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quarta-feira, 23 de março de 2016

S. Tomé - Bióloga Sara Vieira – Nacionalidade Portuguesa - A Peregrina em Defesa das Tartarugas Marinhas – A aprovação da lei sobre a sua proteção foi uma grande vitória, mas teme que se transforme numa lei morta

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador -

SARA VIEIRA, UM EXEMPLO DE DEDICAÇÃO E DE AMOR EM DEFESA DAS TARTARUGAS MARINHAS


Atualização – 26/01/2017  A Associação de Conservação das Tartarugas Marinhas em São Tomé e Príncipe está a criar outras fontes de rendimento para as mulheres “Palayes” do arquipélago que comercializam a carne de tartarugas marinhas. São Tomé e Príncipe: “Palayes” incentivadas a abandonar a venda de

Corações dedicados e generosos 
Há vidas que são um exemplo de dedicação e de amor à Natureza ou ao Próximo, em que não se olham a sacrifícios pessoais, a meras vaidades ou caprichos de ostentação, mas à defesa de  uma causa, quantas vezes longe do lar, da família e dos amigos mais próximos   – Um verdadeiro apostolado, em prol do bem-comum: de uma fé, de um ideal, de uma causa nobre – Este é realmente o exemplo seguido pela bióloga, Sara Vieira, coordenadora dos trabalhos da ATM, em S. Tomé e Príncipe, com larga experiência em projetos de tartarugas marinhas em Cabo Verde, por onde passou, antes de, há três anos, ter rumado às Ilhas Verdes do Equador.


Durante a minha estadia, em S. Tomé, tive  o prazer de ter oportunidade de visitar as instalações da  ONG Marapa, uma das principais parceiras da ATM em são Tomé e Príncipe, uma organização não governamental e sem fins lucrativos, que trabalha em regime de voluntariado, pugnando pela conservação das tartarugas marinhas, assim como de assistir à largada, na praia Jalé, ao sul da Ilha, de S. Tomé, de algumas centenas de pequenas tartarugas, acabadas de sair de um ninho do centro incubador para onde são recolhidos os ovos, quando as tartarugas ali vão desovar, de modo a serem protegidos dos predadores e de outras ameaças. 

A coordenar o projeto, está a bióloga, Sara Vieira, sem dúvida,  uma verdadeira peregrina em defesa da proteção das tartarugas marinhas, palmilhando as praias de norte a sul, Micolóló, Fernão Dias. Morro Peixe,  Santana, Porto Alegre e outras praias - Além de ficar a conhecer uma personalidade de uma grande generosidade, um coração sensível, dedicado e amoroso, bem como de  também poder saber das suas preocupações, em relação à falta de mecanismos capazes de uma fiscalização eficaz - Pois teme que a lei, que foi aprovada. se transforme numa lei morta e a matança das tartarugas persiga.. 



EXISTEM HÁ MILHÕES DE ANOS - MAS HÁ ESPÉCIES QUE ESTÃO EM VIAS DE EXTINÇÃO


As tartarugas marinhas existem há mais de 150 milhões de anos,  conseguiram sobreviver a todas as mudanças do planeta, mas atualmente são dos seres mais vulneráveis do planeta. De acordo com estimativas cientificas, de 1000 filhotes nascidos, apenas um chega à idade adulta.

"E o grande problema das tartaruguinhas é que, se elas desaparecerem, nós também vamos ficar com o ecossistema marinho mais pobre – Reconhece a bióloga, Sara Viera,  frisando que a sua importância ecológica é muito grande, principalmente nas zonas de recrutamento dos peixes, onde os peixes se vão reproduzir e desenvolver"


De facto, São Tomé e Príncipe podia ser o maior santuário mundial da desova de tartarugas marinhas, já que, das sete espécies existentes no mundo, cinco são atraídas pelas maravilhosas praias das Ilhas Verdes do Equador -  Tantas como as que se dirigem à costa brasileira, sendo que, quer no outro lado do Atlântico, quer nas duas Ilhas do Golfo da Guiné, duas espécies estão em risco de extinção




As tartarugas marinhas, além de contribuírem para o equilibro do biodiversidade, podiam trazer grandes dividendos turísticos e à investigação científica e ambiental,  bem maiores da atracão que, atualmente,  já exercem, aos visitantes que demandam as praias para assistirem à  maravilhosa largada dos ninhos em direcção ao mar, porém,  as organizações, que, em regime de voluntariado,  proporcionam a incubação dos seus ninhos, em lugares protegidos, ainda se vêm a braços, tanto  com falta de apoios, como, sobretudo, pelas capturas indiscriminadas para o consumo da sua carne.


Em 2014, foi aprovado pelo Governo de São Tomé e Príncipe. uma lei sobre a captura e comercialização de tartarugas marinhas – Considerada, então, pelas organizações ecologistas, uma grande vistoria – Mas o receio da bióloga Sara Viera, a coordenadora dos projetos científicos e de fiscalização, é que se transforme numa lei morta: não basta que a lei tenha sido vertida ao papel: é preciso fiscalizar porque é um problema realmente muito grande. Não são somente quatro ou cinco pessoas que capturam tartarugas marinhas, são centenas de pessoas que dependem desta atividade como meio de subsistência", explicou Sara Vieira, pelo que a bióloga defende um "maior compromisso" do Governo para ajudar a encontrar alternativa económicas para essas pessoas, porque caso contrário "essa captura nunca vai acabar".




 Ilha de São Tomé - Momento maravilhoso da largada de um ninho de tartarugas em direção ao oceano, junto à linha do Equador na Praia Jalé - Recanto de um paraíso rodeado de coqueiros, areia fina, dourada e macia, a perder-se por extensa superfície de um azul esmeralda de água quente, brilhante e cristalina – Um raro privilégio que jamais se apagará da retina de quem o contempla -


Carne e ovos de tartaruga à venda 

(Atualização) – Boa Noticia) Mas há resultados positivos. São Tomé e Príncipe: “Palayes” incentivadas a abandonar a venda de carne de tartarugas
26/01/2017  A Associação de Conservação das Tartarugas Marinhas em São Tomé e Príncipe está a criar outras fontes de rendimento para as mulheres “Palayes” do arquipélago que comercializam a carne de tartarugas marinhas.
Há três anos que a associação presidida por Sara Vieira em parceria com a organização São-tomense Marapa trabalha para mudar o comportamento da população no que toca à comercialização e consumo de carne e derivados de tartarugas marinhas.
A tarefa é difícil tendo em conta a situação de pobreza da maioria da população marcada pelo desemprego e baixos rendimentos.
Mas há resultados positivos.

