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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Petróleo em S. Tomé – Em 1912 – Analises químicas do eminente Prof. Charles Lepierre: “Tive, ha tempos, ensejo de proceder á analyse dum oleo mineral africano” (…) o dito oleo nasce á beira-mar na freguezia da Guadalupe, Ilha de S. Thomé.

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Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador

Apresentação do estudo  de Paul Charles Lepierre, químico e professor universitário de origem francesa que se distinguiu no estudo e caracterização físico-química das águas minerais e minero-medicinais de Portugal. Delegado do Governo Português na Exposição Internacional de Paris. Professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa;  preparador e chefe de trabalhos do Laboratório de Microbiologia da Universidade de Coimbra; professor de Química da Escola Industrial de Coimbra, cidade onde viveu 20


Charles Lepierre


“Apresenta uma côr acastanhado escura; tem o aspecto e cheiro dos oleos mineraes empregados para a lubrificação. II Densidade a 15° - O, 945;
Debaixo. do ponto de vista petroleo convem  pois pesquizar afim de ver se não apparece producto mais volátil, por meio de sondagem, o que é provavel.  
d) Mas sob o ponto de vista oleo mineral, para lubrificação ou outras applícaçõos (combustível, vernizes, etc.) o  producto bruto (purificado por filtração conveniente  ou por um tratamento · pelo acido sulfurico, seguido de lavagem) poderá encontrar bom emprego." - Continua mais à frente 

AFINAL, HÁ MAIS DE UM SÉCULO, JÁ SE SABIA QUE O PETRÓLEO JORRAVA EM TERRA, TAL COMO O NASCENTE DE UMA FONTE – MAS ATÉ HOJE AINDA CONTINUA SEM SER EXPLORADO

1963
2014
Quando trabalhei na Roça Uba-Budo, como empregado de mato, dizia-se que havia quem fosse abastecer-se de petróleo, para iluminação, na Lagoa Amélia. No ano em que ali cheguei, em 1963, já a  sede da roça era iluminada através de dínamo elétrico em motor hidráulico,  não havia necessidade de se ir lá abastecer – Mas, nas dependências, situadas no meio do mato, ainda era preciso outro tipo de iluminação, pelo que, o petróleo que jorrava na cratera da  Lagoa Amélia,  à falta de petróleo num bidão, podia ser mesmo o recurso para que as trevas da noite, não estendessem a sua escuridão, às senzalas  e outras habitações, desde o manto florestal envolvente, por ali adentro.  E também, já nesse tempo, por lá haviam aparecido uns sujeitos, pelo terreiro da roça,  junto a uns jipes, que, embora vestindo de caqui tropical, e pondo na cabeça o mesmo capacete do empregado  de mato ou feitor, tinham ares de  serem  uns engenheiros ou coisa no género – dizia-se: olha! Devem ir à lagoa Amélia para explorar o petróleo.  Viam-se ali de vez em quanto mas nunca se soube nada de concreto. E assim tem sido até hoje.

2014
Na verdade, as  Ilhas de São Tomé e Príncipe, já foram caracterizadas como sendo um campo experimental humano, sim, porque, ao longo dos tempos, para aqui vieram escravos, judeus, brancos, negros, orientais, gentes das mais diversas proveniências - Eses pequenos paraísos, que se erguem na imensidão do Golfo da Guiné, têm sido  um verdadeiro campo experimental  de vidas e dramas humanos, mas também no domínio da ciência, por aqui passaram os mais eminentes homens, além dos  corajosos marinheiros que vieram ao seu encontro.

Um eclipse solar, no dia 29 de Maio de 1919, à Roça Sundy, na  ilha do Príncipe, fez deslocar o astrónomo inglês, Arthur Eddington, a fim de provar que Einstein estava certo. Agora é  Mark Shuttleworth, o milionário sul-africano, o primeiro homem africano que viajou para o Espaço, a deixar-se fascinar pelos encantos desta ilha, com empreendimento turístico de vulto.

E então, em São Tomé, quantos não foram os homens da ciência, que aqui não chegaran?... Astrónomos, botânicos, agrónomos, geólogos, professores, doutores e sacerdotes , gente culta dos mais diversos saberes - Mas agora eu vou apenas  citar Gago Coutinho, porque o seu nome até ficou associado a um Ilhéu, é indissociável desta ilha, nomeadamente quando se viaja a caminho do sul, ao  encontro do Ilhéu das Rolas.


Porém,  o nome da figura, que aqui hoje me traz, é o  do eminente  Charles Lepierre, autor da primeira analise das pesquisas do petróleo em S. Tomé, um dos mais reputados químicos: - Ele  também esteve  nestas maravilhosas ilhas,  e, curiosamente,   na mesma altura em que também por ali andava  Léon Paul de Choffat,  vulto incontornável na Geologia de Portugal

Trata-se, com efeito,  da primeira análise química sobre a  existência de petróleo em S. Tomé, com a data de 1912  – Que eu saiba, pese o facto de não terem faltado  promessas de  exploração do petróleo, em S. Tomé e Príncipe, o documento, a que e refiro, praticamente, permancia ignorado  - O que tem vindo a lume, de volta e meia, são  as já habituais  noticias de concessões de blocos,  avanços e recuos de pesquisas,  polémicas e especulações; não se tem falado de outra coisa.

