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sábado, 30 de setembro de 2023

A baleia também abalroa - Não ataca como a orca assassina ou o tubarão mas é um perigo à solta - Há 48 anos, só não me voltou a piroga, talvez por milagre de Deus - Provoca naufrágio na Austrália - Matou um homem e feriu outro que estariam a pescar

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador - Antigo navegador soliário  em pirogas no Golfo da Guiné

Algures no Golfo da Guiné, 24 de Novembro de 1975

A baleia não ataca como o tubarão ou como a orca assassina, mas é um enorme perigo solto no mar - Quem se aproximar onde elas andem a abocar os cardumes ou então se levante debaixo de alguma pequena embarcação, o mais provável ou é ser engolido no meio de outros peixes ou então ser afogado

É noticia da Lusa, de que, "dois homens estavam a pescar numa lancha quando uma baleia se aproximou e provocou o acidente, na costa leste da Austrália - Que se virou por volta das 06:00 (21:00 de sexta-feira em Lisboa), nas águas de La Perouse, 14 quilómetros a sudeste de Sydney, disse a polícia..

Diário de Bordo 1 Já é manhã do 35º dia. Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa....De noite trovejou... Choveu um pouco mas passei-a normalmente. Claro, quase sempre acordado


Sim, tal como  desabafei para o meu registo gravado, que guardo no contentor de plástico  que se vê na imagem (a outra do lado, é a cauda de uma das baleias avistadas)  acordei mais cedo e assustado, com o barulho de enorme balanço,  Acordei estremunhado. Ato contínuo, ergui-me a ver o que era, supondo que tivesse sido apanhado pelas ondas da quilha ou da esteira de algum barco. Mas o  rugido e o cheio  nauseabundo a peixe , fez-me  logo pensar que era um enorme  cetáceo que tinha vindo à superfície a respirar, que se levantou abruptamente a escassos metros  da proa. Expelindo um bafo tremendo, que parecia ter emergido das profundezas  mais fundas dos abismos. 

Não sei como a não a escaqueirou. Deu uns valentes esguichos e até ainda  me molhou com uns espirros . Apanhei em cima de mim uma espécie de chuva miudinha,  mas a tresandar a uma podre maresia. 

Ainda o vi mergulhar e desaparecer. Levantou-se, deu uns sopros e umas borrifadelas, seguidas de alguns rugidos  e mergulhou outra vez, da mesma maneira e no mesmo sítio onde se levantou - Mais parecia um mostro pré-histórico, que subitamente havia emergido do fundo dos tempos ou um negro e volúvel submarino vivo, que, depois de errar no seu alvo, se ergueu com a cauda assente nas águas e o focinho nos ares, estrebuchou, guinou, mergulhou e desapareceu.

Não é a primeira vez que  se levantam junto à canoa. Mas desta vez, corri o risco de ser abalroado.  Foi mesmo muito rentinho.... Tive muita sorte!... Mas elas são cautelosas e eu até gosto de as ver - Deus as proteja dos assassinos que as pescam e de forma tão bárbara; se calhar veio por curiosidade para  ver que estranho  corpo era o da canoa, que tem o costado como a barriga dos  peixes. Ainda por cima de um  azulado claro  - Um gesto amável dos pescadores do Hornet, nos dias que passei a bordo do pesqueiro americano, de São Tomé a Ano Bom, onde fui largado - Foi pena não ter sido na corrente equatorial, um pouco mais a sul,  mas, enfim, estava escrito que deveria ser este o meu destino. . Estava pintada de alcatrão, pelo pescador santomense, que a talhou num tronco da floresta  - Se tivesse mantido a mesma cor, certamente que não teria sofrido tantos ataques dos tubarões, atraídos que são por tudo quanto se movimente, brilhe ou branqueie. Não sei se é por esta mesma razão que à volta da canoa, há  quase sempre peixes das mais variadas espécies -  e sobretudo muitos  tubarões pequenos. Felizmente que os perigosos gigantes, solitários, que a atacam, são mais raros. 





Diário de Bordo 3 - Sim, realmente, já não tenho a menor dúvida de estar numa enorme baía!... Baía ladeada de altas montanhas!... Que ora estão escondidas ora ligeiramente descobertas!... Mas quase sempre escondidas...



Estou exausto!... Estou fraco!... As forças cada vez fraquejam mais... A canoa está cheia de água!... O fundo está cheio de água, devido às constantes chuvadas que caíram esta manhã... Mas eu hei-de aproximar-me de terra... Eu sinto isso...

Estou completamente exaurido!...Não sinto nada no estômago... É um saco de fole... Há uma fraqueza geral em mim...mas o espírito permanece forte...A confiança é inabalável.... Eu sei que estas palavras que tenho pronunciado têm sido poucas... Tenho-me remetido num autêntico mutismo...
.
São aí quatro da tarde. O tempo mantém-se sereno... Pouco vento. Tenho andado à deriva visto o vento ser muito fraco.