A bióloga Vieira, que é filha do Presidente do clube de futebol Sport Lisboa e Benfica, garante que nos últimos anos há menos pessoas a capturar as tartarugas marinhas. São Tomé e Príncipe: “Palayes” incentivadas a abandonar a venda de

02/01/2016A tartaruga Sada, uma das cinco espécies existentes em São Tomé e Príncipe, pode desaparecer "em menos de cinco anos", correndo também outras quatro espécies "um sério risco de extinção Tartaruga Sada vai desaparecer em São Tomé - Correio da Manhã



segunda-feira, 21 de março de 2016

Descoberta do Brasil - Almirante Max Justo Guedes – “Ícone da História Naval Brasileira e da História da Cartografia” 1927 – 2011 – Disse que, Pedro Álvares Cabral, quando partiu do Tejo, com uma armada para se dirigir à Índia já tinha conhecimento prévio da existência de terras a sul das descobertas por Colombo


Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador - Recordando o Comandante  Max Justo Guedes – 1927- 2011 - Considerado o “Ícone da História Naval Brasileira e da História da Cartografia” - Ouça a entrevista 

“Na Marinha, dirigiu o setor de Patrimônio Histórico e Cultural, reorganizou e equipou  o Serviço de Documentação Geral da Marinha; promoveu a implantação de museus (Museu do Forte da Barra de Santo António – BA; criou os Navios-Museu; Museu da Caravela – Campinas; Espaço Cultural da Marinha – RJ); propôs e coordenou incontáveis colóquios internacionais, preparou edições críticas e publicou coletâneas que são fundamentais para o conhecimento da história brasileira, como por exemplo, os volumes da  História Naval Brasileira.  – Excerto Nosso Contra-Almirante Max Justo Guedes (1927-2011 .



VIDEO - ENTREVISTA A MAX JUSTO GUEDES - EM  1989
O DESCOBRIMENTO DO BRASIL


Pedro Álvares Cabral, quando partiu do Tejo, com uma armada para se dirigir à Índia, torneando o Atlântico Sul, a oeste, ele já tinha conhecimento prévio da existência de terras ao sul das que, Colombo, havia descoberto



Por isso, a  descoberta do Brasil, não foi obra do acaso:  "ele não ia aventura a descobrir terras: era uma viagem definitiva. Com tudo planejado; a época de saída absolutamente planejada  – Defende, Max Justo Guedes, um dos mais notáveis historiadores da cartografia luso-brasileira, autor de mais de meia centena de estudos e ensaios carto-bibliográficos dispersos em inúmeras publicações, numa breve entrevista que, em Outubro de 1989, honrosamente me concedeu para a Rádio Comercial, por ocasião da reedição da obra “O Descobrimento do Brasil”  Um estudo baseado, não apenas nas pesquisas que efectuou, como se navegava na época, mas também na sua experiência marítima

"A História das Navegações Portuguesas tem pecado por ter sido escrita, por vezes, por quem desconhecia Arte Náutica - dizia Sacadura Cabral  (…) por  estranhos às «coisas do mar» como eram quase sempre, cronistas e historiadores . Incapazes de se imaginarem a navegando dentro dos navios antigos. Eles fiavam-se  nas versões que corriam, contadas por mareantes românticos, que acrescentavam  um «ponto» ao seu «conto». - Não é o caso do Comandante Max Justo Guedes


Mas eis as palavras, que, o Comandante Max Justo Guedes, dirigiu aos leitores. antes de expor o aprofundado estudo:

"Nos últimos meses do já longínquo ano de 1960, dei efectivo início à redacção de trabalho sobre o Descobrimento da América do Sul, planejado desde os tempos da Escola Naval, mas que ficara, até então, limitado a anotações esparsas.
Natural foi que cuidasse logo do Descobrimento do Brasil, estudo concluído nos tumultuados dias de Agosto do ano seguinte. (houve a renúncia do Presidente Jânio Quadros), que, logo depois, foi entregue, para publicação, à Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN).

Em Dezembro de 1963, designado instrutor de guardas-marinha, iniciei. viagem de instrução à Europa e América do Norte, deixando os originais ainda aguardando oportunidade de impressão, situação em que os reencontrei, em Maio seguinte, quando retomei ao Rio de Janeiro. Pude, por isso, antes de ser transferido para o Nordeste, embora dificultado por intervenção cirúrgica que ·me imobilizou por dois longos meses, efectuar pequenas alterações nos originais, consequentes das rápidas pesquisas que realizara, em Lisboa, quando o NE «Custódio de Mello», navio em que viajara, esteve no Tejo.

No ano e meio em que servi em Alagoas não mais tive notícias do andamento da impressão, ..• sendo surpreendido, em 1966, quando voltei a servir na ex-capital brasileira, com telefonema de um companheiro da DHN, informando-me que o trabalho fora editado.

Pese embora a boa vontade dos que trabalharam na impressão a falta de revisão, por parte do autor, em assunto especializado e alheio ao quotidiano da Diretoria, permitiu que falhas tipográficas e mesmo erros, que talvez pudessem ter sido evitados, aparecessem no· texto impresso.

Ainda assim, o opúsculo alcançou certa repercussão no Brasil, dando origem às comemorações conjuntas Brasil-Portugal, do Quinto Centenário de Pedro Alvares Cabral, em 1968, iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro impulsionado pelos saudosos Wanderlei de Pinho e Pedro Calmon.

Quando coordenei, em 1975, a redacção e publicação do primeiro volume da História Naval Brasileira, aproveitei, parcialmente o trabalho, transformando-o em capítulo da obra, com as reduções e adaptações indispensáveis ao propósito dela; também ali incluí alguns outros escritos que enfocavam descobrimentos americanos, mas o projecto original e maior, acima mencionado, mercê de obrigações múltiplas em novas direcções, não mais seria retomado. O Descobrimento do Brasil ficou sendo a única singradura da viagem planejada.