Pois, mas o estudo que  aqui venho hoje divulgar, o único risco que poderá incorrer é o do,seu extremo  rigor científico: - que poderá   não ser acessível a todos os leitores – Mesmo assim,  vou transcrevê-lo na íntegra, com  a mesma  ortografia da época - Embora sendo apologista de que (se as línguas evoluem)  e reconheça a necessidade de se  adaptarem a acordos ou regras à sua evolução, sim, mas para que nada se perca, vou reproduzi-lo, tal como ele   foi publicado na Revista de Chimica Pura e Applicada, em Abril de 1812, depois de ser apresentado na sua comunicação à Sociedade   de Chimica Portugueza, na sessão de 12 de Março Scientifica de 22 de Março de 1912

COMMUNICAÇÕES

Analyse dum oleo mineral em São Thomé

Prof. Charles Lepierre:

1. Tive, ha tempos, ensejo de proceder á analyse dum oleo mineral africano. E' o resumo das minhas informações que apresento e que constituem apenas uma modesta contribuição para o estudo dos productos portuguêses ;
Segundo as informações colhidas o dito oleo nasce á beira-mar na freguezia da Guadalupa, Ilha de S. Thomé. O eminente geologo Paul Choffat não tinha conhecimento desta formação.

Apresenta uma côr acastanhado escura; tem o aspecto e cheiro dos oleos mineraes empregados para a lubrificação. II Densidade a 15° - O, 945;

Viscosidade relativa, referida aos-primeiros productos distilados, 52.

III Distillação fraccionada. - O producto bruto, secco, submettido á distiliação fraccionada, só começou a ferver á temperatura de 180°. . ·
 De 180° até 250°, apenas distilou o, 75 por 100cc, isto é,  menos de 1%. Continuando-se methodicamente a dístillação verifica-se, como consta do quadro que segue, que até 300cc, passou, ao todo, 12,75% do oleo submetido á operação.
De 300° até cêrca de 350°, distillou mais 31,75 º/ou, seja ao todo 12,75 + 31,75=44,50%
Ficou na retorta um resíduo espesso preto, fluido a quente, cujo volume representava 55%50 do producto total, seja mais de metade. É um breu.
Mhetodos seguidos

A densidade de cada fracção subiu de 180° até 350°, quasi sem alteração, a não ser acima de 340° onde houve já um pouco de pyrogenação.  
V. A viscosidade, determinada cm cada uma das fracções, tambem subiu gradualmente.
Tomei por unidade de viscosidade à viscosidade dos primeiros· termos da distillação, que são os menos viscosos.

 Conclusão

VI. a). Do exame dos  numeros precedentes  e do estudo: dos quadros que seguem resulta nitidamente que o producto examinado tem todos os caracteres dum oleo mineral
 b) Tal como nos foi apresentado contem apenas 12,75% de producto petrolífero, isto é susceptivel de dar um bom petroleo  iluminante. Com efeito o petroleo bem rectificado dístilla entre 150 e· 300°. Ora o nosso oleo examinado, até 250° dá apenas menos de 1 º/o de producto e até 300° passou ao todo 12, 75% d'oleo. ·

Como estas fracções  correspondem ás ultimas partes dos petroleos iluminantes, o petroleo assim obtido não seria de boa qualidade. É demasiado viscoso para isso. 
·
C} Debaixo. do ponto de vista petroteo convem  pois pesquizar afim de ver se não apparece producto mais volátil, por meio de sondagem, o que é provavel.  
d) Mas sob o ponto de vista oleo mineral, para lubrificação ou outras applícaçõos (combustível, vernizes, etc.) o  producto bruto (purificado por filtração conveniente  ou por um tratamento · pelo acido sulfurico, seguido de lavagem) poderá encontrar bom emprego.

VII A. densidade foi avaliada com a balança de· Mohr-West-phal.
 A viscosidade, por meio dum apparelho que improvisei e que era essencialmente constituido por uma galheta, com torneira de  vidro  de 10ºcc. O tempo avaliado em minutos e segundos, que o liquido leva por escoar é directamente proporcional á viscosidade, e como o volume, a temperatura, e a· orifício de  escoamento eram constantes obtém-se assim determinações precisas do valor relativo da viscosidade - que era o nosso caso.