Apanhei Há bocadito  um peixe  à mão. Foi para mim uma festa!... Estou mais satisfeito agora.... Evidentemente que o comi, crinho!... Mesmo quase vivo... Soube-me também!.. Ah! o meu estômago andava tão vazio!... Assim ficou melhor!...

Continuo a beber água das chuvas, misturada com água do mar. Não tenho anzóis para pescar. Mal me posso mexer, mas lá tenho que pegar no vertedouro para escoar a água que rapidamente se veio juntar à  salmoura já existente, que chocalha constantemente no fundo da canoa. Que não cessa de entrar pelas pequenas rachas e de se avolumar. Sinto-me fraco mas  também já nem sei até que ponto esta banheira ainda possa resistir. Se quem vai ceder primeiro, serei eu ou é a canoa que se vai abrir e voltar. Este tempo chuvoso, rouba-me as fracas energias que ainda vão dando  vida ao meu tão maltratado corpo. Estou enregelado, sinto-me entorpecido dos pés à cabeça, ensopado de água até aos ossos. A chuva não pára de cair e as horas arrastam-se lentas, ensopadas, penosas e desgastantes.

No entanto, mesmo desconhecendo a quantas ando, o dia segue o seu curso – Nada que se comparem às horas noturnas.  Mesmo decorrendo chuvosas e em gélida cadência, não têm a mesma cor das horas mortas de uma infinita  noite escura. Avançam alheias ao meu tormento, mas nem por isso se desligam do próprio compasso do tempo.  Um dia no mar, mesmo brumoso e chuvoso, nunca se pode comprar ao tumulto de um  mar agitado, rodopiando e tumultuando sob um céu espesso e cavernoso, imerso de solidão e liquefeito de  trevas.  Serão umas quantas da tarde, não sei. Já parou de chover mas estou todo partido. Não faço a menor ideia. 

Entretanto, o horizonte clareou, desfez-se da brumosa neblina em que se havia encoberto desde o meio da manhã e, embora cinzento, estende-se agora por um círculo, claramente mais amplo e afastado. O mar é agora um espelho lânguido, morno e calmo. Não se vêm os peixes em redor da canoa. Até parece que a vida se extinguiu. Ainda hoje não vi um raio de sol, contudo, paira em torno de mim uma estranha beleza e quietude. Tudo se confunde e dissipa num extenso manto de harmoniosa placidez e calmaria.


 Solitário e sem destino, sob um céu cinzento e deserto de uma manhã  brumosa, envolta por um horizonte encoberto  por densas névoas e por saturadas neblinas,  povoado  por silenciosos e enigmáticos sortilégios - Ó abençoada claridade das madrugadas, que sucede à cerração impenetrável das trevas, às longas horas de espera,  aos infinitos momentos de angústia e resignação! Afável serenidade, confiança e audácia  do meu ser, que me iluminas e abraças!... Vagueando esfomeado, transitório e frágil à superfície de um ondulante e vastíssimo manto de lívidas ondas,  que os turvados céus tingem e confundem, vogando à superfície  de um mar brumoso e infindo. 

Não choro o meu abandono, porque, apesar da  incerteza que me domina, vogando à deriva na vasta solidão que me rodeia,  dentro de mim não há lugar nem para  a derrota nem para o desespero; ainda vibra o silêncio que acalenta e não esmorece.  Subsiste   a intacta e vital vibração  da  esperança que não falece, que transforma o sofrimento em vitória. Porém, oh, Deus!... Vós, que até agora me acompanhais, lá do alto, que certamente olhais  os imensos caminhos da  minha náutica e errante aventura, sabereis, com certeza, a dor que   vai  dentro da minha alma!...   O quanto está   debilitado e  enfraquecido o meu corpo, quanta incerteza  vai o meu coração! E qual o peso do calvário por onde me arrasto e vou sendo arrastado.



Constantemente torturado pelas minhas  angustias, sinto que física  e psicologicamente me encontro  noutro mundo. Não, não, este não é o mundo de quem vive com os pés assentes em terra. Flutuo continuamente à flor do abismo, dentro de uma urna muito frágil, que ora se ergue ora vai a cambalear, mas nem é isso que ocupa mais os meus pensamentos, pois já estou familiarizado, mas a fraqueza que me invade. No entanto, mesmo no limiar das minhas forças, se a minha canoa resistir, tenho a certeza que eu não vou desistir de lutar... Estou resignado  a suportar, com infinita paciência, todos os reveses e adversidades da minha triste sorte. Resignado, sim, mas não me vou render; o que eu não quero é  sofrer ainda mais. Só cruzo os braços quando me deito, quando me estendo no fundo da canoa e junto as mãos ao peito. Porque, eu sei, que, em cada alvorada,  há o renascer de um novo dia, de uma noite que se extingue e a luz  apaga,  uma nova promessa e uma renovada esperança..  