Decorridos mais de 27 anos desde a redacção do texto original, as grandes comemorações, ora em curso, dos Descobrimentos Portugueses, fazem com que meu trabalho seja novamente focalizado. A editora VEGA interessou-se em reeditá-lo, com introdução - que extremamente me honra do ilustre, admirado e querido amigo Professor Doutor Luís Mendonça de Albuquerque.
Não faria sentido deixar no texto os erros e omissões já referidos e de há muito notados; procurei eliminá-los, sem, contudo, alterar substancialmente, na forma ou no conteúdo, a primeira edição; introduzi, também, quando isto foi indispensável, algumas notas, facilmente reconhecíveis porque indicadas pelo ano em curso.
É minha modesta contribuição à divulgação e melhor conhecimento da gesta maior do querido e admirado povo lusitano e meu sincero agradecimento pela obra magnífica por ele realizada em meu país, descobrindo, povoando, colonizando, civilizando e expandindo-o a limites quase inacreditáveis e legando-o unido, política e socialmente, aos brasileiros de hoje.
Rio de Janeiro. Novembro de 1988
Max Justo Guedes

UM CLÁSSICO  - Entre os livros sobre a descoberta do Brasil - Disse Luís de Albuquerque

O historiador Luís de Albuquerque, no prefácio que escreveu, diz que se trata de  "um clássico,  sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral, os seus antecedentes e, sobretudo, sobre a exploração que a sua armada fez de uma pequena parcela da extensa costa brasileira.

Max Guedes, oficial superior da Marinha de Guerra Brasileira prefigura um caso, em nossos tempos já infelizmente pouco vulgar, de atracção de marinheiro pela História da Marinha ou de temas que a ela intimamente se relacionam. O Descobrimento do Brasil, publicado quando era capitão de corveta, é o segundo passo de uma vida dedicada aos estudos históricos ( em 1963 publicara Derrotas dos Grandes Navegadores, sua obra de estreia), mas que deve ser considerada o ponto de partida definitivo para seguir uma vocação sem hiatos e de ano para ano enriquecida com perspectivas mais ambiciosas e mais diversificadas. Nos seus estudos, que se centrifugam em · redor do pó/o que é a Marinha, incluem: trabalhos de excepcional merecimento para a História Naval Brasileira ( em curso de publicação), obra monumental de que foi um dos mais entusiastas impulsionadores; textos sobre Cartografia portuguesa dos séculos XVI e XVII, como Brasil Costa Norte Cartografia Vestutissima ou Anónimo - António Sanches, e. 1633, ambos de 1970; análises dos antigos roteiros, como um Roteiro Apócrifo do Estreito de Magalhães - Tentativa de Identificação da autoria, de 1971 ou A Carreira da India - Evolução do seu Roteiro, de 1985; edição comentada de obras-primas da hidrografia da Costa do Brasil, como o Roteiro de todos os Sinais, de /968 ou, do mesmo ano, o Livro que dá Razão do Estado do Brasil; contribuição do maior interesse para a História do reconhecimento da costa do Brasil, como As Primeiras Expedições Portuguesas e o Reconhecimento da Costa Brasileira. editado em /970: e muitos e muitos outros escritos sobre diversos temas. incluindo wna valiosa contribuição para a História da Independência do Brasil (1972) e cotaboraçâo avulsa e dispersa por inúmeras publicações periódicas do Navigator à Revista das Índias e  dos Anais Hidrográficos à Revista da Universidade de Coimbra.

Todos os trabalhos que citámos, e grande cópia de outros que omitimos. fizeram de Max Justo Guedes um historiador internacionalmente apreciado e justamente tido como autoridade nos múltiplos assuntos a que dedicou a sua atenção. Por isso se inclui entre os editores-correspondentes da revista Imago Mundi e é. desde 1987 e de pleno direito. presidente da Comissão Internacional para a História da Náutica e da Hidrografia - além de pertencer a inúmeras instituições cientificas, em particular da Academia de Marinha Portuguesa, onde há muito entrou como sócio efectivo.  – Excerto

“Ícone da História Naval Brasileira e da História da Cartografia, almirante Max Justo Guedes continuou se dedicando aos estudos até ser vencido pelo câncer”

Foi neste termos que, a ele se referiu a Revista da História, por ocasião do seu falecimento, em  09/11/2011 “vítima de câncer o almirante Max Justo Guedes, especialista em História Naval Brasileira e História da Cartografia. Max, que era considerado um elo brasileiro com os estudos do historiador português Jaime Cortesão, ajudou a formar gerações de historiadores e inúmeras publicações sobre pesquisa cartográfica, tornando-o conhecido em todo o Brasil e no mundo. Com seu jeito sempre receptivo a estudantes e profissionais, nem a doença o afastou do mundo da historiografia: Justo Guedes era um dos organizadores de um seminário no Itamaraty sobre o centenário da morte do Barão do Rio Branco, que acontece no ano que vem.

A influência de Cortesão norteou toda a obra do almirante. Ambos compartilhavam a “teoria do sigilo”: para eles, a escassez de mapas em Portugal e Espanha, quando comparada à produção holandesa, por exemplo, se deve à tentativa de manter um rígido controle de informações estratégicas. Tais dificuldades, porém, instigaram Justo Guedes. Para compor o trajeto da esquadra de Pedro Álvares Cabral até o Brasil, o almirante realizou uma detalhada pesquisa de campo que contou até com navegações e voos de helicóptero. Assim, Justo Guedes questionou a intencionalidade do descobrimento do Brasil baseando-se em farta documentação e justificativas técnicas – trabalho que lhe rendeu notoriedade em todo o mundo-
O trabalho era, por sinal, sua grande paixão. Mesmo combalido pela doença, Justo Guedes não parou. Há cerca de dois meses, ele e o professor Arno Whelling começaram a elaborar, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – onde Max era 2º vice-presidente –, um seminário que será realizado no ano que vem no Itamaraty sobre o centenário da morte de Barão do Rio Branco, que também foi, por sinal, um dos seus objetos de estudo.
“O trabalho era sua vida. Mesmo com a doença, ele continuava se dedicando aos estudos da História. Foi uma figura muito importante que mudou os estudos da História Naval no Brasil”, lembra Arno. – Mais pormenores em Morre Justo Guedes - Revista de História 





sexta-feira, 18 de março de 2016

São Tomé - Sum Marky - Figura lendária nas Ilhas Verdes do Equador - 1911- 2003 - O escritor-editor luso-santomense que denunciou os crimes mais hediondos do regime colonial nesta maravilhosa ilha - Perseguido e preso pela PIDE e desprezado pela critica das boas aparências pela sua incursão na linguagem do erotismo popular, sob os pseudónimos de Roy Harvey e Louis Rudolfo, a cuja maldição também se juntou a mesma policia política, confiscando-lhe e queimando-lhe centenas de livros da sua tipografia, além de meses de prisão.