O índice  de refracção foi determinado a 15° com o excelente  apparelho de Féry, que dá immediatamente e por simples leitura o índice com 4 decimaes  em relação á dupla-risca amarella do sedio

o foi determinado a 15° com o excelente  apparelho de Féry, que dá immediatamente e por simples leitura o índice com 4 decimaes  em relação á dupla-risca amarella do sedio.  
VIII.· O pequeno quadro seguinte prova bem que o producto estudado entra no grupo dos oleos rnineraes, de que tem as constantes geraes

                                                    Ebulição            Densidade       índice refractometrico
Ethér de petróleo, gazolina ….30º-70º…………0,650………………….. 1,37
Benzina ele petróleo………… …..70 -150º………07 a 0,75……………. -
Petroleo iluminante…………….. 150-300º--------0.780 a 0,820………1,45
Oleos mineraes………………………300-350º……………… »0.840…………1,48-1,50
Vaselinas, paraffínas, etc .....fusão 35º-75º

IX. Natureza chimica do oleo examinado.
Era interesante, tratando-se dum producto africano, aproveitar a ocasião para uma pequena contribuição para o conhecimento  chimico dos jazigos petrolíferos.
É sabido que os petroleos  americanos são  constituídos por hydro-carbonctos C n H 2 n+2; acyclicos, ao passo que os petroleos europeus (Cáucaso, Galicia, Rumania, etc.) são formados. Por hydro-carbonetos Cn H2n os naphtenos, isomeros  das olefinas, mas differentes destas por serem hydrocarbonetos saturados como o demonstrou  pela primeira vez o meu Mestre Schutzenberger.
São hydrocarbonetos cyclicos, que se podem considerar· como hexahydretos dos hydrocarbonetos benzénicos:

Por exemplo:

 C.6 H6+ 3H2 = C6  H12
C7 H8 + 3H2 = C7 H14


Os naphtênos foram estudados também por Beilstein e Kurbatow
Nesta ordem d'ídeas verifiquei que, contrariamente ás olefinas, os productos distillados do oleo que estudei não fixam sensívelmente bramio (sobretudo em solução sulfocarbonica) (1); Tambem  não fixam o acido sulfuríco concentrado· e quente. Não são atacados pelo permanganato de  potassio em solução concentrada e misturado com !{OH concentrada. · ..

Appliquei também o methodo de Ríche e Halphen (t) que serviu  para distinguir os petroleos russos dos petroleos americanos, methodo baseado na differença de solubilidade, numa mistura em volumes eguaes de chloroformio  e d'alcool a 93° G. L., que as diversas· fracções da distillação, com densidade e  egual apresentação , pelo facto  de serem constituídos por hydrocarbonetos de series differentes.
Os numeros que constam do quadro N.1 demostram que  se trata de oleos análogos aos oleos europeus, visto ter   a solubilidade destes, solubilidade que é muito maior que a dos petroleos americanos.

 D'ahi conclue-se nitidamente, sob o ponto de· vista chlmíco,  que os óleos mineraes africanos (S. Thomé) apresentam um conjunto de caracteres que me leva a aproxima-los dos petróleos europeus e a afasta-los dos produtos petroliferos do continente americano.
Talvez estes factos tenham algum interesse para  a geologia geral  e para a· formação dos jazigos petrolíferos. para o conhecimento dos quaes esta nota é uma pequena· contribuição-

·(1)Empregando o bromio, dírectamente, ha desenvolvimento de ·H Br em virtude da formação de derivados de substituição, como  verifiquei.

Lisboa, 22 de Fevereiro de 1912

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Príncipe e sua Princesa Negra - D. Maria Correia” – A mais rica das mulheres do seu tempo: bela, generosa e extravagante: não deixou herdeiros mas fortuna, logo cobiçada à sua morte: - a justificar uma novela televisiva ou filme de longa metragem.


O Principie também tem a sua princesa: originaria de “ nativos, de velha cepa”,  de uma família plebeia rica,  mas nobre e princesa no que o título encera de honrarias e de mítico, e até de contrastes: “não deixou marido ou filhos, mas tão somente herdeiros-interesseiros” (um deles foi o próprio Barão de Água Izé”, que reclamou para si as suas roças, toda a  sua fortuna, por alegadas dívidas – e quais os  parentes, senão os tinha,  que o podiam o contradizer?!... ), sim, como é dito em registos, mesmo tendo sido rica e poderosa, “não teve epitáfio, nem lápide ou sequer qualquer piedoso sinal na sua sepultura, a contrastar no que fez a um dos seus maridos. E já nem sequer é possível assinalar o local em que foi sepultada”

Correm,  a respeito de D. Maria Correia, lendas fantásticas, que, ao longo dos tempos,  têm alimentado a imaginação popular, e,  porventura,  com algum fundo de verdade, porque a voz do Povo é a Voz de Deus, menos a dos relatos de escribas coloniais, que, embora tivessem reconhecido a sua importância social e citem o imaginário popular, porém, o seu preconceito   racial lhe teria recusado o estatuto de Princesa Negra

Descontando os naturais exageros, de quem conta um conto lhe aumenta sempre mais um ponto, que chegam a classificá-la como depravada ninfomaníaca, devoradora de homens -  e, então, os homens que ainda hoje têm dezenas de  mulheres por sua conta e alguma dezenas de filhos, o que são ?!...  

Pois, mas quando a mulher tem idêntico comportamento, é logo rotulada de cruel,  como diz alguma gíria popular, que, embora não lhe negando a riqueza, a rotula de “mulher viúva muito poderosa”, que “dirigia a roça com punho de ferro”, que “tinha um grande apetite por homens. Quando algum trabalhador lhe agradava, desfrutava dele e depois, para que não contasse a ninguém… matava-o!”

