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terça-feira, 23 de abril de 2024

São Tomé e Príncipe - Custo de vida colonial - Antes do 25 de Abril – Nas roças ainda persistia a escravatura do tempo do chicote - Tanto para trabalhadores nativos como para os chamados serviçais, que eram contratados de outras colónias, nomeadamente de Cabo Verde, Guiné, Angola e Moçambique.

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista  - Antigo aluno da Escola Agrícola Conde S. Bento, em Santo Tirso  - Com videos registados na Roça Uba-Budo, em 2014, bem como na antiga Roça Rio do Oiro,  atual Agostinho Neto e noutras roças

A vida era dura e escrava também para o empregado de mato, tal como também ali fui. Depois das tarefas executadas, das capinagens, das colheitas ou das quebras de cacau, subindo e descendo vertiginosas grotas, tinha que vaguear pelos caminhos ou trilhos do mato, limpando os rebentos dos cacacueiros com a catana (machim) na mão, chovesse ou não a granel: - havia que suportar todas as intempéries até ao último raio de sol . Além disso, o escravizado empregado de mato, só podia gozar das chamadas férias graciosas, regressarem às suas aldeias, de quatro em quatro anos

Daí que não possa esquecer-me daqueles duros dias da chibata nas costas e das palmatoadas, dadas pelos capatazes, sintonizados com a hierarquia das ordens do Patrão da "Casa Grande", em que não faltava comida, ao estilo farta cavalos, mesmo que fosse fuba com bolor e feijão furado com bicho, lagarta na couve, peixe seco quase apodrecer, o que não mata engorda, porque também era a ração que davam às vacas e a outros animais, pois, saco vazio não fica de pé e interessava que todos, sem exceção, fossem animais de carga.

Era farta e folgada para os administradores e feitores gerais, mas sobretudo para os donos das roças, mais deles vivendo refastelados na “metrópole”, à sombra dos avantajados lucros das grandes plantações, especialmente de cacau e de café e livres de prestarem contas ao Estado do que arrecadavam, pois chegavam a ter até mais poder de que os próprios governadores. Sem outras preocupações que não fossem as de encher os seus cofres por depósitos na banca e por transferências sistemáticas para à Metrópole
.
Além do palácio do administrador, dos armazéns, das várias instalações tecnológicas ,escritórios, das senzalas, creches, capelas, hospitais, a bem dizer também podiam reprimir e aplicar castigos físicos à vontade.

No entanto, em 2014, quando ali voltei, pude constatar, com um misto de tristeza e decepção, que, além das instalações se encontrarem muito degradadas, praticamente em ruinas e irreconhecíveis, nem por isso a vida ali conheceu melhores condições. Tendo ouvido desabados, como este: no tempo da escravatura, tínhamos comida, agora, que somos livres, falta-nos quase tudo.

NÃO ESQUEÇO A DUREZA DAQUELES DIAS NA ROÇA


Sim, continua ainda muito presente na minha memória, aquele recuado ano, quando para ali fui em 1963, com 18 anos, a fazer um estágio do meu curso agrícola, que havia tirado em Santo Tirso, um tal Pereira, administrador, pouco tempo depois, mandou-me de castigo a contar cacaueiros velhos para a Roça Ribeira Peixe, da mesma Companhia Agrícola Ultramarino, por me ter recusado a tratar os pobres serviçais por tu: - um dia chamou-me lá à administração, para me dar esta ordem: “ o Sr Feitor Geral, já lhe disse, mais de umas quantas vezes, que os serviçais têm de ser tratados por tu; não se lhes pode dar confiança: tem uma hora para arranjar a mala; preciso do jipe, não se demore. Vai fazer o seu estágio na Ribeira Peixe.





Na roça Bombaim - Não vi grandes diferenças, em 2014

E o estágio, que me impunha era o de contar cacaueiros abandonados, para os lados da Roça Novo Brasil, numa zona de grande capinzal e infestada de serpentes Eu contava cada caule e um trabalhador Cabo-verdiano, que andava com uma caldeirinha de água de cal na mão, à medida que os contava, ia-os marcando com umas borrifadelas para não me enganar na contagem – Creio que aquele trabalho, era mais uma forma de me humilhar e de me fazer desaparecer de que propriamente pela sua utilidade agrícola

Todos os dias, eu e o pobre do escravo, deparávamos com serpentes a levantarem-se ao nosso lado ou dependuradas nos ramos: como ele andava descalço e eu com galochas, um dia pisou uma dessas cobras pretas, picou-o e acabou por morrer ali mesmo: peguei no cavalo e fui ao hospital a buscar um antídoto, mas, quando voltei, já tinha morrido – Deparei com uma imagem impressionante: boca espumosa e a cor da pele passara de negro a um rosto contorcido e raiado de manchas violáceas
Roça Uba Budo 2014 -

Fiquei de tal maneira chocado e revoltado, que, nesse mesmo dia à noite abandonei a roça: fui a pé até S. João dos Angolares, onde dormi no mato, espicaçado por nuvens de mosquitos.

