouxeram esta prestigiosa riqueza.
- Sim, sim... - gritaram várias vozes,
entusiasmadas.
- Oue Deus e Maomé seu profeta, sejam
louvados, pois só a Eles devo tudo o que possuo! E acedo, com prazer ao vosso
desejo, -uma vez que ao relembrar os perigos por que passei, não deixarei de
louvar os prodígios a que me foi dado o privilégio de assistir, que necessariamente
reverterão em louvor de Deus, meu protector.
- Oue Deus e Maomé, seu profeta, sejam
sempre louvados! - gritou a multidão em côro.
- Oue Alá esteja convosco, meus queridos
amigos. E agora, já que me pedis com tanto interesse, vou contar-vos uma das
minhas aventuras em que corri o maior perigo e que, no fim, me proporcionou grandes
prazeres e riquezas – e após um silêncio , iniciou assim a sua narrativa:
“Quando me dirigi a Bassorá numa barca de
cem remadores, com uma carga de marfim e especiarias da Índia, ao terceiro dia
de viagem de deixarmos Calecute, caiu sobre nós uma terrível tempestade. O mar
estava completamente calmo e nada deixava pressagiar a tormenta. Em poucos
minutos, porém, o sol apagou-se e quase
subitamente grossas nuvens negras surgiram nos céus.
BOM DIA PRAZER -ROY HARVEY
Pág. 56 - É realmente era um prazer, apesar dos meus
dedos trémulos. Finalmente consegui correr o-fecho do vestido, que caiu a seus
pés. Fiquei a admirá-la por um instante e depois comecei a Libertá-la do soutien,
No minuto seguinte, tinha-a toda quente contra O peito, sentindo os seus seios a palpitar
contra mim
- Aposto que eu era uma virgem, disse ela
Não pude responder, com os seus seios.
hirtos e arrogantes, tão perto da minha boca. Ela começou a rir subitamente,
.num gesto brusco, deu-me os seus lábios. Mas quando tentei despojá-la das calcinhas, libertou-se do meu abraço e dirigiu-se à mesa onde estava o whisky.
Vi-a desarrolhar o frasco, com uma certa
apreensão :
- Querida!
– Disse . – Não é altura de beberes mais.
- Qual não é! – declarou a rir
A ADÚLTERA – ROY HARVEY
Pag 106/107 - À medida que bebia, Lena
sentia-se muito mais bem-disposta. Já nem sequer se recordava da diferença de
tom· da cor da sua bebida. O importante era o confortável calor a tomar-lhe o
corpo. ·E quando sentiu a carne palpitante, a excitação a encher-lhe as veias
de fogo, era como se sentisse viva outra
vez. Detestava sentir-se deprimida e infeliz. Aquela bebida transmitia-lhe urna
sensação de alegria e felicidade. Olhou o copo com reconhecimento
Lembrou-se, então, do ·prazer que Chuck
lhé, dera, apesar da aversão que sentia por ele. Era pena, afinal, que ele
tivesse· ficado com ela na cama · por tão pouco tempo. E Monroe? Onde estava
Monroe para a levar até às estrelas, conforme tinha prometido?
Olhou para a porta., ansiosa, Onde estava
Monroe? - perguntou mais uma vez a si própria, sentindo que o calor se tornava insuportável. Num
gesto brusco, despiu o roupão e ficou nua. Sim, assim era melhor. As formas
redondas do seu corpo, perfeitas e belas, produziam-lhe uma sensação de
inefável prazer. Levou as mãos aos peitos e apertou-os, depois fê-las deslizar
até às ancas. Dum só trago, engoliu o resto da bebida. Onde é que estava
Monroe? - interrogou-se, mais uma vez.
Precisava, ·de outra bebida, decidiu de
repente. Nunca um, só Martini lhe, tinha provocado uma tal reacção. Estendeu as
pernas, num gesto lascivo, e ficou a admirá-las durante um instante. Eram umas
belas pernas – pensou com prazer,
grossas nas cochas e estreitando
progressivamente até ao tornozelo fino. As suas mãos tornaram a percorrer a
barriga lisa e detiveram-se nos seios hirtos. Onde estaria ele?
Putas
sem coração, putas malditas,
Que
nos dais a provar já pôdre o cono !