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador -  Testemunho histórico na literatura  luso-santomense  - Excerto de entrevista em 1992 para a Rádio Comercial-RDP

Para a história da literatura luso-santomense  - Sum Marki, na primeira pessoa Pseudónimo (em dialeto) do  Senhor Marques –  - 1911- 2003   O escritor de origem portuguesa, nascido nas Ilhas Verdes do Equador, que cativou o coração dos santomenses, pela sua coragem na denúncia dos Massacres do  Batepá, quer antes quer depois do 25 de Abril   - 

Já não está entre nós  - Faleceu em 2003, em Lisboa, aos  93 anos – Mas tenho para lhe oferecer o registo da sua voz – Um breve excerto que pude recuperar, nos meus arquivos, de  uma entrevista que me concedeu, em sua casa, em Algés, no dia  6 de Abril de 1992  - Mais tarde, foi ainda por mim entrevistado e por Rui Castelar, nas madrugadas da Rádio Comercial, RDP, porém, de momento, não me foi possível localizar esse interessante dialogo. 
    
A OUTRA FACETA LITERÁRIA, MENOS CONHECIDA, DE JOSÉ FERREIRA MARQUES, NOS PSEUDÓNIMOS de:  Roy Harvey e Louis Rudolfo – Expressa em algumas dezenas de romances e novelas do erotismo popular, expressão artística hoje banalizada, tanto pela palavra como pela imagem,  mas muito ousada nos tempos dos chamados “bons costumes – Linguagem  da qual ele se servira, dada a cerrada perseguição movida pela policia Salazarista às suas obras de intervenção e denúncia.


Autor de quase três dezenas de romances, grande parte dos quais proibidos pela PIDE/DGS, com processos que o levaram até à prisão

Filho de pais portugueses, natural de São Tomé (1921), onde fez a instrução primária - A primeira voz a dar brado ao massacre do Batepá – Através de "O Vale das Ilusões" (1956), "No Altar da Lei" (1962),"Vila Flóga" (1963), ""Tempo de Flogá" (1969) e "Crónica de uma Guerra Inventada" (2000) - .


Perseguido e preso pela  PIDE, que lhe aprendeu e queimou várias edições na sua própria tipografia, na Amadora  - E também  mal amado pela critica, que sempre o olhou de sobranceria  pela sua incursão na literatura popular, humor e erotismo da qual se servira como alternativa à de denúncia e de intervenção – Porém, nem mesmo assim, o regime repressivo o deixou em paz  - O que lhe valeu é que, os agentes da brigada, que, de volta e meia, iam passar a revista a sua casa, eram porventura consumidores do erotismo e do humor dos “Virtuosos”, do Bom Dia Prazer, do Insaciável ou dos Imorais – Se bem, que, para salvar as aparências, no sistema de que faziam parte, até o aconselhassem a uma literatura mais normal, como, Júlio Dinis, ou  como Alexandre Herculano!... Enfim, livros sérios!... – A que. o escritor perseguido, respondia: bem… sabe!... Eu não tenho o génio de um Júlio Dinis! Eu sou um escritor principiante!... Gosto de escrever estas maroteiras!



UMA VIDA DE CONSTANTES PERSEGUIÇÕES - EIS ALGUNS TRAÇOS DA SUA EXTENSA E VARIADA OBRA LITERÁRIA



"Antes do 25 de Abril foi preso pela PIDE e entregue à Policia Judiciária sob a acusação de escrever livros pornográficos. Durante 90 dias foi mantido nas celas daquela Policia, até que o processo transitou para o Tribunal e o Juiz ordenou a sua libertação. Mais tarde julgado, foi condenado a uma pesada pena de prisão, remível a dinheiro

Os primeiros livros de Sum Marky nada tinham de obsceno ou pornográfico. A Comédias dos Sexos era uma crítica social, em que certo meio da nossa sociedade é dissecado com profunda verdade. Logo foi proibido pela censura e o autor entregue ao Tribunal. Em 1961 e 1962 Sum Marky publica dois livros "No Altar da Lei" e "Vila Flogá",,, que constituem uma denúncia terrível dos crimes praticados pelas autoridades portuguesas sobre o indefeso povo de São Tomé e Príncipe.

Também estes dois livros foram proibidos pela censura, com as consequentes perseguições ao autor.
Depois disso, publicou mais duas dezenas de novelas ou romances e todos eles foram proibidos pela censura. Sum Marky é, sem dúvida, o escritor português com mais livros proibidos pela censura.
Sum Marky tornou-se assim, um escritor "underground" cujos livros se vendiam ( e ainda vendem) por redes subterrâneas e como se constituíssem algo de abominável.
Enfim, um escritor Maldito, de quem a critica e os jornais nunca se ocuparam, antes ou depois do 25 de Abril.


VILA FLOGÁ – Romance 1963 – Sum Marky

Pág. 9 - A cidade acordou, alvoraçada, com a rusga nas ruas. Os cipaios,  de cassetetes arrogantes, procuravam trabalhadores para as obras do Estado. Um ou outro, mais zeloso, batia logo, sem meso perguntar pelo “papel”. E as camionetas das Obras Públicas, iam-se enchendo de homens assustados.
Sum Olímpio estava na manhã de sorte. Um grupo de cipaios, empenhado na singular caçada, tal como cães raivosos, já se preparava para lhe deitar a mão, quando surgiu o portão salvador.