No dia seguinte, apanhei uma boleia para a cidade: e, como não tinha dinheiro, andei por lá a dormir no parque e a ter que me alimentar da fruta que ia colher no mato. Uns dias depois, fui à CM, que me arranjou um emprego de capataz dos jardins da cidade: Mas, como, quase todos os dias, passava por mim, um tal Aprígio Malveiro, secretário da Câmara, a chatear-me a cabeça, armado em roceiro, insinuando que eu também tinha pegar no machim e limpar as ervas, fui pedir emprego na Roça Rio do Ouro, onde fiquei até ir cumprir o serviço militar.



De seguida, algumas das linhas de um extenso e pormenorizado artigo que publiquei na revista angolana Semana Ilustrada, de que fui correspondente, desde 1970, a Março de 1975, mês em que fui forçado abandonar a Ilha de S. Tomé, em canoa, rumo à Nigéria, para me defender das agressivas perseguições de que estava sendo alvo por parte de alguns colonos por dar voz às manifestações pró-independência e a outras questões que a censura até então proibia, o que sucedeu com vários artigos meus. Mas este lá passou. Voltei ainda no mesmo ano, após a independência para tentar a travessia oceânica de canoa.,. Não realizaria esse sonho mas acabaria por conhecer uma dramática experiência de náufrago ao longo de 38 dias. https://canoasdomar.blogspot.com/2019/11/34-dia-perdido-no-golfo-da-guine-nao.html
CUSTO DE VIDA

(….) A roupa, o calçado, o sabão, é um subir que nunca mais acaba!
Ah! E o pão? O pão nosso de cada-dia? Para o dobro!
(...) Num destes , dias ,encontramo-nos com certa dona de casa ,no mercado Municipal. A título de curiosidade, perguntamos-lhe que espécie de géneros ia comprar. ( pagar). Começou por nos dizer, antes de mais, que era mãe de cinco filhos. E estava a adquirir condimentos para preparar um calúlú, o prato típico da terra ,para o almoço do seu marido e dos seus cinco filhos. E já que nos falou do seu marido, quisemos também saber qual a profissão e quanto ganhava.

Referiu que trabalha na Roça e ganha 28$00 diários. Em seguida, e antes de entrarmos no assunto que nos tinha levado a interpelá-la, pretendemos igualmente nos dissesse qua era a sua ocupação. Se fazia mais alguma coisa além das lides domésticas.

A esta pergunta, acrescentou que apenas cuidava dos filhos, pois eram ainda menores, andavam todos na escola, e, fora isso, tratava ainda de um pouco de criação. De uns leitãozitos, uns tantos bicos de galinhas, e de uma cabra, que criava lá no seu quintal. Criação essa, que, em seu ver lhe dá bastante jeito para fazer face aos seus gastos domésticos.

Depois falou-nos então, perto de uma banca que ali se encontrava, com os géneros expostos, dos que iria comprar para fazer o dito calúlú para o almoço do seu marido e dos seus filhos.

Para isso, segundo nos disse, precisaria de adquirir: 4$00 de kiábos,1$00 de beringelas, 1/2 kg de couve, que estava a 15$00 o kg, 2$00 de makaké, $50 de piripiri,1/2 kg de tomate, na altura 18$00, meio litro de óleo de palma pelo que ia dar 3$00,e no mercado do peixe que teria de comprar pelo menos 1,5k,que lhe custaria cerca de 25$00. Depois destas compras que teria ainda de passar pela loja a fim de ir comprar o arroz, pelo menos também cerca de 1,5kg, do trinca, que lhe ficaria a 7$00 o kg.