Como se vê, não faltam os ingredientes necessários para uma história fantástica, de um quase  verdadeiro conto de fadas ou de lendárias princesas encantadas,  que alimentam a imaginação, tanto dos adolescentes, como de jovens e adultos,  o qu parece ser o caso da  mítica,  D. Maria  Correia Salema Ferreira, mais conhecida  pela Princesa Negra do Príncipe,  uma mulher bela, rica, apaixonada, generosa e sensual.

É o que pode depreender-se, através dos vários escritos e dos testemunhos pessoais acerca da sua vida e da sua figura, onde não faltam enredos e episódios, os condimentos mais curiosos para a realização de uma novela televisiva ou de um filme de longa metragem e com expressão, tanto nacional, como mundial – Ou não só o  facto das ilhas de  S. Tomé e Príncipe, se erguerem no meio do Mundo, não é já de si, aspeto de singular relevância?!... 

Creio que o Ministério da Cultura tem aqui matéria bastante para uma boa iniciativa televisiva ou cinematográfica. Pois,  embora não tendo origem da "casta nobreza" de "sangue azul", foi uma autêntica princesa: com os seus defeitos e virtudes: no vestir, no luxo, dos seus dotes físicos, na riqueza  e até na sua generosidade, esperteza e  nas extravagâncias:

 A sua vida  e a sua personagem é caracterizada pelas mais singulares e excecionais qualidades de comportamento pessoal e cívico - Não de mera futilidade mas de uma mulher muita ativa, empreendedora, apaixonada e generosa.  Pois dela constam donativos, de solidariedade  e de bondade,  cujo exemplo ninguém mais a superou ou foram igualados na sua época “Encontramos  no B.O. Nº53 de 30 de Outubro  de 1858 uma subscrição a favor das famílias das vitimas da febre amarela em Lisboa sendo a única mulher  e maior subscritora D. maria Correia Salema  Ferreira, com 12$000”

TESTEMUNHO DE QUEM A CONHECEU

Um desses testemunhos pessoais, éo de Gabriel Fernandes  da Silva – E quem foi este distinto filho da  Ilha do Príncipe?

Dizem os registos que  nasceu “a 1 de Novembro de 1856; exerceu por três ou quatro vezes o cargo de Vereador da Câmara, por duas vezes foi regedor  da paróquia, por duas vezes, Juiz Popular e por duas vezes Escrivão e Tabelião, a primeira vez durante 13 anos e a segunda durante 4 anos, além de diferentes comissões para que foi nomeado.

É Cavaleiro da ordem de Cristo, por Decreto de 1889, referenciado pelo Conselheiro José Dias Ferreira, então Presidente do Conselho de Ministros. Tem 81 anos, boa vista e uma saúde regular. O seu busto não se curvou ainda ao peso dos anos; a memória prodigiosa de que é dotado  e a facilidade com que nos conta episódios de outros tempos citando datas e nomes, deixa-nos perplexo.

Este distinto cidadão, natural da Príncipe - diz o  relato dactilografado, a que tive acesso e  passo a transcrever;  "deu os seguintes elementos, que confirmam em parte o que encontramos escrito”



D. Maria  Correia Salema Ferreira era natural da Ilha do Príncipe; seu pai António Henriques Nogueira, natural do Brasil, tinha fortuna; Era proprietário da Roça Sant’Anna; Sua mãe D. Maria de Almeida era natural da Ilha do Príncipe; Foi seu primeiro marido o abastado proprietário José Ferreira Gomes natural da Ilha do Príncipe, fidalgo da Casa Real, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo e Coronel das Ordenanças o qual era Vicente  Gomes Ferreira e de D. Josefa Maria da Conceição. Faleceu em 2 de Novembro de 1837. O brasão gravado numa pedra rectanguar que se encontra na casa particular de Jerónimo José Carneiro na cidade do Príncipe, a que chamam “ da Maria Correia”, existe também na pedra tumular do seu esposo, a qual da Capela da Ribeira Izé foi enviada para a Câmara Municipal da I. de São Tomé . Daqui se conclui que o brasão não pertencia a Maria Correia antes do seu casamento com José Ferreira Gomes

Por volta de 1840 D. Maria Ferreira casou novamente. 
O seu segundo marido chamava-se  Aureliano da Silva; era industrial pintor e natural de Maranhão (Brasil). Faleceu no Príncipe em 1853.

D. Maria Correia faleceu em 6 de Março de 1862.Dos nativos foi a maior proprietária nesta ilha, equiparando-se ao grande proprietário Jacinto Pereira Carneiro. Por seu falecimento deixou a Roça Simaló e a Roça Ribeira Izé a D. Pedro V (individual);
Este testamento porém  foi tomado  como falso e por uma divida confessada ao Barão de Água Izé que procura procuração a Marcelo Francisco da mata, passaram as referidas propriedades para a posse do dito Barão.