Refugiou-se no quintal e subiu a escada a correr, só respirando ao ver-se por detrás da porta cerrada. Durante um instante, restou imóvel, a ouvir o burburinho dos soldados, o estrondo das armas, os gritos de pavor dos homens perseguidos. Depois, pouco a pouco, os gritos foram cessando, diluídos a distância, e ele pôde dirigir-se à escolinha.   




Página 104

Tudo começara na vila da Trindade, com a população nativa a ser perseguida há meses com rusgas permanentes e arrebanho de pessoas para as obras do Estado. Ao anoitecer do dia 3 de Fevereiro de 1953, o tenente Ferreira e o Zé Mulato, acompanhados de soldados armados de espingarda e baioneta, apareceram num jipe em atitude provocatória. Um homem que passava, descuidadamente, na rua principal abatido pelas costas. A população, aterrada com o tiroteio, corre a refugiar-se no mato. E, no dia seguinte, principiaram as prisões em massa, as rajadas de metralhadora, morte de gente indefesa. Com a desculpa, disparatada, de que os nativos, armados machins, se preparavam para marchar sobre a cidade para matar o Governador. E, por fim, nomeariam como  governantes  personalidades desafetas  ao Governo, como o Engº Graça , os professores Januário e Maria de Jesus, os chefes e mentores da revolta. E também alguns brancos-forros, Vergílio Lima, Carlos Soares, Américo Morais  - In Crónica de uma Guerra Inventada – por Sum Marki

As ruas da cidade jaziam em quase completa obscuridade, de lampiões elétricos apagados. E não se via vivalma, nem sequer um cão. Uma cidade-fantasma, ou ~r, uma cidade ocupada com jipes e camionetas carregadas de homens armados a impor a lei da guerra. E as palavras do Songo, em segredo: "O senhor Doutor : saia de casa depois das 21 horas! Está em vigor o recolher obrigatório e o senhor está na lista dos inimigos a abater! Dirão, depois, que não respeitou a lei, que não passou de um lamentável incidente ... "

Consultara o relógio: 6 horas da tarde. Dispunha do tempo necessário para ir a casa tomar um duche e mudar de roupa, antes do jantar. Depois, voltaria para casa e restaria ali, tranquilamente, coligindo todas as informações que conseguira recolher.
Porém, o seu plano fora alterado. O restaurante estava cheio de risos, conversas e músicas de rádio. Um mundo alegre, confortável, diferente do mundo tenebroso que Songo descrevera, em palavras de alarme. Qual era o verdadeiro? - Interrogara-se.
O senhor Gomes, dono do restaurante, aproximava-se: "Então, senhor Doutor, que tal estava o jantar?" Era um homem gordo, bonacheirão, de riso fácil como os nativos, a palavra discreta. "Conspiração dos pretos contra os brancos, matar o Governador?" Nisso, ele não falava, não sabia nada e pronto!
De súbito, lembrara-se da hora de recolher, alarmara-se: "Bem, tenho de ir, está na hora!"


Um dos brancos ouvira-o, soltara urna gargalhada de troça: "O recolher obrigatório? Isso é prós pretos!"

A ILHA DE NOME SANTO

A ILHA DO SANTO:

Sum Marky, como nos seus anteriores romances e no seu habitual estilo sarcástico, vem denunciar as condições pungentes em que as autoridades coloniais portuguesas exerciam a sua autoridade discricionária sobre os nativos da Ilha de São Tomé, a Ilha Santa,

Neste livro, Sum Marky também prova que Salazar e os seus cúmplices, com a célebre

"Lei do Indigenato", instauraram um regime ·de escravatura, que lhes permitiu mandar
arrebanhar pessoas nos sertões de Africa, metê-las nos porões de barcos de carga, como se· rezes humanas fossem, transportando-as para São Tomé, para trabalhar nas roças de cacau e café em regime de pura escravidão.

Mas, Salazar com a hipocrisia que lhe era peculiar quis dar a tal trabalho um cunho legal, chamando-lhe de contrato,  o que na realidade não era; uma vez que nele só prevalecia a vontade de uma das partes.
Neste livro também ,se prova· que a , colonização portuguesa, em Africa não foi tão exemplar corno nos querem fazer crer. Aconselhamos vivamente a leitura deste livro a todas as pessoas que se interessam pela Liberdade e seus valores eternos. - ttexto na contra-capa

Capítulo 12

Abandonara tudo para perseguir
Quando Carvalho entrou ria fábrica de óleo, a maquinaria estava em pleno funcionamento, num estrondo ensurdecedor. Ele ainda sentia o gosto amargo dó quinino e as fontes latejavam-lhe numa dor de cabeça intolerável. O ruído brutal repercutia-se inteiro na sua cabeça, mas a Suzana estava ali, entre as mulheres - a escolher caroço e ele queria vê-la, pousar os olhos, ardendo de febre, no colo redondo, virginal, trocar com ela um olhar cúmplice onde havia promessas de inefáveis delícias. Às vezes, parado junto dela, ficava a olhá-la por uma eternidade. E ela, sem desviar o olhar, à olhá-lo também. As outras mulheres, observavam a cena, disfarçadamente, a gozar o seu enleio. Então, ele dava um berro, soltava um palavrão obsceno, para se libertai do sortilégio, fugia ao encantamento de amor, enquanto que- as mulheres baixavam os olhos e retomavam a sua tarefa. Mas ele sabia que lá muito no íntimo continuavam a troçar dele, a rir-se daquele amor envergonhado, pleno de medos. Então, fugia, encabulado, jurando nunca mais se submeter à cena humilhante. Mas voltava sempre, como cão espancado, de rabo entre as pernas. E . elas sorriam, numa cumplicidade feliz e sorridente, prontas à ajudar o branco e a garota dum modo tão petulante, que ele, de humilhado, fugia definitivamente.