Depois passaria pela padaria, onde, como eram sete ao todo lá em casa, gastaria mais 7$00,pois o pão agora está a 1$00 cada um. Quanto à fruta, que teria de levar umas 7 ou 8 bananas, para sobremesa, de que não poderia prescindir, e lhe custariam 2$50

Finalmente, que teria apenas de pensar no frango ou galinha para confecionar o calúlú, mas de que ,apesar de estar a 35$00 o kg, não teria problemas pois de boa criação felizmente tinha lá no seu quintal.
Eis, pois, a traços largos os géneros e o custo por que viria a ficar um dos pratos a uma das muitas atarefadas e preocupadas donas de casa, á no burgo, para uma refeição do seu agregado familiar num vulgar dia da semana.

CONTINUAM A AUMENTAR AS COTAÇÕES DO CACAU, COPRA E COCONOTE

Segundo as ultimas informações que nos foram prestadas, os principais produtos agrícolas de S. Tomé — cacau, copra e coconote — continuam a aumentar de cotações no' mercado internacional, onde atingem números até agora nunca alcançados,
Em contrapartida (até perece um paradoxo) a principal mão-de-obra, pelo menos a mais apreciada até a data, continua a registar acentuada sangria para o exterior, como consequente reflexo de uma menor produtividade e aproveitamento das explorações agrícolas.

Um dos motivos da retirada dos trabalhadores rurais para outras parcelas' do território nacional, nomeadamente para a Metrópole, é, como se sabe, o da procura de uma melhor compensação salarial, e de outras regalias que os 28$00 que aqui lhes pagam não chega a satisfazer.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Sporting 3 –V. de Guimarães 0 – Triunfo leonino de alto nível artístico faz rejubilar o palco de Alvalade de calorosos hinos e abraços

Jorge Trabulo Marques - Footballdream
Neste post o video do triunfo leonino


Sporting 3 –V. de Guimarães 0 – Triunfo leonino de alto nível artístico faz rejubilar o palco de Alvalade de calorosos hinos e abraços, encurtando a dois triunfos, a seis pontos,  a conquista do campeonato da temporada 2023-24, com 10  pontos de vantagem sobre o Benfica, que, nesta segunda-feira, defronta o Farense

Equipa de Rúben Amorim vence com arte, sabia e persistente estratega o Vitória de Guimarães, com golos  de Pedro Gonçalves, aos 30 minutos, e um bis de Viktor Gyökeres, aos 45 e 49), superando a lista de melhores marcadores, com 24 golos



sábado, 20 de abril de 2024

Academia Militar – anos 80 –- Entrevistas com o Marechal Spínola e outros oficiais generais - No primeiro grande jantar de Confraternização de Antigos Alunos, depois do 25 de Abril "



Apontamento para a História do mais antigo estabelecimento de ensino universitário militar, “onde se cultivam grandes valores” - "Não é uma conspiração! Mas o significado de tantos estarmos juntos é o de que algo não vai bem" - Reunindo oficiais de diferentes armas, idades e cursos –Entrevistas com o Marechal Spínola, antigo aluno do Colégio Militar - General Galvão de Melo - General Vasco Lourenço; General Ricardo Durão; O então Tenente-Coronel Victor Alves - Coronel Macedo Pinto Coronel Santos Paiva, além de outros oficiais que não foi possível identificar


Reportagem transmitida depois  na  Rádio Comercial-RDP, com declarações de vários oficiais superiores e generais, registada por mim nos anos 80 -  Num programa  matinal,  realizado e apresentado por Luis Pereira de Sousa. Já então uma das carismáticas figuras da Rádio e da Televisão, tendo estado presente no primeiro dia da Revolução dos Cravos, em reportagem, tal como o documenta esta imagem 

 O convívio, embora anunciado publicamente, através da RTP, porém,  como estava a ser antecedido  de alguma polémica, face aos rumores que corriam de que se tratava de uma manifestação de desagrado, face ao poder politico, cujo PM era então Cavaco Silva, acabou por não ter contado com a presença da generalidade dos media.


 Este, um dos  variadíssimos registos -  de centenas - em cassetes e algumas bobinas, que guardo ainda no meu arquivo, em memórias de um repórter



Fui o único repórter que participou no jantar-convívio - Este,, um dos varridíssimos registos - centenas - em cassetes algumas bobines, que guardo ainda no meu arquivo


Marechal Spínola: – Recordações da meninice sãos sempre muito agradáveis a partir de uma certa idade; olhe o significado que lhe atribuo é o de uma reunião de camaradagem, a que eu já estou muito habituado, como antigo aluno do colégio militar, e essa é a primeira aqui