Encontramos  no B.O. Nº53 de 30 de Outubro  de 1858 uma subscrição a favor das famílias das vitimas da febre amarela em Lisboa sendo a única mulher  e maior subscritora D. maria Correia Salema  Ferreira, com 12$000

"MARIA CORREIA  A PRINCESA NEGRA DO PRÍNCIPE "


Este é o titulo de um pequeno livro, publicado em 1944, de autoria de José Brandão Pereira de Melo, até hoje a obra mais completa e que começa por estas palavras:

" Nos finais do século XVIII passado já o primordial período agrícola da cultura da cana sacarina (que vários factores: invasões francesas de 1706 e l 799 e, principalmente, o desenvolvimento do Brasil tinham feito abandonar), a Ilha


Ponto privilegiado, pela sua situação geográfica, para o abastecimento, em água e comedorias, dos navios negreiros, entreposto de escravos (recrutados, em geral ou, em grande maioria, nas costas  do Golfo da Guiné) tornou-se a Ilha rincão abastado, onde abastadamente se vivia.

E lá viviam então, antes da chegada daqueles europeus que foram os precursores do seu moderno desenvolvimento agrícola, os nativos, de velha cepa indígena, alguns num faustuoso viver que, ajudando a sua natural imprevidência, ingénita vaidade e alardeio de riquezas, em breve os viria reduzir à espécie de miséria em que hoje se acham cristalizados.

Entre os grandes proprietários desse tempo, figura, à cabeça

Figura  lendária lhe ouvi já chamar. Mas nada tem de lendária essa figura de mulher, que foi uma polarização das qualidades e defeitos da sua época, da sua casta e da sua terra, figura absolutamente e bem real, que viveu dentro das realidades do seu tempo realizando a sua vida esplendidamente.

Vivia, pois, na Ilha do Príncipe, no alvorecer do século XIX, Maria Correia, figura central de várias lendas, que a imaginação nativa tem arquitectado e conserva, heroína  de actos frutuosos, de moralidade discutível mas de real proveito para o aumento de seus cabedais, actos que, aliás, não estavam fora do espírito da época nem da característica ou especializada moral colonial desses tempos.

D. Maria Correia Salema era natural do Príncipe, onde nascera em 1788, filha do major de Milícias António Nogueira (brasileiro) e de D. Ana Maria de Almeida, também nativa do Príncipe.

 Casou, em 16 de Agosto de 1812, aos 24 anos, com o  capitão das Ordenanças José Ferreira Gomes, (brasileiro), filho do capitão-Mor Vicente Gomes Ferreira (1) e de D. Josefa Maria da Conceição.

José Ferreira Gomes, que veio fixar-se no Príncipe, a quando da proclamação da independência do Brasil, era .homem viajado e, além de proprietário agrícola, armador de navios - destinados ao melhor negócio do tempo: o tráfico de escravos .

Foi o introdutor na Ilha do Príncipe, em 1822, do cacau, cuja planta trouxera do Brasil e frutificou ali pela primeira vez, na sua roça Simaló. E bastaria isto para o assinalar ao nosso interesse historiográfico e também ao grato reconhecimento de quantos hoje vivem do cacau, nessas afortunadas e ricas ilhas do Golfo da Guiné, para onde a planta foi sendo sucessivamente levada, primeiro para S. Tomé e depois para Fernão do Pó e Ano Bom. .

Se não por suas virtudes, pelos menos por seus méritos, foi José Ferreira Gomes galardoado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo e o título honorífico de Moço-fidalgo da Casa Real. Morreu, aos 56 anos, em 2 de Novembro de 183 7, Ouvidor Geral Substituto e coronel das Ordenanças.

Quer a tradição local que este posto de coronel, que atingiu, tenha sido de um alto simbolismo e de picaresca assimilação, pois, ao que consta da mesma tradição, parece não ter sido de uma fidelidade conjugal por aí além D. Maria Correia.
Quis mostrar a viúva grande pesar, em alardes de manifestações sentimentais. Entre estas podemos citar o epitáfio lírico, mandado gravar na lápide sepulcral do finado, que copiamos integralmente:

Involta (sic) em pranto, em dor, e agonia,
Traçou a triste esposa lutuosa,
Às cinzas do esposo saudosa,
Este epitáfio  sobre a campa fria

Aqui jazem os restos de uma consorte,
Exemplo de bondade e de ternura,
Baixou  dos mortos à mansão escura,
Deixando a inerme esposa entregue à sorte.

Apesar do sentimento, tão lírico e lapidarmente manifestado, a “inerme esposa” dez anos depois (já com 59 anos) contraía segundas núpcias, em 7 de Fevereiro de  1847, na capela  de sua Roça Ribeira Izé, com Aureliano da Silva, pintor de seu ofício e natural de S. Luiz de Maranhão (Brasil), de 33 anos, muito mais novo, portanto,  do que ela e moço apessoado. Ao que ouvi dizer a alguém, que ainda o conheceu, parece que apenas por seu dotes pessoais ou físicos foi escolhido por D. Maria Correia para sucessor do referido coronel.
Infelizmente, para sua “sede de amor”, o segundo marido pouco lhe durou, vindo a morrer  em 18 de Agosto  de 1852

Abra-se aqui um parêntesis para informar que aquela  lápide, riquíssima, de mármore (em que o epitáfio era encimado pelo vistoso brasão de armas de José Ferreira Gomes) foi levada, há anos, para S. Tomé, tirada do cemitério anexo à capela de Nossa 'Senhora da Pureza, da antiga roça Ribeira Izé, propriedade de D. Maria Correia, onde seu marido fora sepultado. Em S. Tomé fui encontrar a lápide, no pátio exterior da Câmara Municipal, mal equilibrada sobre três pedregulhos e servindo para umas pretas lavarem roupa! …

Por ordem do Governador, Capitão Vaz Monteiro, a quem expus o estúpido vandalismo, foi a lápide transportada para o Museu da Colónia, em organização - desde 1938,! (2).