Mas, nessa manhã, as pernas tremiam-lhe e o sangue escaldava, mas não de amor e desejo. Não era mais o mendigo de amor que  suplica por uma caricia, mas antes se comportava como alguém aflito que precisa de auxílio. Não lhe apetecia sonhar delícias secretas, tudo o que queria era deixar-se cair no chão de cimento e depositar à cabeça ardendo em febre no colo macio  de Suzana . E que ela colocasse as suas mãos frescas sobre as fontes latejantes, para sentir a carícia dos seus dedos frescos. E esquecer tudo, a mulher e o filho, a terra distante que abandonara para conseguir a quimera de uma fortuna fácil…


A SOLIDÃO DOS AEROPORTOS

 – Romance – Sum Marky
Aeroporto «Leonardo da Vinci», Fiumicino. São 18.30 horas.
Um sol ainda resplandecente inunda a campina romana. Estou a 25 quilómetros de Roma, informa-me um funcionário do aeroporto. Só tenho avião para Palermo às 21.15. Disponho, pois, apenas de duas horas, impossível visitar a cidade, que adivinho perto, mas está invisível, para além das colinas. Resigno-me e vou fazer o «check-in», entro para a sala de embarque e sento-me.

«Banco dÍ Santo Spirito», leio num vasto painel luminoso, à minha frente. Desvio o olhar, mas logo se me depara o «ecran» de uma televisão, que mostra a imagem de uma pequena ilha, ligada a terra por uma passagem. «Azienda Soggierne Isole Eolie», leio a legenda. O paraíso para umas férias, adivinho facilmente. Mas já a imagem desapareceu e, em seu lugar, surge um carro «Fiat», a grande marca italiana, que logo se dissipa, para dar lugar ao refresco «Pepsi». Umas a seguir às outras, num desfilar contínuo, surgem mais imagens: «HERTZ - rent a car», CAMPARI, AVIS, MONTECATIM TERME, COCACOLA. A última imagem desaparece e surge agora uma frase em italiano, que traduzo rapidamente: «13 milhões de pessoas vêm os teus produtos». Seguem-se, mais imagens publicitárias: «RENAULTI>, «FAZIENDA SOGGIERNE AGRICENTI». E, finalmente, reaparece a primeira imagem, o paraíso dos turistas. E a solidão mais completa a cerrar-se sobre mim.


A meu lado, uma jovem morena lê um livro numa língua qualquer deste mundo. Deve ser italiana, presumo. Ela tem um perfil romano era provavelmente francesa ... Agora, somos 18 pessoas e o cão, sentado no colo da dona, de orelhas caídas e olhar triste ... Tudo imagens de um mundo distante e diferente, que não me diziam respeito. As pessoas continuam a desfilar, incessantemente, no corredor envidraçado. O autocarro, repleto de passageiros, arranca e dirige-se para o avião de Alghero. Carrinhos, carregados de bagagens, cruzam o aeroporto «GULF», lê-se no enorme camião-tanque. A buliciosa Teresa e seu pai, desapareceram para sempre. Ainda não anoiteceu completamente, o céu é de um azul escuro anilado. Acendem-se as luzes, a fria claridade do «neon». Um carro da «polizia», um Fiat evidentemente. O «gong». A solidão ... Uma italiana gorda, senta-se à minha frente. Há, apenas, dez anos, ela era uma mulher de sonho: alia, esguia, elegante, o cabelo louro a emoldurar um rosto bonito de epiderme muito branca, um encanto. Agora, ainda conserva alguns traços da sua passada beleza, mas é quase um estafermo,· que se inclina para a frente e esboça uma carícia no focinho triste do cão.


Afinal, reparando melhor, a rapariga a ~eu lado têm tipo de francesa. Parisiense, mais exactamente. O «gong», .as palavras obscuras e cantantes, o avião de vigias iluminadas, pronto a subir no céu onde só resta uma vaga claridade. 


O VALE DAS ILUSÕES – SUM MARKY  - Romance

Pág. 7 - Quando, cinco anos antes, desembarcara na Ilha , sentira, vagamente,  que a terra  lhe era hostil. Depois, durante a luta que se seguira, verificara a realidade de tal hostilidade. Mas, nesse tempo, possuía a força  e energia  que agora lhe faltavam. Lutara e vencera. Ou antes, jugara vencer; o presente difícil e amargo mostrava-lhe quão precária tinha sido a vitória e como estava longe do ansiado fim…

Do caminho que o levara  até ali , já nada restava . Aqueles anos tinham-se esfumado sem deixar cinzas , deixando, dentro dele, um incrível vazio, uma sensação de vacuidade que se traduzia em impotência , amarga inutilidade. O passado recente apagara-se, sem deixar vestígios. Apenas,  no seu cérebro restavam sombras vacilantes e a lembrança pertinaz, do longo caminho…  

17 . pag. 146-147- 148
Na varanda, ao sentir a brisa da manhã a refrescar-lhe  o rosto. Julgou sair de um estranho pesadelo. Sentia os músculos lassos, invadido por
invencível cansaço. A custo, desceu a escada que conduzia ao jardim. Com passos incertos, como se estivesse embriagado, dirigi1u-se ao caramanchão.

Isabel estava, sentada no dongo .banco, de rosto entre as mãos. Ao pressenti-lo, ergueu a cabeça e os seus olhos encontraram-se por uma fracção de segundo. Mas,  logo ela desviou o olhar. Levantou-se de um pulo e fugiu, sem que ele, imóvel, pudesse esboçar um gesto para a reter.

Ficou parado, vendo-a afastar-se, sem proferir uma palavra sentindo arrepios a percorrer-lhe o corpo . E seguiu-a com  olhar, até vê-la desaparecer na esquina  da varanda. Depois, sacudido por um tremor de febre, arrastou-se através do jardim e atravessou o terreiro , em direcção ao seu quarto.

Atirou-se para cima da cama, mesmo vestido, envolvendo-se na roupa que encontrou. Apesar  disso, tremia de frio. O coração pulsava com violência e cada pulsação  repercutia-se  no seu cérebro, como uma martelada. Os dentes entrechocavam-se e sentia o estômago revolvido ·pelos vómitos. A boca seca amargava-lhe como se tivesse bebido fel. E, enquanto o corpo tremia de frio corpo tremia, a cabeça escaldava-lhe. Todos aqueles sintomas, ele os conhecia bem: paludismo!