A grande recordação que eu guardo desta casa foi a formação que esta casa me deu! E que me tem aparado e que me tem servido em toda a minha vida:. Hoje sou um reformado mas ainda sou o Presidente da Revista Militar! Estou sempre ligado ao Exército, porque fiz toda a minha vida sempre no Exército! Espírito do corpo, a camaradagem Está aqui bem patente nos 90 aos 20 anos! Desde generais, coronéis, tenentes-coronéis majores! Alguns civis, que abandonaram a carreira das armas estão aqui muito deles, presentes General Galvão de Melo: acho que foi uma ideia felicíssima do atual comandante da Escola! De reunir pessoas de diferentíssimas armas, idades e cursos.. Eu, por exemplo, há mais de 15 anos que não entrava aqui na Academia!... Vim encontrar colegas meus, que já via desde a saída da Academia! General Vasco Lourenço: Questionado de que, esta reunião, só é possível por via de um certo descontentamento, respondeu-me: é uma interpretação! - Entre outras palavras que deixavam depreender a minha observação..

General Ricardo Durão - Acho que foi uma ideia muito boa ! E, à semelhança do que acontece no Colégio Militar e noutros Estabelecimentos de Ensino! Encontrei hoje muita gente que não via há anos! O então Tenente-Coronel Victor Alves: acho que é uma excelente ideia do Sr General Bruno! Que nos deu a possibilidade de aqui nos reunirmos. (...) como sabe, todos os anos, há reuniões de cursos, etc. e falta sempre muita gente!-… E hoje dá a impressão que não falta ninguém”… Não é uma conspiração! Mas o significado de tantos estarmos juntos é o de que algo não vai bem Coronel Macedo Pinto – Vinte e tal anos do Ultramar - Do curso de 1914 – Vejo isto como uma necessidade de nos confraternizarmos mais: acho que isto é uma riquíssima ideia! Que só traz benefícios! E traz saudade e traz tudo! – Estive em África: eu só não conheço Guiné e Timor! De resto, estive em todas elas


Diabruras na minha viatura dos inimigos da Liberdade

JORNALISTA HÁ 50 ANOS - De 1970 -a 75- Correspondente da revist Semana Ilustrada de Luanda   - Depois em Portugal    -  ANTIGO MILITAR DO 6º CURSO DE COMANDOS, EM LUANDA - Meu segundo Comandante era então o  General Soares Carneiro, natural do meu concelho -

 Fui  selecionado, no Huambo, para o curso de oficiais no curso de sargentos milicianos na antiga Nova Lisboa, em Angola, por ter ficado em 5º entre os 700 alunos, o segundo na especialidade de Armas Pesadas, mas preferi voltar a S. Tomé, como furriel miliciano e fazer uma tropa tranquila, depois de ter passado pelo curso de comandos - E,, três anos, depois enveredar pelo jornalismo por via de umas aventuras maritimas  - Os acasos e os destinos da vida, sáo mistérios de Deus.

No Regresso a Portugal, passei 

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Natália Correia e Zeca Afonso - Inédito – Vozes no Botequim da Liberdade - Ó rama, ó que linda rama – E Milho Verde - Meu registo das Noites Loucas, de alegria, música e poesia

Jorge Trabulo Marques - Jornalista


Reportagem sonora de uma das noites de caloroso convivo e de boémia do Botequim da Natália Correia, no Largo da Graça, Lisboa, anos 80 – Naquele espaço, as surpresas da noite já faziam parte do cardápio da casa, do habitual convívio e diversão.


Foto obtida pelo autor deste blogue  à saída de uma festa de gala no Casino Estoril - Natália Correia e a sua corte - Na qual está também - no primeiro plano  Dórdio Guimarães, o fiel companheiro de todas as horas de Natália,  de costas voltadas para o fotógrafo; um pouco mais à esquerda, está  Fernando Grade, e,  quase a servirem de guarda-costas, Francisco Baptista Russo e Fernando Dacosta, agora de novo com mais uma bela surpresa literária  - Não me ocorre o nome das outras suas amigas.