Parcas têm sido  as minhas palavras para o meu diário de bordo,  tal como no dia de ontem, porém, imensos os meus pensamentos, inarráveis os tormentos que assolam o meu coração


Geralmente, só adormeço de cansaço, quando a madrugada já vai entrada. Raro acontece antes da meia-noite. Por um lado, é o grande desconforto de ter o estômago vazio e o fundo da canoa ser duro e estar encharcado. Pois o colchão (de praia) há muito rebentou e de nada me serve, Por outro lado, são os muitos pensamentos, a imensa incerteza de que a canoa não resista. .É o que mais me preocupa.  E também  tenho muito receio  de ser abalroado - Sim, já vi alguns barcos no horizonte e já uma manhã um cargueiro passou muito próximo de mim - E eu agitar a minha capa, agitar e apitar  e ele a passar ao meu lado, como um monstro....É talvez ainda maior o desapontamento e a crueldade, que quando se mostra um rebuçado a uma criança e se lhe nega, ante os seus olhos ávidos e espantados.... É intraduzível a tristeza e a deceção que se apoderou de mim... Senti-me então a criatura mais abandonada  e triste deste mundo....E mais me convenci que só podia depender de mim, da minha força de vontade.

Além disso, de noite nunca sei para onde as correntes me arrastam..  E as correntes são quase como os ventos, nem sempre tomam o mesmo  sentido. Por vezes, até me parecem pequenos rios. São correntes dentro de outras correntes. Receio que me aproxime da costa e seja atirado contra a rebentação de algum penedo.. Tenho o sono dos gatos, à mínima coisa, acordo. Ainda não consegui dormir uma noite inteira. Ou porque chove ou porque, mesmo sem chover,  as constantes pancadas e balanços das vagas na canoa, atordoam-me, perturbam-me o descanso. O chape-chape deixa-me a cabeça num frangalho - É um  autêntico martírio! . Porém, a manhã já raiou, embora sombria e  com ameaça de trovoadas, por agora, cá vou indo,  levado, não sei para onde. 

Se olhar para a bússola, sei a direcção que a canoa toma, mas os ventos e as correntes fazem-na mudar constantemente.  . Tanto pode ser empurrada para norte, sul, leste ou oeste. Se não fosse isso, já tinha dado a qualquer ponto da costa.  Vou para onde me empurrar o vento e os caprichos das correntes. .Eu sou um zé ninguém e a minha canoa uma tábua flutuante...  Estou muito cansado de tanto olhar para o horizonte e para a bússola... Lá ponho a vela, quando o vento é favorável, mas com muito esforço... Ainda se tivesse um remo apropriado, mas o que improvisei, é demasiado tosco . Por isso, vou-me entregando à mercê de Deus...Aqui no mar sinto um grande apelo às minhas raízes cristãs. A fé é um bom suplemento de energias . E estou convencido que tenho um olhar divino a estender-me a sua bênção. Mas em terra eu não sou assim tão crente.

Também já tenho  avistado muitos golfinhos. Nadam em fila lado a lado, uns dos outros. Lá vão à sua vida, e eu continuo na minha. Uma noite resolveram brincar comigo. Fizeram do casco o seu arco. Como estava muito escuro, deixavam um rasto luminescente...Exprimiam uns grunhidos, muito estranhos, saindo do fundo das águas, como  foguetes da escuridão, deixando um rasto luminoso. Era cambalhota atrás de  cambalhota por sobre a canoa.  Até parecia um foguetório. . Receando que algum caísse dentro da canoa e ma partisse, dei umas apitadelas com o apito que trago sempre pendurado no pescoço e  desapareceram. Se calhar vieram-me acordar-me para a vida. , Foi numa daquelas noites muito tristes, em que me sentia muito fraco  e  deprimido. Mas agora já estou mais acostumado a viver com a minha fraqueza. Não tenho comido nada. Tenho estômago, mesmo duro e encolhido. Quanto arroto, parece que até me vem à boca, o gosto às minhas vísceras.  Vá lá que não me tem faltado água das chuvas. Houve uns dias em que não choveu e só bebi água do mar. .. Bebia de vez em quando  aos golinhos para não me fazer mal e também para não me desidratar. Não havia uma nuvem no céu e nem  uma aragem corria... Eram calmarias atrás de calmarias,,  Que tormento o meu!. Antes apanhar água das chuvas em cima do corpo, de que não chover e morrer de sede.

Numa tarde, era tanto, tanto  o calor que me queimava a garganta, quase me sinta  sufocado (sim, este é um mar equatorial, em que o sol sob a pino e os dias e as noites são sempre iguais) que lasquei um pedacinho da borda da canoa, que estava húmida e fiz uma espécie de chiclete. ... Meu Deus!... No mar a  fome é dolorosa, mas a sede é ainda  pior  - É uma tortura insuportável!  - E, todavia, tanta água à minha volta!...Que suplício!... Eu lá ia bebendo uns golitos de água salgada, mas ficava sempre com sede. Não é a mesma coisa que a das chuvas ou água potável. Serve para amenizar mas pouco mais dava que ir molhando os lábios e humedecendo a garganta.  . Mesmo assim, ás vezes lá ia fechando os olhos, tomando-lhe o gosto e bebendo um pouco mais. 

