Jorge Trabulo Marques
Só a Voz do Mar e do Vento: Contar-te longamente as perigosas coisas do mar, que meus olhos viram em 38 dias de tornados e calmarias e noites tenebrosas, sozinho numa piroga: só os náufragos, pescadores e marinheiros entendem.
Só aqueles que ondulam à flor de altas vagas as compreendem, é mais que hercúlea tarefa humana. é trazer à superfície da retina da iris, algo que depressa as lágrimas toldariam e ocultariam de raiz.
Só a Voz do Mar e do Vento: Contar-te longamente as perigosas coisas do mar, que meus olhos viram em 38 dias de tornados e calmarias e noites tenebrosas, sozinho numa piroga: só os náufragos, pescadores e marinheiros entendem.
Só aqueles que ondulam à flor de altas vagas as compreendem, é mais que hercúlea tarefa humana. é trazer à superfície da retina da iris, algo que depressa as lágrimas toldariam e ocultariam de raiz.
Agora, faltam-me as palavras mas falam as imagens e recordam passagens do meu diário gravado: 29ª dia - Passei a noite todo encharcado...Mas, por fim, até adormeci, sonhei e acordei a falar ...supondo que tinha chegado a terra...(..) eu dizia-lhe: ó mar não me leves!...Não me voltes a canoa!...(..) Vi um tubarão grande! Enorme! Às voltas da canoa (..) Agora a minha preocupação começa a estar precisamente no local onde irei aportar...Não sei...
Estou arredado de tudo!... Ninguém sabe onde estou!...
Ainda se ao menos pudesses imaginar
o caminho por onde eu ando - ó amável saudade! -
ou pudesses adivinhar o errático destino
que eu trilho e para aonde eu vou?!... – oh, acredita!..
já me sentiria muito feliz!...Mesmo que algum tornado
me fizesse desaparecer no meio do seu torvelinho!!..
– oh, testemunho querido do meu berço!-
Tenho a certeza que, nesse crucial momento,
eu não estaria tão sozinho!. Creio que os vossos olhos
estariam tão turvos de sal e do mar como os meus!...
(...)Descansa coração, angustiado!... Descansa!..
Sê paciente, acalma-te!... Não desesperes!...
Afinal não é isto o que tu procuras?
Não é isto o que tu queres?!...
Não foi esta a missão a que te impuseste?!...
- Transcende-te e ultrapassa os limites do impossível!
Não é este o teu sonho?!.. Oh, sim... aproxima
as tuas batidas com as do coração dos anjos
e, tal como eles, torna-te invisível!...
-Eu sei... Eu sei!...coração amigo!...
No fundo é o que tu desejas... e tens conseguido!...
Sim, não vês que o vínculo que há em ti
entre o passado e o presente
é o mesmo que a distância
que vai agora de ti ao futuro?
...inexistente!...
Jorge Trabulo Marques
Excerto do poema SÓ A VOZ DO MAR...
E
STES MEUS OLHOS VIRAM O QUE MUITOS HOMENS NÃO VIRAM E NÃO ENTENDEM -38 DIAS E A NOITES A FIO NUMA FRÁGIL PIROGA - Que depois de sofrer um violento tornado, me deixaria ainda mais desprovido de quase tudo.
“Contar-te longamente as perigosas
Coisas do mar, que os homens não entendem:
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpagos que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões que o mundo fendem,
Não menos é trabalho, que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro.”
(Canto V dos Lusíadas, Luís da Camões)

Navegar numa frágil canoa não é a mesma coisa que navegar num iate onde o piloto automático até pode fazer todo o trabalho.. Ali, é necessária uma atenção permanente. Podem fazer grandes travessias e enfrentar as condições mais adversas - e era isso que eu queria demonstrar e já tinha demonstrado nos 13 dias de mar à Nigéria, tal como o teriam feito os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo, embarcados do litoral em grandes pirogas e que ainda hoje se constroem na costa de África - Não em S. Tomé, porque as roças ocupavam tudo e não permitiam o abate das grandes árvores, além disso, puxar as canoas de encostas íngremes, não é tarefa fácil, enquanto o litoral africano é vasto e as possibilidades são maiores - Mesmo assim, aquele tamanho, é pouco usual nas ilhas e, quando os pescadores as utilizam, são precisos mais braços - Se é a remo e à vela, no mínimo, são necessárias duas pessoas. E até porque é muito arriscado, dormir sem mais alguém a zelar pela sua navegação - mesmo que se habitue a ter o sono dos gatos, era o meu caso.