Fechado o parêntesis, continuo a dizer o que consegui apurar da vida de D. Maria Correia.
Apesar do sentimento, tão lírica e lapidamente manifestado, a «inerme esposa» dez anos depois (já com 59 anos!) contraía segundas núpcias, em 7 de Fevereiro de 1847, na capela da sua roça Ribeira Izé, com Aureliano da Silva, pintor de seu ofício e natural de S. Luíz do Maranhão (Brasil), de 33 anos, muito mais novo, portanto, do de que ela e moço bem-apessoado. Ao que ouvi dizer a alguém, que ainda o conheceu, parece que apenas por seus dotes pessoais ou físicos foi escolhido por D. Maria Correia para sucessor do falecido coronel.

A bi-viúva também lhe não sobreviveu muitos anos;' pois morreu em 1 de Março de 1861, · com 73 anos.Eis a cópia integral do respectivo registo de enterramento:

«Hoje as Cinco horas da Madrugada felleceo a Excellentissirna Senhora Donna Maria Corrêa Salema Ferreira, de molestia - Gastre enterite - Segundo declarou o Facultativo. Natural desta Ilha, Idade Setenta e três annos, Viúva. Será sepultada no lugar competente, Caixão á terra. Pagou a quantia de oito mil réis. Cemitério da Ilha do Príncipe 1.º de Março de 1861- Ramos Presidente-Teves Regedor - Damião Vaz Pauleth guarda do Cemitério. ( l.º Quarteirão Superior) - N.º 38.»

Mas como não deixou marido ou filhos, mas tão somente herdeiros-interesseiros, não teve epitáfio, nem lápida ou sequer qualquer piedoso sinal na sua sepultura. E já não é possível assinalar hoje o local em que foi sepultada, no cemitério do Bom-Fim. «Sic transit gloria mundi ... >>.


Diz a tradição oral da Ilha do Príncipe ( e de alguns nativos, que ainda a viram, recolhi estas referências) que D. Maria Correia vivia opulentamente, faustosamente até o que, julgo, não só crível, mas absolutamente natural e lógico, tratando-se de uma nativa rica: a pessoa mais rica da Ilha, nesse tempo. Mantinha dois palácios apetrechados e com pessoal permanente, onde alternadamente residia: um na sua roça Ribeira Izé e outro no Simaló, junto da cidade. De ambos se conservam ainda minas, de que bem se pode inferir a sua traça e grandeza.

Também na cidade de St.º António do Príncipe iniciou a construção de outro palácio, ocupando todo o quarteirão onde depois se edificaram os Paços do Concelho, construção que foi abandonada por ir a atingir altura superior e proporções mais grandiosas que as da vizinha Igreja Matriz - o que seria desairoso e pouco digno do espírito ou feição religiosa da época e da própria D. Maria Correia. Assim o diz, como explicação, a tradição oral.

Da sua riqueza podemos saber, de ciência certa, por alguns documentos que encontrei, entre montões de papelada a apodrecer numa loja térrea, quando organizei o interessante e valioso Arquivo do Governo do Príncipe, hoje incorporado na Biblioteca Municipal, criada em 1940.

E o primeiro uma escrita de convenção de herança, feita entre D. Maria Correia e os herdeiros (irmãos) de seu segundo marido: João Paulo da Silva e D. Águeda Elísia da Silva, em 14 de Abril de 1855, na qual se relacionam bens na importância de 4.096$800 réis, «por conta da herança que a todo o tempo lhes pudesse vir a pertencer, se porventura ficassem habilitados, calculados segundo as terças do Inventário, abatendo-se todas as dívidas existentes. e a sua respectiva meação». Pela mesma escritura deram-se os herdeiros por «quites, pagos e satisfeitos ( p1,dera!) renunciando e dando por expirado todo e qualquer direito hereditário que tenham ou venham a ter sobre os bens do mesmo casal».

Os bens relacionados nessa escritura constam de prédios rústicos ( «O que Capa» e «O que Boi», com as respectivas casas de habitação e plantações), escravos (25 homens e 23 mulheres), roupas, móveis, joias e outros objectos de ouro e prata.
Uma cláusula interessante dessa escritura, que mostra bem a esperteza de D. Maria Correia, é a seguinte, que copiamos textualmente, para lhe não tirar o saboroso valor:

«Que não estando ainda os mesmos presumptivos herdeiros habilitados, e podendo acontecer para o futuro que appareça quem maior direito tenha de haver a mesma herança, impunha a condição de ser ela recebida, depois da presente Escritura [assinada  } pelos interessados, prestando a competente fiança, ou responsabilidade legal.» .