Curiosamente, agora que estou com o estômago completamente vazio e encolhido, estou mais resignado. Sentia-me menos adaptado, quando tinha água e alimentos, até cheguei a chorar. Não de desespero mas por algo estranho a mim, misto de uma imensa tristeza a e abandono. Agora, não sei porquê, não choro, secaram-se-me  as lágrimas. Se Deus me levar, que seja essa a sua santa vontade. A sepultura  está sempre aberta ao meu lado.  Não vou dar trabalho  a ninguém.  Mas a fome  é  realmente um suplício  terrível! .E, então,  dormir de estômago vazio e encharcado, pior ainda!... Ainda se ao menos pudesse repousar!.... Bebo água e arroto, com um sabor desagradável vindo do estômago.  Costuma arrotar quem tem a barriga cheia, mas eu aqui arroto por ter a barriga vazia.  É o meu saco de fole  a implorar-me comida e eu não ter nada com que matar a fome. Ainda se ao menos conseguisse pescar alguma coisa. Fico debruçado sobre a borda da canoa, momentos infindos, tentando apanhá-los à mão, mas agora nem isso já consigo. Já não sou tão lesto.

 Quem vai à praia sabe o apetite que traz de lá quando volta a casa. O mar desgasta muito. Enfim, cá  me vou acostumando a viver com a minha fraqueza e com a minha fome.. Estou mais resignado... Vou-me  entregando pacientemente  ao meu silêncio e à  minha solidão. Claro, que não me sinto vencido. Vou lutando com as minhas forças, conforme posso.  Vivo num estado em que é o sentimento da própria tristeza que me alimenta e  me conforma. Sim, sem desespero e sem blasfemar contra ninguém, alimento-me de marezia e de tristeza.  Se calhar até desgasta mais a alegria de que a resignação.  Naquela noite, em que os golfinhos me visitaram, eu estava mesmo muito abatido!".. E não me queria deitar... Receando que me desse alguma coisa de noite e não mais acordasse.    Será que vieram acordar-me e despertar-me para a vida?!...É bem possível..  E  a baleia?!... Não terá sido a mesma coisa?!....Vá lá malandro!... Acorda lá que já são horas de te levantares....E, de facto, há terra à vista. Resta saber se lá chego hoje e não sou afastado para longe, como já me tem ao acontecido.

O horizonte está brumoso. vejo para lá, de uma densa neblina, uns recortes escuros. Não sei bem o que será. Umas vezes parecem-me nuvens escuras e encasteladas, , outras vezes fazem-me lembrar  perfis de montanhas. Oxalá seja terra.

domingo, 10 de abril de 2016

"SÚBITAS TROVOADAS TEMEROSAS"... COUSAS DO MAR QUE OS HOMENS NÃO ENTENDEM" - A VÓS NÁUFRAGOS DE TODOS OS TEMPOS... É o Mar!... O Eterno Mar! - Mãe!... Se puderes, suspende o teu silêncio!... O eterno descanso…Quero falar-te das minhas histórias!...Que são ainda mais fantásticas das que nos contavas em criança à lareira…

Jorge Trabulo Marques




A VÓS NÁUFRAGOS
DE TODOS OS TEMPOS...

Eu, humilde navegante e aventureiro,
aqui vos evoco, invocando almas
de poetas e marinheiros.
Aqui me associo aos ecos da vossa lira,
juntando à sua voz e a minha voz.
Aqui, elevo aos deuses as vossas preces,
as vossas clamorosas súplicas,
beijando, perdidos,
enlouquecidos, ícones, rosários,
relíquias sagradas.
E choro , choro as mesmas lágrimas
de sal e de dor.
E comungo convosco os eternos instantes,
as horas infinitas de pavor
das vossas aflições.
Sim, porque, o mar não mudou;
o cheiro a maresia é o mesmo,
as ondas continuam sem descanso.
Ao largo, o cenário também é igual - o círculo
estende-se pela mesma solidão,
e, à volta do círculo, é ainda o abandono
de todas as eras.
Além disso,
sei que, ouvindo o grito grave
das gaivotas,
ainda ouço os vossos gritos
à mistura com o uivo do vento e o ronco do trovão;
ainda pressinto o desespero do vosso terror;
ainda me vem à garganta o trago seco
amargo da sede e o sabor vazio a vísceras
da miséria e da fome, em calmas
e longuíssimas horas mortas.


.








Sim, agora estou muito longe do Golfo,
do sol faiscante do equador.
Há muito deixei de ver a vastidão desse mar.
Porém, pela retina dos meus olhos,
ainda perpassam imagens de calmarias lisas,
infinitas e de tempestades assombrosas!
Poentes rubros de purpúrea e sangue,
horizontes pardos, amarelos, desmaiados,
inquietantes, com presságios de luto,
penumbra, incerteza, abandono,
sofrimento, inquietação!