Perdeu a noção do tempo que jazeu ali, amarfanhado  de músculos tensos; encolhendo-se sob a violência dos tremores.  Quando de novo, tomou conhecimento do mundo  à volta, do· quarto de paredes de madeira pintadas a óleo, despidas de adornos, sentiu a febre queimá-lo, corno se nas suas veias e artérias, em vez de sague, houvesse chumbo em fusão. Doía-lhe a cabeça intoleravelmente, mas uma sensação sobrepunha-se a todas as outras·: a sede!
Era uma sede horrível, que o fazia gemer: água, água, água! Mas, ninguém o ouvia. E até tocar o sino, dando por terminado o primeiro período de trabalho, sofreu o atroz suplício da sede.
Passava meio-dia , quando o Rebelo, ao passar no corredor, ouviu os seus gemidos. Entrado no quarto, foi encontra-lo, de rosto congestionado pela febre. Imediatamente, foi buscar  um copo de água, que ele bebeu, sofregamente . Mas, depois disso, ainda tinha sede. Parecia-lhe que não havia água  capaz de matar-lhe a sede ardente.

OS IMORAIS – Louis Rudolfo

Página 3 - A triste conclusão a que sou forçado a chegar, após três meses de casado, é que minha mulher é umã autêntica pedra de gelo.

Durante esse tempo fiz tudo quanto humanamente é possível para derreter aquele iceberg em que ela se envolve, sem o menor êxito.

Ainda esta noite, comecei fodê-la às dez horas da noite e duas horas depois tive de desistir sem conseguir que ela se viesse! Fiz tudo, senhores , desde as espremedelas nas mamas  até ao beijo no ventre. Mas acho talvez melhor descrever em pormenor tudo o que lhe fiz, não vá o leitor pensar que sou uma pessoa sem experiência e que a culpa foi minha .

Como já disse, fomos para a· carna cedo, ainda não e eram  dez horas. Isto depois de muitos rogos, pois minha mulher não gosta de se deitar cedo, provavelmente porque não ignora a sorte que a espera. Assim, inventa mil desculpas para não me fazer a vontade. Ontem, por exemplo, inventou um trabalho de costura, um vestido que tinha de arranjar para um passeio que tínhamos combinado dar para o mês que vem. Fiquei furioso, verdadeiramente danado, e só quando me viu assim, é que acedeu aos meus rogos. Mas não julguem que foi logo para a casa e me abriu as pernas. Isso sim! 

COMÉDIA DOS SEXOS – Romance -  Sum MRKY

Pág. 152  O dia de Natal desse ano foi mais triste de toda a minha vida. Sozinho, na terra estranha,  longe de todos os meus, sentia-me o mais abandonado de todos os seres vivos. Era como se estivesse perdido num deserto ou prisioneiros nos ermos glaciais, na solidão silenciosa  das regiões polares.
A Maria Isabel, convidara-me a passar esse dia com a sua família, mas o nosso conhecimento era tão recente, que resolvi não aceitar. Ela tinha irmãos, já cassados,  que se reuniriam nesse dia e eus sentir-me-iam intruso no meio deles.

O círculo das minhas amizades era muito restrito, posto isto recebi alguns convites para almoçar ou jantar. Recusei-os delicadamente. O Natal é a esta da Família e eu não queria intrometer-me num lar, que não era o meu. A minha presença seria bem recebida, estou certo, mas , aos meus próprios olho, teria  o aspecto de intrusão. E sentir-me-ia mais só e distante da minha própria família. 

SIMBADE O MARINHO – Novela edição de autor  - Sum Marky

CONTO DAS MIL E UMA NOITES
Sindbad Harum-Al-Raschid, o célebre mercador e aventureiro, no fim do banquete, mandou distribuir a soma de mil squins aos seus convidados mais pobres.

- Que Alá te conserve a vida e os teus bens! -· gritou, histericamente, um dos vagabundos. E depois prosseguiu em tom normal: - Agora, que saciaste a nossa fome e a nossa sede, rogo-te, encarecidamente, que nos contes uma daquelas maravilhosas aventuras que, a par de mil perigos, te trouxeram esta prestigiosa riqueza.

- Sim, sim... - gritaram várias vozes, entusiasmadas.

- Oue Deus e Maomé seu profeta, sejam louvados, pois só a Eles devo tudo o que possuo! E acedo, com prazer ao vosso desejo, -uma vez que ao relembrar os perigos por que passei, não deixarei de louvar os prodígios a que me foi dado o privilégio de assistir, que necessariamente reverterão em louvor de Deus, meu protector.
- Oue Deus e Maomé, seu profeta, sejam sempre louvados! - gritou a multidão em côro.
- Oue Alá esteja convosco, meus queridos amigos. E agora, já que me pedis com tanto interesse, vou contar-vos uma das minhas aventuras em que corri o maior perigo e que, no fim, me proporcionou grandes prazeres e riquezas – e após um silêncio , iniciou assim a sua narrativa:
“Quando me dirigi a Bassorá numa barca de cem remadores, com uma carga de marfim e especiarias da Índia, ao terceiro dia de viagem de deixarmos Calecute, caiu sobre nós uma terrível tempestade. O mar estava completamente calmo e nada deixava pressagiar a tormenta. Em poucos minutos, porém, o sol apagou-se  e quase subitamente grossas nuvens negras surgiram nos céus. 

BOM DIA PRAZER -ROY HARVEY

 Pág. 56 - É realmente era um prazer, apesar dos meus dedos trémulos. Finalmente consegui correr o-fecho do vestido, que caiu a seus pés. Fiquei a admirá-la por um instante e depois comecei a Libertá-la do soutien, No minuto seguinte, tinha-a toda quente  contra O peito, sentindo os seus seios a palpitar contra mim
- Aposto que eu era uma virgem, disse ela
Não pude responder, com os seus seios. hirtos e arrogantes, tão perto da minha boca. Ela começou a rir subitamente, .num gesto brusco, deu-me os seus lábios. Mas quando tentei despojá-la das calcinhas, libertou-se do meu abraço e dirigiu-se à mesa onde estava o whisky. Vi-a desarrolhar o frasco, com  uma certa apreensão :
 - Querida! – Disse . – Não é altura de beberes mais.