Esta cláusula foi também aceite pelos interessados (herdeiros), ficando os bens, havidos por herança, implicitamente sujeitos e hipotecados para garantia, até à habilitação legal definitiva dos mesmos herdeiros. Digam lá que não era hábil ou habilidosa a D. Maria Correia!

Os bens totais do casal da nossa heroína (Inventário de Outubro-Novembro de 1852, por morte do segundo marido) foram avaliados em 24-.992$742 réis. Não incluindo o patacho «Ferreira» que foi judicialmente vendido em leilão, por 250$018 réis, a juntar ao inventário.

Não vale a pena ( e seria fastidioso) discriminar os bens.Mas pode apontar-se, da leitura que fizemos do largo inventário, as roças: «Simalé», «O que Boi», «Pico» ou «Praia Velha», «Ribeira Izé», <<Ü que Onça», «Quinta», «O quedo Rosário», «Sillu», «Pertinho», «O que Capa», <

Para não alongar fastidiosamente estas simples notas, mencionaremos apenas as pratas de seu uso, que caracterizam e definem um viver opulento: bacia e jarro, três salvas, talheres (26 colheres, 17 garfos e 28 facas), galheteiro, paliteiros, açucareiros, bules, leiteiras, cafeteiras, colheres para chá, etc.

Possuía· também uma salva e um copo, de ouro, para seu uso pessoal, objectos estes que foram avaliados no referido inventário em 282$600 réis.
Das suas joias pessoais, de oiro e pedraria, corais, etc., apontaremos: 9 pares de brincos, 3 cadeias ou trancelins, 18 colares, 5 anéis, 3 alfinetes-broches, além de uma caixa para rapé, um crucifixo, um rosário, um breve e um relógio, tudo de oiro.

E a livraria (nota interessante a definir a sua mentalidade, a do marido ou do casal) foi avaliada em 80$000 réis. Andam por lá dispersos, na posse de vários nativos, peças. soltas da sua baixela, em boa porcelana, com o brasão nas cores heráldicas respectivas e as suas iniciais em dourado.

Em 30 de Janeiro de 1845, requeria D. Maria Correia ao Juiz de Direito da Comarca do Príncipe «autorização para vender alguns bens de seo Cazal, a fim de poder amortizar algumas grossas dividas com que está onerado o mesmo Cazal», o que lhe foi deferido, apresentando, em 12 de Maio, uma relação dos bens que pretendia vender: roças «Pico», «Ribeira das Agulhas», «Praia Velha», «Praia Ubá» e «Praia Rei», assim como 66 escravos e algumas joias de oiro.

D. Maria Correia deixou em testamento as suas roças «Simalé» e «Ribeira Izé» ao Rei D. Pedro V (doação pessoal). O testamento foi, porém, impugnado pelo l.º Barão de Água Izé e tido como não válido, passando essas propriedades para a posse daquele agricultor, como saldo de uma dívida ao mesmo, cujo documento foi apresentado ... posteriormente.

Da sua riqueza dissemos já o bastante, pelo menos o que se podia dizer, fundamentalmente. Da sua importância social, digamos assim, de seu lugar na sociedade coeva do Príncipe, vão algumas notas soltas e exemplos:Inscreveu-se, em 1858, para a subscrição nacional a favor das vítimas da febre amarela em Lisboa, com a quantia de 12$000 reis, a mais alta importância subscrita.

Noutra subscrição, aberta também em 1858, para custear o funeral do Governador Francisco António Correia, achamos o nome de D. Maria Correia firmando uma das mais altas importâncias inscritas.

Dando conta dos ofícios divinos em sufrágio da alma do mesmo Governador e apontando as pessoas de maior cotação social que assistiram ao acto, o Sub-Delegado do Procurador Régio (Ofício n.º 17) punha à cabeça do rol o nome da Ex.?" Senhora D. Maria Correia Salema.


Era assim mesmo: Exma Senhora D. Maria Correia Salema, que figura em todos os registos de baptismo e óbito de serviçais e filhos de serviçais seus, como no seu próprio registo de enterramento, atrás transcrito.

É de notar que este tratamento de Excelência era raro ao tempo e reservado a pessoas de condição. Em todos os documentos que compulsámos (e foram centenas), quer do Arquivo do Governo do Príncipe, quer do antiquíssimo Arquivo Municipal, só o vimos aplicados aos Governadores (nas suas diversas modalidades: Corregedores, Capitâis-Mores ou Governadores de Distrito) e a ela. O que é uma prova, alta prova, da sua importância ou cotação social.

Correm, a respeito de D. Maria Correia, lendas fantásticas, sem a mais leve sombra de realidade ou possibilidade (não nos detendo, por isso, a fixá-las aqui) e algumas histórias, com mais viso de verdade.