Ainda me sobram visões de fulgurantes relâmpagos!
Nuvens negras que galopam e rodam, em noites de breu!
Tal como galopam e rodam as escuras ondas,
num vertiginoso vai e vem interminável!
- A lua a espaços a iluminar
por entre as brechas que se abrem e fecham! - Oh!
uiva e silva o vento! Caiem fortes bátegas de água
e negro é o mar e o céu! - Eu não sou nada
no meio deste assombroso encareceu,
ondulo na solidão não sei para onde
e para que direcção vou: - só sei
que nem sou poeira
nem sou ninguém!
Fantasma inteiro
da minha imagem.
Sombra da noite a boiar
Pássaro de asas cortadas
pousado num escavado madeiro
sobre a vasta escuridão do mar!

No meu coração, ainda persistem sufocos de ameaças e solidões,
ansiedades infinitas, horas longas de incerteza, angustiantes!
De exaustivos momentos e aflições - e até rasgos das alegrias
que também as tive - e muitas foram também.
Aos meus olhos ainda assomam, nitidamente,
visões de perfis, silhuetas dos temíveis tubarões:
os malditos esquálos fusiformes e verdes, de barbatanas
sempre em riste, logo que as ondulantes águas se aclaravam,
a conturbada noite das trevas se desfazia,
a vasta planície líquida ganhava a mesma cor das alturas,
mal a própria abóbada se iluminava
com o alvor e o romper do dia.

.

Existem porém as horas malditas! - as horas da desgraça,
as que antecedem as tempestades - em que o seu instinto
de depredadores e confessos assassinos - faz
da sua presença a mais temível ameaça:
- torna-os ainda mais selvagens e agressivos! - Logo
que os horizontes se toldam e as águas
ondulam cobreadas de presságios,
aí estavam eles! Inesperados, indomáveis!
Muito perigosos! A rondar a frágil canoa,
em giros contínuos, cada vez mais apertados,
muito próximos!- Até investirem, repentinamente,
da popa à proa, numa fúria brutal e desabrida
ao encontro do costado da tosca piroga, querendo
levantá-la ou destruí-la em sucessivas rabanadas!
- Tal a rapidez com que deferiam os seus ataques,
que só se viam: ou quando rondavam
as proximidades de barbatana em riste
ou, então, quando - cegos de ferocidade -
já vinham disparados como autênticos petardos - Felizmente
que a catana, empunhada numa das mãos,
rapidamente entrava em acção - Afastava-os, sim,
mas depressa voltavam...O mar,
continuamente infestado dessas feras,
pouca tranquilidade me assegurava.

Os pequenos, atraídos aos magotes,
eram inofensivos, porém, os maiores, os solitários,
surgiam isolados, quase sempre investiam,
nem que fosse para se roçar e encostar,
pareciam enormes serpentes!
Nada receavam ou temiam,
rabeando e sulcando a ondulante superfície!
-Gigantes e indesejáveis criaturas!
Sem dúvida, os grandes tubarões no Golfo,
não ficam atrás da ameaça dos tornados,
são a outra face imprevisível
daqueles turbulentos mares!

O mar é um palco vasto e mole, vivo e único!
Com muitas faces, humores e os seus próprios sentidos!
Obcecado pela morte e pela vida.
Na sua vasta superfície azul, ecoam rumores e melodias,
brilham míriades de pérolas, que são o encanto
das românticas e míticas sereias, o pasmo
e o enlevo dos marinheiros e navegantes. Mas também
o sofrimento e a angústia dos náufragos,
ante o vazio infinito das silentes solidões
e a fúria das inesperadas
e retumbantes tempestades.

Muralhas de água, avançam, avançam!..
Avançam e erguem-se, subitamente negras,
até quase tocarem as sumidas estrelas!
Para logo outros grossos novelos, se levantarem e lhe sucederem!
Rolando, rolando de crinas o vento! Espumosos, alvacentos
nas franjas e nas cristas! Agigantam-se,
tomam formas de perfis de montes e montanhas,
em noites varridas e cerradas,
são monstros negros à solta,
turbilhões de poeirada e fuligem:
atormentam barcos solitários, ameaçam e baralham
pensamentos e destinos! Deixam, em cada alma,
em todos aqueles que sentem a imensa tristeza
de se verem perdidos no torvelinho das águas,
recordações pungentes, muito profundas,
que jamais se apagam.

Serão sempre sentidas e lembradas pela vida fora.
Vão até à sepultura. São o manancial inesgotável
de muitos sonhos, de visões deformadas,
trazidas e recuperadas dos fundos do subconsciente,
sob a distorcida ou ampliada lupa nocturna.

.


Sim, ó tu, meu coração e meus olhos, viajantes vagabundos!
Viajantes insaciáveis em desbravarem a luz original
e perene dos mistérios, o tempo impreciso
dos espaços desconhecidos e por habitar, o devaneio, a dor,
todas as sensações e emoções através das quais
o Homem ascende à plenitude e à grandeza da obra do Criador:
colocam o corpo e a mente, em estreita união,
com a linguagem dos peixes, do vento e das águas,
em sintonia com o ritmo harmonioso, extremado e puro
dos ilimitados espaços, em pé de igualdade, com a inexprimível
musicalidade das marítimas vozes que cantam a efemeridade finita
e a eternidade infinita do Universo.