Vós,
vós. sois quem fazeis tanto f'achono,
Que da greta maldiz gostos e ditas!
As
galiqueiras são, são infinitas,
Alto
clamam da foda em desabonol
Pouco
a pouco já vão erguendo um trono
À
sacana bem feita heróis catitas!
Reparai
nisto bem, ó putas todas,
Deixai
por uma vez de ser tiranas
Com
esses que vos dão tão belas fodas !
Com
os tristes caralhos sêde humanas·
Ou
em breve vereis, mudando ias modas,
Triunfarem
das putas os sacanas.
O tema deste novo
romance de Sum Marky´é, sem dúvida, empolgante.Carlos da silveira, um
jovem engenheiro recém formado desloca-se à Ilha dos Papagaios, para montar a
torre do telégrafo, permanecendo ali apenas durante três meses. Surge então a
morena Valiana e a volúpia das noites tropicais.
Dezoito anos mais tarde
ele regressa para realizar uma nova tarefa: a construção de uma campo de
aviação."
(...)
"Desconhecem o lealismo dos filhos de um Império, desconhecem os aviões e
os navios, e todo um arsenal de história, de espírito humano e real metralha,
que Deus pôs à disposição dos portugueses" - In FORROS, PRETOS E
BRANCOS, do jornal A VOZ DE SÃO TOMÉ - 12 de Fev. 1953 - Um dos artigos sobre
o MASSACRE DO BETEPÁ
OPINIÕES
O romanceCrónica de Uma Guerra Inventada, de Sum Marky (escritor que não me merece, pela sua obra anterior, particular apreço; autor que foi de textos menores, roçando o porno-tropicalismo que a ditadura, naturalmente, proibiu – claro, que a literatura portuguesa não ficou mais pobre pelo facto, embora esses livros tenham sido precursores da subliteratura que hoje, em versão feminina, enchem de lixo mediatizado as bancas das livrarias), é um texto só possível de produzir em liberdade, suficientemente distanciado em relação aos factos que relata tornando-o assim num livro sem ressentimentos nem constrangimentos excessivos http://daliedaqui.blogspot.pt/2008/04/crnica-de-uma-guerra-inventada-de-sum.html
Incansáveis mocetões de um metro e noventa e estonteantes louras, morenas e ruivas, naturalmente insaciáveis, dedicam-se a praticar sexo fácil em várias novelas editadas em 1965. Com sugestivos títulos como O Insaciável, O Obcecado e O Violador, são livros sem editora, sem tradutor, escritos por Roy Harvey e apresentados por Sum Marky, pseudónimos de José Ferreira Marques (1921-2003), autor de outras prosas light da colecção, branco nascido em São Tomé e autor de um apreciado Vila Flogá, de 1963, libelo acusatório do colonialismo na antiga colónia portuguesa. Tanta clandestinidade serve uma literatura popular, claramente apontada à líbido masculina e ao mito, tão excitante quanto assustador, da voracidade sexual feminina. Acautelando o olho vigilante da censura, Sum Marky prefacia os três volumes nas exíguas badanas, exaltando o proveitoso exemplo destes pedaços sórdidos de uma América corrupta, racista e depravada.https://www.publico.pt/cronicas/jornal/obsessao-25047267
O romanceCrónica de Uma Guerra Inventada, de Sum Marky (escritor que não me merece, pela sua obra anterior, particular apreço; autor que foi de textos menores, roçando o porno-tropicalismo que a ditadura, naturalmente, proibiu – claro, que a literatura portuguesa não ficou mais pobre pelo facto, embora esses livros tenham sido precursores da subliteratura que hoje, em versão feminina, enchem de lixo mediatizado as bancas das livrarias), é um texto só possível de produzir em liberdade, suficientemente distanciado em relação aos factos que relata tornando-o assim num livro sem ressentimentos nem constrangimentos excessivos – característica afinal, apesar dos pesares, comum a grande parte da literatura que tem aquestão colonial como matriz. Este romance fala-nos, sem rebuços, dos homens e mulheres que em S. Tomé e Príncipe foram vítimas da ignomínia, do arbítrio, dos mecanismos de cerco, de tortura e morte de que foi capaz o colonialismo salazarento, para submeter e escravizar os povos autóctones.Jornal «Avante!» - Argumentos - A inventona de Batepá