Entre estas, uma, que as circunstâncias ocasionais do tempo e o que sabemos do carácter e viver da nossa heroína tornam absolutamente lógica e possível de se ter passado consoante reza a tradição local.Trata-se da maneira como D. Maria Correia iludia a vigilância dos navios ingleses, em cruzeiro de repressão da escravatura ... feita pelos outros.

Diz-se que ela, quando vinha a chegar carregamento importante de carne negra, convidava os oficiais ingleses a visitarem uma das suas propriedades do Príncipe, onde os recebia principescamente e onde regiamente eles se banqueteavam.

 Como a consequência fatal de tais 'banquetes era ficarem os convivas, pelo menos, incapacitados por largas horas, aportava entretanto o carregamento a uma praia oposta da Ilha.E quando os amigos ingleses retomavam as suas faculdades e reembarcavam para o cruzeiro, era tarde e as senzalas-prisões estavam cheias de mercadoria fresca.

Algumas das imagens - antigos postais coloniais - foram extraídos do livro "Postais antigos de S. Tomé e Príncipe - de João Loureiro; outros do livro de Francisco Mantero - A Mão d'Obra em S. Tomé e Príncipe 


terça-feira, 3 de maio de 2016

S. Tomé e Príncipe – em Lisboa - Musica típica e poesia de Alda do Espírito Santo - Em jantar-convívio promovido pela Mé Nón – Associação das Mulheres de S. T. P. em Portugal,



Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista 




2º jantar convívio de São-Tomenses, na Diáspora, organizado pela Associação das Mulheres de S. T. P. em Portugal, Mén Nón, que decorreu, no último dia de Abril, véspera do dia de trabalhador,  na sede da ACOSP, na cidade de Lisboa, em  ambiente de muita alegria e de entusiasmo, muito acolhedor e fraterno,  como é timbre das gentes  das maravilhosas Ilhas Verdes do Equador fraternidade – Com a sala completamente cheia, na qual puderam ser apreciados alguns dos mais saborosos pratos típicos da gastronomia, ao  som da música da terra e também apreciados alguns momentos de poesia, com a leitura de belos poemas de Alda do Espírito Santo  (1926-2010), figura emblemática da literatura e da cultura santomense, com versos  lidos pela voz da moçambicana ,Elsa de Noronha

Muitos São-Tomenses, uns radicados há muitos anos na capital portuguesa, outros que estavam em curto período de férias ou de trabalho,  alguns mesmo vindos de outros países da Europa - Em boa verdade, reuniu-se um grupo muito representativo e heterógeno,  desde crianças aos adultos, gente feliz, com muita emoção, extravasando um grande sentimento de fraternidade e de familiaridade, ou  não fossem todos “primos, naquelas que são consideradas as mais luxuriantes e paradisíacas Ilhas do Golfo da Guiné.




Lá vimos, entre outros rostos, além das sempre amáveis e dedicadas, mulheres da Mé Nón, Solange Pinto, Maomé Smith, Rosalina Silva, Carlos Menezes, Abigail Tiny, Carlos Crisóstomos e até  o próprio Diretor da Rádio nacional de São Tomé, Braçanan Santos


Elsa de Noronha, natural de Moçambique, (22 de Agosto de 1934), filha do poeta moçambicano Rui de Noronha, declamadora e também ela autora de poesia, tem sido uma verdadeira paladina para a divulgação da poesia africana em língua portuguesa







Lá no «Água Grande» a caminho da roça
negritas batem que batem co’a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes…
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso…
Jazem quedos no regresso para a roça.





Às mulheres da minha terra
Irmãs, do meu torrão pequeno
Que passais pela estrada do meu país de África
É para vós, irmãs, a minha alma toda inteira
— Há em mim uma lacuna amarga —
Eu queria falar convosco no nosso crioulo cantante
Queria levar até vós, a mensagem das nossas vidas
Na língua maternal, bebida com o leite dos nossos primeiros dias
Mas irmãs, vou buscar um idioma emprestado
Para mostrar-vos a nossa terra


O nosso grande continente,
Duma ponta a outra.
Queria descer convosco às nossas praias
Onde arrastais as gibas da beira-mar
Sentar-me, na esteira das nossas casas,
Contar convosco os dez mil réis
Do caroço vendido
Na loja mais próxima,
Do vinho de palma
Regateado pelos caminhos,
Do andim vendido à pinha,
Às primeiras horas do dia.
Queria também
Conversar com as lavadeiras dos nossos rios
Sobre a roupa de cada dia
Sobre a saúde dos nossos filhos
Roídos pela febre
Calcurreando léguas a caminho da escola.

Irmã, a nossa conversa é longa.
É longa a nossa conversa.
Através destes séculos
De servidão e miséria...
É longa a estrada do nosso penar.
Nossos pés descalços
Estão cansados de tanta labuta...
O dinheiro não chega
Para vencer a nossa fome
Dos nossos filhos
Sem trabalho
Engolindo a banana sem peixe
De muitos dias de penúria.

Não vamos mais fazer “nozados” longos

Nem lançar ao mar
Nas festas de Santos sem nome
A saúde das nossas belas crianças,
A esperança da nossa terra.

Excerto - Continua em 

POEMAS DE ALDA ESPÍRITO SANTO