Agora o tempo devia ser mais de pausa e dar largas à memória!
Oh, coração vagabundo das sete partidas,
continuas, como sempre, ansioso e temerário! - Oh!
quantos sonhos de aventuras! - Sonhos de viagens
em que nunca chego a partir. Sonhos de viagens
em que me vejo a largar sozinho, algures de uma praia deserta
e de novo a navegar... sem saber para onde é o meu destino
e aonde aportar... Sonhos, mais das vezes, atribulados,
que desembocam em pesadelos, em sobressalto,
num misto de vigília e de torpor,
como se o leito ou pouso da cama onde durmo,
fosse o fundo da minha própria canoa
e todo aquele enorme bramido e furor,
que ainda hoje perpassa pelos meus ouvidos,
me quisesse repentinamente envolver e sufocar
nas mesmas diluvianas chuvadas
ou no mais fundo das águas
e dos abismos!.

Porém, guardo outras recordações
ainda mais antigas que gostaria de agora contar
à minha mãe se ela me ouvisse e fosse viva.
Partiu muito cedo: - dois anos
depois de eu ter embarcado para São Tomé.
Jamais chegou a saber que o seu filho
haveria de ser um digno
aventureiro do mar:
zarpara sozinho numa casca de noz,
desprendido de tudo, alheio a tudo,
sem nada recear e sem qualquer meio
com quem poder comunicar,
guiado pelo sol e as estrelas,
munido unicamente de uma simples bússola,
apaixonado pelo azul do céu e do mar.
Partindo, tal como faziam os povos primitivos
que ligavam o continente africano e as ilhas,
- aliás, era isso, ó mãe,
que eu pretendia demonstrar:
- Oh! quanto
não foram profícuas as histórias
que, lá em nossa casa, te ouvíamos contar
à roda da lareira. Olha que foi isso
que me fez gostar do mar
e incendiar a imaginação
para toda a vida.


Por isso, se puderes, ó mãe!... Desce lá do alto do céus!
Ou, então, amada mãe!...Sobe do fundo da tua campa
e suspende, por alguns momentos, o repouso
do teu eterno silêncio e vem ouvir
o que o teu filho tem para te contar.

Quero falar-te das minhas histórias!
Que são ainda mais fantásticas,
das que nos contavas em criança
naquelas longas noites de Inverno, quando o vento zunia
através das vidraças ou da nossa sacada, faiscavam
os relâmpagos que ofuscavam
o candeeiro a petróleo e nos cegavam,
quando saímos da cozinha e íamos à corte
dar a beberagem ao vivo - Oh Deus!
com que fulgurantes clarões, se iluminava a rua!
Seguidos de um ribombar que atroava os ares!
Estrondos sinistros e medonhos, repercutiam
de espaço a espaço no negrume da noite! Eocavam
por todos os quadrantes dos céus!

Ainda te lembras, ó mãe?!.. como todos nos assustávamos?!...
"Santa Bárbara Bendita. Que no céu estás escrita.
Entre cálices e água benta. Deus nos livre desta tormenta.

"Eram estas as palavras que logo pronunciávamos.
E, se alguém da nossa aldeia, naquelas alturas,
navegava no paquete para o Brasil ou África,
ao pensarmos que o mesmo cenário se estendesse
por toda a Terra e sobre os mares, rezávamos
para o que o navio não fosse tragado pelas vagas.



Pois bem.. olha que eu julgo que também rezaste por mim,
quando embarquei para São Tomé, do Cais de Alcântara,
naquele já distante dia frio e cinzento de Inverno,
com o pai acenar com um lenço, do lado de lá,
enquanto o navio apitava e largava Tejo fora,
certamente, arrasado de lágrimas, tal como tu as verteste,
quando me beijaste por detrás do postigo da nossa casa
e disseste: "Adeus meu filho! Que já não te vejo mais!
- E , afinal, o teu coração tinha razão: - não te enganaste!

Pois bem, querida mãe, que tão cedo, Deus
chamou para sua companhia! - Oh, que saudades!
Pobre mãe, que tão cedo, partiste: sabes que aquelas ondas
que eu imaginava, ondulantes como as searas no Verão
e tão grandes, em noites de tempestades,
como os rolheiros de trigo nas eiras,
e que eu julgava que ficavam
para lá do horizonte da cordilheira,
que se estende de Sul para Norte, sobre a linha do poente,
onde fica a torre da Meda - qual farol de um porto, das Beiras! -
Sim, quem diria - ó mãe! - que um dia, teu filho, também
acabaria por andar sozinho no meio dessas ondas descomunais,
ainda mais gigantes do que aquelas
que, então, eu próprio as imaginava.

.
Oh! mas aquieta-te! Oh coração angustioso!
 Não vás tão longe...
Quem não sente saudades de sua mãe?!..
Conforta-te com a memória!
- A morte não devolve nada à vida
e tu sabes que até já estiveste
muito próximo do além,
mais perto de lhe ires fazer companhia,
noutra sepultura, imensa e sem fundo,
que a viveres a vida que sorria
 à tua frente e abraçares o mundo.