- Qual não é! – declarou a rir

A ADÚLTERA – ROY HARVEY

Pag 106/107 - À medida que bebia, Lena sentia-se muito mais bem-disposta. Já nem sequer se recordava da diferença de tom· da cor da sua bebida. O importante era o confortável calor a tomar-lhe o corpo. ·E quando sentiu a carne palpitante, a excitação a encher-lhe as veias de fogo,  era como se sentisse viva outra vez. Detestava sentir-se deprimida e infeliz. Aquela bebida transmitia-lhe urna sensação de alegria e felicidade. Olhou o copo com reconhecimento
Lembrou-se, então, do ·prazer que Chuck lhé, dera, apesar da aversão que sentia por ele. Era pena, afinal, que ele tivesse· ficado com ela na cama · por tão pouco tempo. E Monroe? Onde estava Monroe para a levar até às estrelas, conforme tinha prometido?
Olhou para a porta., ansiosa, Onde estava Monroe? - perguntou mais uma vez a si própria, sentindo  que o calor se tornava insuportável. Num gesto brusco, despiu o roupão e ficou nua. Sim, assim era melhor. As formas redondas do seu corpo, perfeitas e belas, produziam-lhe uma sensação de inefável prazer. Levou as mãos aos peitos e apertou-os, depois fê-las deslizar até às ancas. Dum só trago, engoliu o resto da bebida. Onde é que estava Monroe? - interrogou-se, mais uma vez.


Precisava, ·de outra bebida, decidiu de repente. Nunca um, só Martini lhe, tinha provocado uma tal reacção. Estendeu as pernas, num gesto lascivo, e ficou a admirá-las durante um instante. Eram umas belas pernas – pensou com  prazer, grossas nas cochas e  estreitando progressivamente até ao tornozelo fino. As suas mãos tornaram a percorrer a barriga lisa e detiveram-se nos seios hirtos. Onde estaria ele? 


Putas sem coração, putas malditas,
Que nos dais a provar já pôdre o cono !
Vós, vós. sois quem fazeis tanto f'achono,
 Que da greta maldiz gostos e ditas!

As galiqueiras são, são infinitas,
Alto clamam da foda em desabonol
Pouco a pouco já vão erguendo um trono
À sacana bem feita heróis catitas!

Reparai nisto bem, ó putas todas,
Deixai por uma vez de ser tiranas
Com esses que vos dão tão belas fodas !

Com os tristes caralhos sêde humanas·
Ou em breve vereis, mudando ias modas,
Triunfarem das putas os sacanas.




O tema deste novo romance de Sum Marky´é, sem dúvida, empolgante. Carlos da silveira, um jovem engenheiro recém formado desloca-se à Ilha dos Papagaios, para montar a torre do telégrafo, permanecendo ali apenas durante três meses. Surge então a morena Valiana e a volúpia das noites tropicais.
Dezoito anos mais tarde ele regressa para realizar uma nova tarefa: a construção de uma campo de aviação." 



(...) "Desconhecem o lealismo dos filhos de um Império, desconhecem os aviões e os navios, e todo um arsenal de história, de espírito humano e real metralha, que Deus pôs à disposição dos portugueses"  - In FORROS, PRETOS E BRANCOS,  do jornal A VOZ DE SÃO TOMÉ -  12 de Fev. 1953 - Um dos artigos sobre o MASSACRE DO BETEPÁ




OPINIÕES

O romance Crónica de Uma Guerra Inventada, de Sum Marky (escritor que não me merece, pela sua obra anterior, particular apreço; autor que foi de textos menores, roçando o porno-tropicalismo que a ditadura, naturalmente, proibiu – claro, que a literatura portuguesa não ficou mais pobre pelo facto, embora esses livros tenham sido precursores da subliteratura que hoje, em versão feminina, enchem de lixo mediatizado as bancas das livrarias), é um texto só possível de produzir em liberdade, suficientemente distanciado em relação aos factos que relata tornando-o assim num livro sem ressentimentos nem constrangimentos excessivos http://daliedaqui.blogspot.pt/2008/04/crnica-de-uma-guerra-inventada-de-sum.html

Incansáveis mocetões de um metro e noventa e estonteantes louras, morenas e ruivas, naturalmente insaciáveis, dedicam-se a praticar sexo fácil em várias novelas editadas em 1965. Com sugestivos títulos como O Insaciável, O Obcecado e O Violador, são livros sem editora, sem tradutor, escritos por Roy Harvey e apresentados por Sum Marky, pseudónimos de José Ferreira Marques (1921-2003), autor de outras prosas light da colecção, branco nascido em São Tomé e autor de um apreciado Vila Flogá, de 1963, libelo acusatório do colonialismo na antiga colónia portuguesa. Tanta clandestinidade serve uma literatura popular, claramente apontada à líbido masculina e ao mito, tão excitante quanto assustador, da voracidade sexual feminina. Acautelando o olho vigilante da censura, Sum Marky prefacia os três volumes nas exíguas badanas, exaltando o proveitoso exemplo destes pedaços sórdidos de uma América corrupta, racista e depravada.  https://www.publico.pt/cronicas/jornal/obsessao-25047267

O romance Crónica de Uma Guerra Inventada, de Sum Marky (escritor que não me merece, pela sua obra anterior, particular apreço; autor que foi de textos menores, roçando o porno-tropicalismo que a ditadura, naturalmente, proibiu – claro, que a literatura portuguesa não ficou mais pobre pelo facto, embora esses livros tenham sido precursores da subliteratura que hoje, em versão feminina, enchem de lixo mediatizado as bancas das livrarias), é um texto só possível de produzir em liberdade, suficientemente distanciado em relação aos factos que relata tornando-o assim num livro sem ressentimentos nem constrangimentos excessivos – característica afinal, apesar dos pesares, comum a grande parte da literatura que tem a questão colonial como matriz. Este romance fala-nos, sem rebuços, dos homens e mulheres que em S. Tomé e Príncipe foram vítimas da ignomínia, do arbítrio, dos mecanismos de cerco, de tortura e morte de que foi capaz o colonialismo salazarento, para submeter e escravizar os povos autóctones. Jornal «Avante!» - Argumentos - A inventona de Batepá