Baleia à vista e tornado a formar-se no horizonte, depois de umas horas de podre calmaria - Aves que vagueiam pela imensidão dos mares, antevendo a tempestade, apressam-se a procurar abrigo nos destroços - E a minha piroga, sem rumo e meios para a governar, não passava de mais outro destroço.
Raramente se dorme um sono prolongado e profundo. Os sentidos estão sempre no seu alerta máximo. À mínima anomalia despertam imediatamente. Basta que um tubarão ou um grande peixe, surja lá do fundo dos abismos e roce por baixo do costado. Uma baleia se eleve do seu mergulho, a escassos metros - e isso iria acontecer-me mais tarde. Ou uma vaga faça um estrondo maior. O que é frequente. E a grossura da madeira é tão estreita - a separá-la daquele misterioso mundo das águas oceânicas - que não há som algum que não a trespasse.

Às vezes é quase de enlouquecer, quando a exaustão nos domina, se se quer dormir um pouco e se estende o corpo sobre o fundo e o marulhar das pancadas - o bác bác das vagas - é quase ensurdecedor e é constante. Nada passa despercebido nesse estreitíssimo espaço. Até o ruído de uma hélice, mesmo que o barco navegue para lá dos confins do horizonte. E então se houver calmaria e o silêncio for absoluto ou quando o trovão troando nas distâncias, ribomba e se faz repercutir, mal os relâmpagos incendeiam o negrume?!... Oh Deus! Maior é a sensação de abandono!... É um sentimento de solidão inexplicável.. São eternidades de uma enorme angústia ou vazio, horas e horas a fio de vigília, é a noite perdida!... Não há palavras para traduzirem tanta incerteza e tanta ansiedade!...
Não se deve perder a calma - e só a perde quem não tiver o mínimo de experiência do mar. Mesmo assim, os elementos em fúria, o mar - quando turvado - mete um temível respeito e, nem o mais afoito, deixa de ficar inquieto ou recear o pior. A minha tarefa era pois hercúlea, tal como já haviam sido os 13 dias solitários de S. Tomé à Nigéria. Porém, esta canoa não era tão boa como a outra (estava desequilibrada, só a pude experimentar, quando me fiz à aventura) e o tempo iria trair-me. Mal se pôs o sol - o crepúsculo no equador é muito curto - a noite avançou rápida, espessa e tempestuosa - E tudo se complicaria, a partir daí.
Raro era o dia ou rara a noite que não trouxesse a ameaça de um tornado - Sim, um violento tornado, logo na primeira noite, deixar-me-ia sem remos, desprovido da maioria dos apetrechos e quase sem víveres.

- Na imagem ao lado, o meu baú e o remo improvisado, com um pau e alguns pedaços arrancados à pequena cobertura dos bordos
Ia a velejar a todo o pano pela noite negra adentro, seguindo a força da corrente e impelido pelo vento dominante - vento de popa. E eu devia tê-lo enrolado um bocado ou substituído por uma vela mais pequena - risar a vela e não o fiz. Não tive esse elementar cuidado. Nem sequer olhava para a bússola, fixara uma estrela. E quase nem queria saber da tempestade que se aproximava do sul - à minha retaguarda. Os meus olhos fixavam-se a Norte - pelo menos enquanto o céu não ficou completamente toldado. Os relâmpagos deram-me o primeiro sinal mas eu não fiz caso. Só pensava em navegar....
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