Cala-te, pois, meu pobre coração!
Deixa fluir a memória livremente
 e que o sonho te acalente.
Pois, de vez em quando,
tu bem me dizes: "Jorge volta ao mar!
Volta a embarcar!"- E tu sabes,
tão bem  como a minha mente,
quanto eu adorava voltar a ver-me solitário
sobre as águas do mar! - Depois de tão longa ausência...

Oh! quanto eu agora não dava por outra oportunidade!...
Poder voltar a contemplar o azul tropical daquelas águas.
Regressar à intimidade daquele imenso mar: - a vogar à superfície
das lânguidas e podres calmarias - Acredita que,
tendo que chegar a hora de adormeceremos,
não me importava nada que lá morrêssemos. Pois o maior susto
que tu apanhaste - ó coração transviado! -já não te lembras?!..
Não foi no mar!... Mas quando, em criança, ias sufocando,
te ias afogando no fundo dum poço, barrento e sem uma pedra,
sem nada na margem onde estender uma mão.

O Fernando encarreirava a água para a horta.
A Conceição tirava-a com o picanço.
Eu estava mais abaixo a desviar os baldes.
O varal rebentou e ela arrastou-me na sua queda para o fundo.
- Valeu-nos a coragem e a valentia do nosso irmão Fernando,
que desceu pela vereda e, agarrando-se a uns juncos
que existiam na margem, lhe estendeu uma cana
que fora buscar a um valado da vinha.
Ele com sete e eu nove anos.
Depois foi ela que, após se haver salvado,
me salvou também a mim...

Lembro-me que ela gritava por Nossa Senhora de Fátima
- aliás, era domingo e dia 13 de Maio. E tentava gatinhar.
Mas eu, quando vim à superfície, mal abria a boca para respirar.
Ainda não sabia nadar: arranhava, arranhava a margem.
Quase bloqueado de aflição e já resignado
ao infortúnio, ao afogamento
que tão claramente se estampava,
aos meus olhos aterrorizados.

E tu, coração quase sufocado:
quando me vi fora daquela aflição,
reparei que, embora já estivesses
mais refeito do susto e mais tranquilo,
eu, nem por isso, queria acreditar
que pertencia ao mundo dos vivos.

Será que, alguma vez, tu, meu coração! -
me vais deixar completamente em paz
e livre dessa terrível recordação?!...
Tão viva ainda hoje está,
que, basta me engasgue
num simples copo de água,
para tu - ó coração danado! -
acelerares o ritmo da tua palpitação - Fazendo
de um simples copo uma tempestade!
E,a final, das tempestades a valer,
como tu as soubeste enfrentar!!
- Mas, com que tormentos e sacrifícios,
só, tu, coração sofrido!, e Deus,
o sabem e o poderão recordar!



Lembras-te, coração atormentado?! - daquela noite, já alta,
em que caí ao mar e, por pouco, aí não foi de vez!...
A culpa era do sono que se sobrepôs ao esforço.
Tinha enjoado de tarde e a noite apanhou-me
muito enfraquecido e debilitado.
Mesmo assim, lá ia de peito ao desconhecido,
e a canoa de vela erguida e navegar
com soberana valentia e galhardia!

Mas era, de facto, demasiado pequena e estreita
para a extensa travessia que me propunha fazer.
Estava mais talhada para a pesca, junto às praias,
não longe da orla e a costa à vista - Foi
a que eu pude arranjar; não tinha dinheiro
para outra. Porém, acreditava, que,
desde que não deixasse de remar ou de navegar,
eu transporia aquele braço do oceano,
de São Tomé ao Príncipe.

Havia largado à meia-noite da Baía Ana Chaves,
disfarçado de pescador para não ser visto
pelas autoridades: de outro modo,
corria o risco de não ser autorizado e ser preso
- e foi o prémio que tive mais tarde.
Mas voltou-se mesmo!

Eu bem tentava... bem tentava, aspergir a cara.
De volta e meia, lançava uns borrifos
com ambas as mãos para afastar o sono.
Mas este pesou mais de que a minha coragem e venceu-me.
Adormeci e voltei-me embrulhado na piroga..
Acordei envolvido em ondas revoltas e negras! - Nunca, até então
havia conhecido um filme de toda a minha vida
e em tão curtos instantes - Pensei que ia morrer
e, em jeito de despedida, pela minha mente perpassou
uma espécie de caleidoscópio das minhas recordações
desde a mais tenra idade. Mas fiz o que tinha a fazer;
fui à luta, perdi quase tudo mas não perdi a vida.

Pois bem, coração! - Meu fiel companheiro das boas e más horas.
Tu sabes muito bem que passamos por momentos horríveis!...
Lá nos safamos, muito a custo e com alguma sorte.
Mas tu nem eu fomos surpreendidos.
Ambos já íamos a contar com esse risco...
Era uma fatalidade que se antevia.
Foram momentos difíceis! - Pois é...mas são estes
que jamais esquecerão.