Se Natália Correia fosse viva e ainda liderasse o Botequim, por certo, alguns dos frequentadores deste famoso Bar já tinham desencadeado uma revolução
 Uma das habituais presenças, ao pino do Botequim, era o Mastro António Vitorino de Almeida, mas, que muitas vezes, podia ser usado por outras músicas

A noite que aqui recordo, contou a presença de Zeca Afonso, A VOZ DA UTOPIA E DA LIBERDADE, que se associou ao coro das vozes, onde a da Natália Correia, era geralmente a voz que liderava os Cânticos que ali se faziam ouvir. -
Zeca Afonso, a emblemática voz do 25 de Abril, da revolução dos cravos, imortalizada por , “Grândola, Vila Morena”


José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos – ou simplesmente Zeca Afonso, como viria a ser eternizado – nasceu a 2 de agosto de 1929, em Aveiro. Em miúdo passou algumas temporadas em Angola, onde o seu pai exerceu a função de delegado do Procurador Geral da República. Por motivos de saúde, o pequeno Zeca dividiu o seu tempo entre África, que aprendeu a amar e a respeitar, e Portugal. As suas raízes familiares não representam propriamente o ‘proletariado’. Contudo, quando se fez homem, Zeca cantou e defendeu, como poucos, o povo – antes deste ir ‘de carrinho’, como viria a cantar na década de 80, no álbum Como Se Fora Seu Filho, um disco paradoxo, dividido entre a utopia e o desalento da realidade política:

Vídeo elaborado a partir da cassete de um pequeno gravador, que utilizava como repórter da Rádio Comercial, que pude registar numa das noites inesquecíveis de boémia no Botequim, que tive o prazer de frequentar muitas vezes - Hoje lembrei-me de ir buscar esses sons ao meu vasto arquivo - Onde ainda guardo (entre cerca de três centenas de cassetes de áudio, inúmeras reportagens e entrevistas, entre as quais,, Fernando Namora, Vergílio Ferreira, José Gomes Ferreira, Moreira das Neves, Amália Rodrigues, Cupertino de Miranda, Azeredo Perdigão, Costa Gomes, etc..etc
Sim, outros sons e outras vozes, gravadas no Botequim, que espero vir a editar no You Tube, pois tenho a certeza que não deixarão de ser apreciadas e de comover até às lágrimas, todos quantos o frequentaram e ali viveram momentos que perdurarão para o resto das suas vidas. Botequim - Pequeno no espaço mas grande como bar aglutinador das mais diferentes sensibilidades - Centro de tertúlias políticas, literárias e artísticas, palco de conspirações e acesos debates na presença de figuras, como Ramalho Eanes e esposa, Sá Carneiro, Nuno Krus Abecassis, Helena Roseta, Oliveira Marques, Ary dos Santos, Mestre Martins Correia, Francisco Relógio, David Mourão Ferreira, Dórdio Guimarães (o companheiro inseparável de todas as horas da autora da Mátria), Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues,Césariny, Cruzeiro Seixas, José Augusto-França, Amélia Vieira, Fernando Dacosta, José Manuel dos Santos, Amélia Muge, Tomás Ribas, Gilberto Madail, Afonso Moura Guedes; Narana Coissoró, deputados de todos os partidos, cartomantes, videntes e astrólogas, aspirantes a poetas, a pintores, a músicos, a escritores ou a políticos, homossexuais e lésbicas assumidos ou disfarçados, jornalistas, empresários, generais na reforma e no ativo, vários capitães de Abril.

E tantas outras personalidades (até do estrangeiro, sobretudo do Brasil) provenientes das mais diferentes atividades ou, simplesmente, pessoas anónimas que admiravam o perfil e o estilo inconfundível de Natália, que ali iam todas as noites, ao Largo da Graça, movidas pela curiosidade de a conhecer pessoalmente, de partilhar a alegria, a truculência, a frontalidade, o fascínio e o saber do seu inigualável convívio. "Mulher forte, irreverente, contraditória - e de beleza extraordinária. Com intensa versatilidade, dedicou-se a vários géneros literários.
Natália Correia sempre se recusou a ser uma figura decorativa, peça que entrava e saía do palco segundo as regras da compostura. Ao longo da vida escreveu intensamente. E ainda marcou presença na política e na imprensa. A indignação foi uma constante na sua vida e obra - motivada pela censura que a amordaçava ou por uma insurreição natural a todos os engodos ideológicos da sociedade. "Uma mulher imperial", diz a jornalista Clara Ferreira Alves." "Natália Correia é uma mescla de anjo e demónio. Muito do seu encanto vem desta mistura explosiva. É conhecida pela personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflete na escrita.