Oh, sim, guardo tantas memórias do mar,
e já tão misturadas com os sonhos,
que, por vezes, se me confundem
umas com as outras - Esbatem umas e avivam outras.
Mas é um facto, bem verdadeiro: - o mar é generoso
mas. também, por vezes, bem cruel e traiçoeiro!
Então que dizer daqueles medonhos tonados?!..
- Quando me encontrava no meio daquelas tempestades
que assolam inesperadamente aquelas paragens!
Arrastado por fortes ondulações e vendavais!
Vergastado, sem piedade, por enfurecidas ondas infernais!

Vogando, ao deus dará!... Vogando, sem rumo e sem destino!
- Oh quem poderia ouvir a minha voz se pedisse socorro?!...
Quem poderia saber em que ponto eu ia sendo arrastado,
tal como outros madeiros e destroços que encontrei à deriva,
naquelas longas horas em que fui levado pela ondulação
de um enorme cardume de atuns?!...

A bem dizer, não havia qualquer diferença
entre o mísero esquife que me arrastava
e os troncos de palmeiras, paus , porcarias!
A vária poluição vinda das zonas costeiras
ou das plataformas petrolíferas erguidas nas águas continentais!.
Ao cego e descontrolado rumo do cardume, tudo se juntava.
- Também ia eu e a minha pobre canoa: a princípio pensei que fosse
por obra e graça divina, que ia sendo levado
para algum ponto desconhecido mas seguro da costa.
Porém, depois foi a desilusão: era levado
para todos os quadrantes e só via mar agitado à minha volta!
Foi com muita dificuldade que logrei sair do seu envolvimento.
Fui apanhado e arrastado, como simples destroço,
durante uma tarde inteira e ainda pela noite fora,
até perto da meia-noite: no mesmo frenético remoinho e agitação.

Oh! tanta emoção vivida! Ora na mais doce e suave paz do mar e dos céus,
ora na mais perigosa e avassaladora afronta
fúria e festim do Diabo ou da ira ou cólera de Deus! -




Porém, é deveras repousante viajar ao passado,
quando, em noites mais silenciosas e tristes,
em noites de vigília, calmo e introspectivo,
os escaninhos da memória, voam como velas ao largo,
fazendo, subitamente, espraiar o meu olhar
na orla azulínea e branquejante
daquelas paisagens luxuriantes,
praias de finas areias, águas glaucas,
coroadas por flamejantes
anéis de ouro e rubís!

Por isso, quando relembro,
quando penso, medito,
naqueles longos e penosos dias,
no meio daquele casco escavado,
após haver trocado a tranquilidade idílica de uma ilha,
pelos momentos mais incertos e por arriscada aventura,
sim, os meus olhos ainda mourejam de lágrimas,
ainda me comovo de profunda emoção;
sinto que viajo sem viajar. E mal resisto
a erguer os olhos aos céus: não para suplicar divina protecção,
que o náufrago, quando anda por lá sozinho e perdido
- por mais agnóstico que seja, não deixa de implorar -
mas, como se fosse o implícito agradecimento, a sentida emoção,
o reconhecimento, ao sobrenatural,
por me haver defrontado com aquelas longas noites escuras,
longas e tormentosas horas, mas de que
me saí salvo e não derrotado!

Exausto mas vivo! - lá ia eu, não rendido
ao infortúnio ou subjugado aos ditames do desconhecido.
Olhos postos na fímbria das lonjuras do horizonte
ou, pela noite adiante, mais das vezes,
atento e acordado, olhos postos na escuridão! - Vigilante
aos muitos perigos que me rondavam!

Oh! como eram maravilhosas
algumas daqueles noites brancas de luar,
que tanto deliciavam e deleitavam
o meu conturbado olhar!
Devolvendo a paz ao meu espírito,
diluindo algumas das angústias
a permanente incerteza que povoava
a minha tão sofrida e martirizada alma!
.- Indo ao encontro do desconhecido, aspirando,
com inefável gozo, a brisa suave, o ar fresco,
polvilhado da acre salsugem do oceano,
navegando ou indo à deriva,
sob o torvelinho das ondas
que estremecem e rugem..



Sim, tive sorte - . Durante
a maior parte do meu calvário, no interior
da canoa, reinava o caos e um certo vazio:
as águas a chocalhar que lá entravam
e mais umas toalhas e uma peças de roupa,
que cedo se haviam transformados em meros trapos:
já não tinha nada para comer e, quando não chovia,
valia-me da água do mar - Quando a fome
se junta à sede, não há sensação mais terrível! - E, todavia,
tanta água em redor!...E também tanta incerteza!...
"À minha volta reina o caos! - Eu também sou o caos!
Não sou ninguém." - dizia eu algumas vezes.
Mas este ninguém, mantêm-se aqui... firme!...
Não desanima" - acrescentava eu para me conformar..

Não sabia nunca onde estava
nem aonde poderia aportar - Dependia
de uma simples bússola, mais nada!
Sabia para que quadrante me arrastavam
as correntes, as tempestades, as ondulações das águas.
Mas desconhecia, por completo, a que distância
poderia encontrar uma enseada para me abrigar.