Em Memória de Natália Correia e do Botequim - Em Noites Loucas, de alegria, música, convívio e poesia 







Natália Correia (1923 - 1993), mulher de paixões, casou quatro vezes ao longo dos seus 70 anos. Fez televisão, foi jornalista, dramaturga, poetisa e estreou-se na ficção com o romance infantil «Aventuras de um Pequeno Herói», em 1945.
Nasceu nos Açores em 1923 e aos 11 anos desloca-se para Lisboa. Foi jornalista no Rádio Clube Português e colaborou no jornal Sol. Ativista política: apoiou a candidatura de Humberto Delgado; assumiu publicamente divergências com o Estado Novo e foi condenada a prisão com pena suspensa em 1966, pela «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica».
Deputada após o 25 de Abril , fez programas de televisão destacando-se o “Mátria” que apresentava o lado matriarcal da sociedade portuguesa.
Fundou o bar “Botequim”, onde cantou durante muitos anos, transformando-o no ponto de reunião da elite intelectual e política nas décadas de 1970 e 80.
Organizou várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”.
Natália Correia foi uma versejadora de êxito, uma mulher carismática com uma vida social intensa, não fez concessões à mediania e notabilizou-se por uma vasta obra intelectual.

terça-feira, 16 de abril de 2024

25 de Abril 1974 e Amílcar Cabral - Assassinado por Nino Vieira – Acusa Tomás Medeiros, antigo general do MPLA , 1931-2019 Culpou-se o exército português e a PIDE – Mas autoria partiu do seio da PAIGC – Afirmou-nos o poeta santomense e antigo general do MPLA,– António Tomás de Medeiros. Foi guerrilheiro anticolonialista, médico e escritor. E um dos fundadores do Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe e esteve ligado aos primórdios do MPLA. Veio mais tarde viver para Portugal por não se sentir identificado com as políticas destes partidos.

 Jorge Trabulo Marques - Jornalista  - AFINAL, QUEM MATOU AMILCAR CABRAL?


Culpou-se o exército português e a PIDE, não é que vontade não falasse ao regime colonial, e, pelos vistos, até chegou a desencadear  operações nesse sentido, mas, afinal, os maiores inimigos do fundador do PAIGC, estavam no interior das suas próprias  fileiras.

Diz o autor de "A verdadeira morte de Amílcar Cabral" de Tomás Medeiros, falecido em 10 de Setembro de 2019. 

Declarou-me numa  breve entrevista,  na Casa Internacional de Tomé e Príncipe, numa sessão integrada nos 40 anos das independências da ex-colónias portuguesas -

MAIS LENDAS DE QUE CERTEZAS – MAS, PARA TOMAZ MEDEIROS, O ASSASSINO TEM UM NOME O autor de " A verdadeira morte de

E, de facto, se dúvidas existiam acerca da origem do assassinato  de Amílcar  Cabral, na altura em que o atentado se deu,  tais interrogações vieram a dissipar-se completamente. Bastaria atentar na série de mortes fratricidas ocorridas no seio da classe política guineense – Tal como já alguém referiu, por altura dos 40 anos sobre a morte de Amílcar Cabral, “O pai da Guiné-Bissau não assistiria ao seu nascimento como Nação e desde então os seus ideais têm sido muitas vezes traídos, numa multiplicidade de mortes póstumas “ A segunda morte de Amílcar Cabral ocorreu com o golpe de Estado em que Nino Vieira depôs o então presidente Luís Cabral (meio-irmão de Amílcar) e pôs fim ao grande projecto de fazer da Guiné-Bissau e de Cabo Verde um único país capaz de resistir às pressões dos vizinhos Senegal e Guiné-Conacri. Seria a primeira de muitas mortes póstumas.

MAIS  LENDAS DE QUE CERTEZAS – MAS, PARA TOMÁS MEDEIROS,  O ASSASSINO TEM UM NOME

“Há muita lenda acerca da morte de Amílcar Cabral: Amílcar não foi morto por ser bandido ou por ser traficante de droga: Amílcar Cabral foi morto por ser um homem politico  por certas etnias que lutavam contra Amílcar Cabral – Diz Tomaz Medeiro, em declarações à nossa reportagem, no final da cerimónia,  quando o quisemos inquerir a respeito do seu último livro "A verdadeira morte de Amílcar Cabral - Mudar de Vida – – Livro editado em Lisboa, em 2012, no auditório da Fundação Pro Dignitat, depois reeditado em Março de 2014 . A citada obra não  aponta nomes, deixando apenas pistas ou caminhos, mais abertos à reflexão de que um libelo acusatório. Afirmando então:   "não vale a pena procurar assassinos, mas sim estudar a filosofia política de Amílcar Cabral, que punha em causa os interesses das potências ocidentais, os verdadeiros mentores da morte de Cabral" assassinado em Conacri dia 20 Janeiro de 1973, a escassos 6 meses da proclamação da independência da Guiné-Bissau. 

 Entretanto, reeditado em 2014, uma análise à obra refere, que, “no  centro deste trabalho está a contradição de uma política que se quer revolucionária sem assentar no proletariado”, frisando que “na Guiné, mais ainda do que em Angola ou Moçambique, era inevitável a marca de classe pequeno-burguesa no movimento. As fábricas existentes no país contavam-se pelos dedos e quase não havia trabalho assalariado no campo. A exploração colonial não tinha o rosto das grandes plantações de café ou de algodão, e sim o da manipulação dos preços da mancarra (amendoim). E esse rosto tinha contornos menos nítidos e mais difíceis de identificar “A verdadeira morte de Amílcar Cabral - Mudar de Vida –

QUEM COM FERROS MATA, COM FERROS MORRE - TOMÁS MEDEIROS  ACUSA NINO VIERA DE TER SIDO O MANDANTE DO ASSASSINIO DE AMILCAR CABRAL 

Nino Vieira
Amilcar Cabral
Diz um velho ditado popular que quem com ferros mata, com ferros morre. Pelos vistos, assim teria acontecido à trágica morte de Nino Vieira - Assassinado, no inicio de Março de 2009,  por militares depois de  um atentado à bomba ter provocado a morte ao chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, Tagmé Na Waié. 

Tomás Medeiros, o poeta santomense, antigo médico e general do MPLA, no período da guerrilha, acusa Nino Vieira pelo assassínio da morte de Amílcar Cabral


De seu nome, António Alves Tomaz Ribeiro,  filho de José Tomaz Alves de  Medeiros e de Polónia Tomaz de Almeida, nasceu em S. Tomé no dia 5 de Novembro, de 1931. Terminada a instrução primária, aos 13 anos, e, tal como a generalidade dos santomenses, como os  seus pais, não tinham possibilidades económicas, começou a trabalhar numa barbearia, como vendedor de jornais e vendedor de carvão, depois numa loja comercial. 

Porém, nada disso lhe interessava, a sua vocação era outra: destinos ousados o aguardavam. Então os seus pais mandaram-no para Nova Lisboa, Huambo, onde fez o primeiro ciclo liceal, após o que, três anos mais tarde,  parte para a capital do Império  para concluir os dois anos que lhe faltavam e inscreve-se na Faculdade de Medicina - 

De nada lhe valeu: como estava ligado à atividade politica, foi denunciado pela PIDE e por uma organização da extrema direita, como sendo um dos estudantes comunistas mais perigosos em Portugal, o que lhe valeu um mandato de captura – Para não ser preso, fugiu para Moscovo, onde cursa medicina, trabalha como locutor na Rádio de Moscovo, é Secretário-geral dos Estudantes Africanos na Europa,   Secretário-Geral dos Estudantes Africanos na União Soviética, colaborador da Academia das Ciências e investigador numa biblioteca.

Três anos depois parte para Crimeia onde conclui o curso de medicina . Não sendo obrigatório o exercício da profissão para os estrangeiros,  paralelamente faz a cadeira de latim e vários cursos de formação política:  o  Curso de Academia política,  o de História do Partido, de Marxismo Leninismo e o Curso de Medicina Militar  - Volta ao continente africano, a Brazzaville, onde o MPLA tinha a sua sede. Dali parte para Cabinda onde é médico militar e dos refugiados, professor de instrução revolucionária, tendo chegado à patente de General – Oportunidade de alto combatente que lhe deu a possibilidade de privar  com todos os líderes históricos dos movimentos de libertação: desde Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Ângelo Cabral,  Francisco Tenreiro, Fernando de Sousa, Marcelino dos Santos, Eduardo Mondlane  - Reconhece que a sua relação, com S. Tomé e Príncipe, era muito estreita, porque, naquela altura, os elementos envolvidos na guerrilha, não tinham possibilidade de viajar, tendo ido lá apenas duas vezes mas em viagens muito curtas. 


Na breve entrevista que me concedeu na Casa Internacional de S. Tomé e Príncipe, acerca do  debate-homenagem  ao papel de Cuba nas independências e consolidação de África,  ele conta-nos  alguns dos passos da odisseia da sua  vida, intensa, de grande generosidade, dedicação  e risco –  Sim, de forma muito sumária, já que a sua vida, daria muitos livros – Além dos que ele já escreveu, desde a poesia, ao romance e aos textos de intervenção








"Ir a São Tomé!... Sentir o cheiro da terra, sem poder palpá-la, sem poder vê-la!... É muito triste!... Preferia morrer!..."


"Eu sou um combatente” Era assim como então se classificava Tomás Medeiros, autor de várias obras contra o colonialismo, de poesia e prosa em prospetos, autor do romance “O Pseudo-socialismo em Angola e uma novela, dedicada ao mesmo tema a S. Tomé e Príncipe. A sua última obra, foi publicada em 1012, com o título A Verdadeira Morte de Amílcar Cabral 

A  impossibilidade de contemplar a luz do dia, é um drama terrível para qualquer ser humano – sobretudo para quem a perdeu na curva na vida -  Mas especialmente para um  poeta, e também o era, desde que cegou por completo,  o antigo combatente que andou  pelas  densas florestas do Norte de  Angola – Sim, era  o  drama de Tomás Medeiros, nascido em S. Tomé,  em 05-11- 1931 que, além de um extraordinário escritor e poeta, era também uma das mais importantes figuras histórias, na luta de Libertação de Angola

ELE FOI GENERAL EM CABINDA  - PRIVOU COM COM OS LÍDERES HISTÓRICOS DE TODOS OS MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO


Tomás Medeiros, que a PIDE  chegara a classificar como o estudante comunista mais perigoso, quando desempenhou  a coordenação de estudantes africanos, uma corrente anticolonial à frente da Casa de Estudantes do Império, tendo sido obrigado a exilar-se nem Moscovo, pôde,  desde esses recuados tempos, privar com as mais importantes figuras históricas dos movimentos de libertação, entre as quais as duas figuras mais emblemáticas da Guiné e de Angola,  Agostinho Neto e Amílcar Cabral – Com este, nomeadamente, em diversas conferências internacionais – Oportunidade aproveitada para um diálogo, amistoso e aprofundado,  entres dois grandes marxistas convictos. Medeiros, porque vinha com sólidas formação  de vários cursos de marxismo na Cremeira, e, Cabral, porque era a linha que pretendia impor para uma verdadeira libertação da Guiné e Cabo Verde, sob o jugo colonial.

domingo, 14 de abril de 2024

TITANIC - Naufragou há 112 anos – Singela Homenagem de quem viveu como eu, há 49 anos, o sufoco aflitivo das ondas – Ocorreu na noite de 14 de abril de 1912, às 23horas 40 m, durante sua viagem inaugural


Jorge Trabulo Marques - Jornalista e antigo navegador solitário em pirogas de S. Tomé

É o navio mais famoso da história, afundado por um iceberg na sua primeira e única viagem através do oceano. Repousa a 3.800 metros de profundidade - Sob as coordenadas 41º 43' 35" N, 49º 56' 54" W  O naufrágio ocorreu na noite de 14 de abril de 1912, na sua viagem inaugural, entre Southampton, na Inglaterra, e Nova York – Morreram 1.517 pessoas e 706 sobreviventes, no Atlântico Norte, quatro dias após o início de sua viagem inaugural,

Náufragos do desespero!
das inumeráveis viagens inacabadas,
dos inarráveis rumos que foram traçados
e dramaticamente, riscados,
abruptamente destroçados, 
afundados no torvelinho das águas!..


Tal como vós, também um dia parti de um porto,
de um indistinto porto tracei meu rumo,
perdi-me, voguei errabundo, fui náufrago!...
Vivi todas as  sensações e emoções do mundo,
como só talvez as  viva intensamente 
quem se abra de corpo aberto
e coração fundido à pulsação
desse plangente limite,
viscoso, movediço, sorvente!
-  Na tumultuosa e erma vastidão! 


  Naufraguei!...
Vi-me ignorado  de toda a palavra,
irradiado do próprio sonho,
felizmente resisti  e sobrevivi!
Náufragos, irmãos meus!
Afinal, irmãos de todos os homens,
de todos os seres e de todas as coisas! 
Ricos ou pobres - O sufoco do mar não os distingue,
engole-os e traga-os a todos por igual.

Tal como vós, ó náufragos do Titanic,
 fiz do meu pequeno barco
não a mansão luxuosa 
mas o mesmo lar no grande mar!...
e, através das suas ondas,
rugidoras de presságios,
se não tive a  vossa sorte,
quantas vezes naveguei e aspirei,
em cada espuma,
em cada noite cerrada,
em erma bruma,
um perfume salgado de morte!...